29.10.05
A ESCOLHA 4 (E ÚLTIMO)
Continuo a dizer: não. Se a percentagem daqueles que não continuam é tão grande é porque algo falha. E não foram eles. As pessoas foram lá. Venceram os obstáculos que se interpunham entre elas e o kendo. Arranjaram coragem, uma t-shirt velha e umas calças de fato-de-treino e foram lá ver como é que era. Foram ver e, aos seus olhos, surgou uma "coisa" completamente hermética, anacrónica e desprovida de sentido prático.
Claro que estamos naquela altura em que se pode escrever 300 páginas sobre a tradição nas artes marciais, como se dá a passagem de ensinamentos e tudo o que isso acarreta, mas isso já foi feito antes (Le ki et le sens du combat de Kenji Tokitsu, por exemplo) e muito melhor do que alguma vez eu o poderia fazer, mas a conclusão óbvia a que chego é sempre a mesma: muitas vezes não somos capazes de mostrar a quem chega pela primeira vez ao dojo o que é o kendo.
A culpa, meus amigos, não é do kendo. O kendo tem tudo para ser praticado por toda a gente.
A culpa, assim, só pode ser nossa.
A ESCOLHA 3
Mas o mais interessante de tudo é que também eu passei, à medida que o treino continuou, a encarar de uma maneira diferente o kendo e os seus objectivos.
(Façamos aqui um pequeno parenteses. Os livros, todos os possíveis, foram durante algum tempo o suporte da minha busca. E, já o disse antes, se os livros podem ser um precioso auxiliar também podem ser uma fonte de erros e frustações. Não tenho menor pudor em repetir o que já disse mais do que uma vez: talvez 85% da literatura que existe no nosso meio (das artes marciais) é o mais completo lixo. Uns 14% serão bons/úteis tecnicamente; o restante 1% é excepcional e ajuda (mesmo) a compreender melhor o âmago das artes marciais modernas, que o mesmo é dizer, do budo.)
Mas adiante, hoje porém, estou convencido que os objectivos do kendo são muito mais simples do que alguma vez eu o poderia imaginar.
Para mim, o objectivo do kendo... é o kendo. Só isso.
É como se diz: “the media is the message”. O objectivo do kendo é o keiko. É ele próprio. Por isso, eu sou da opinião que são as pessoas que escolhem ficar no kendo. Que investem no kendo. Porque, é mais do que claro, tem de haver um investimento pessoal. As pessoas que desistiram, na maior parte das vezes, estou convencido que viram apenas o esforço dispendido em tentar acompanhar uma ou duas aulas. Não conseguiram ver o gozo que daí pode advir. Estavam à espera de algo imediato.
Fizeram a escolha certa. O kendo é para eles. Faltou foi paciência.
A ESCOLHA 2
Para todos. Brancos e pretos, novos e velhos, homens e mulheres. Todos.Entre a percentagem mínima daqueles que depois de um contacto com o kendo decidem continuar a praticar, deve ser ainda muito menor o número dos que podem dizer que o kendo correspondeu às suas expectativas.
Que quer isto dizer? Na minha modesta opinião, a maior parte das pessoas não tem, ou tem uma ideia muito mal concebida, daquilo que os espera quando entram numa aula de kendo pela primeira vez.
Misticismo, esclarecimento espiritual, mero treino físico, tudo serve para explicar os porquês de continuar e de desistir do kendo.
Mas há uma palavra que a meu ver, e disse-o no artigo que escrevi em Janeiro de 2001 para a Revista Demais do Diário Econômico, descreve a diferença essencial entre quem continua e quem desiste da prática do kendo. Essa palavra é paciência. E paciência, porquê?
Paciência, porque os objectivos (ou benefícios?) do kendo não estão imediatamente à nossa frente quando se começa a praticar.
Paciência, porque muitas vezes os objectivos que surgem à nossa frente, depois de termos tido muita paciência a tentar identificá-los, não são o que pareciam.
Paciência, porque até os objectivos que são verdadeiramente importantes numa determinada fase da vida do kendoka, como a competição, por exemplo, mudam e deixam de o ser à medida que a vida, o treino e a idade progridem.
Por essas e por outras se diz que é o kendo que escolhe os seus praticantes. Mas, na minha opinião, o kendo é para todos. Foi concebido para tal. Esses são os princípios do budo (ver artigos 1 e 2 da cartilha da Associação Japonesa de Budo). O kendo pode ser praticado dos 7 aos 77 anos de idade (e mais). Pode-se começar a praticar aos 30 anos (ou mais, como eu). Pode-se começar aos 40 ou aos 50. Dirão, irónicos: “Uma pessoa que comece aos 30 ou 40 vai ter uma grande carreira de competição.” Mas quem disse que o kendo é competição? Quem disse que para se fazer kendo tem de se fazer competição?
Como diz Inoue Yoshihiko, 8º dan Hanshi: “o do é o “coração” do kendo e (...) a competição é mais uma demonstração de jutsu (técnica) do que de do (via, caminho)(...)”
É tudo uma questão de objectivos e de paciência.
28.10.05
INTERVALO (PARA UM "PEQUENO" KAESHI-DO)

Na 4ª estava a falar com o Pedro acerca de kaeshi-do e lembrei-me deste lindíssimo instantâneo que me acompanha em todos os computadores por onde passo (muitas vezes como wallpaper). Espero que gostes.
Isto é que é um kaeshi-do do caraças. Às vezes, se se olhar com atenção, até se ouve o estalar do shinai no... olha, ouviste?
27.10.05
A ESCOLHA 1

Num dos posts do recém-nascido, e já moribundo (?), fórum não oficial da APK alguém pergunta “porquê o kendo?”. Apesar de recorrente, não posso deixar de concordar que a pergunta é sempre pertinente.
Um dos chavões mais repetidos do mundo do kendo é que as pessoas não escolhem o kendo, mas que é o kendo que as escolhe a elas. Ouvi-o cá, tal e qual como o ouvi em muitos outros lugares. Na verdade, parece que sempre que dois kendokas que não se conhecem, permanecem mais de 5 minutos no mesmo local a pergunta surge sempre, inevitável: “Então e tu, porque é que...?”
As respostas variam, mas não muito, apesar do que se possa pensar. Para facilitar o raciocínio vou dividí-las em três grandes grupos:
Grupo 1 - Grande parte dos inquiridos já praticou outra arte marcial antes e o interesse em aprofundar um pouco mais a sua cultura geral sobre a mesma, leva muitas vezes a cruzamentos de informação, onde inevitavelmente o kendo aparece como referência.
Grupo 2 - Outros ficaram curiosos perante o visual estranho e agreste (para não dizer brutal) dos praticantes de kendo. Documentários, simples fotografias ou até mesmo demonstrações são, na maior parte das vezes, responsáveis pela atracção visual (inegável e a um tempo bizarra) que um kendoka completamente equipado exerce sobre os espectadores.
Grupo 3 - Outros ainda, regra geral mais novos, chegaram ao contacto com o kendo de maneiras mais estranhas e bem menos ortodoxas, através de jogos de vídeo, filmes, manga, animé, role-play, etc, etc.
