22.4.05
DAI-NIPPON-BUTOKU-KAÎ: A INSTITUCIONALIZAÇÃO DO KENDO (I)
Em 1895 é constituido o "Dai-Nippon-Butoku-kaî" (Associação da Virtude das Artes Marciais do Japão Imperial), habitualmente chamado "Butoku-kaî".
Esse grupo tem por objectivo assegurar a continuidade das artes marciais tradicionais japonesas e desenvolvê-las .é preciso sublinhar que o Japão acabara de conseguir uma vitória decisiva contra a China, em 1894. o Butoku-kaî foi constituído num ambiente de ascenção nacional(ista) no qual os japoneses tomaram consciência da sua força militar. Um quarto de século antes tinham sido obrigados a põr em causa a estrutura do país perante a ameaça das forças militares dos Estados Unidos e das potências europeias. A consciência de uma crise e uma espécie de complexo de inferioridade face aos ocidentais serviram como pano de fundo das transformações sociais. Foi nessa situação de crise da tradição que a prática das artes marciais se viu menosprezada, e numa dada altura, quase que abandonada. Mas, nessa altura, os japoneses estudaram na Europa as técnicas militares e o seu exército obteve uma tal força que conseguiu vencer a grande China, a qual por seu lado, tinha alimentado culturalmente o Japão desde a antiguidade.
Dez anos depois, o Japão vai-se envolver numa guerra contra a Rússia, o que galvaniza a energia colectiva do povo de uma maneira surpreendente.
20.4.05
O SEGUNDO RECONTRO DOS RIVAIS
Durante um ano, T. Naîto encontra-se na mesma situação que S. Takano, na prefeitura de polícia de Tóquio. Mas não é fácil aos dois rivais encontrarem-se no decurso dos treinos. Cada um dos combates entre os professores era concebido como um duelo, portanto eles não combatiam de um modo ligeiro entre eles, mesmo que, dentro de cada dojo, tivessem por hábito combater com as pessoas mais diversas.
Em Julho de 1888 Yamaoka Tesshu morre e, no mês de Agosto, Sazaburo Takano decide sair da polícia onde tinha entrado segundo recomendação do seu mestre Yamaoka. Regressa a Chichibu onde tinha deixado a sua mulher e o filho nascido um ano antes. No mês de Outubro entra na polícia departamental de Saitama como mestre de kenjutsu e, por essa altura, manda construir em Urawa um dojo e uma casa onde se instala com a sua família. Esse dojo, chamado " Urawa Meishin-kan", situa-se mesmo em frente da Escola Normal de Urawa, e por isso, um número considerável de estudantes tornam-se seus alunos.
Em 1889 um torneio é organizado pela prefeitura de polícia e S. Takano participa, representando o dojo da esquadra de Urawa. É nesse torneio que ele reencontra o seu rival T. Naîto. O combate entre os dois rivais suscita o interesse dos adeptos da polícia; eis aqui o relato segundo o "Kendo sengoku shi" (Proezas dos adeptos de kendo), de Kôji Hara, Tóquio 1977 :
“O grande dia chegou finalmente. Os dois peritos avançam calamamente para o centro do shiai-jo. O árbitro principal é Kanshiro. Os dois adversários assumem a guarda em seïgan. Takano avança lentamente sustendo um pouco a respiração. Dois anos se passaram desde que perdeu contra Naîto.
“Yaa!!” grita Naîto, enquanto que Takano avança sem soltar qualquer kiai... Naîto continua a rodopiar ligeiramente a ponta do seu shinai.
“Tôo!!” Takano ataca violentamente. Naîto apara o shinai adversário e fazendo-o girar com o seu, atinge o kote de Takano. O árbitro anuncia : “Insuficiente.”
De seguida, Naîto lança imediatamente um ataque á cabeça de Takano. É então que este, baixando ligeiramente o corpo, desfere um golpe violento no flanco direito de Naîto (do). Men nuki do.
“Sorémadé!!” (Parem o combate, pois o assunto é claro.), grita o árbitro.
Naîto retira-se saudando Takano, que murmura para si mesmo: “Ganhei.”
19.4.05
T. NAÎTO ENTRA PARA A POLÍCIA
“Mestre Ozawa treinou-me outrora, sinto uma certa simpatia por si, por ser seu aluno. Não quer aprofundar o seu kenjutsu na prefeitura de polícia?”
T. Naîto não estava pronto para dar uma resposta imediata a essa proposta. Pergunta-lhe apenas: “Gostaria de receber uma lição sua.”
“Muito bem, eu recebi lições do seu mestre na juventude. Dou-lhe uma lição de boa vontade, visto que você é aluno dele.”
Os dois adeptos da mesma escola colocam-se frente a frente.
Shimoé assume guarda em seigan, T. Naîto audaciosamente coloca-se em guarda hasso, o que surpreende todos os que assistem. Shimoé solta um kiai ameaçando um ataque tsuki, depois deixa aperceber um vazio (suki) no seu kote (pulso). Naîto avança com uma negligência aparente. S. Takano observa-os com o olhar petrificado. Nesse momento, Shimoé lança o seu katate-zuki à garganta de Naîto, enquanto que ele lhe atinge o seu flanco esquerdo (gyaku-do). Os dois ruídos ecoam simultaneamente no ar do dojo. Para os espectadores o combate parece um toque simultâneo (aîuchi), mas Y. Kajiwara anuncia em voz alta. “Sorémadé!” (parem o combate, pois o assunto é claro.)
Os espectadores perguntam-se: “Quem ganhou?”
Então Naîto retira a máscara de protecção e diz, baixando profundamente a cabeça: “Agradeço-lhe a sua lição.”
É assim que os outros compreendem que foi Shimoé quem ganhou. Este combate marcou fortemente S. Takano e a reputação de Naîto aumenta ainda mais dentro da prefeitura. Pouco depois, Takaharu Naîto entra para a polícia como mestre de kenjutsu, recomendado por Shutato Shimoé.
CAMPEONATO DA EUROPA DE 2007 VAI SER ONDE?
Segundo fontes geralmente bem informadas, próximas da Direcção da APK, os próximos campeonatos da Europa de kendo deverão ter lugar em 2007 em solo português.
"Apenas" em 2007 porque, sendo 2006 ano de campeonato do mundo, nesse ano o campeonato referente ao nosso continente não se realiza.
Pode ser giro, pode ser muito giro.
Uma grande responsabilidade é de certeza. De resto, pode ser giro.
COMO T. NAÎTO ENTRA NA PREFEITURA DE POLÍCIA
Depois da sua derrota contra Naîto, S. Takano aumentou a severidade do seu treino. Ao vê-lo treinar, S. Shimoé comentou: “Takano parece mudado nos últimos dias.” Shimoé, muito mais velho que Takano, era considerado como um dos mestres supremos da prefeitura de polícia. Depois do treino S. Takano diz-lhe:
“Perdi contra um adepto da escola Hokushin-Itto-ryu."
Os olhos de Shimoé brilham , pois ele também é adepto dessa escola.
“Como se chama ele?”
“Chama-se Takaharu Naîto, originário de Mito.”
”Se ele é da escola Hokushin-Itto-ryu, de Mito, trata-se certamente de um aluno do mestre Torakichi Ozawa. É estimulante para mim saber que semelhante pessoa provém dessa escola.”
A ESCOLA HOKUSHIN-ITTO-RYU DO MESTRE OZAWA
É assim que S. Shimoé se interessa por T. Naîto. Mas não foi apenas porque eram da mesma escola. Adolescente, quando era aluno do dojo principal da escola Hokushin-Itto-ryu em Edo, um adepto da mesma escola chegou vindo de Mito, treinou com ele e foi completamente derrotado. Esse adepto chamava-se Torakichi Ozawa. Shimoé pensou que um jovem praticante vindo de Mito deveria ser seu aluno. E não se enganou. Assim, ao ouvir falar das proezas desse jovem perito, originário da sua escola, sentiu imediatamente uma certa simpatia. E pensou que seria bom fazer entrar na prefeitura de polícia um outro perito, originário como ele da escola Hokushin-Itto-ryu.
Seguindo as informações relativas a esse jovem perito chamado Naîto, Shimoé pensou, ao refazer o seu itinerário que ele deveria ir proximamente ao dojo de Fakagawa. Na manhã seguinte deslocou-se até ao dojo da esquadra de Fukagawa. Depois de ter treinado com os polícias locais disse-lhes: “Se um adepto chamado Naîto, aparecer por aqui, previnam-me imediatamente. Se já for tarde, peçam-lhe gentilmente para me ir ver ao dojo central da prefeitura.”
Com efeito, pouco tempo depois Naîto passou pelo dojo de Fukagawa e bate Sakabé, o mestre principal da esquadra, com um tsuki espectacular. A mensagem de Shimoé é transmitida a Naîto antes que lele saia do dojo.
Naîto tinha ouvido falar de Shimoé pelo seu mestre T. Ozawa e pensa: “Trata-se de um mestre de alto nível. Que pode ele querer de mim? Em todo o caso o encontro não pode ser senão interessante.”
18.4.05
UM PERITO EXCEPCIONAL, SHUTARO SHIMOÉ
Afinal, quem era Shutaro Shimoé, o perito que recomendou Takaharu Naîto para a polícia de Tóquio? Basta ler. Aqui, ou em http://www.tokitsu.com.
Shutaro Shimoé nasce em 1848, numa família de mestres da espada. Aos 11 anos entra no dojo de Eîjiro Chiba e, aos 19, torna-se chefe dos discípulos (juku tô) do dojo Genbukan, o dojo central da escola Hokushin-itto-ryu. Tornar-se chefe dos discípulos do Gembukan com a idade de 19 anos é prova de um talento excepcional. S. Shimoé foi um dos grandes peritos da época Meiji. Mas ele considerava a sua arte da espada como uma coisa pessoal e treinava, no dojo, mas para si mesmo, sem se preocupar em formar alunos. As suas capacidades eram reconhecidas e respeitadas por todos os mestres da polícia. Entrar na prefeitura de polícia com uma recomendação de Shimoé equivalia a ter a melhor menção possível no diploma.
A propósito de S. Shimoé, escutemos Shigéyoshi Takano (1876-1956), filho adoptivo de Sazaburo Takano: “Nessa época o mestre Shimoé já tinha mais de 60 anos... na manhã da minha chegada ao seu dojo, recebi a primeira lição. O mestre era grande e media perto de um metro e oitenta. Num canto do dojo estava colocado um tapete molhado. O mestre humedeu os pés ligeiramente antes de começar o treino.
Diz com uma voz baixa: “Vou-lhe acertar um pequeno tsuki, está bem?” e acerta-me um tsuki dizendo “atingido com um pequeno tsuki.”
Mas não foi nenhum “pequeno tsuki”. Esse “pequeno” era tão terrível que quando se recebia um desses “pequenos tsuki” não se conseguir nem engolir saliva durante dois ou três dias. O tsuki só com uma mão (katate-zuki), sobretudo, era a grande especialidade do mestre e ele não amortecia a técnica de forma nenhuma. Depois de me ter dado a sua especialidade, foi de novo humedecer os pés no tapete, ao canto do dojo e voltou para mais uma lição.
