31.12.06

2007, 2007... EU SEI LÁ...

No fim do ano passado desejei que 2006 fosse ao menos tão “pouco mau” como 2005.
Já não seria mau. Afinal, em 2005 ainda fui até Kitamoto.
Mas o meu ano de 2006 foi muito pior do que o ano que o antecedeu. De longe.

Nota. A neura previamente localizada neste espaço foi dissolvida pelo autor.

A todos, um ano 2007 de keiko melhor que o meu de 2006... também não deve ser difícil.

Abayo.

28.12.06

CONSULTÓRIO KENDIMENTAL 2

Caro Senhor:

Preciso da sua ajuda.
As pregas do meu hakama não ficam no devido lugar a cada vez que o lavo.

Como sou maníaco compulsivo, não só em termos de limpeza, mas também de arrumação e de ordem, é uma carga de trabalhos. Lavo o hakama na máquina três vezes por semana e as pregas quando ele seca, como já lhe disse, nunca ficam no devido lugar.

Aí, tenho um trabalhão enorme a passá-lo a ferro. E as pregas lá vão ao lugar; mas se fôr treinar nesse dia, eu tenho de o lavar quando volto do treino e assim as pregas deixam de estar no seu devido lugar.

Compreende o meu problema?

Kendoka Kompulsivo


Caro Kompulsivo:

O máximo que lhe posso dizer é explicar-lhe como faço para lavar e secar os meus hakamas (atenção ao plural) e como mantenho as pregas, o que, no meu caso, é tudo a mesma coisa.

A primeira coisa que tem de fazer é comprar um segundo hakama, tendo em conta o seu “problema”, parece-me o mais aconselhável.

Depois, NÃO LAVE O HAKAMA NA MÁQUINA DE LAVAR.

Faça uma “barrela” à maneira antiga.
Deite uma mão-cheia de detergente para dentro de um alguidar, encha de água morna e mergulhe o dito cujo lá dentro, agitando-o vigorosamente.
Deixe de molho e, se fôr dia de treino, pegue no 2º hakama e vá treinar sossegado.

Depois de lavado PENDURE-O PRESO PELA PARTE SUPERIOR E DEIXE QUE O PESO DA ÁGUA O ESTIQUE.

Verá que, sobretudo se fôr feito com “bom acrílico” como os meus, as pregas se mantêm no devido lugar.
Quando secar, NÃO O PASSE A FERRO, dobre-o apenas correctamente, respeitando as pregas originais.

E por falar em pregas e dobras, eis aqui um esquema traduzido pelo sensei R. Stroud* da All United States Kendo Federation, e da autoria de Tasuke Honda sensei, nanadan, acerca do significado das diferentes pregas do hakama (e, curiosamente, dos nódulos no bambú do shinai).



Tenho quase a certeza que um maníaco da ordem e da arrumação como você vai adorar saber, quiçá decorar, os significados de todas e cada uma das ditas pregas e nódulos do shinai.

Fui.

*E depois, traduzido por mim.

21.12.06

ECOS DE NATAL

Impõe-se por esta altura, por muito que não se seja fã da época natalícia, a habitual saudação que faz eco do espírito da estação.
Por isso, e só por isso:

FELIZ NATAL... E TAL E TAL E TAL E TAL

Pronto, este já está despachado.

15.12.06

OURO OLÍMPICO, OUTRA VEZ? NÃO, OBRIGADO

Ui, qué miedo... ya san los coreanitos electronicos?
Foto legalmente roubada em:
http://www.simulacre.org/wordpress/photos/album/72157594418471719/

Facto 1 - Os kendokas do mundo inteiro sabem (ou deviam saber) que a Federação Internacional de Kendo (FIK) foi aceite como membro de pleno direito do GAISF*;

Facto 2 - Sabem (ou deviam saber) que depois de ter sido aceite pelo GAISF a FIK é a única organização mundial que se pode denominar representante dos praticantes do “desporto” apelidado “kendo”;

Facto 3 - Assim sendo (Facto 2), nenhuma outra organização mundial pode usar o nome “kendo” com a intenção de o transformar num “desporto olímpico”;

Facto 4 - A FIK é contra o “kendo olímpico”, e no entanto...