Seja como fôr, o mais interessante porém, e o que ninguém pergunta, é porque é que as pessoas que continuaram a praticar kendo o fizeram. Essa parece-me ser a pergunta crucial, a qual nos leva de novo para o famoso e já referido chavão “Não são as pessoas que escolhem o kendo, é o kendo que escolhe as pessoas.”
E tendo em conta a ínfima percentagem dos que continuam, tudo leva a crer que o mesmo será exacto. Veremos.
26.10.05
O MEN DA VITÓRIA
53ºs CAMPEONATOS DO JAPÃO

É já no próximo dia 3 de Novembro que, como todos os anos, tem lugar no Budokan de Tóquio, o campeonato da All Japan Kendo Federation (AJKF). Este ano, a ausência de maior monta parace ser a de Chikamoto, o vencedor de há dois anos atrás. Suzuki, o campeão em título estará presente, assim como o vencedor de há três anos Kaigo Ando e o inevitável e eterno perdedor Harada. Ausentes também estarão os dois Satos, o Mitsunobu e o outro... aquele que foi campeão do mundo em Glasgow... como é que raio o gajo se chama?
Enfim, dia 4 de Novembro corrida aos computadores para saber quem foi o campeão de 2005.
24.10.05
REI-GI (ETIQUETA)
O rei-gi do kendo é um procedimento correcto (que pode ser adaptado**) como modo de tratamento para com todas as pessoas com que se lida nas actividades diárias. No kendo, uma falha no comportamento é uma falha moral para o carácter e para o treino do kendoka. Em termos práticos o kendo é uma forma de arte (marcial***) cujo propósito é derrotar um adversário num combate mental e físico. Na ausência de regras de etiqueta do princípio ao fim, o kendo transforma-se numa mera briga com o oponente, tendo com o único objectivo vencer a qualquer custo. Kendo com rei-gi, por outro lado, permanece uma arte marcial e o adversário a bater somos nós próprios. Com isso em mente, devemos ser agradecidos ao nosso adversário quando ele nos atinge, pois ao expôr a nossa fraqueza permite-nos melhorar. Porque a prática do kendo é uma permuta de técnicas, o kendoka deve sempre ser educado para com a pessoa que lhe oferece semelhante presente.”
Post-scriptum do tradutor - A etiqueta e comportamento dentro do dojo de kendo (bem como de muitas outras artes, marciais e não só) são fruto de uma evolução que dura há literalmente centenas de anos e cujo principal mentor tem sido uma escola de etiqueta e boas maneiras fundada, se a memória não me falha, aproximadamente no século XIII, na era Muromachi, escola essa apelidada Ogasawara Ryu Reihou. É claro que não vivemos no Japão do século XIII e é também muito claro para todos que não vivemos sequer no Japão; então, não deixará de ser legítimo perguntar até que ponto são estes ensinamentos práticos para o nosso dia-a-dia?
De um modo geral, eu diria que se trata sobretudo de um investimento pessoal. Daí ter acrescentado uma nota numa das traduções onde digo que esse tipo de comportamento pode ser adaptado e onde a palavra “adaptado” deve ser entendida como sinónimo de moldado, actualizado, reciclado de acordo com o bom-senso do utilizador e do meio onde o mesmo está inserido.
De um modo muito interessante, Keishousai Ogasawara, a actual presidente da Ogasawara Ryu Reihou responde:
"A forma (da etiqueta) pode variar com o tempo e com o estilo de vida, mas o fundamental é que o coração não mude seja qual for a situação."
* texto editado pelo tradutor
** nota do tradutor
*** idem
19.10.05
AH, O CHÃO, O CHÃO.
Ahahaha ahaha.
Eh pá, desculpem lá, mas não resisti; ainda hoje, acho que era o Jorge, me perguntava como era o chão de Kitamoto. Pois malta aqui está ele. O verdadeiro (juro, juro) chão do dojo da Gedatsukai de Kitamoto. Depois do céu de Kitamoto, aqui está ele, meus amigos: o CHÃO. Pá... eu ahahaha... já passou... ui ui ah ahah ahaha.
13.10.05
ESTÁGIO EM ÉVORA
Confesso que quando olhei para o programa senti um arrepiozinho na espinha. Parecia mesmo o programa diário de Kitamoto.
Para saber tudo basta ir até ao site da APK e clicar em “Novidades”.
Eu tou lá.
10.10.05
KENDO NÃO É FUTEBOL
Não, não me preocupa a posição do ranking em que vou ficar, se me vou classificar directamente para a selecção (muito pouco provável, aliás) ou se me vou sequer classificar ou qualquer outro problema existencial do género.
Não é isso. Só me pergunto se as pessoas terão feito uma avaliação correcta das afirmações de Osaka sensei no encerramento do Torneio na Arrentela ou se será só uma paranóia minha. Eu explico:
No final do torneio o senhor Osaka verbalizou o seu contentamento em relação à melhoria da qualidade técnica dos participantes do evento. É verdade. Então, se ele o diz, deve ser mesmo verdade. Mas o que o senhor Osaka não diz, e nunca o dirá com certeza, é que ser árbitro, para além de uma enorme dor nas costas ao fim do dia, também proporciona a oportunidade de ver tudo o que se passa no shiaijo com uns olhos muito mais atentos. E se por um lado uma maior competitividade traz consigo uma melhoria evidente das qualidades técnicas dos participantes, por outro lado, infelizmente, também trouxe uma avidez de vitória a todo o custo que não honra em nada esta actividade que supostamente, todos adoramos praticar.
Vi (Vimos todos? Ou será que sonhei?) algumas coisas que me deixaram muito triste. Vi alguns gestos de mau perder, vi autênticas agressões (e tentativas de agressão) dentro do shiaijo, vi pessoas que nunca deviam estar numa competição, porque claramente não estavam física e/ou intelectualmente preparadas para tal. Isto tudo acontece em nome de quê? Oh malta, desenganem-se, não vale a pena. Não vão fazer anúncios para o BES ou ter contratos milionários com a Nike, só porque participam e eventualmente ganham um torneio de kendo. Isto não é futebol. Nós temos obrigação de ser melhores do que esses péssimos exemplos de anti-desportivismo com que nos deparamos todos os dias.
O mais importante não é ganhar ou perder.” Disse-me um senhor japonês este Verão em Kitamoto, durante as aulas de arbitragem. E continuou: “O mais importante é saber ganhar e saber perder.”
Faço minhas as suas palavras, Shimojima sensei.
9.10.05
BUDO KENSHO

A Cartilha do Budo
O budo, as artes marciais japonesas, tem as suas origens no antigo espírito marcial do Japão. Durante séculos de mudança histórica e social estas formas de cultura tradicional evoluiram passando de técnicas de combate (jutsu) a métodos de auto-aperfeiçoamento (do).
Buscando a perfeita unidade entre a mente e a técnica, o budo tem sido refinado e cultivado métodos de treino físico e desenvolvimento espiritual. O estudo do budo encoraja o comportamento cortês, desenvolve as capacidades técnicas, fortalece o corpo e aperfeiçoa a mente.
Os japoneses modernos herdaram os valores tradicionais através do budo, o qual continua a desenpenhar um papel importante na formação da identidade japonesa, servindo de fonte de inesgotável energia e rejuvenescimento. Por isso, o budo atraiu um forte interesse internacional e é hoje estudado por todo o mundo.