E previne-me: ”Desta vez vou atacá-lo a partir da guarda jodan da escola Yagyu-ryu." Trata-se de um ataque ao kote (pulso) a partir da guarda alta. O ataque é muito lento e consigo vê-lo bem. Mas recebo na mesma um golpe fulgurante. Era como se o seu shinai se viesse colar ao meu kote como um vampiro. Sinto uma dor percutante e o mestre então diz: “Acabou de perder o pulso.” Depois, foi de novo molhar os pés. Quando lanço o meu ataque à cabeça (men) na esperança de acertar ao menos uma vez, ele ataca o meu do (flanco) em “nukidô” dizendo: “Eu fico em vantagem, assim.” Então sinto, por debaixo da armadura, feita de bambú e de couro, uma dor que me atravessa o flanco como uma lâmina. As suas mãos eram de tal forma hábeis e precisas (té no uchi) que um golpe aparentemente negligente ganhava uma eficácia terrível.
Depois vai, mais uma vez, molhar os pés. Eu não consigo fazer nada. O meu shinai não toca o seu corpo uma única vez... o mestre Kadona, perito de grande reputação em Quioto, dizia também ele: Nunca consegui tocar o corpo do mestre Shimoé com o meu shinai...”
Mestre Shimoé entendia que a sua arte era apenas para si e nunca tentou formar alunos. Mas as suas capacidades eram únicas...”
17.4.05
AS PROEZAS DE T. NAÎTO
Depois vá até http://www.tokitsu.com. Lá também encontrará coisas boas para ler.
O combatente seguinte, J. Hiyama perde também contra Naîto. S. Kakimoto não combate, T. Kikuchi é o último. Ele é 3º kyu, o graduado mais alto entre os peritos ainda em actividade, pois aqueles que recebem a graduação de 2º kyu, são, normalmente, relativamente mais velhos. A reputação de Kikuchi já está bem estabelecida no mundo do kenjutsu. Ninguém pensa que ele pode perder contra aquele jovem adepto. Mas o destino do combate é definido num instante. Kikuchi recebe um terrível tsuki (ataque com a ponta do shinai à garganta) e é atirado ao chão. Depois de se levantar, saúda dizendo: “Maîtta!!!”
Depois saúda S. Kakimoto.
Perante isto, Takaharu Naîto baixa o seu shinai e saúda sem dizer uma palavra. Recua até à parte inferior do dojo e retira a máscara de protecção. Lança um olhar directo aos seus adversários, pousa as duas mãos no chão e baixando profundamente a cabeça diz: “Agradeço-vos.”
S. Kakimoto diz-lhe: “O seu nível é magnífico. Penso que é o resultado da sua perseverança na via.”
“Agradeço-lhe.”
Mas Kakimoto continua: “Aqueles que combateram hoje aqui contra si, estão entre os melhores de uma prefeitura de polícia que contém um grande número de peritos importantes. Você conseguiu fazer uns excelentes combates contra eles...”
“Foi um bom keiko.” diz Kikuchi.
Habitualmente traduz-se “keiko” como treino, mas o sentido do termo é mais amplo em japonês. Trata-se aqui do combate que teve lugar mas também da maneira como se desenrolou e do nível que os peritos deram provas. Para indicar que se aprecia o nível de alguém, segundo a sua maneira de agir no dojo, diz-se que o keiko foi bom. Eis porque não é suficiente traduzir a palavra como treino. Etimologicamente, a palavra keiko significa: aprender o essencial a partir da obra dos antecessores. Assim, o mesmo é dizer que o treino não é apenas um confronto com um adversário presente, mas é também um confronto com o nível atingido pelos antecessores. Dizer que o keiko foi bom, quer dizer que o treino foi denso e a experiência enriquecedora, independentemente da vitória ou da derrota.
Alguns dias mais tarde, S. Takano recebe o telegrama habitual ordenando que se deslocasse de urgência ao dojo central da prefeitura de polícia, assim que terminasse o treino em Motomachi.
Enquanto está a vestir as protecções (já na prefeitura), chega Zenjiro Kagawa da esquadra de Shimoya. Diz-lhe: “Recebi um adepto em “musha-shugyo” esta manhã. Pensava que o ia pôr a andar e agi descuidadamente. Pois bem, fui eu que fui parar ao meio do chão.”
Z. Kagawa continua alegre apesar de ter sido vencido (consta que era uma característica sua). E continua a falar: “Há pessoas espantosas neste mundo!”
“E o mestre Eda, então?” pergunta Takano.
“Derrotado.”
“E mestre Nakamura?”
“Derrotado.”
“Mestre Kaîho, então?”
“Foi o único que acabou sem receber qualquer golpe, sempre em guarda jodan, mas também não marcou nenhum. Acho que esse homem irá brevemente ao seu dojo.”
“Chama-se de Takaharu Naîto e já lá foi. Toda a gente foi derrotada.”
“Essa agora, não é possível!” diz Z. Kagawa rebentando a rir, enquanto que S. Takano está longe de ter vontade para tal.
Cada vez que vai treinar ao dojo central da polícia, ouve falar das proezas de T. Naîto que combateu neste e naquele dojo da polícia. No início de Novembro, ouve dizer que Naîto se vai entrar para a polícia.
“Dizem que foi o mestre Shimoé que o propõs.”
Uma recomendação de Shutaro Shimoé tem um grande valor.
T. NAÎTO’S FEATS
So Naîto won against Takano, what about the other masters who were in the dojo with him, that day? What happened? Check it out.
Check out http://www.tokitsu.com too. It’s worth it.
In the next fight J. Hiyama also looses to Naîto. S. Kakimoto doesn’t fight, and T. Kikuchi goes last. He holds a 3rd kyu rank, he is the highest among the experts still actives, because those who receive the 2nd kyu rank are generally relatively older. Kikuchi’s reputation is already well established in the kenjutsu world. Nobody thinks he can loose against that young fencer. But the destiny of the combat is defined in an instant. Kikuchi receives a terrible tsuki (attack with the tip of the shinai to the throat) and is thrown to the ground. After standing up he salutes and says: “Maîtta!!!”
After, he salutes S. Kakimoto.
Takaharu Naîto lowers his shinai and salutes without a word. He goes back to the lower section of the dojo and takes his protective mask off. He looks directly to his adversaries, puts both hands on the floor and bows respectably saying: “I’m really thankful.”
Then Kakimoto says: “your level is magnificent. I think it’s the result of you persevering in the way.”
“I thank you.”
But Kakimoto continues: “Those who fougth her against you are among the best in police headquarters that holds a great number of important experts. You did excelent against them…”
“It was good keiko.” Kikuchi says.
Usually one translates “keiko” as training, but the meaning of the word in japanese goes beyond that. Here, it’s about the fight that took place, but also the way it took place and the level shown by the experts envolved. In order to show one’s appreciation towards someone’s level, and the way he acts in the dojo, you’ll say keiko was good. That’s why translating keiko as training is not enough. Etymologically, the word keiko means: to learn the essentials from the work of the predecessors. So, the same thing is to say, training is not just a confrontation with an actual adversary, but also with the level reached by the predecessors. Saying keiko was good, means the practice was dense and the experience enriching, apart from of winning or loosing.
A few days later, S. Takano receives the usual telegram ordering him to proceed to the police headquarters dojo, as soon as he finished the practice in Motomachi.
Once there, while putting the protective gear on, Zenjiro Kagawa arrives from Shimoya police station. He says: “I had the visit of an expert in “musha-shugyo” this morning. I thought he’d be easy to handle and I acted carelessly. Well, I ended with my back on the floor.”
Altough he’s been beated, Z. Kagawa stays happy (it is said it was one of his personal characteristics). And he keeps on talking: “There are some amazing persons in this world!”
“What about Eda sensei?” Takano asks.
“Defeated.”
“Nakamura sensei?”
“Defeated.”
“Kaîho sensei, then?”
He was the only one that ended without receiving any blow, always in jodan stance, but he didn’t score either. I think that, soon, man will go to your dojo.”
“His name is Takaharu Naîto and he’s been there already. Evrybody was defeated.”
“How about that, that’s not possible.” Z. Kagawa says, bursting to laughs, while S. Takano is far from finding it amusing.
Each and everytime he goes to prectice in the police headquarters dojo, he listens about Naîto’s feats, who fought this one and defeated that other one. In the beginning of November, someone tells him Naîto is about to join the police force.
“People say it was master Shimoé that recommended him.”
A recommendation from Shutaro Shimoé is of great value.
16.4.05
TODAY IS APRIL THE 16TH
Well, as a matter of fact, I've one more post already translated; it's about Shimoé sensei... I think.
But after that one... it's hasta la vista, baby.
15.4.05
20 ºs CAMPEONATOS DA EUROPA DE KENDO
Para já, se for até www.kendo.ch garanto-lhe que nem o quadro com o sorteio das equipas, que deve ter sido feito há um mês atrás, está disponível. E nós é que somos terceiro-mundistas.
Cambada de palhaços.
THE END OF THE "BILINGUAL" PART OF THE BLOG.
It's the last day to receive messages from you people out there, saying if you want this blog to still have a bilingual half. So far I've received one message.
I guess the answer is clear. I'll finish posting the stuff I've already translated and start posting only in portuguese, from then on.
P.S.: To the one that wrote me: sorry... and thanks a lot.
13.4.05
O PRIMEIRO COMBATE DE S. TAKANO E T. NAÎTO
Leia aqui ou, em francês, em: http://www.tokitsu.com.
Os dois adversários, S. Takano e T. Naîto, separados por uma distância de nove passos, avançam para o centro do dojo e assumem a posição de sonkyo, segundo a regra de treino Kôbusho da era Bakumatsu.
A revista “Kendo-Nippon” nº 10 – ano de 1977, oferece a seguinte descrição do combate:
“Takano assume a guarda jodan (alta), pé esquerdo à frente, e Naîto a guarda chudan/seïgan (média). Takano provoca Naîto para que ele ataque, mas o outro pernanece sereno. Takano acaba por lançar um ataque ao men (cabeça) usando o seu shinai para executar o ataque de cima para baixo. É então que Naîto se desloca para a direita e atinge o do (flanco) de Takano que diz que o golpe foi ligeiro, reassumindo em seguida a sua guarda. Depois, a cena repete-se e Takano declara a sua derrota ao parar e saudar o adversário. Naîto saúda igualmente Takano.”
Este artigo não é, no entanto, muito credível, visto que não menciona a origem das informações. Tanto mais que quando T. Naîto de tornou professor no Butokukaî, era conhecido por não apreciar que se atacasse ao flanco e mostrava o seu descontentamento quando os seus alunos ganhavam em torneios atacando desse modo ou através de alguma “habilidade técnica”. Com efeito, ele criticava severamente as técnicas superficiais, e dizia: “Golpeiem o men, pois é o mais difícil. Se conseguirem golpear correctamente o men, conseguirão golpear em qualquer lado.” Ele fazia também uma distinção severa entre aprofundar as técnicas e utilizar “técnicas habilidosas”.