No entanto... basta a equipa coreana ganhar a final de equipas no campeonato do mundo para, um pouco por toda a parte, nos forúns dedicados ao kendo, o fantasma do “kendo olímpico” fazer a sua reaparição... em força.

Pouco ou nada importa que os representantes da Coreia façam, obviamente, parte da Korean Kumdo Association (KKA) que, por sua vez, obviamente, faz parte da FIK, que (ver Facto 4) é contra o denominado kendo olímpico.

Pouco importa que a World Kumdo Association (WKA), favorável ao dito cujo “kendo olímpico”, não tenha grande peso na balança do kendo coreano, tal como pouco importa que a KKA seja a legítima representante da grande maioria dos kendokas naquele país.

Nada disso importa.
Começa-se por se falar da arbitragem durante o último mundial, timidamente, compara-se com a arbitragem da esgrima olímpica, antes e depois de ser introduzida a pontuação electrónica, e três post depois, está tudo “histérico”, a discutir o que acontecerá quando esta for introduzida na competição de kendo.
Daí em diante, como diz o outro, só há dragões.

Claro que tudo não passa, antes de mais nada, de um reflexo racista e primário, a meu ver bastante condenável, e que pode ser resumido mais ou menos assim:

“Os coreanos” ganharam e como “os coreanos” é que "inventaram" o kendo olímpico, logo, “os coreanos” vão implementar, ou tentar implementar, o dito cujo.

É um pouco como dizem “os brasileiros”, que “os portugueses” chamam-se todos ou Joaquim ou Manuel.

Assim, também “os coreanos” são todos a favor do kendo olímpico.

Tivesse sido o Japão a ganhar ou, por falar nisso, qualquer outra equipa, que não “os coreanos”, e pouco ou nada se falaria do assunto.

A discussão sobre a arbitragem poderia levar à pontuação electrónica da esgrima ocidental, mas o assunto, muito provavelmente, morreria por aí, visto que “os japoneses”, ou “os outros”, tinham ganho e como “os japoneses e os outros” são contra o kendo olímpico a discussão acabava cedo.
Mas não... foram “os coreanos” que ganharam. Enfim, se não os podes vencer, junta-te a eles.

Eu já encomendei um kendogu electrónico e vocês?


*Se houver paciência, ver, a este propósito, os 3 artigos “Kendo e Jogos Olímpicos” em:
http://usagikendo.blogspot.com/2006_04_01_usagikendo_archive.html

AULAS DE NAGINATA EM LISBOA



Consta por aí
... que uma naginataka belga, sandan de graduação, vai começar a dar aulas de Naginata, às 2ªs e 6ªs a partir das 18 horas, no ginásio da Escola Secundária Patrício Prazeres em Lisboa.

Diz-se que, a acontecer, seria a primeira vez que alguém o faria no nosso país, pelo menos de um modo regular.

Isto é o que consta... é o que se diz por aí.

13.12.06

13WKC VIDEOS: COREIA X EUA

Aqui, os cinco combates da final Coreia x Estados Unidos:

Senpo
Sandy Maruyama (USA 4) Young Dae Kim (COR 6)
http://www.youtube.com/watch?v=oP-puSpBETc

Jiho
Danny Yang (USA 2) Wan Soo Kim (COR 5)
http://www.youtube.com/watch?v=tZYSCTCqI8A

Chuken
Cris Yang (USA 1) Kang-Ho Lee (COR 5)
http://www.youtube.com/watch?v=CG91pnx5kTs

Fukusho
Fumihide Itokazu (USA 3) Sang Hoon Kang (COR 7)
http://www.youtube.com/watch?v=w2rZSk9oNwo

Taisho
Marvin Kawabata (USA 5) Jung Kook Kim (COR 1)
http://www.youtube.com/watch?v=CtnjmKhz970

13WKC VIDEOS: JAPÃO X EUA

Os cinco combates da meia-final Japão x Estados Unidos:

Senpo
Ryuichi Uchimura (JPN 1) Sandy Maruyama (USA 4)
http://www.youtube.com/watch?v=GvRazdBgIaQ

Jiho
Susumu Takanabe (JPN 4) vs Daniel Yang (USA 2)
http://www.youtube.com/watch?v=lZABMQc-fGI

Chuken
Shoji Teramoto (JPN 6) vs Fumihide Itokazu (USA 3)
http://www.youtube.com/watch?v=0Wggem42PIc

Fukusho
Jun Nakada (JPN 7) vs Christopher Yang (USA 1)
http://www.youtube.com/watch?v=fEro3z8Xa2w

Taisho
Koichi Seike (JPN 3) vs Marvin Kawabata (USA 5)
http://www.youtube.com/watch?v=Zu06p0Or1P0

RON BEAUBIEN

One Chance in the Blink of an Eye
Todos os anos a Federação Japonesa de Kendo (ZNKR) organiza um concurso de fotografia subordinado ao tema... kendo, claro. Este ano a fotografia vencedora, intitulada “One Chance in the Blink of an Eye“ é da autoria de Ron Beaubien.

Ron Beaubien vive em Tóquio desde 1992 e practica Toda-ha Buko-ryu Naginatajutsu e Tatsumi-ryu Hyoho. É membro da Nihon Kobudo Shinkokai e da Nihon Kobudo Kyokai participa regularmente em demonstrações de artes martiais clássicas (Nihon Kobudo) por todo o Japão.

O seu trabalho fotográfico aparece em livros como Keiko Shokon, Sword & Spirit e Filipino Fighting Arts, entre outros, e nas revistas Kendo World, Martial Arts Illustrated e Furyu: The Budo Journal.
Neste momento, Ron trabalha num projecto pessoal documentando as artes martiais clássicas no Japão.

Ron ensina inglês e trabalha também como tradutor para a associação Nippon Budokan de Tóquio.

No seu site, em www.ronbeaubien.com, podem encontrar alguns dos seus trabalhos.

11.12.06

13TH WORLD KENDO CHAMPIONSHIPS (ÚLTIMO)

RESULTADOS DO QUARTO DIA: EXAMES DE GRADUAÇÃO

Era só o que faltava saber.

Como é que os nossos "meninos" se portaram nos exames, depois de não terem sido bafejados pela sorte durante o torneio propriamente dito?

Pois é caso para dizer que tiraram a barriga da miséria. Dos três propostos a exame... todos três sairam triunfantes. 100% de sucesso.
Já temos um 4º dan, o Sérgio; temos um novo Nidan, o Henrique e um novo shodan, o Luis, mais conhecido como : "O Sousa".
Aos três, da minha parte, um grande PARABÉNS.

DESCONTOS ESPECIAIS PARA SHIMPAN(S) DE TAIWAN

Algumas imagens do campeonato do mundo, nomeadamente um combatente japonês, em jodan, a ser prejudicado num combate de equipas contra os USA.

Vejam (na repetição em cãmara lenta) como os árbitros marcam um men do americano que não existe... e não marcam um kote do japonês na mesma acção.

O segundo, o kote do americano, é limpinho, sim senhor, mas o primeiro... só tenho uma coisa a dizer: uma promoção "Multiópticas" para shimpan seria um sucesso.

http://www.youtube.com/watch?v=-nCquKiw3DY

10.12.06

13TH WORLD KENDO CHAMPIONSHIPS

RESULTADOS DO TERCEIRO DIA DE PROVA

E, ao terceiro dia, o milagre aconteceu.

Pela primeira vez na história dos campeonatos do mundo surge um vencedor não-japonês.

O feito histórico coube à selecção da Coreia que venceu na final a sua congénere... hã... ??? americana???
Wow, que volta meus amigos. Os americanos ficaram em segundo?... Bem bem bem bem... que coisa estranha.

Enfim, para a história, o resultado da competição masculina por equipas foi o seguinte:

1º Lugar - Coreia;
2º Lugar - USA;
3º Lugar - Japão e Taipé.

A minha alma está parva.