No entanto, a forte tendência actual para uma valorização excessiva da habilidade técnica, aliada a um desejo desmesurado de ganhar, constitui uma séria ameaça à essência do budo. Para prevenir possíveis mal-entendidos, os praticantes de budo devem compenetrar-se numa auto-avaliação e esforço contínuos para aperfeiçoar e preservar esta cultura tradicional.
É com esta esperança em mente que nós, os membros da Japanese Budo Association (Associação Japonesa de Budo), criámos esta Cartilha do Budo, de modo a preservar os princípios funtamentais do budo.
ARTIGO 1: OBJECTIVO DO BUDO
Através do treino físico e mental nas artes marciais japonesa, os praticantes do budo buscam o reforço do seu carácter, o melhoramento do seu raciocínio e procuram tornar-se indivíduos disciplinados, capazes de contribuir para sociedade no seu todo.
ARTIGO 2: KEIKO (Treino)
Ao treinar um budo, os praticantes devem sempre agir com respeito e cortesia, aderir aos fundamentos requeridos pela arte e resistir à tentação de perseguir meras habilidades técnicas, mas antes concentrar-se na união perfeita entre a mente, o corpo e a técnica.
ARTIGO 3: SHIAI (Competição)
Quando em competição ou demonstração de técnicas (kata), os praticantes devem exteriorizar o espírito subjacente ao budo. Devem sempre dar o seu melhor, ganhar com modéstia, aceitar a derrota graciosamente e exibir constantemente auto-controle.
ARTIGO 4: DOJO (Local de treino)
O dojo é um local especial onde de se treina a mente eo corpo. No dojo, ops praticantes de budo devem preservar a disciplina e mostrar autêntica cortesia e respeito. O dojo deve ser sossegado, limpo, seguro e de ambiente solene.
ARTIGO 5: ENSINO
Os professores de budo devem encorajar sempre os alunos para se esforçarem no seu aperfeiçoamento e treinarem afincadamente as suas mentes e corpos, continuando a melhorar o seu entendimento dos princípios técnicos do budo. Os professores não devem permitir que seja dado enfâse à vitória ou derrota em competição ou à mera habilidade técnica. Acima de tudo os professores têm a responsabilidade de ser exemplos a seguir.
ARTIGO 6: PROMOÇÃO DO BUDO
Os promotores do budo devem manter uma atitude aberta e uma perspectiva internacional ao preservar os valores tradicionais. Devem esforçar-se para contribuir na pesquisa e no ensino e fazer o seu melhor para desenvolver o budo de todas as maneiras.
ORGANIZAÇÕES MEMBROS DA ASSOCIAÇÃO JAPONESA DE BUDO:
Zen Nihon Judo Renmei (Federação Japonesa de Judo)
Zen Nippon Kendo Renmei (Federação Japonesa de Kendo)
Zen Nihon Kyudo Renmei (Federação Japonesa de Kyudo)
Zen Nihon Karatedo Renmei (Federação Japonesa de Karatedo)
Zen Nihon Naginata Renmei (Federação Japonesa de Naginata)
Zen Nihon Jukendo Renmei (Federação Japonesa de Jukendo)
Aikikai (Fundação Aikikai)
Shorinji Kempo Renmei (Federação de Shorinji Kempo)
Nihon Sumo Renmei (Federação Japonesa de Sumo)
Nippon Budokan (Fundação do Nippon Budokan)
7.10.05
2.10.05
RESULTADOS DO TORNEIO DE LISBOA
COMPETIÇÃO MASCULINA
1º Nuno Ricardo (AKP)
2º Paulo Martins (AKL)
3º Alexandre Figueiredo (AKL)
3º Manuel Rodrigues (AKL)
Fighting Spirit
Luis Sousa (AKL)
COMPETIÇÃO FEMININA
1º Szilvia Bozzai (AKL)
2º Diana Cunha (AKP)
3º Natacha Santos (AKL)
3º Aida Aleixo (AKP)
Fighting Spirit
Heloísa Santos (AKP)
Parabéns para todos os participantes que, como Osaka Sensei mencionou repetidamente, apresentaram um kendo bastante melhor que na última vez.
Os restantes resultados podem ser encontrados no site da APK, em http://www.kendo.pt.
30.9.05
TORNEIO DE LISBOA, AMANHÃ.
O horário deverá ser o seguinte:
12h30 - 13h30 - Shinai Check;
13h45 - Cerimónia de abertura;
14h00 - Início do Torneio;
18h30 - Entrega de prémios e encerramento;
Vou estar na equipa de arbitragem desta vez, o que quer dizer que não vou ter o prazer de cruzar shinais com os competidores; paciência, encontramo-nos em Coimbra.
Lembrem-se que o que importa é:
Vencer antes de marcar ippon e não marcar ippon para vencer.
A todos os participantes desejo as melhores felicidades e sobretudo que tenham um bom keiko.
22.9.05
MAIS KITAMOTO AINDA
MAIS KITAMOTO
Como se pode ver, claramente aliás, pelo nome escrito no TARE, lá estou eu em Kitamoto.
Eh pá, não é vaidade; é que eu adorei tanto a experiência que às vezes até me custa a acreditar que aconteceu mesmo. E as fotos ajudam a acreditar. É só isso.
Nota: Acho que clicando na foto ela aumenta
Nota 2: Esta foto foi retirada de http://www.isenokami.com/Kendo/kitamoto2005/KITAMOTO2.html .
8.9.05
BOKUTO NI YORU KENDO KIHON-WAZA KEIKO-HO 3
A verdade é que o Bokuto Waza (BW), chamemos-lhe assim, permite ter uma maior e mais profunda, "consciência" do funcionamento da espada. O BW foi criado, segundo reza a história, com o objectivo de dar às gerações de kendokas mais novas, cada vez mais absorvidas pela componente desportiva do shinai kendo, uma perspectiva quase que histórica*, que em última análise se reflectirá numa utilização mais correcta do shinai.
Resumindo, é a necessidade de conhecer do passado com vista a melhorar o futuro.
Funciona? Não sei o que lhes dirão os outros. Eu, ao fim de apenas oito dias, senti uma diferença brutal na maneira como o meu shinai kendo funciona, ou melhor, como deveria funcionar, porque não é fácil.
* Ousaria dizer que foi o mais próximo do kenjutsu que alguma vez me senti.
Voltaremos ao assunto.
6.9.05
BOKUTO NI YORU KENDO KIHON-WAZA KEIKO-HO 2
Então e quais são essas técnicas? Pois cá estão elas:
Kihon Ichi: Ippon-uchi no waza - Men, Kote, Do, Tsuki.
Kihon Ni: Ni/Sandan no waza - Kote Men.
Kinon San: Harai waza - Harai Men.
Kihon Yon: Hiki waza - Men Tsubazeriai kara no Hiki Do.
Kinon Go: Nuki waza - Men, Nuki Do.
Kihon Roku: Suriage waza - Kote, Suriage Men.
Kihon Shichi: Debana waza - Debana kote.
Kihon Hachi: Kaeshi waza - Men, Kaeshi Migi-Do.
Kihon Kyu: Uchiotoshi waza - Do, uchiotoshi Men.
Ao praticante que executa as técnicas dá-se o nome de kakarité, ao outro, o que recebe, dá-se a designação de motodachi.