Mas o combate contra Takano teve lugar possivelmente 25 anos antes. É provável que a sua maneira de combater e as suas ideias sobre o combate tenham evoluído ao longo dos tempos. Em todo o caso Sazaburo Takano perdeu e Takaharu Naîto ganhou.
Takano recua até à parede e tira a protecção da cabeça. Limpa o suor abundante que disfarça as suas lágrimas. Aquando do torneio desse mesmo ano no qual participaram os maiores peritos da polícia, Takano tinha perdido contra Seîsaku Umézawa, 3º kyu, uma graduação logo acima da sua. A derrota contra Naîto inflinge-lhe uma ferida incomparavelmente mais profunda. Não consegue deixar de pensar que se atrasou na via do espada. Foi muito difícil reconhecer a força do ki que não parou de o empurrar durante o combate. Está convencido que é uma força que Naîto obteve durante a sua musha-shugyo, enquanto vivia em condições adversas, dormindo na natureza e comendo o mínimo.
THE FIRST COMBAT BETWEEN S. TAKANO AND T. NAÎTO
It’s done. Two atacks and it’s over. And who won the first figth?
Read it her or, in french, here: http://www.tokitsu.com.
The two opponents, S. Takano and T. Naîto, separated by a nine steps distance, walk towards the middle of the dojo and assume the sonkyo position, according to the Kôbusho training rule from Bakumatsu period.
The 10th issue from “Kendo-Nippon” magazine – 1977 – offers the following escription of the fight:
“Takano takes jodan stance (high), his left foot forward, and Naîto takes chudan/seïgan stance (middle). Takano provoques naîto hopeing for an attack, but the other man remains serene. Takano finally launches an attack to the adversary’s men (head) using his shinai in a downwards movement. That’s when Naîto moves his body to the right and hits Takano’s do (flank), who claims it’s was light strike and reassumes his jodan stance. After that the scene repeats itself and Takano declares his defeat by stopping and bowing to his adversary. Naîto does the same.”
This article, however, is not very credible, since it does not mentions the source of the informations. Furthermore, when T. Naîto became a Butokukaî teacher, he was known for not appreciating do attacks and for showing his unhappiness when his students won tournaments that way or through any “technical hability”. As a matter of fact, he used to severely criticize superficial techniques, and said: “Hit the men, because it’s the most difficult. Once you can correctly hit the men, you will be capable to hit anywhere.” He also used to make harsh comments between deepining the techniques and doing “technical habilities”.
But the fight against Takano took place some 25 years earlier. It’s probable that his was of fighting and also his ideas about combat evolved as times went by. Anyway, Sazaburo Takano lost and Takaharu Naîto won.
Takano moved back to the wall and took his protective mask off. He cleaned the sweat that concealed his tears. During the year’s tournamnet, attended by all the greatest police experts, Takano had lost against Seîsaku Umézawa, 3rd kyu, just a rank above him. The defeat against Naîto opens an incomparably deep wound. He can’t stop thinking he felt behind the way of the sword. It was very hard for him to recognize the ki stenght that didn’t stop pushing him backwards during the fight. He’s convinced Naîto obtained it during his musha-shugyo, while living in difficult conditions, sleeping in nature and eating a minimum.
12.4.05
O ENCONTRO DE DOIS RIVAIS INEGÁVEIS (II)
Mais só em http://www.tokitsu.com.
Na esquadra de polícia de Honjo-Motomachi havia quatro professores: Seikichi Kakimoto 2º kyu, Taménosuké Kikuchi 3º kyu, Juntaro Hiyama 4º kyu superior e S. Takano, igualmente 4º kyu superior. O sistema de graduação em “dan” ainda não encontrava em uso nessa época e 1º kyu era a graduação mais alta, em teoria, pois na prática ninguém o possuia. O 2º kyu de então equivaleria ao 9º dan de hoje.
Quando os quatro professores entram na sala, já equipados, T. Naîto está sentado na parte inferior do dojo, pronto para combater a todo o momento. A atmosfera está repleta de tensão.
Nesse momento J. Hiyama diz: “Olha, é o Takaharu, não é?”
“Oh, o senhor Hiyama?”
“Sim, eu agora trabalho aqui.”
Hiyama diz, voltando-se para os outros professores:
“Nós fomos colegas no Tôbukan-dojo do mestre Torakichi Ozawa, em Mito. Entrei alguns anos antes dele.”
“Senhor Hiyama”, diz Naîto, “falaremos dessas coisas mais tarde. Agora gostaria de receber umas lições.”
“Tem razão.” Responde Hiyama endurecendo a expressão. “Não convém relaxar a combatividade visto que está em situação de musha-shugyo.”
Se bem que a expressão “receber umas lições” tenha uma tonalidade modesta, trata-se de um desafio, tanto para aquele que pede como para aquele que aceita. Para aquele que lança o desafio, não é exagerado dizer que deve ter determinação suficiente para investir a sua própria vida e para os que recebem o desafio, trata-se da honra da sua arte e do seu dojo.
Seikichi Kakimoto, o mais alto graduado, diz: “Eu serei o árbitro. Takano, você é o primeiro.”
S. Kakimoto já tem mais de 50 anos e é um bushi originário de Echigo. Na sua juventude, mudou-se para Tóquio para estudar a arte da espada no dojo de Seiichiro Otani, da escola Jiki-shin-kagé-ryu, onde se tornou num dos melhores. É considerado um dos maiores peritos do fim da época Edo (Bakumatsu).
THE MEETING BETWEEN TWO UNDENIABLE RIVALS (II)
Everybody is ready. There they go. Who’ll win the first fight?
More at http://www.tokitsu.com.
In Honjo-Motomachi police station there were four teachers: Seikichi Kakimoto 2nd kyu, Taménosuké Kikuchi 3rd kyu, Juntaro Hiyama 4th kyu superior and S. Takano, also 4th kyu superior. The “dan” grading system wasn’t yet in use in those days, and so 1st kyu was the highest grade, in theory, because in fact nobody had it. 2nd kyu back then would be like 9th dan today.
When the four teachers enter the room, fully equipped, T. Naîto is seated in the lower section of the the dojo, ready to fight. There’s plenty of tension in the atmosphere.
Then, J. Hiyama says: “But, it’s Takaharu, isn’t it?”
“Oh, mister Hiyama?”
“Yes, I work here now.”
Hiyama looks at the other teachers and says:
“We were colleagues at sensei Torakichi Ozawa’s Tôbukan-dojo in Mito. I entered there a few years before him.”
“Mister Hiyama”, Naîto says, “we’ll talk about those things later. Now I’d like to receive some lessons.”
“You are right.” Hiyama answers toughening his face. “It’s not appropriate to relax one’s combativeness, after all, you’re in musha-shugyo.”
Although the expression “to receive some lessons” holds a modesty like tone, it is really a challenge, both for the one that launches it and the one that accepts it. For the first one, it’s not very exaggerated to say that he must have enough determination to commit his own life and for those who receive it, it’s all about the honor of their art and their dojo.
Seikichi Kakimoto, the senior teacher, says: “I’ll judge. Takano you’re first.”
S. Kakimoto is over 50 and he’s from Echigo. In his youth he moved to Tokyo to study the sword art at Seiichiro Otani’s dojo, from the Jiki-shin-kagé-ryu school, where he became one of the best. He is considered one of the greatest experts of the end of the Edo period (Bakumatsu).
O ENCONTRO DE DOIS RIVAIS INEGÁVEIS
Como sempre obrigado a http://www.tokitsu.com.
É já quase no fim da sua viagem de aprofundamento (musha-shugyo) que T. Naîto se dirige à esquadra de polícia de Motomachi, onde Takano desempenha o papel de professor de kenjutsu.
Uma tarde de Outubro, Sazaburo Takano espera que chegue a hora do treino na recepção da esquadra. Como era hábito, já tinha dirigido o treino da manhã. A silhueta de um homem aparece no vestíbulo da esquadra. Transporta a sua armadura de protecção, nua, suspensa no shinai. Não é de grande estatura, mas a largura dos seus ombros é impressionante. Avança directamente até à recepção e pergunta:
“Estou em musha-shugyo, como pode ver. Gostaria, se fosse possível, receber uma lição neste dojo.”
A visita aos dojos da polícia de Tóquio é para T. Naîto a última etapa e a “prova final” da sua musha-shugyo, a qual se prolongava, fazia já três anos e meio. Antes de Tóquio, tinha visitado Kanagawa, onde, a 20 de Outubro de 1887, no dojo "Seifu-kan" de Yokosuka, tinha combatido contra mais de trinta peritos originários de seis escolas diferentes. Nesse dia, cada um dos combates devia prolongar-se até que um dos dois combatentes se declarasse vencido. Takaharu Naîto enfrentou sozinho todos esses peritos. Se os combates duraram, em média, dez minutos cada um, o que é pouco para que um praticante dessa época reconhecesse a sua derrota, isso perfaz logo cinco horas de combates. Essa experiência deve ter sido umas das provas mais duras que teve de enfrentar, mas não existe nenhum documento que relate os detalhes da mesma.
No dojo da polícia recebiam, de tempos a tempos, visitantes em musha-shugyo e geralmente estes saiam exaustos, depois de terem gasto toda a vivacidade com que tinham entrado no dojo contra os shinais dos professores.
S. Takano responde: “Entendido. O treino começa dentro de momentos, eu conduzo-o até ao dojo, onde poderá aguardar. Entretanto, peço-lhe que inscreva o seu nome neste registo.”
Antes de escrever o seu nome, o visitante apresenta-se a Sazaburo Takano: “Chamo-me Takaharu Naîto e sou de Mito.”
Takano fica surpreendido por ouvir o nome que lhe pesava na memória e olha de novo para o personagem cuja imagem e presença se ajustam pela primeira vez. A cara redonda coberta de barba sorri-lhe com um ar simpático e lembra-lhe imediatamente a figura do Bodhidharma.
Assim que o Bodhidharma acaba de preencher o formulário, S. Takano apresenta-se.
“Mestre Takano? É talvez da família de mestre Mitsumasa?”
“Sim, Mitsumasa era meu avô.”
Sabemos, claro, que se tratava de Takano Sakichiro-Mitsumasa.
“Quando visitei Chichibu, no ano passado, gostaria de ter beneficiado de uma lição do mestre Mitsumasa, mas soube que ele tinha morrido e renunciei a visitar o seu dojo... perdi uma ocasião, nessa altura, mas hoje... poderia receber um treino particular?”
S. Takano, de olhos brilhantes, responde:
“Era mesmo isso que eu lhe queria propor.”
THE MEETING BETWEEN TWO UNDENIABLE RIVALS
The moment has come. They’re finally face to face. Ready for the first of many duels they’ll fight through their lifes.
As always thanks to http://www.tokitsu.com.