9.12.06

13TH WORLD KENDO CHAMPIONSHIPS

RESULTADOS DO SEGUNDO DIA DE PROVA

Bom, pode-se dizer que pelo menos o Paulo Martins já tem mais alguma coisa nova a juntar aoseu curriculum. Combateu em competição contra um campeão do mundo.

Na verdade, o japonês M. Hojo sagrou-se o novo campeão do mundo individual. Pode-se dizer que, até agora, estes campeonatos (pelo menos em termos de resultados) não trouxeram grande coisa de novo.

Resultados do torneio individual masculino:

1º Lugar - M. Hojo (Japão)
2º Lugar - T. Tanaka (Japão)
3º Lugar - S. Kang (Coreia) e G. Ho (Coreia)

Amanhâ é o dia do grande embate do costume. Se as coisas correrem como habitualmente, o Japão e a Coreia defrontar-se-ão ao fim do dia, para decidir mais uma vez quem é o melhor na competição de equipas.

8.12.06

O KENDOKA PORTUGUÊS MAIS GRADUADO DO MUNDO?

Manuel Alves, o segundo a contar da direita, na fila de baixo, kendo godan.

Que se saiba, o Sr Manuel Alves é o kendoka português mais graduado que existe e fez-nos uma visita um dia destes. Treina em Avignon na França e é 5º dan. Apesar de eu estar presente na foto, não tive o prazer de poder fazer keiko com ele (chuif).
Nessa altura a minha tendinite estava a dar-lhe forte e feio, por isso, o meu keiko resumia-se a mitori-keiko.
Falei com ele 2 minutos e fiquei muito feliz por saber que ele, de vez em quando, visita este modesto blog.
Caro sensei Manuel volte sempre, ao blog e ao nosso dojo.
PS.: A foto que ilustra este post foi gentilmente roubada do site da Charlotte.

13TH WORLD KENDO CHAMPIONSHIPS

RESULTADOS DO PRIMEIRO DIA DE PROVA

Na competição individual feminina, é caso para dizer que o Japão não podia arrasar mais do que arrasou. As quatro participantes japonesas classificaram-se nos quatro lugares do topo:

1º lugar - Sugimoto;
2º lugar - Komuro;
3º lugar - Inagaki e Shimokawa.

Nas equipas, mais do mesmo.
O Japão ficou em 1º lugar, Coreia em 2º e o Canadá dividiu o 3º com... aqui a grande surpresa destes campeonatos... a Alemanha.

Mais notícias à medida que elas vão surgindo.

7.12.06

CAMPEONATO NACIONAL (2)

Esta é uma das fotos que a nossa naginataka (naginateira, naginatadora?) residente, enfim, a Charlotte Vandersleyen, tirou durante o último campeonato no pavilhão do Casal Vistoso.

O Paulo Martins já me tinha dado o link mas por um motivo qualquer não funcionou, pelo menos comigo. Ou seria quando o meu computador estava out?...

Enfim, aqui está, em grande destaque, o dito cujo:
http://mediaplan.ovh.net/~widescre/naginata/site/pictures/kendochamp/

4.12.06

MAAI, HYOSHI E YOMI (3 e último)

YOMI

Até agora falámos de dois de três conceitos essenciais para compreendermos melhor a essência do combate no budo: maai e hyoshi.

O conceito final, Yomi, é uma forma de conjugação do verbo “yomu” que significa basicamente ler, embora também possa por vezes ser traduzido como decifrar. Só isso.

Podemos então tentar resumir as funções dos diferentes componentes do combate:
Controlar o Maai, é gerir, por assim dizer, o intervalo espacio-temporal entre nós e aquele que a nós se opõe.
Hyoshi, tem a ver com o uso correcto da(s) arma(s) à nossa disposição e das nossas capacidades técnicas, bem como do conhecimento que se tem do próprio corpo e das suas possibilidades, de forma a poder suplantar o adversário.
Aplicado à prática do budo, Yomi significa ler gestos, intenções e pensamentos do oponente; decifrar as suas acções, movimentações e ataques.
E apesar de, por vezes, poder parecer uma componente menor, Yomi é a chave do sucesso num combate de kendo.