Fazendo a "equivalência" para kendo kata, kakarité seria shidachi e motodachi seria uchidachi*.
Voltaremos.
*Que o mesmo é dizer que motodachi acaba sempre morto, ou com uns cortes a mais, do que quando começou.
23.8.05
KITAMOTO 2
Neste link, aqui mesmo acima, poderá encontrar centenas de fotos do estágio de Kitamoto 2005. E quando digo "centenas" não é força de expressão. São exactamente 830 fotos (creio que) da autoria de Uemura sensei.
17.8.05
ROOM 306
10.8.05
KITAMOTO 1
9.8.05
LEMBRANÇA
8.8.05
BOKUTO NI YORU KENDO KIHON-WAZA KEIKO-HO
"Prática das técnicas fundamentais de Kendo com utilização de Bokuto."
A minha grande surpresa durante os oito dias em Kitamoto. Muito útil. Os rapazes (da ZNKR) de facto, não dão ponto sem nó, como se costuma dizer.
Nove "kata", chamemos-lhes assim, destinados a recuperar o conceito original de "como cortar" utilizando uma espada japonesa.
A katana ensinada aos novos e lembrada aos velhos. Onde é que eu já ouvi isto?
Mais sobre o assunto em breve.
7.8.05
POIS JÁ LÁ VAI.
E no entanto é, assim mesmo, essa mesma palavra a mais adequada para descrever o que se passou nos intensos oito dias do estágio que se desenrolou nessa parte do subúrbio adormecido, dormente e escaldante ao norte da imensa Toquio.
Isto está tudo muito confuso. Eu volto amanhã, quem sabe (?), já com fotografias.
11.7.05
MEMÓRIA INESQUECÍVEL DO ANO QUE PASSOU (2).
4.7.05
KITAMOTO BABY, KITAMOTO
De 27 de Julho a 3 de Agosto, eu, e mais o nosso ilustre doutor Nuno Serrano, estaremos presentes, assim corra tudo bem, no 30th Foreign Kendo Leaders’Summer Seminar 2005.
Oito dias de kendo kata, kendo keiko, kendo shiai, kendo shimpan, kendo, kendo e mais kendo e kendo e kendo.
A começar às 6 e meia da matina e a acabar todos os dias às 8 e meia da tarde.
Iiiaaah.
1.5.05
O FIM DE UM CICLO
29.4.05
OS ÚLTIMOS COMBATES DE S. TAKANO E T. NAÎTO
O site do sensei Kenji Tokitsu (http://www.tokitsu.com), que amavelmente me cedeu estes textos sem pedir nada em troca, dispõe de muitos mais, não só sobre kendo, mas também relacionados com outros assuntos do mundo do budo.
Se conseguir ganhar coragem talvez tente traduzir mais umas coisas interessantes.
Para já, vou parar um bocadinho.
Treinem mais, melhor e sobretudo, divirtam-se quando o fizerem.
Obrigado pela atenção.
Por altura do ano 1900, os dois adeptos Takano e Naîto estão entre os dez maiores mestres de kendo do Japão. Quando as suas reputações começam a ecoar no mundo do kendo japonês, uma questão surge naturalmente: “Se eles combaterem quem ganhará? No espírito dos dois praticantes o outro está sempre presente e essa consciência aguça-se junto das respectivas comitivas.
No mês de Maio de 1901, por ocasião do sexto torneio do Butoku-kaî, os dois rivais reencontram-se de novo. Eis aqui o relato do combate tal como está preservado no "Kendo-sangoku-shi":
“Têm ambos 40 anos e estão no pleno de força e de espírito. O encontro é digno de representar o mais alto nível do kendo japonês. O juíz principal é Kanichiro Mihashi. Takano usa um do (plastrão) vermelho e o de Naîto é negro, o contraste é marcante. Uma calma profunda enche o Butokuden. Takano assume a guarda em seigan (média) e Naîto em gedan (baixa).
"Eéé...!!", Takano lança um kiai enquanto que Naîto permanecendo mudo levanta, pouco a pouco, a ponta do shinai. Takano recua o seu pé esquerdo de um passo. Os espectadores retêm a respiração ao contemplar o combate.
O ki dos dois mestres choca-se no espaço em faíscas invisíveis. Cada um procura captar com o seu espírito, aquilo que oculta o do outro. Por instantes o shinai de Takano agita-se. "Eyaa !!", no instante que vai atacar o men (cabeça) do seu adversário, Naîto lança o seu shinai como um relâmpago para atingir o kote (pulso) de Takano e marca o primeiro “ippon” (um ponto).
No segundo combate Takano assume jodan (guarda alta), enquanto Naîto opta por seigan (guarda média). Durante um momento permanecem imóveis e a tensão prende os espectadores.
"Tôo !!", Naîto atira-se com um violento tsuki (ataque à garganta) mas Takano girando o seu corpo para a direita ataca diagonalmente o men (yoko-men) de Naîto. O juíz levanta a mão e anuncia o ippon de Takano...”
No decurso desse encontro, nem um nem outro ganha o terceiro combate e separam-se sem que haja vencedor ou vencido. Os dois rivais vão-se ainda encontrar várias vezes ao longo da vida, mas nem um nem outro conseguirá obter uma vitória definitiva. Ambos contribuiram de modo importante na constituição do kendo no Japão, mantendo-se sempre críticos para com a tendência do kendo para se afastar cada vez mais do espírito da espada dos samurais.
T. Naîto sobretudo, mesmo na sua vida privada, comportava-se tendo como referência o modelo do “bushi”. Por exemplo, proibia os seus alunos de despejar saké rodando a garrafa para o exterior (com a palma da mão para cima), pois essa maneira de despejar está reservada para molhar o sabre no momento de cortar a cabeça, quando se ajuda um samurai a fazer seppuku. Proibia todas as roupas que tivessem de se vestir por sobre a cabeça, pois quando cobrimos a cabeça, criamos um momento vulnerável. No Japão é normal que um discípulo ou um aluno carregue as bagagens do mestre, mas ele nunca permitiu que carregassem o seu shinai ou o kendogu, pois são assuntos pessoais de um bushi que nunca se deve separar da sua arma... vivendo assim como um samurai, a sua vida material era simples, pobre até. (…) Acabou a sua vida sem nunca ter possuído casa própria. O saké parece ter sido o seu melhor companheiro. Depois de cada treino de manhã, à tarde e à noite, bebia grandes quantidades de saké, o que deve ter contribuido para encurtar a sua vida.
Foi em 1928 que T. Naîto e S. Takano efectuaram o seu último combate, aquele que já analisámos em artigos precedentes. Em 1929, é decidida a organização de um torneio com a presença do Imperador. Naîto opõe-se até ao último momento, pois essa decisão surge como uma ordem vinda do próprio Imperador. Diante dos que lhe anunciam a ordem do soberano, Naîto inclina-se profundamente dizendo: “Não posso senão aceitar se essa decisão é ordem de Sua Magestade.”