By the end of his sword art deepening journey (musha-shugyo) heads to the Motomachi police station, where Takano works as a kenjutsu teacher.
One October evening, Sazaburo Takano, in the police station’s reception, waits until it’s time to start the second practice of the day. As usual, he had already conducted the morning practice. The silhouette of a man appears in the entrance hall. He has his protective gear, naked and suspended from the shinai. He is not tall, but the width of his shoulders is quite remarcable. He walks directly to the reception and asks:
“As you can see, I’m in musha-shugyo. I would like, if possible, to receive a lesson in this dojo.”
The visit to the Tokyo police dojos is for T. Naîto the last step and “final exam” of his musha-shugyo, which already lasted for three and a half years. Before Tokyo, he was in Kanagawa, where, in October the 20th 1887, in the "Seifu-kan" dojo of Yokosuka, he fought more than 30 experts, from six different schools. That day, each and everyone of the combats should last until one of the fighters agreed that he was defeated. Takaharu Naîto faced all of those experts alone. If the combats lasted, an average of 10 minutes each, which was a short period of time for a fighter of those days to recognize his defeat, that makes, at least, five hours fighting. That experience must have been one of the toughest he had to face, but there’s no document reporting the event or it’s details.
In the police dojo they used to receive, from time to time, visitors who were in musha-shugyo and generaly they’d leave worn out, after having spent all the
vivacity they entered the dojo with, against the teachers shinais.
S. Takano answers: “Very well, the practice will begin in a few moments, I’ll lead you to the dojo, and you’ll wait there. Meanwhile, please sign your name in this registration book.”
Before writting down his name, the visitor presents himself to Sazaburo Takano: “My name is Takaharu Naîto and I’m from Mito.”
Takano is taken by surprised when listening to the name that marked his memory and looks again to the character, whose presence and image are one, for the first time. The round face, covered with a beard smiles at him with an honest smile and imediately reminds him of the image of Bodhidharma.
As soon as the Bodhidharma finishes filling the registration, S. Takano presents himself.
“Master Takano? Are you maybe from master Mitsumasa’s family?”
“Yes, Mitsumasa was my grandfather.”
We know, of course, they were talking about Takano Sakichiro-Mitsumasa.
“When I visited Chichibu, last year, I would ahev loved to receive a lesson from Mitsumasa sensei, but I heard he was dead, and so, I didn’t went to the dojo… I lost an opportunity then, but today… can you give me a lesson?
S. Takano’s eyes shine and he answers:
“That exactly what I was about to propose.”
8.4.05
O DOJO DE KENKICHI SAKAKIBARA
K. Sakakibara tem 53 anos quando T. Naîto visita o seu dojo.
“Diz que é aluno de mestre Ozawa? Bem, então entre.”
Sakakibara recebe-o com simpatia e leva-o até ao dojo, onde a atmosfera, misto de calor e cheiro a suor, o atinge assim que ultrapassa o limiar da entrada. A violência dos treinos era célebre. No dojo, K. Sakakibara forçava toda a gente a utilizar um tipo de protecções especiais. O aço da grade do protector da cabeça era particularmente sólido, pois os shinais do dojo eram fabricados com um bambú duas vezes mais espesso do que o que estamos habituados hoje. Possuiam apenas um pequeno espaço interior e diz-se que dava a impressão que o shinai era feito de um bambú sólido. Os golpes de K. Sakakibara eram especialmente fortes, e é por isso que, se a grade do men não fosse particularmente sólida, podia partir-se para o lado de dentro, o que provocaria acidentes graves.
Jirokichi Yamada, o sucessor de K. Sakakibara escreveu:
“Os ataques do mestre eram de tal maneira fortes que não podia deixar de antecipar a dor antes de receber um golpe na cabeça. Para dominar essa anticipação negativa, precisava de me habituar a suportar choques violentos no crânio. Com esse objectivo, exercitava-me todos os dias a dar cabeçadas num num grande pilar do dojo. Quando, por causa da dor e a fatiga, eu baixava a cadência da repetição e a força das cabeçadas, agarrava o pilar com as mãos e continuava a bater, muitas vezes até desmaiar.”
J. Yamada conta que, graças a esse treino, acabou por não ter medo de receber golpes de shinai e tornou-se capaz de os receber sem fechar os olhos.
A parte onde cabeçeava regularmente o pilar estava “escavada”, depois de alguns anos de prática. J. Yamada sucederia a K. Sakakibara na direcção do dojo e quando mandou construir um novo dojo, um dos discípulos, cortou e guardou a parte gasta desse pilar, em memória do seu mestre.
Esse tipo de atitude é, sem dúvida, imcompreensível, se visto à luz do kendo moderno, mas na época em que T. Naîto visitou K. Sakakibara, ainda se treinava aí dando continuidade à prática do sabre verdadeiro, onde o objectivo é, a cada ataque, cortar verdadeiramente e não apenas contentar-se em tocar o adversário com o shinai, tal como acontece nas competições desportivas do kendo moderno.
Convidado por Sakakibara, Naîto veste a sua armadura de protecção e agarra um shinai do dojo, muito mais grosso e pesado do que um shinai normal.
Agarrando também um shinai, K. Sakakibara diz-lhe, sem colocar protecções:
“Vamos lá ver.”
T. Naîto espanta-se que ele não coloque armadura de protecção e fica um pouco espicaçado no seu orgulho juvenil, mas, uma vez face a face com o adversário, compreende imediatamente que se trata de um oponente de peso. Sem que possa fazer algo, sente-se empurrado por uma força, como se o ar entre ambos se tivesse tornado pesado. Permanece imóvel.
“Que se passa? Venha, ataque-me.”
Encorajado pelo incitamento e mau-grado sentir-se dominado, ele atira-se para a frente e ataca a cabeça, ao mesmo tempo que lança um poderoso kiai. Apesar de forte, o kiai não se conseguiu associar ao movimento de ataque, pois, a meio do caminho, sente e ouve o ruído do golpe que recebe no seu antebraço direito. O seu shinai cai ao chão. Nunca tinha recebido um golpe assim tão forte e fica com a sensação que o seu braço foi cortado.
“O kiai é bom. Fique connosco o tempo que desejar.” Diz-lhe K. Sakakibara com um sorriso.
Takaharu Naîto permaneceu no dojo de K. Sakakibara durante quase dois anos, depois, num dia de 1885, partiu em viagem de “musha-shugyo”, da qual já conhecemos uma parte.
KENKICHI SAKAKIBARA’S DOJO
Takaharu Naîto is considered a “sword saint”. But how does one becomes a saint? A little bit more of Takanos’s rival lifestory. Want more? Go to: http://www.tokitsu.com.
K. Sakakibara is 53 when T. Naîto visits his dojo.
“You say you’re one of master Ozawa’s student? Well, come on in.”
Sakakibara receives him with sympathy and takes him to the dojo, where the atmosphere, a mixture of heat and smell of sweat, hits him as soon as he walks in. The violence of practice in there was famous. In his dojo, K. Sakakibara ordered everybody to wear a special protective gear. The steel from the head protection mask’s grid was particulary solid, because dojo’ shinais were made out of a bambu wood, twice as thicker as the ones we’re used to today. It had very small free spacing on the inside and, it is said, that one would have the impression of being hit with a solid bambu stick. Sakakibara’ strikes were specially strong, and that’s why if the men’s grid wasn’t particulary strong, it could break for the inside and cause serious accidents.
Jirokichi Yamada, K. Sakakibara successor wrote:
“The master’s attacks were so powerful I couldn’t stop anticipating the pain even before I received a men strike. In order to dominate that negative anticipation, I needed to get used to support violent blows on my head. So, I’d exercice everyday striking my head against a big wood column in the dojo. Everytime I slowed down the rhythm and the intensity of the headblows, because of the pain and the fatigue, I’d grab the column with both hands and kept striking, often until I pass out.”
J. Yamada tells that, thanks to that practice, he ended up by not being afraid of receiving shinai strikes and was even capable of receiving it without closing his eyes. The part of the wood column he used to strike his head against, was “eroded” after a few years of such practice. J. Yamada succeed to K. Sakakibara in the dojo’s direction and when he ordered a new dojo to be built, one of the disciples cut and kept the eroded part of the wood column, in memory of his master.
This kind of attitude is, no doubt, hard to understand, if seen in the context of modern day kendo, but, by the time T. Naîto visited K. Sakakibara, they were still following the tradition of true sword practice, where the aim, at any attack, was to really cut the adversary and not only touch him with the shinai, just like it happens in today’s kendo matches.
Following Sakakibara’s invitation, Naîto puts on his protective gear and grabs a house shinai, much more thicker and heavy than a regular one.
Grabbing another shinai, and without any protective gear, K. Sakakibara tells him:
“Allright, let’s see.”
T. Naîto was amazed with the fact his opponent didn’t put on any gear and he felt slightly touched in his pride, but, as soon as he faced him, he realized imediately how strong of an antagonist he was.
Unable to do anything, he feels a force pushing him, as if the air between them had become heavy. He stays put.
“What’s the matter? Come on, hit me.”
Encouraged by these words and even though he feels dominated, he charges and attacks the head, while roaring a powerful kiai. But the kiai, although strong, didn’t manage to punctuate the action, because he then feels and ears the sound of the strike he receives in his right forearm. His shinai falls to the ground. He had never received such a strong blow and feels like his arm has been cut.
“The kiai is good. You can stay with us for as long as you like.” Kenkichi Sakakibara says with a smile.
Takaharu Naîto remained in Sakakibara’s dojo for almost two years, and then, one day, in 1885, he left and went on a “musha-shugyo” trip, but we already know a part of that journey.
WELL, I GUESS IT'S THE END OF THE "BILINGUAL" PART OF THE BLOG.
So, here's what I'm going to do. Today it's april the 8th, if by april 15th, nobody says anything about continuing to translate to english I'll just stop, and I'll do it only in portuguese.
It's your call (assuming there's someone out there reading this sh... heu, stuff).
Now, we can do this two ways: you can e-mail me to pcoelho@esoterica.pt, or leave a comment in the comment boxes. If you'd like to send me an e-mail: just write BILINGUAL in the subject case.
Hey, at least I'm not asking for money.
4.4.05
OS EXPEDIENTES DE KENKISHI SAKAKIBARA
Kenkishi Sakakibara e Yamaoka Tesshu são igualmente reputados e considerados como os dois últimos mestres que marcam o fim da tradição dos samurais. K. Sakakibara nasceu em 1830, no mesmo ano do mestre de karaté Anko Itusu e morreu em 1894.