Eu explico. Normalmente as possibilidades de desenvolvimento de um combate são explicadas por três conceitos conhecidos no seu conjunto como mittsu-no-sen (os três sen):
Go-no-sen, sen-no-sen e sensen-no-sen.

Go-no-sen (também chamado sengo-no-sen ou tai-no-sen) consiste em, depois do ataque do adversário, bloquear e contra-atacar.
Sen-no-sen (ou senzen-no-sen) existe quando, face a um ataque do adversário, se consegue antecipar o seu movimento e desferir com sucesso um ataque (reparem que não digo contra-ataque) antes que o seu gesto técnico seja completado*.
Sensen-no-sen (por vezes referido como kakari-no-sen) é normalmente explicado como o reconhecer da intenção de ataque do opositor, o que origina um ataque vitorioso antes mesmo dele iniciar o seu.

Ora tudo isto seria muito lindo e muito simples não fosse o caso de nos ensinarem que durante um combate todos os movimentos de ataque devem ser resultado de um trabalho de criação de suki. Ou seja, que antes de se atacar deve-se sempre “criar” a oportunidade, o vazio que se vai preencher com um ataque vitorioso. Quer através de fintas “físicas”, quer através da aplicação de pressão psicológica sobre o adversário (seme).

Onde eu quero chegar com isto tudo é ao facto de não se poder, como muito boa gente faz, encarar cada um dos componentes do mitssu-no-sen como compartimentos estanques, quer temporal quer espacialmente.

Há tempos, nas palavras que habitualmente dirige aos seus alunos após o treino, o sensei Osaka mencionou um conceito conhecido como Tame. Tame é, grosso modo, a capacidade de encontrar e reconhecer o “ponto de não-retorno”, chamemos-lhe assim, durante um combate.
Aquele momento em que a pressão exercida pelos adversários é tal que já não há maneira de voltar atrás.
Tame é um momento onde, mais do que a distãncia e do que a técnica, é a leitura do adversário que vai ser fundamental para o sucesso.

Voltando agora a Yomi não me parece muito díficil perceber que a definição de “leitura do adversário” ganhe um peso e uma importância que à partida, possivelmente, não teria.
Na verdade, não será exagero dizer que tudo num combate de kendo, sobretudo se os adversários forem tecnicamente equivalentes, está dependente da leitura que se faz da atitude do opositor.

E se isso é evidente em sen-no-sen e sensen-no-sen, mesmo no caso de go-no-sen as possibilidades de sucesso são infinitamente mais elevadas se, ao invés de simplesmente esperar o ataque do adversário para depois contra-atacar, perante uma situação de tame, lhe “oferecer” um suki falso, um engodo, uma abertura falsa na nossa guarda. Aquilo que aos olhos do opositor se apresenta como uma falha nossa é, na verdade, uma falha dele. Uma falha que vai significar a sua “morte”.

É caso para dizer que é uma maneira de ler as coisas.



*Não deixa de ser interessante mencionar que, no seu livro “Kendo”, Takano Sasaburo (1862-1950), um dos maiores teóricos do kendo moderno, se refere a sen-no-sen apenas como sen. Estão a ver a coisa?...

3.12.06

MAAI, HYOSHI E YOMI (2)

HYOSHI (ou Hyô-shi)

O Dicionário Japonês-Inglês de Kendo define assim o conceito de hyoshi: “Ritmo e fluidez de movimentos da espada ou do corpo; referente à respiração em sintonia com o adversário; intercâmbio de sensações entre o próprio e o opositor”.

Tendo em conta, e colocando em contexto, a sua inseparável ligação com o conceito de maai, será justo dizer que a correlação maai-hyoshi define-se como uma sequência de intervalos espacio-temporais produzidos pela actividade existente entre dois opositores e visível graças à cadência própria de cada um deles, a qual, por sua vez, está intimamente ligada à (dependente da?) respiração e condição física dos mesmos.

Parece-me que uma boa forma de tentar simplificar esta “complicação” toda é reflectir por uns instantes sobre a forma como, por exemplo, a idade (e a “disponibilidade física” que ela proporciona) interfere na relação entre dois combatentes.