Ao voltar a Quioto, porém, queixa-se: “É assim que o kendo do Japão vai morrer.” Ele desejava que o kendo permanecesse fora da alçada imperial, pois a presença do Imperador conferia uma consciência honorária irremediável que se arriscava a provocar vaidade no kendo. Ia-se tentar ganhar em vez de aprofundar a qualidade da prática. Para T. Naîto, um torneio não era senão uma ocasião para treinar, onde importava mais a qualidade da prática do que a vitória. A ironia do destino fez com que Naîto fosse nomeado presidente dos árbitros para esse torneio. Mas, na véspera do evento, acabou por escapar a esse papel que o contrariava. Uma morte súbita levou-o. Tinha 68 anos.
S. Takano viveria até 1950. A sua vida, longa de 89 anos foi consagrada à espada e deixou marcas incontornáveis no kendo japonês. Os seus últimos alunos têm hoje à volta de 70 anos e desempenham um papel decisivo no kendo actual. Takano continuou a ensinar na Escola Normal Superior mesmo depois dos 80 anos. Gostava de falar e falava bem. Escutemos um dos seus alunos: “Ele mostrou-nos as suas mãos que pareciam patas de urso. A pele das costas da mão era espessa e dura como a de um hipópotamo. Ele dizia: “Toque na palma da minha mão. Não é suave e macia como a pele de uma virgem? Se têm bolhas ou calos na palma da mão, isso deve-se a uma falta de precisão na maneira como seguram o shinai. É preciso segurar-lhe sem que a palma da mão endureça.” Esse era o seu ensinamento.”
28.4.05
BUDO SENMON GAKKÔ – A ESCOLA ESPECIAL DE BUDO
Obrigado http://www.tokitsu.com por tão gráfica elucidação.
Em 1902, em ligação com o Butoku-kaî, é formada o Instituto de Formação de Professor de Budo. A partir dessa experiência a “Escola Especial de Budo” é constituída em 1912. A duração do curso era, a princípio, de 3 anos, depois passou para 4. Aí, ensinava-se principalmente o kendo e o judo, de uma maneira particularmente dura. Eis o testemunho de H. Hiromitsu, estudante dessa época:
“Os ferimentos eram bastantes entre os estudantes. Muito renunciaram ao curso devido à sua dureza e alguns dos meus amigos morreram mesmo. Era frequente que os colegas vomitassem através da grade da máscara de protecção, próximo do poço. Como transpirávamos muito, urinávamos pouco, mas com sangue à mistura. Um dia, o meu tio foi assistir ao treino. Nunca esquecerei que me disse: “Volta comigo para casa. Não poderás sobreviver aqui, mesmo que tenhas várias vidas.” Então pedi-lhe que não dissesse nada, sobretudo à minha mãe que morria de inquetação por mim.”
O princípio dessa escola era aprender sem palavras, segundo a orientação que Naîto e os outros mestres tinham adoptado. Essa atitude de ensino contrasta com o de Takano, que dava vastas explicações no decurso dos seus treinos. E essa diferença reflectiu-se na prática das escolas de Este e Oeste.
J. Furusé testemunha: “Chegávamos a um limite onde não conseguíamos fazer nada. Mas nesse estado de “quase-morte” era nossa obrigação descobrir força através do kiai e apoiarmo-nos solidamente no chão para continuar a combater. Essa experiência de investir a própria vida no treino é inesquecível. Ela ajudou-me mais tarde em diferentes fases da minha vida. Devo agradecimentos por esse tipo de treino.”
Através dos testemunhos dos alunos podemos adivinhar a experiência que deve ter sido a juventude de Naîto. Ao rumo principal da Escola Especial de Budo decidido por T. Naîto, juntavam-se por vezes outras iniciativas do director da escola. Em 1918, H. Nishikubo torna-se director e tem por hábito assistir aos treinos dos alunos. É costume efectuar durante o período mais frio do ano uma série de treinos chamados "kan-géiko". No célebre frio de inverno de Kyoto todas as janelas do dojo são abertas de par em par. O primeiro treino começa às cinco da manhã.
Para esses treinos o director Nishikubo chega todos os dias com as suas “roupas especiais” de treino; especiais porque ele as mergulha na água e deixa-as na rua de um dia para o outro, o que faz que estejam duras e geladas. O seu corpo grande e redondo de lutador de sumô, vestido com as roupas geladas, cedo começa a soltar vapor de água durante o treino.
S. Takano também tinha feito esse tipo de treino na sua juventude. Ele dizia aos seus estudantes que tiritavam de frio durante os kan-géiko: “Quando eu era novo, nós faziamos treinos de inverno depois de ter mergulhado a roupa de treino na água e continuávamos a treinar até que ela secasse.”
Em todo o caso, a busca para ultrapassar as dificuldades era comum a todas as artes marciais japonesas, seja no Este ou no Oeste. Porque faziam eles isso? Era necessário? Acontece qualificarmos de masoquismo ou de sadismo a atitude ascética na prática do budo, quando os actos começam a separar-se do seu objectivo. É, sem dúvida, um problema sobre o qual é necessário reflectir quando praticamos artes marciais na nossa vida actual.
27.4.05
RIVAIS DE TODA UMA VIDA
Sazaburo Takano e Takaharu Naîto nasceram no mesmo ano, 1862, ambos filhos de bushi (samurai), as suas proezas desenrolam-se na vizinhança da prefeitura de polícia de Tóquio.
Na situação social que acabamos de descrever, em 1896, Takano volta para Tóquio e funda aí o dojo "Meishin-kan" onde se dedica à formação de jovens praticantes. Um pouco mais tarde, em 1899, Naîto instala-se em Quioto, onde se torna num dos principais mestres do Butoku-kaî.
Naîto tinha uma posição importante na prefeitura. O que o faz deixar Tóquio é, diz-se, um telegrama enviado por M. Kusunoki, um dos fundadores do Butokukai: “Venha pela (causa da) via.” Esta pequena frase toca o coração de Naîto que parte imediatamente para Quioto. Satisfaz assim o desejo de Kanichiro Mihashi, perito de renome na arte dos dois sabres, cognominado “Musashi contemporâneo” que, envelhecendo, desejava tê-lo como discípulo.
É assim que os dois rivais se instalam, um em Tóquio e outro em Quioto, dando forma às correntes de Este e Oeste que se irão defrontar durante os 30 anos que se seguiram. Em 1901, J. Kano, fundador do judo, que era também director da Escola Normal Superior de Tóquio, convida Takano a assumir o papel de mestre de kendo nessa escola. Relembremos que o termo “kendo” foi usado pela primeira vez num texto oficial, num decreto-lei de 1891, relativo à educação física escolar, quando o kendo foi integrado no curriculum liceal. Mas nessa época, eram ainda os termos kenjutsu e gekiken os mais utilizados pelos praticantes. Anteriormente, nos anos 1880, julga-se que Yamaoka Tesshu, já terá utilizado a palavra “kendo” ao fundar a sua escola “Muto-ryu”, sintetizada pela famosa frase: “a espada não existe fora do espírito” (shin-gai-mutô). A denominação kendo estabiliza-se por volta dos anos de 1910, definindo-se através da noção de via (do) em vez da de técnica (jutsu). A diferença não é apenas de palavras, mas na ideia directora da prática do kenjutsu e do kendo. Para ser um pouco mais rigoroso, é mais correcto não utilizar a palavra kendo para designar a prática da espada de antes do fim do século XIX. Em todo o caso, S. Takano torna-se mestre de “kendo” de uma Escola Superior, ao mesmo tempo que dirige o seu próprio dojo.