Foi K. Sakakibara que teve a ideia, para salvar os adeptos do kenjutsu da sua situação de miséria, de organizar espectáculos públicos com combates de kenjutsu chamados “gekiken-kôgyô”, utilizando o modelo do sumô. A sua tentativa foi severamente criticada por certos mestres de kenjutsu, pois transformava em espectáculo a arte honorífica dos samurai. Os espectáculos de kenjutsu tiveram algum sucesso comercial durante dois ou três anos. Depois, a sua multiplicação e os objectivos estritamente comerciais fizeram com que sua qualidade diminuisse e, finalmente, desapareceram. (...) As opiniões dividem-se, mas graças a essa tentativa o kenjutsu pode sobreviver ao seu período mais difícil. Foi graças à reputação de Kenkishi Sakakibara que os "gekiken-kôgyô" conheceram um certo sucesso durante um curto período de tempo.
Depois dos “gekiken-kôgyô” K. Sakakibara organiza, seguindo o conselho de alguns alunos seus comerciantes, um “bar de samurais” onde os seus discípulos de origem samurai, vestidos de hakama, serviam às mesas. Os empregados de mesa eram não só pouco amáveis, como não podiam senão mostrar-se altivos e autoritários para com os clientes. Além disso, serviam-nos com o olhar penetrante dos praticantes da espada e os clientes desviavam o olhar e, à laia de agradecimento, pediam desculpa por estar a receber o serviço. Os clientes entravam e saiam inclinando-se e baixando os olhos quando passavam diante de Sakakibara que controlava a entrada. Este, em vez de agradecer aos clientes que saiam do bar ordenava-lhes com um tom autoritário: “Amanhã esteja cá outra vez, ouviu?” Os clientes, esses, saiam dizendo: “Com certeza, queira desculpar-me.” O bar foi um grande sucesso, pois, para os clientes, o grande charme da casa era que os samurai, os dominadores de ontem, estavam agora a servi-los. Mesmo que, um pouco amedrontados, não pudessem senão falar em voz baixa na sala, tudo aquilo acrescentava um gosto requintado ao saké que consumiam. No entanto, o empreendimento cedo faliu, pois Sakakibara era um grande bebedor e o seu exemplo era seguido pelos seus discípulos.
KENKISHI SAKAKIBARA’S EXPEDIENTS
And who was Kenkishi Sakakibara, the man Naîto went visiting in Tokyo? Read it here or at http://www.tokitsu.com.
Kenkishi Sakakibara and Yamaoka Tesshu are equally reputed and considered like the last two great masters who marked the end of samurai tradition. K. Sakakibara was born in 1830, the same year of karaté master Anko Itosu, and died in 1894.
It was K. Sakakibara who had the idea, in order to rescue kenjutsu adepts from misery, to organize public shows featuring kenjutsu combats called “gekiken-kôgyô”, using the sumô model. His effort was strongly criticized by some kenjutsu masters, because it transformed the honorable art of the samurai into a show. Kenjutsu shows had some commercial success for two or three years. Then its multiplication and strictly commercial intentions, forced its quality to decline, and ultimately, the shows desapeared. (…) Opinions may differ, but thanks to the attempt kenjutsu survived its most difficult period ever. Thanks to Kenkishi Sakakibara’s reputation, for a short period of time, "gekiken-kôgyô" had some success.
After “gekiken-kôgyô”, following the advise of some of his students, K. Sakakibara created a “samurai bar”, where his disciples from samurai families, dressed with hakama, were the waiters. But those employees were not friendly at all and they treated the clients with desdain and autorithy. Besides, they had that piercing gaze of those who practice the sword art, so clients would avoid their eyes and appologize for being waited by them. They would enter and leave the place bowing and lowering the eyes once they walk by Sakakibara, who controlled the entrance door. Sakakibara, who, instead of thanking the clients when they left the bar, would ordered them in an authoritarian voice: “Tomorrow, be back again, you hear me?” The clients would answer: “For sure, forgive me.” The bar was great success, because clients loved the idea of having sanurai, his former masters, waiting on their tables, serving them now. Even though they were a afraid, and couldn’t raise their voice in the bar, all that added an exquisite taste to the saké they drank. However, the enterprise went bankrupt, for Sakakibara was a great drinker and his example was followed by his disciples.
2.4.05
QUEM É AMIGUINHO, QUEM É?
Vão até aqui: http://www.kendo.or.jp/picture/movie.html e, de cima pra baixo, clickem no quarto filme.
Ah, o Sasa é o da direita.
1.4.05
TAKAHARU NAÎTO, O RIVAL DE SAZABURO TAKANO
Já não era sem tempo.
Takaharu Naîto nasceu em Outubro de 1862, o mesmo ano que S. Takano. É o sexto filho de Gorôémon Ichigé, mestre do tiro com arco (kyudo) da senhoria de Mito e mestre de kenjutsu da escola Hokushin-itto-ryu. Recebe o nome Takaharu Ichigé.
Ao contrário de Takano que começou a praticar “ainda no ventre da sua mãe”, Takaharu Ichigé começa a praticar apenas aos 11 anos. Vivendo em Mito, numa região em que o kenjutsu paira na atmosfera, é surpreendente que tenha começado tão tarde. Torna-se aluno de Torakichi Ozawa. Esse é o mestre mais importante da senhoria de Mito onde representa o Hokushin-Itto-ryu, uma das três escolas principais de Edo (Tóquio) no final do período Edo. Foi formado por Shusaku Chiba, o fundador da escola. Depois da restauração Meiji, constrói um dojo no terreno da sua casa e dá-lhe o nome "Tôbu-kan dojo". Do seu dojo saem alguns dos peritos mais importantes da era Meiji, tais como Tadashi Kadona, Ichiro Ozawa, Jiro Ozawa e Shigéyoshi Takano.
Os progressos de T. Naîto são notáveis e, ao fim de dois anos, com 13 anos apenas, recebe o "kirigami" que é primeira etapa da transmissão. Quatro anos mais tarde recebe o "mokuroku", literalmente “o repertório da transmissão”, que é a segunda etapa. Com a idade de 20 anos recebe o “menkyo”, a transmissão geral da escola. Isso não significa que atingiu o nível mais elevado, mas que foi considerado digno de receber todo o conjunto de conhecimentos da escola.
No ano do seu “menkyo”, Takaharu é adoptado como sucessor pela família Naîto, da qual o chefe de família desposou a sua tia. A partir desse momento passa a chamar-se Takaharu Naîto. Em 1883, com 21 anos, decide deixar o seu país natal, Mito, para aprofundar o kenjutsu e viver na via da espada.
Desloca-se a Edo e visita o célebre dojo de Kenkichi Sakakibara da escola Jiki-shin-kagé-ryu.
TAKAHARU NAÎTO, SAZABURO TAKANO’S RIVAL
Thanks to http://www.tokitsu.com, and the work Kenji Tokytsu sensei, here we are again with informations about the life of Takaharu Naîto, Takano’s rival.
About time.
Takaharu Naîto was born in October 1862, the same year of Takano’s birth. He is the sixth son of Gorôémon Ichigé, kyudo (the art of the bow) master of the Mito seigneury and kenjutsu master from the Hokushin-itto-ryu school. He is named Takaharu Ichigé.
Unlike Takano who started practicing “while in his mother’s womb”, Takaharu Ichigé starts practicing at the age of 11. living in Mito, a region where kenjutsu fills the atmosphere, such a late start is surprising. He becomes Torakichi Ozawa’s pupil. He is the most importante master of the Mito seigneury where he represents de Hokushin-Itto-ryu, one of the three major schools in Edo (Tokyo) in the end of the Edo period. He was formed by Shusaku Chiba, the founder of the school. After Meiji Restoration, he builds a dojo on his backyard and names it "Tôbu-kan dojo". In his dojo some of the most important experts of the Meiji era were formed, men like Tadashi Kadona, Ichiro Ozawa, Jiro Ozawa and Shigéyoshi Takano.
T. Naîto’s progress is remarkable and, after two years, at 13, he receives the "kirigami", the first step of transmission. Four years later he receives the "mokuroku", literally, the “repertoire of transmission”, the second step. Aged 20 he receives the “menkyo”, the general transmission of the school. This doesn’t mean he reached the highest level, but “only” that he was considered worthy to received all of the school’s accumulated knowledge.
The year of his “menkyo”, Takaharu is adopted as successor by the Naîto family, whose family head married his aunt. From that moment on is name is Takaharu Naîto. In 1883, aged 21, he decides to leave his homeland, Mito, in order to perfect his kenjutsu and live by the way of the sword.
The travels to Edo and visits the famous dojo of Kenkichi Sakakibara from the Jiki-shin-kagé-ryu school.
31.3.05
O TREINO NA PREFEITURA DE POLÍCIA
O treino no dojo da prefeitura de polícia era célebre pela sua dureza e era dirigido por grandes mestres como Yoshimasa Kajikawa, Umanosuké Uéda e Sosuké Henmi. Esses mestres, ao longo das agitações sociais do fim da era Edo, tinham tido experiência de combates com espadas verdadeiras.
S. Takano conta as suas recordações dessa época:
“Quando era mais novo, fizemos um treino de doze horas. Foi uma prova destinada a seleccionar alguns adeptos que fariam uma viagem pelo Japão. No começo éramos 10, entre os quais se encontravam Z. Kawasaki et K. Takahashi. Tratava-se de combater a partir das 18 horas até às 6 da manhã sem interrupções. Para esse tipo de provas os mestres de kenjutsu de cada comissariado de Tóquio vinham sempre com vontade de esmagar os adversários. Pela meia-noite, devido à fadiga e ao sono, os nervos começavam a relaxar e os que se encontravam no meio do dojo eram imediatamente projectados para o chão. Para triunfar no teste tinha de se conseguir ir até ao fim. Por volta das duas da manhã, senti vontade de desistir, tal era dureza. E quando eu só me conseguia aguentar em pé encostado contra a parede apontando o meu shinai ao adversário, vinham buscar-me e colocavam-me no centro do dojo para me golpearem e fazerem tsuki. Enquanto me defendia foi envolvido pelo sono que me fez baixar as pálpebras. Éramos como pequenos peixes enfrentando enormes ondas. Mas o espírito do ser humano é surpreendente. Ao escutar o canto primeiro galo, do lado de fora, descobri uma nova força com a luz esbranquiçada da aurora, a minha consciência iluminou-se. E fomos nós que levámos então, para o centro do dojo os que, algumas horas antes, nos tinham torturado, era a nossa vingança. Em todo o caso só nós três (S. Takano, Z. Kawasaki e K. Takahashi) entre os dez conseguimos concluir a prova, o que nos trouxe uma grande popularidade. Durante todo esse tempo, fui três vezes à casa-de-banho e bebi uma sopa de arroz outras três. Depois dessa prova urina-se sangue e precisa de uma semana para recuperar da fatiga. Durante o período de recuperação quando se dorme ressona-se fortemente, mas o espírito não consegue descansar, pois continuamos a sonhar que estamos a combater de shinai na mão.
Era nessa época que o treino era o mais duro.”
No decurso desse treino, chamado "tachigiri", quando a consciência estava enfraquecida pela dureza dos combates, a imagem do jovem perito chamado Takaharu Naîto voltou ao espírito de S. Takano.