Os números apontam para a seguinte teoria: quanto mais pequena é a distãncia de combate, maior é a vantagem dos combatentes mais jovens e portanto mais fortes e mais rápidos. Ou seja, quanto menor fôr maai mais hyoshi necessita de energia.

À medida que a distância aumenta, a necessidade de força e rapidez diminui.

As estatísiticas nos anos sessenta e princípios dos setenta, mostravam claramente que, em actividades como o Judo, onde o maai é mínimo, as carreiras dos campeões, EM GERAL, terminavam antes dos 30 anos. À medida que o maai se tornava maior, as idades também acompanhavam a tendência. No Sumo, os campeões duravam até entre os 30 e os 35 anos; no Kendo, os grandes reinavam até por volta dos 40 (Yamazaki foi campeão do Japão em 1969 com a bonita idade de 45 anos); já na Naguinata encontravam-se campeãs com idades bem para lá dos quarentas.

E se hyoshi está intimamente ligado à respiração e à condição física, yomi, pelo seu lado, está estreitamente relacionado com a experiência.

Quando a estas duas noções, maai e hyoshi, juntarmos a terceira, yomi, iremos inevitavelmente encontrar-nos frente-a-frente com um outro conceito denominado: sen.

Mas isso é conversa para o próximo post.

Abayo.

2.12.06

MAAI, HYOSHI E YOMI (1)

MAAI (ou Ma-ai)

A noção de maai é frequentemente traduzida pelos praticantes de artes marciais japonesas como distância.
Mas o facto é que a palavra maai é composta por duas outras palavras. E se a segunda, o verbo “ai”, se aplica para definir o encontro entre duas ou mais pessoas (ou objectos), já a primeira, “ma”, exprime não apenas distância, ou seja, um intervalo espacial entre sujeitos, mas também um intervalo temporal (podendo até ser utilizada para definir um momento de mudança de ritmo, por exemplo, numa música).

Ora bom, sendo assim e segundo este prisma, maai seria definido através de uma expressão semelhante a: “maai é o intervalo de espaço e de tempo, mas também o movimento de aproximação e/ou afastamento, existente entre dois opositores”.

Para entender melhor a importãncia de maai na prática diária, basta pensar em certo tipo adversários que aparecem de tempos a tempos e com os quais nenhuma técnica parece funcionar seja a que distância fôr.

De facto, o que se passa é que somos muitas vezes levados a pensar que, uma vez atingida a “distância” denominada como issoku-itto no ma (fig. 1), nos encontramos numa situação, tal como a expressão se auto-define de “um passo de distãncia” do adversário. E se eu estou a um passo de distãncia, nada mais natural que ele, o meu adversário, também esteja.



Fig. 1

Por outras palavras, estamos numa situação de “igualdade”, certo? Errado! Nada mais errado.

Issoku-itto no ma (aliás, tal e qual como chika-ma ou to-ma) deve ser uma distãncia subjectiva e individual. A denominação clássica tem muito mais a ver com a posição dos shinais do que com a efectividade técnica ou facilidade de execução que daí possa resultar.

Issoku-itto no ma, tal como nos é ensinada no kendo, é uma referência, mais que isso, diria que é uma convenção.

Não se “deixem levar” pela definição que remete para a posição das pontas cruzadas dos shinais. Esqueçam por uns instantes a imagem acima e imaginem um kendoka de um metro e noventa e oito de altura, enfrentando um outro com um metro e cinquenta e cinco.
É fácil perceber que “um passo de distância”, e mesmo com as pontas dos shinais na sua posição convencional, possa ser uma expressão que, nessa situação, resuma realidades extremamente diferentes para essas duas pessoas.

A ideia de maai está estreitamente ligada, diria até que é inútil, sem a compreensão dos conceitos de hyoshi e de yomi.


Por isso mesmo, no próximo post vamos falar de hyoshi que, em linguagem de kendo, remete para o ritmo e a movimentação, tanto do shinai como do corpo.


Abayo.