Enquanto a actividade de Takano ganha cada vez maior envergadura na zona de Tóquio, Naîto desenvolve a sua na área de Quioto. Paralelamente ás suas funções como mestre do Butoku-kaî, quando a “Escola Especial de Budo” (Budo senmon gakkô) é constituida na antiga capital, ele torna-se o seu mestre director.
26.4.05
DAI-NIPPON-BUTOKU-KAÎ: A INSTITUCIONALIZAÇÃO DO KENDO (II)
Para preparar a guerra contra a Rússia, o Japão envia oficiais para estudarem a cultura e a sociedade russas. Alguns estão encarregados de entrar em contacto com os elementos revolucionários que se dedicam a actividades clandestinas contra o poder do Czar e de lhes fornecer apoio financeiro. O Japão investiu um orçamento considerável na preparação e execução dessa guerra e, quando obtém a vitória em 1904, está à beira da bancarrota.
As artes marciais modernas são, por certo, pouco eficazes na guerra moderna, mas mostraram uma grande eficiência para forjar os homens que se envolvem nos diversos domínios da mesma, particularmente no exército. Não convém confundir a noção de do (a via) tal como a concebemos hoje com a que foi formulada nessa época. O Japão acabara de escapar à colonização a que tinham sido submetidos outros países asiáticos, mas a ameaça das forças ocidentais estava sempre presente. A prática do budo, nessas condições, servia para afirmar a identidade japonesa e reforçar a vontade pessoal dentro de uma acção nacional que se confundia com a vocação de cada um. A ética do budo dessa época comporta um investimento da própria vida no objectivo colectivo; é isso que indica Jigoro Kano quando diz: “transformem-se nos pilares do país”, nas aulas que dá aos seus primeiros alunos, aquando da fundação do judo. O dever pessoal e o interesse de estado confundiam-se completamente. É com este pano de fundo social que é elaborada a nova noção de artes marciais, que se apoia na noção de do. E ela começa a partir do judo.
O Butoku-kaî foi fundado nessa atmosfera para centralizar e dirigir a formação e o desenvolvimento do budo. O kenjutsu está no centro das suas actividades. A fundação do Butoku-kaî é uma reviravolta na situação das artes marciais que, apenas vinte anos antes, a sociedade inteira tendia a enterrar. A prática das artes marciais no começo do século XX tornava-se, de novo, num elemento motor da consciência japonesa que começava a estender-se, quebrando a casca do feudalismo.
22.4.05
DAI-NIPPON-BUTOKU-KAÎ: A INSTITUCIONALIZAÇÃO DO KENDO (I)
Em 1895 é constituido o "Dai-Nippon-Butoku-kaî" (Associação da Virtude das Artes Marciais do Japão Imperial), habitualmente chamado "Butoku-kaî".
Esse grupo tem por objectivo assegurar a continuidade das artes marciais tradicionais japonesas e desenvolvê-las .é preciso sublinhar que o Japão acabara de conseguir uma vitória decisiva contra a China, em 1894. o Butoku-kaî foi constituído num ambiente de ascenção nacional(ista) no qual os japoneses tomaram consciência da sua força militar. Um quarto de século antes tinham sido obrigados a põr em causa a estrutura do país perante a ameaça das forças militares dos Estados Unidos e das potências europeias. A consciência de uma crise e uma espécie de complexo de inferioridade face aos ocidentais serviram como pano de fundo das transformações sociais. Foi nessa situação de crise da tradição que a prática das artes marciais se viu menosprezada, e numa dada altura, quase que abandonada. Mas, nessa altura, os japoneses estudaram na Europa as técnicas militares e o seu exército obteve uma tal força que conseguiu vencer a grande China, a qual por seu lado, tinha alimentado culturalmente o Japão desde a antiguidade.
Dez anos depois, o Japão vai-se envolver numa guerra contra a Rússia, o que galvaniza a energia colectiva do povo de uma maneira surpreendente.
20.4.05
O SEGUNDO RECONTRO DOS RIVAIS
Durante um ano, T. Naîto encontra-se na mesma situação que S. Takano, na prefeitura de polícia de Tóquio. Mas não é fácil aos dois rivais encontrarem-se no decurso dos treinos. Cada um dos combates entre os professores era concebido como um duelo, portanto eles não combatiam de um modo ligeiro entre eles, mesmo que, dentro de cada dojo, tivessem por hábito combater com as pessoas mais diversas.
Em Julho de 1888 Yamaoka Tesshu morre e, no mês de Agosto, Sazaburo Takano decide sair da polícia onde tinha entrado segundo recomendação do seu mestre Yamaoka. Regressa a Chichibu onde tinha deixado a sua mulher e o filho nascido um ano antes. No mês de Outubro entra na polícia departamental de Saitama como mestre de kenjutsu e, por essa altura, manda construir em Urawa um dojo e uma casa onde se instala com a sua família. Esse dojo, chamado " Urawa Meishin-kan", situa-se mesmo em frente da Escola Normal de Urawa, e por isso, um número considerável de estudantes tornam-se seus alunos.
Em 1889 um torneio é organizado pela prefeitura de polícia e S. Takano participa, representando o dojo da esquadra de Urawa. É nesse torneio que ele reencontra o seu rival T. Naîto. O combate entre os dois rivais suscita o interesse dos adeptos da polícia; eis aqui o relato segundo o "Kendo sengoku shi" (Proezas dos adeptos de kendo), de Kôji Hara, Tóquio 1977 :
“O grande dia chegou finalmente. Os dois peritos avançam calamamente para o centro do shiai-jo. O árbitro principal é Kanshiro. Os dois adversários assumem a guarda em seïgan. Takano avança lentamente sustendo um pouco a respiração. Dois anos se passaram desde que perdeu contra Naîto.
“Yaa!!” grita Naîto, enquanto que Takano avança sem soltar qualquer kiai... Naîto continua a rodopiar ligeiramente a ponta do seu shinai.
“Tôo!!” Takano ataca violentamente. Naîto apara o shinai adversário e fazendo-o girar com o seu, atinge o kote de Takano. O árbitro anuncia : “Insuficiente.”
De seguida, Naîto lança imediatamente um ataque á cabeça de Takano. É então que este, baixando ligeiramente o corpo, desfere um golpe violento no flanco direito de Naîto (do). Men nuki do.
“Sorémadé!!” (Parem o combate, pois o assunto é claro.), grita o árbitro.
Naîto retira-se saudando Takano, que murmura para si mesmo: “Ganhei.”
19.4.05
T. NAÎTO ENTRA PARA A POLÍCIA
“Mestre Ozawa treinou-me outrora, sinto uma certa simpatia por si, por ser seu aluno. Não quer aprofundar o seu kenjutsu na prefeitura de polícia?”
T. Naîto não estava pronto para dar uma resposta imediata a essa proposta. Pergunta-lhe apenas: “Gostaria de receber uma lição sua.”
“Muito bem, eu recebi lições do seu mestre na juventude. Dou-lhe uma lição de boa vontade, visto que você é aluno dele.”
Os dois adeptos da mesma escola colocam-se frente a frente.