“Ele fez face, durante sete horas, a todos os alunos do dojo Henmi, que o atacavam para o esmagar, para defender a honra do dojo. No entanto, não carregou o dojo às costas uma única vez.” (“Carregar o dojo às costas” era uma expressão corrente e que significava ser atirado ao chão. Nessa época, o kenjutsu incorporava bastantes projecções.)
S. Takano nunca tinha visto T. Naîto, para ele, a sua imagem não tinha uma cara, mas o seu nome estava gravado na sua memória. Quando se tornou instrutor da polícia, procurou pelo nome, pensando que talvez ele se encontrasse entre os professores. Não estava. “Ainda deve andar a viajar com a armadura às costas, a caminho de um qualquer dojo.”
PRACTICE IN THE POLICE HEADQUARTERS
In the next article Takaharu Naîto, Sazaburo Takano’s rival will be, finally, back. Until then, he’s here: http://www.tokitsu.com.
Practice in the police headquarters dojo was famous for being severe and was run by great masters like Yoshimasa Kajikawa, Umanosuké Uéda and Sosuké Henmi. Those masters, during the social turmoil of the end of the Edo period, had gone through experiences in combats with true swords.
S. Takano recalls his memories from those days:
“When I was younger, we made a twelve hours training session. It was a test to select a few experts, who would go on a trip across Japan. In beginning we were 10, including Z. Kawasaki et K. Takahashi. The idea was to fight from 6 P.M. until 6 A.M. without stops. In those events, the kenjutsu masters from each Tokyo police station, were always present and ready to smash his opponents. Around midnight, due to tireness and lack of sleep, nerves started to relax and those who were in the center of the dojo were imediately thrown to the ground. In order to be successful, you had to go all the way to the end of the training session. About 2 A.M., I felt the need to give up, because it was too difficult to handle. And, while I only could stand up if I had my back against the dojo wall, they’d pick me up, put me in the center of the dojo and they’d stroke me and did tsuki. When I was there defending myself I almost felt assleep and my eyes even closed. We were like little fish facing huge waves. But the human spirit is amazing. When I listened to the first morning rooster, outside, I found a new strength with the pale light of dawn, my conscience became clear. And then, we took them to the center of the dojo, the same ones that a few hours earlier had tortured us; it was our revenge. Anyway, from the 10 that started, only the 3 of us (S. Takano, Z. Kawasaki e K. Takahashi) made it to the end, and that brought us great popularity. During the all time of the training I went three times to the toilet and had rice soup another three. After the session you piss blood and you need a whole week to recover from the fatigue. During the recovering period you snore heavily while you sleep, but your spirit does not rest, as you keep dreaming that you are still fighting with a shinai in your hand.
That was the time when training was harder.”
During the course of the training, called "tachigiri", when conscience was weaker due to the hardness of the fights, the image of the young expert called Takaharu Naîto appeared in S. Takano spirit.
“He faced, for seven hours, all the students of the Henmi dojo who wanted to smash him, in order to defend the honor of the dojo. However he never carried the dojo on his back, one single time.” (“To carry the dojo on his back” was an current expression in those days and meant to be thrown to the ground. Back then, kenjutsu included a lot of throwing techniques.)
S. Takano had never seen T. Naîto, so his image didn’t had a face, but his name was carved in his memory. When he became a police instructor he search for the name, thinking he might find him among the teachers. He wasn’t there. “He must still be travelling, the carrying his gear, and walking to another dojo.”
OS PROFESSORES DE KENJUTSU NA PREFEITURA DE POLÍCIA
É em Abril de 1886 que S. Takano volta a Tóquio para se tornar agente no comissariado de Honjo-Motomachi, com a função de professor de kenjutsu, ligado à prefeitura de polícia da cidade. Deixou a mulher e os familiares em Chichibu, o que demonstra bem a sua determinação em aprofundar a sua arte. A prefeitura de polícia tinha então sido transformada no maior centro da arte do sabre e um grande número de peritos vindos de todo Japão frequentavam-na quotidianamente. O comissário de Motomachi era também um adepto do kenjutsu. Ele tinha dividido os seus 180 agentes em dois grupos e tinha ordenado que, cada dia, um desses dois grupos treinasse "ji-geiko" (treino de combate). Esses treinos eram dirigidos por 3 ou 4 professores (kenjutsu-séwa-gakari) com a ajuda de 7 ou 8 assistentes. Cada um dos 90 polícias devia treinar com 5 instrutores, ou seja, uma média de 45 "ji-geiko" por dia para cada professor.
Na época em que S. Takano estava no comissariado de Motomachi, esteve lado a lado com vários peritos célebres, tais como Seikichi Kakimoto, Taménosuké Kikuchi e Juntaro Hiyama. O mais idoso era S. Kakimoto, praticante da escola Jiki-shin-kagé-ryu. Possuia a graduação de 2º kyu da prefeitura de polícia, tal como os mestres Tadatsu Shingaî, Shutaro Shimoé e Kanjuro Mihashi. A graduação de 2º kyu equivalia a "méijin", mestre superior, e era a graduação mais alta; o sistema de graduações era completamente diferente do sistema a que estamos habituados hoje em dia. T. Kikuchi era 3º kyu, "menkyo" e S. Takano era 4º kyu. Se procurarmos a equivalência ao sistema actual, pode-se dizer que o 2º kyu corresponderia ao 8º ou 9º dan.
Nessa época, considerava-se que, de entre todos os polícias de Tóquio, uns 250 teriam nível suficiente para dirigir um dojo. Em Tóquio contavam-se mais de 30 dojos de kenjutsu (ou gekiken) da polícia e não se passava um mês sem que um torneio fosse organizado. Desses, o mais importante era o "Hômén-gekiken-kaî ", que tinha lugar em todos os bairros da cidade. A capital era dividida em 6 "hômen", o hômen sendo um grupo de bairros. Cada desses grupos dispunha de 400 a 500 adeptos do gekiken. O torneio era organizado em cada "hômen" (N.Tr.:sistema de pre-qualificação?) e por vezes alguns deles agrupavam-se. Cada comissariado depositava o seu orgulho e a sua honra nesses combatentes e procurava sempre lutadores de maior talento.
S. Takano dirigia, com mais 2 ou 3 outros professores, o treino dos 90 polícias do comissariado de Motomachi. Assim que terminava os ji-geiko, mudava de roupa e partia a pé em direcção à prefeitura com o objectivo de treinar. Não lhe era possível descansar um momento, pois era habitual que, antes mesmo de o treino em Motomachi terminar, recebesse um telegrama (nessa época as ligações telefónicas entre a prefeitura e os comissariados não estavam ainda estabelecidas) da prefeitura dizendo: “Venha imediatamente para o treino.”
KENJUTSU TEACHERS IN THE POLICE HEADQUARTERS
So, let’s take a look on the japanese kenjutsu scene by the time S. Takano took the position as an instrutor for Tokyo police. Another article available at http://www.tokitsu.com.
In April 1886, S. Takano returns to Tokyo to became a policeman in the police station of Honjo-Motomachi, with the position of kenjutsu instructor, linked to the city’s police headquarters. He left his wife and family back in Chichibu, and that demonstrates his determination in deepining his art. The police headquarters back then, had been transformed in the biggest sword art center and experts from all over Japan attended classes there on a regular basis. The commander in charge of Motomachi was also a kenjutsu adept. He divided his 180 polimen into two groups and ordered that, each day, one of the two groups should train in “ji-geiko” (fighting practice). Practice was directed by 3 or 4 teachers (kenjutsu-séwa-gakari) with help from 7 to 8 assistents. Each one of the 90 policemen should practice with 5 teachers, that’s to say, an average of 45 “ji-geiko” a day for each teacher.
While in Motomachi police station, S. Takano stood side by side with some of the most famous kenjutsu experts like Seikichi Kakimoto, Taménosuké Kikuchi and Juntaro Hiyama. The eldest was S. Kakimoto, a master of the Jiki-shin-kagé-ryu school. He held the 2nd kyu rank from the police headquarters, just like masters Tadatsu Shingaî, Shutaro Shimoé and Kanjuro Mihashi. The 2nd kyu was the equivalent to "méijin", superior expert, and was the highest rank; the ranking system back then was completely different from the one we’re use today. T. Kikuchi was 3rd kyu, "menkyo" and S. Takano, 4th kyu. If we look for an equivalence to today’s system, one can say that 2nd kyu was something like 8th or 9th dan.
Back then, out of all Tokyo policemen, some 250 were considered abble to run a dojo. In the city there were more than 30 police kenjutsu (or gekiken) dojos and not a month went by without a tournament. The most important one was the "Hômén-gekiken-kaî ", which took place in all the city’s quarters. The capital was divided into 6 "hômen", the hômen being a group of quarters. Each one of those groups had some 400 to 500 gekiken adepts. The tournament was organized inside each "hômen" (Tr. N.: as a pre-qualifying system?) and at times some of the "hômen" associated and made bigger groups. Each police station put all their pride and honor in their fighters and was always looking for talented swordsmen.
S. Takano run the 90 policemen practice in Motomachi police station along with some 2 or 3 teachers more. As soon as the daily ji-geiko were over, he’d change his clothes and walk to the police headquartes with the intention of practicing some more. He could not afford to rest for a moment, because it was normal that, even before the Motomachi training was over, he’d receive a telegram (back then, telephone connections between police headquarters and stations were not yet available) from the headquarters saying: “Come immediately to practice”
30.3.05
O KENJUTSU E A POLÍCIA
Em 1879 a prática do sabre tornou-se disciplina obrigatória nas esquadras de polícia. Essa medida foi adoptada em 1877, depois da insurreição dos samurai, reunidos em torno de Saïgo, um dos heróis da restauração Meiji.
Esses samurai do sul tinham lutado, e vencido, para criar um novo regime onde esperavam ter um papel importante, mas a orientação para uma economia industrial e a formação de um exército de alistados, que os privava de sua função habitual, não lhes permitia encontrar o seu lugar. Essa insurreição foi como um fogo de artifício onde se consumia a energia feudal dos que não se podiam inserir nas cadências e nos formatos que a sociedade moderna oferecia. Nesses combates, as armas modernas foram utilizadas, mas também numerosos confrontos foram lutados corpo a corpo, com os sabres a desempenharem um papel importante. Os insurrectos formaram os " kirikomi-taï" (grupos de assalto com sabre) que atacavam principalmente durante a noite.
Esses samurai, originários de Satsuma, tinham sido educados na escola Jigen-ryu. A técnica principal dessa escola consistia em cortar obliquamente o adversário, com um grito estridente que devia ser dado como se se tratasse do último grito da vida. Esse grito de ataque tornou-se num pesadelo para os soldados do governo, pois os ataques eram aterradores e os cadáveres que ficavam estavam normalmente abertos do ombro até ao umbigo. Os ataques eram de tal forma potentes que, por vezes, a guarda do sabre (tsuba) que o soldado tentara usar para se defender, ficava enterrada no seu crânio com a violência do golpe. O treino da escola Jigen-ryu repousava sobre a repetição, batia-se 3000 vezes de manhã e 8000 vezes de tarde contra um poste, usando um bastão e ganhando balanço de uma distância de 5 metros. Relembremos que Sôkon Matsumura, que marcou a história do karaté, praticou o sabre na escola Jigen-ryu durante a sua juventude, nos anos da década de 1820. O seu aluno A. Asato, o mestre de G. Funakoshi, era, ele também, um adepto do sabre dessa escola. Em que medida é que o sabre dessa escola terá influenciado o karaté de Okinawa?