Shimoé assume guarda em seigan, T. Naîto audaciosamente coloca-se em guarda hasso, o que surpreende todos os que assistem. Shimoé solta um kiai ameaçando um ataque tsuki, depois deixa aperceber um vazio (suki) no seu kote (pulso). Naîto avança com uma negligência aparente. S. Takano observa-os com o olhar petrificado. Nesse momento, Shimoé lança o seu katate-zuki à garganta de Naîto, enquanto que ele lhe atinge o seu flanco esquerdo (gyaku-do). Os dois ruídos ecoam simultaneamente no ar do dojo. Para os espectadores o combate parece um toque simultâneo (aîuchi), mas Y. Kajiwara anuncia em voz alta. “Sorémadé!” (parem o combate, pois o assunto é claro.)
Os espectadores perguntam-se: “Quem ganhou?”
Então Naîto retira a máscara de protecção e diz, baixando profundamente a cabeça: “Agradeço-lhe a sua lição.”
É assim que os outros compreendem que foi Shimoé quem ganhou. Este combate marcou fortemente S. Takano e a reputação de Naîto aumenta ainda mais dentro da prefeitura. Pouco depois, Takaharu Naîto entra para a polícia como mestre de kenjutsu, recomendado por Shutato Shimoé.
CAMPEONATO DA EUROPA DE 2007 VAI SER ONDE?
Segundo fontes geralmente bem informadas, próximas da Direcção da APK, os próximos campeonatos da Europa de kendo deverão ter lugar em 2007 em solo português.
"Apenas" em 2007 porque, sendo 2006 ano de campeonato do mundo, nesse ano o campeonato referente ao nosso continente não se realiza.
Pode ser giro, pode ser muito giro.
Uma grande responsabilidade é de certeza. De resto, pode ser giro.
COMO T. NAÎTO ENTRA NA PREFEITURA DE POLÍCIA
Depois da sua derrota contra Naîto, S. Takano aumentou a severidade do seu treino. Ao vê-lo treinar, S. Shimoé comentou: “Takano parece mudado nos últimos dias.” Shimoé, muito mais velho que Takano, era considerado como um dos mestres supremos da prefeitura de polícia. Depois do treino S. Takano diz-lhe:
“Perdi contra um adepto da escola Hokushin-Itto-ryu."
Os olhos de Shimoé brilham , pois ele também é adepto dessa escola.
“Como se chama ele?”
“Chama-se Takaharu Naîto, originário de Mito.”
”Se ele é da escola Hokushin-Itto-ryu, de Mito, trata-se certamente de um aluno do mestre Torakichi Ozawa. É estimulante para mim saber que semelhante pessoa provém dessa escola.”
A ESCOLA HOKUSHIN-ITTO-RYU DO MESTRE OZAWA
É assim que S. Shimoé se interessa por T. Naîto. Mas não foi apenas porque eram da mesma escola. Adolescente, quando era aluno do dojo principal da escola Hokushin-Itto-ryu em Edo, um adepto da mesma escola chegou vindo de Mito, treinou com ele e foi completamente derrotado. Esse adepto chamava-se Torakichi Ozawa. Shimoé pensou que um jovem praticante vindo de Mito deveria ser seu aluno. E não se enganou. Assim, ao ouvir falar das proezas desse jovem perito, originário da sua escola, sentiu imediatamente uma certa simpatia. E pensou que seria bom fazer entrar na prefeitura de polícia um outro perito, originário como ele da escola Hokushin-Itto-ryu.
Seguindo as informações relativas a esse jovem perito chamado Naîto, Shimoé pensou, ao refazer o seu itinerário que ele deveria ir proximamente ao dojo de Fakagawa. Na manhã seguinte deslocou-se até ao dojo da esquadra de Fukagawa. Depois de ter treinado com os polícias locais disse-lhes: “Se um adepto chamado Naîto, aparecer por aqui, previnam-me imediatamente. Se já for tarde, peçam-lhe gentilmente para me ir ver ao dojo central da prefeitura.”
Com efeito, pouco tempo depois Naîto passou pelo dojo de Fukagawa e bate Sakabé, o mestre principal da esquadra, com um tsuki espectacular. A mensagem de Shimoé é transmitida a Naîto antes que lele saia do dojo.
Naîto tinha ouvido falar de Shimoé pelo seu mestre T. Ozawa e pensa: “Trata-se de um mestre de alto nível. Que pode ele querer de mim? Em todo o caso o encontro não pode ser senão interessante.”
18.4.05
UM PERITO EXCEPCIONAL, SHUTARO SHIMOÉ
Afinal, quem era Shutaro Shimoé, o perito que recomendou Takaharu Naîto para a polícia de Tóquio? Basta ler. Aqui, ou em http://www.tokitsu.com.
Shutaro Shimoé nasce em 1848, numa família de mestres da espada. Aos 11 anos entra no dojo de Eîjiro Chiba e, aos 19, torna-se chefe dos discípulos (juku tô) do dojo Genbukan, o dojo central da escola Hokushin-itto-ryu. Tornar-se chefe dos discípulos do Gembukan com a idade de 19 anos é prova de um talento excepcional. S. Shimoé foi um dos grandes peritos da época Meiji. Mas ele considerava a sua arte da espada como uma coisa pessoal e treinava, no dojo, mas para si mesmo, sem se preocupar em formar alunos. As suas capacidades eram reconhecidas e respeitadas por todos os mestres da polícia. Entrar na prefeitura de polícia com uma recomendação de Shimoé equivalia a ter a melhor menção possível no diploma.
A propósito de S. Shimoé, escutemos Shigéyoshi Takano (1876-1956), filho adoptivo de Sazaburo Takano: “Nessa época o mestre Shimoé já tinha mais de 60 anos... na manhã da minha chegada ao seu dojo, recebi a primeira lição. O mestre era grande e media perto de um metro e oitenta. Num canto do dojo estava colocado um tapete molhado. O mestre humedeu os pés ligeiramente antes de começar o treino.
Diz com uma voz baixa: “Vou-lhe acertar um pequeno tsuki, está bem?” e acerta-me um tsuki dizendo “atingido com um pequeno tsuki.”
Mas não foi nenhum “pequeno tsuki”. Esse “pequeno” era tão terrível que quando se recebia um desses “pequenos tsuki” não se conseguir nem engolir saliva durante dois ou três dias. O tsuki só com uma mão (katate-zuki), sobretudo, era a grande especialidade do mestre e ele não amortecia a técnica de forma nenhuma. Depois de me ter dado a sua especialidade, foi de novo humedecer os pés no tapete, ao canto do dojo e voltou para mais uma lição.
E previne-me: ”Desta vez vou atacá-lo a partir da guarda jodan da escola Yagyu-ryu." Trata-se de um ataque ao kote (pulso) a partir da guarda alta. O ataque é muito lento e consigo vê-lo bem. Mas recebo na mesma um golpe fulgurante. Era como se o seu shinai se viesse colar ao meu kote como um vampiro. Sinto uma dor percutante e o mestre então diz: “Acabou de perder o pulso.” Depois, foi de novo molhar os pés. Quando lanço o meu ataque à cabeça (men) na esperança de acertar ao menos uma vez, ele ataca o meu do (flanco) em “nukidô” dizendo: “Eu fico em vantagem, assim.” Então sinto, por debaixo da armadura, feita de bambú e de couro, uma dor que me atravessa o flanco como uma lâmina. As suas mãos eram de tal forma hábeis e precisas (té no uchi) que um golpe aparentemente negligente ganhava uma eficácia terrível.