O estado japonês tinha necessidade de um grupo de peritos no sabre capazes de fazer frente aos revoltosos, e formou-o com polícias originários principalmente de famílias samurai. É desse modo que a prática do sabre é reintroduzida nas instituições japonesas, depois de vários anos de desagrado e rejeição. De 1879 a 1883 as esquadras de polícia constituiram um corpo de professores de kenjutsu do qual fizeram parte os grandes peritos do final da era Edo (Bakumatsu). Da lista fazem parte nomes como Umanosuké Ueda, Yoshimasa Kajikawa, Sôsuké Henmi, Shutaro Shimoé, Seikichi Kakimoto, Sekishiro Tokuno, Taîsaku Sakabé, Kanichiro Mihashi, Tadaatsu Shingaî e Naoaki Kanématsu. É nesse quadro que se desenvolveu uma nova fase na prática do sabre japonês que, diga-se, não era ainda designado como kendo. Continuava frequentemente a ser denominado como kenjutsu ou géki-ken.
Em 1885 o judo é integrado nas actividades das esquadras de polícia. Teriam ainda de passar 20 anos até o karaté entrar nas aulas de educação física das escolas de Okinawa e ainda mais 20 até ser apresentado na ilha principal do arquipélago japonês.
KENJUTSU AND THE POLICE
This article was found in http://www.tokitsu.com and translated from french with the authorization of Kenji Tokitsu sensei.
In 1879 sword practice became compulsory in the japanese police force. The measure was adopted in 1877, after the samurai insurrection led by Saïgo, one of the heroes of the Meiji restauration.
Those southern samurai had fought, and won, to create a new regime where they hoped to play an important role, but the orientation towards an industrial economy and the creation of an army of enlistee’s, which deprived them of their usual activity, did not allow them to find their place in society. That insurrection was like fireworks, where the feudal energy of those who did not fit inside the new cadences and formats of the new society was consumed. During those fights, modern weapons were used, but a lot of combats were also fought at close range, and the swords played a very important role. The insurrectionists formed the " kirikomi-taï" (sword assault groups) who usually attacked at night.
Now these samurai, mainly from Satsuma, had been formed in the Jigen-ryu school. The primaryl school’s technique consisted in cutting the adversary obliquely, accompanied by a loud scream, shouted like if it was the last thing you’ll ever do in your life. That fighting scream became a nightmare to the governnent soldiers, because the attacks were terrifying and the corpses left behind were generaly cut open from shoulder to navel. The attacks had such power that, sometimes, the tsuba (sword guard) of the sword that the soldier try to defend himself with, was buried in his skull due of the violence of the strike. Jigen-ryu school training was all about repetition, you’d strike a pole with a stick 3000 times in the morning and 8000 times in the afternoon, running from a distance of 5 meters. Let’s not forget that Sôkon Matsumura, who’s part of karaté history, practiced the Jigen-ryu sword style in his youth, in the years of the 1820’s decade. His student A. Asato, G. Funakoshi’s master, was also an expert of the Jigen-ryu school. How bigger influence had that sword style in the Okinawan karaté?
The japanese government needed a group of sword experts to face the rebels, and formed it with policemen primarily from samurai families. That’s how sword practice is reintroduced in japanese institutions, after a number of years of depreciation and rejection. From 1979 to 1883 the police headquarters established a permanent group of kenjutsu teachers which included some of the greatest experts of the end of the Edo period (Bakumatsu). The list includes names like Umanosuké Ueda, Yoshimasa Kajikawa, Sôsuké Henmi, Shutaro Shimoé, Seikichi Kakimoto, Sekishiro Tokuno, Taîsaku Sakabé, Kanichiro Mihashi, Tadaatsu Shingaî and Naoaki Kanématsu. Within that structure, a new phase of the japanese sword practice was developed, a sword practice that was not yet known as kendo. It was still frequently referred as kenjutsu or géki-ken.
In 1885 judo becomes part of the police headquarters activities. It would be 20 years before karaté entered the physical education classes in the Okinawan schools and another 20 until karaté is presented in the bigger island of the japanese archipelago
29.3.05
A JUVENTUDE DE SAZABURO TAKANO (CONTINUAÇÃO)
Voltemos então à história do mestre de kendo S. Takano que deixámos na altura em que acabava de tomar a direcção do dojo familiar na sua província natal.
Em Março de 1886 S. Takano recebeu uma carta de Tesshu Yamaoka que lhe pedia que, se tivesse oportunidade, se deslocasse a Tóquio para lhe fazer uma visita. Assim que lhe foi possível, Takano fez a viagem e reencontrou-se com o seu mestre que já não via fazia dois anos. Depois de lhe perguntar notícias sobre o dojo de Chichibu, Tesshu continuou:
- A propósito, não quer entrar para a prefeitura da polícia com instrutor de kenjutsu?
- Como?
- Acho que esta proposta lhe deve parecer súbita. Mas o senhor Mishima, o prefeito da polícia, pediu-me para lhe apresentar uma pessoa capaz, em kenjutsu. Então pensei em si. Não precisa de me responder imediatamente, pois tem família e a responsabilidade do seu próprio dojo. Mas reflicta bem. A prefeitura da polícia conta, hoje em dia, com um grande número de peritos em kenjutsu. Se deseja estabelecer-se como um perito de kenjutsu, é uma oportunidade interessante.
E Tesshu continuou a falar:
- Um professor de kenjutsu tem a mesma patente que um simples polícia, mas o seu salário é o dobro. Se aceitar eu recomendo-o à prefeitura.
S. Takano deixa Tesshu e regressa a casa sem lhe dar uma resposta. Mas em breve estará de volta a Tóquio para aceitar a proposta de Tesshu, deixando a sua mulher e os seus familiares sozinhos em Chichibu.
Mesmo se, na força polícial, a patente de um professor era igual a de um simples agente, entrar na prefeitura sendo recomendado pelo célebre Tesshu Yamaoka oferecia-lhe a oportunidade de se confrontar com todos os grandes peritos do sabre que ensinavam então na prefeitura da polícia.
SAZABURO TAKANO’S YOUTH (FOLLOW UP)
Miss him already? Well here we are again. If you wanna know all about the life of this great kendo master just go to http://www.tokitsu.com.
So, let’s go back to the life of kendo master S. Takano, which we left by the time he’d just started taking care of the family’s dojo in his homeland.
Around March 1886, S. Takano received a letter from Tesshu Yamaoka asking him to, as soon as possible, travel to Tokyo to visit him. As soon as he could, Takano made the trip and met again with his master, whom he hadn’t seen for two years. After some questions about Chichibu’s dojo, Tesshu asked him:
- By the way, would you be interessed in joining the police force as a kenjutsu instructor?
- Excuse me?
- I guess this work offer must look a little sudden to you. But mister Mishima, the police commander, asked me to recommend him someone skilled in kenjutsu. Then I thought of you. You don’t have to answer right now, because you have responsabilities like your family and your own dojo. But think about it. The police force, today, has a great number of kenjutsu experts among it’s men. If you want to establish yourself as a kenjutsu expert, this might be an interesting opportunity.
And Tesshu went on talking:
- A kenjutsu instructor has the same rank (in the police force) as a simple policeman, but he earns twice as much. If you accept the offer I’ll recommend you to the force.
S. Takano leaves Tesshu and returnes home without giving him an answer. But soon he’ll be back to Tokyo to accept Tesshu’s proposal, leaving his wife and family back in Chichibu.
Even if, inside the police force, the rank of an instructor equals the simple policeman, being in the force, recommended by the famous Tesshu Yamaoka, offered him a chance to come face to face with all the great swordsmen that taught in the organization back then.
28.3.05
A PROFUNDIDADE DO KENDO
O objectivo do kendo é procurar a plenitude da existência através do combate, no que é acompanhado por um desprezo pelas artimanhas. Eis porque T. Naîto, o rival de S. Takano, recusava que os seus alunos ganhassem em torneios através da utilização de técnicas pouco ortodoxas. Ele preconizava um único golpe ao “men”, dizendo: “Se forem capazes de acertar no “men” como deve ser, todos os outros ataques são possíveis. Convém, por isso, aprofundar o ataque único ao “men”.” Eis o testemunho de um dos seus alunos: “Quando um aluno ganhava um combate utilizando outras técnicas que não “men”, o mestre desdenhava da vitória dizendo: “Se procuras ganhar assim, dessa maneira, nunca poderás crescer no kendo.””
Pelo contrário, se um aluno seu perdia um combate mas mantinha-se fiel à maneira ensinada pelo mestre, ele apreciava a sua maneira de perder o combate, pois a derrota era uma grande oportunidade para cultivar profundamente a percepção.”
Se conseguirem abrir sinceramente a vossa percepção em combate, na via, estarão então convencidos, com toda a certeza, seja da vossa vitória seja da vossa derrota, independentemente da apreciação dos outros. É o que explica que por vezes um kendoka de alto nível, tendo efectuado com sucesso, do ponto de vista dos juízes, os combates de exame de graduação, recuse depois a graduação superior, dizendo: “Acertei os golpes mas não encontrei a plenitude (do combate). Tendo feito um combate tão pouco satisfatório, não posso aceitar subir de graduação.” É óbvio que se trata de adeptos com uma sinceridade fora do normal, mas a consciência que leva a semelhante atitude está, mais ou menos, presente em todos os peritos de kendo de alto nível.
Essa auto-consciência é o que fundamenta as graduações. Ela constitui-se ao longo da formação e do progresso na via do kendo e é indispensável para compreender o kendo, e o budo em geral, em toda a sua amplitude.
Podemos agora entender que nas artes marciais, se possa reconhecer a derrota devido ao auto-reconhecimento de um defeito na nossa própria maneira de combater. É essa tomada de consciência que nos ajuda a avançar na busca da perfeição. Mas qual perfeição? Afinal, é preciso ver que, no kendo, o aprofundamento é atingido através de uma limitação tal das técnicas, que a eficácia atingida não se enquadra directamente nas situações de combate com que nos podemos deparar na vida contemporânea.
O contributo do kendo situa-se num outro nível. A técnica confunde-se com a maneira global de existir de um praticante durante o combate no dojo e esse combate é preparado e vivido no treino quotidiano, o qual se inscreve na continuidade da vida de todos os dias. A prática do kendo ou do budo, nesse nível, começa a confundir-se com a maneira de viver. Desta forma, o budo reafirma que o sabre dos samurai é uma concepção de vida. O que procuramos no combate de kendo é uma forma de existir plena, na qual, uma prova concreta, o confronto em combate, permite seguir a nossa progressão e evitar ilusões. O combate de ki (vontade e energia) apresenta explicitamente todas as técnicas do kendo e é uma realidade clara para todos os kendokas de bom nível. Ao precisar assim o sentido do budo, somos obrigados a reconhecer que o karaté não se encontra ainda integrado, nem em teoria, nem na prática, nessa profundidade e complexidade de percepção, (N.Tr.: feita de) vontade e energia. Não se trata de procurar uma resposta numa dicotomia entre o karaté desportivo e o karaté tradicional, ou clássico, é toda a dimensão do budo e a possibilidade de atingi-la, que este estudo sobre o kendo põe em causa.
THE DEPTH OF KENDO
This text was translated from french to portuguese and then to english; it was written by Kenji Tokitsu, and you can read it in it’s original language here: www.tokitsu.com.
The objective of kendo is to search the plenitude of the existence through combat, and is followed by a disdain regarding cunning. That’s why T. Naîto, S. Takano’s rival, refused to let his students win in tournaments by using unorthodox techniques. He was devoted to the idea of one simple “men” strike, and used to say: “If you manage to hit “men” properly, all other attacks are possible. That’s why you must perfect the single “men” strike.” Here’s the testimony of one of his students: “When one of the students won by using other then ”men” techniques, the master used to desdain the victory by saying: “If that’s the way you intend to win, you’ll never grow in kendo.””
On the other hand, if one of the students loose a fight but kept faithfull to the teachings of the master, he‘d appreciate his way of loosing the combat, because defeat was a great opportunity to deeply cultivate his perception.”
If you manage to sincerely open your perception during combat, following the path, you’ll then be convinced, without a shadow of a doubt, either of your victory or of your defeat, no matter what the others say about it. That’s the best way to explain why, sometimes, high level kendokas, having overcome with success, from the judges point of view at least, their fights during dan exams, refuse to reveive the superior rank, saying: “I hit the adversary but I didn’t find the plenitude (of the combat). Having done a so unsatisfatory fight, I cannot accept getting a higher rank.” Of course, in this case we’re talking of experts with a great sensibility, but the conscience leads to such an attitude is, more or less, present in all high ranked kendo experts. This self-conscience is the basis of all grading. It constitutes itself during formation and progress in the way of kendo and it’s indispensable to understand kendo, and budo in general, in all of it’s magnitude
We’re now able to understand why, in martial arts, we can acknowledge defeat due to the recognition of a flaw found in our own way of fighting. That’s the kind of conscience that helps us in the search for perfection. But which perfection? After all, we know that in kendo, depth is obtained through such technical limitations that the efficiency obtained does not finds a direct usage in the combat situations we may encounter in our daily lives.
Kendo’s contribution is somewhere in another level. Technique merges itself with the global way of existing of the adept during dojo combat, and that combat is prepared and lived in daily training, which inserts itself the continuity of everyday’s life. The practice of kendo or budo, at such level, starts to merge with the way of living. This is how, budo reinstates the sword of the samurai as a meaning of life. What we search in kendo combat is a fulness way of existing, in which, one particular proof, the confrontation in combat, allows us to follow our progresses and avoids illusions. Ki (will and energy) combat explicitly presents all kendo techniques and is an obvious reality to all high level kendokas. When expressing the meaning of budo in such a way, we’re forced to recognize that karaté is not yet integrated, neither in theory nor practice, in such a perception’s depth and complexity, (Tr. Note: made out of) will and energy. It’s not about finding an answer in a dichotomy between sport karaté and traditional, or classic, karaté, it’s the whole budo dimension and the (im)possibility of reaching it, that this study about kendo calls into question.
22.3.05
SHINAIS DE CARBONO, PELA ÚLTIMA VEZ.
Eu estava a reler umas coisas e deparei-me com os posts sobre o peso dos Hasegawa. E lembrei-me que tal dúvida já não é uma dúvida. No meio-tempo que se passou entre os referidos posts e hoje, fiz parte de uma mesa de shinai-check e... aprovei um shinai de carbono.
É verdade.
Se, para além de mim, pobre ignorante, alguém mais tivesse dúvidas, pois bem... estão esclarecidas.
Enfim, que querem? Alguns de nós ainda conseguem achar que ter a certeza sobre a pergunta é tão ou mais importante do que ter dúvidas acerca da resposta.
CARBON SHINAIS, ONE LAST TIME.
Well, well, well, well, well! This is becoming an (bad) habit. But, I'm gonna profit of Easter season being around and redeem myself, once and for all, of another "sin" I committed in the pages of this blog. Yeah, carbon shinais...
I was (re)reading some stuff and came across some posts about the weight of the Hasegawa shinais. And I remembered that doubt it's no longer a doubt. in the midterm between those posts and today, I took part of a shinai-check and... I approved a carbon shinai. That's true.
If, besides me, poor ignorant, anyone else had doubts, well... everything is clear now.
Hey, what do you want, man? Some of us still think that being sure about the question is as important, or more, than maybe knowing the answer.
20.3.05
AS DIFERENÇAS ENTRE A EFICÁCIA NO KENDO E NA ARTE DO SABRE.
Bom, estamos quase a voltar à história dos nossos dois seguidores da arte do sabre, Takaharu Naîto e Sazaburo Takano. Entretanto, se tiverem muita pressa de saber o que se passou, pois dêem um saltinho até http://www.tokitsu.com. Está lá tudo.
No kendo, a percepção no decurso do combate não está apenas centrada sobre o facto de tocar ou ser tocado, mas debruça-se sobre a busca de uma plenitude de si-mesma no acto do combate. É por isso que se diz que o kendo ensina uma maneira de viver. Vimos antes que o kendo não é uma repetição directa da prática da arte do sabre da era dos samurai. Num combate com sabre verdadeiro não era raro que, utilizando artimanhas e/ou técnicas exteriores à prática do dojo, um samurai conseguisse vencer um perito de nível superior. Os samurais que se preparavam para combater até à morte na época feudal, previam e preparavam o combate de uma maneira que ultrapassava largamente a prática no dojo.
Os anos de 1850-1870 viram florescer a arte do sabre. Entre as escolas que ganharam importância, a escola "Ryu go ryu" desenvolveu-se devido à sua eficácia. “Ryu” significa “salgueiro” e “gô” quer dizer “força” e o fundador dessa escola sentiu-se iluminado quando, num dia de mau tempo, observou os ramos dos salgueiros que batiam na superfície da água de um rio. Convém lembrar que no século XIX a arte do sabre, o kenjutsu, desenvolveu-se e aprofundou-se, sobretudo, através da prática dos dojos. Os peritos procuravam a profundidade e a eficácia da arte, limitando, no entanto, o número de técnicas em relação às que tinham sido usadas na época das guerras feudais. As codificações técnicas e as regras dos exercícios de combate foram instituídas tendo em vista facilitar a busca da profundidade e constituiram a estrutura de uma arte do sabre que era denominada tanto kenjutsu como gekiken. Arte essa que, dentro desse quadro estrutural, atingiu um nível notável no fim da época Edo.
Mas a eficácia da escola "Ryu go ryu" consistia principalmente em pôr em causa esse mesmo quadro estrutural que regia a arte do sabre nessa época. A especialidade da escola consistia em baixar-se repentinamente durante o combate e destruir tíbia do adversário, manejando o sabre com a mesma rapidez e flexibilidade de um ramo de salgueiro que chicoteia a água. Essa técnica tinha sido rejeitada como “suja”, “vulgar”, “desviada da via”, “perversa” e, por isso, esquecida. Mas, em combate, certos peritos de alta reputação foram batidos pelas técnicas “perversas” da escola "Ryu go ryu". No final da era Edo (baku-matsu), os confrontos civís tornaram-se frequentes; os samurai tiveram de combater fora dos dojos e o kenjutsu foi posto em causa. Essa foi a razão pela qual a escola “perversa” se tornou popular entre os adeptos do sabre. Um pouco mais tarde, quando a corrente modernista (N.T.: de modernização do Japão) triunfou, a classe samurai foi dissolvida e o porte do sabre proibido. O significado da prática do sabre mudou progressivamente nos finais do séc XIX, virando-se de novo no sentido da interiorização e surgiu o kendo. As técnicas foram limitadas e é nesse novo quadro que os adeptos do kendo procuram a profundidade do combate.
Essa mudança qualitativa marca a nascença do budo.
THE DIFFERENCES BETWEEN EFFECTIVENESS IN KENDO AND IN THE SWORD ART.
Well, we are almost ready to go back to the lifestorys of our two followers of the sword art, Takaharu Naîto and Sazaburo Takano. Meanwhile, if you’re in a hurry to know what happened, all you have to do it’s to go to http://www.tokitsu.com. It’s all there.
In kendo, perception during the fight isn’t only centered about to touch or being touched, but it also focuses itself about the fullness of itself while in combat. That’s why it’s said kendo teaches a way of living. We’ve seen earlier that kendo is not a direct repetition of the samurai’s art of the sword practice. During a real sword fight it wasn’t a rare event that, by being triky and/or using out of the dojo techniques, a samurai would beat an adversary who was a better fighter than he was. Samurai who prepared themselves to fight to death during the feudal era, predicted and prepared their combats in a way that exceeded largely their daily practice inside the dojo walls.
The years between 1850-1870 saw the flourishing of the sword art. Between the scholls that gain importance, the "Ryu go ryu" school developed itself because of it’s effectiveness. “Ryu” means “willow” and “go” means force and the founder of the school felt enlightened while observing the branches of a willow, during a windy day, and how they whipped a river surface. We must now remember that during the XIX century the art of the sword, kenjutsu, developed itself mostly through the practice inside dojos. The experts were for the depth and efficiency of the art, limiting, however, the number of techniques that had been used in the feudal wars era. Technical codifying and rules in the exercices were created in order to facilitate the search of depth, and became the structure of the art of the sword, which was back then called either kenjutsu, or gekiken. And it was inside that same structure, that the art acchieved a remarcable level by the end of the Edo era.
But the effenciency of the "Ryu go ryu" school consisted mainly in staying out of the structure that ruled the art of the sword back then. The school specialty consisted in lowering the body suddenly during the fight and destroying the adversary’s tibia, using the sword with the same speed and flexibility of the willow’s branch whipping the water. That technique had been rejected as being “dirty”, “rude”, “deviated from the way”, “perverted” and therefore, forgotten. But during combat, a number of high level experts were beaten by the "Ryu go ryu" school’s “dirty” techniques. By the end of the Edo era (baku-matsu), civilian conflicts became frequent; samurai had to fight out of the dojos and kenjutsu was questionned. That’s the reason why that “perverted” school became very popular among the followers of the sword. Some time later, when the modernist tendency triumphed, the samurai class was abolished and the use of the sword forbidden. The meaning of sword practicing changed gradually in the end of the XIX century, turning again to the search of a sense of internalization and that’s when kendo appeared. The number of techniques were limited and that’s inside that new structure that the kendo followers search for the depth of combat.
That qualitative change marks the birth of budo.