Depois vai, mais uma vez, molhar os pés. Eu não consigo fazer nada. O meu shinai não toca o seu corpo uma única vez... o mestre Kadona, perito de grande reputação em Quioto, dizia também ele: Nunca consegui tocar o corpo do mestre Shimoé com o meu shinai...”
Mestre Shimoé entendia que a sua arte era apenas para si e nunca tentou formar alunos. Mas as suas capacidades eram únicas...”
17.4.05
AS PROEZAS DE T. NAÎTO
Depois vá até http://www.tokitsu.com. Lá também encontrará coisas boas para ler.
O combatente seguinte, J. Hiyama perde também contra Naîto. S. Kakimoto não combate, T. Kikuchi é o último. Ele é 3º kyu, o graduado mais alto entre os peritos ainda em actividade, pois aqueles que recebem a graduação de 2º kyu, são, normalmente, relativamente mais velhos. A reputação de Kikuchi já está bem estabelecida no mundo do kenjutsu. Ninguém pensa que ele pode perder contra aquele jovem adepto. Mas o destino do combate é definido num instante. Kikuchi recebe um terrível tsuki (ataque com a ponta do shinai à garganta) e é atirado ao chão. Depois de se levantar, saúda dizendo: “Maîtta!!!”
Depois saúda S. Kakimoto.
Perante isto, Takaharu Naîto baixa o seu shinai e saúda sem dizer uma palavra. Recua até à parte inferior do dojo e retira a máscara de protecção. Lança um olhar directo aos seus adversários, pousa as duas mãos no chão e baixando profundamente a cabeça diz: “Agradeço-vos.”
S. Kakimoto diz-lhe: “O seu nível é magnífico. Penso que é o resultado da sua perseverança na via.”
“Agradeço-lhe.”
Mas Kakimoto continua: “Aqueles que combateram hoje aqui contra si, estão entre os melhores de uma prefeitura de polícia que contém um grande número de peritos importantes. Você conseguiu fazer uns excelentes combates contra eles...”
“Foi um bom keiko.” diz Kikuchi.
Habitualmente traduz-se “keiko” como treino, mas o sentido do termo é mais amplo em japonês. Trata-se aqui do combate que teve lugar mas também da maneira como se desenrolou e do nível que os peritos deram provas. Para indicar que se aprecia o nível de alguém, segundo a sua maneira de agir no dojo, diz-se que o keiko foi bom. Eis porque não é suficiente traduzir a palavra como treino. Etimologicamente, a palavra keiko significa: aprender o essencial a partir da obra dos antecessores. Assim, o mesmo é dizer que o treino não é apenas um confronto com um adversário presente, mas é também um confronto com o nível atingido pelos antecessores. Dizer que o keiko foi bom, quer dizer que o treino foi denso e a experiência enriquecedora, independentemente da vitória ou da derrota.
Alguns dias mais tarde, S. Takano recebe o telegrama habitual ordenando que se deslocasse de urgência ao dojo central da prefeitura de polícia, assim que terminasse o treino em Motomachi.
Enquanto está a vestir as protecções (já na prefeitura), chega Zenjiro Kagawa da esquadra de Shimoya. Diz-lhe: “Recebi um adepto em “musha-shugyo” esta manhã. Pensava que o ia pôr a andar e agi descuidadamente. Pois bem, fui eu que fui parar ao meio do chão.”
Z. Kagawa continua alegre apesar de ter sido vencido (consta que era uma característica sua). E continua a falar: “Há pessoas espantosas neste mundo!”
“E o mestre Eda, então?” pergunta Takano.
“Derrotado.”
“E mestre Nakamura?”
“Derrotado.”
“Mestre Kaîho, então?”
“Foi o único que acabou sem receber qualquer golpe, sempre em guarda jodan, mas também não marcou nenhum. Acho que esse homem irá brevemente ao seu dojo.”
“Chama-se de Takaharu Naîto e já lá foi. Toda a gente foi derrotada.”
“Essa agora, não é possível!” diz Z. Kagawa rebentando a rir, enquanto que S. Takano está longe de ter vontade para tal.
Cada vez que vai treinar ao dojo central da polícia, ouve falar das proezas de T. Naîto que combateu neste e naquele dojo da polícia. No início de Novembro, ouve dizer que Naîto se vai entrar para a polícia.
“Dizem que foi o mestre Shimoé que o propõs.”
Uma recomendação de Shutaro Shimoé tem um grande valor.
T. NAÎTO’S FEATS
So Naîto won against Takano, what about the other masters who were in the dojo with him, that day? What happened? Check it out.
Check out http://www.tokitsu.com too. It’s worth it.
In the next fight J. Hiyama also looses to Naîto. S. Kakimoto doesn’t fight, and T. Kikuchi goes last. He holds a 3rd kyu rank, he is the highest among the experts still actives, because those who receive the 2nd kyu rank are generally relatively older. Kikuchi’s reputation is already well established in the kenjutsu world. Nobody thinks he can loose against that young fencer. But the destiny of the combat is defined in an instant. Kikuchi receives a terrible tsuki (attack with the tip of the shinai to the throat) and is thrown to the ground. After standing up he salutes and says: “Maîtta!!!”
After, he salutes S. Kakimoto.
Takaharu Naîto lowers his shinai and salutes without a word. He goes back to the lower section of the dojo and takes his protective mask off. He looks directly to his adversaries, puts both hands on the floor and bows respectably saying: “I’m really thankful.”
Then Kakimoto says: “your level is magnificent. I think it’s the result of you persevering in the way.”
“I thank you.”
But Kakimoto continues: “Those who fougth her against you are among the best in police headquarters that holds a great number of important experts. You did excelent against them…”
“It was good keiko.” Kikuchi says.
Usually one translates “keiko” as training, but the meaning of the word in japanese goes beyond that. Here, it’s about the fight that took place, but also the way it took place and the level shown by the experts envolved. In order to show one’s appreciation towards someone’s level, and the way he acts in the dojo, you’ll say keiko was good. That’s why translating keiko as training is not enough. Etymologically, the word keiko means: to learn the essentials from the work of the predecessors. So, the same thing is to say, training is not just a confrontation with an actual adversary, but also with the level reached by the predecessors. Saying keiko was good, means the practice was dense and the experience enriching, apart from of winning or loosing.
A few days later, S. Takano receives the usual telegram ordering him to proceed to the police headquarters dojo, as soon as he finished the practice in Motomachi.
Once there, while putting the protective gear on, Zenjiro Kagawa arrives from Shimoya police station. He says: “I had the visit of an expert in “musha-shugyo” this morning. I thought he’d be easy to handle and I acted carelessly. Well, I ended with my back on the floor.”
Altough he’s been beated, Z. Kagawa stays happy (it is said it was one of his personal characteristics). And he keeps on talking: “There are some amazing persons in this world!”
“What about Eda sensei?” Takano asks.
“Defeated.”
“Nakamura sensei?”
“Defeated.”
“Kaîho sensei, then?”
He was the only one that ended without receiving any blow, always in jodan stance, but he didn’t score either. I think that, soon, man will go to your dojo.”
“His name is Takaharu Naîto and he’s been there already. Evrybody was defeated.”
“How about that, that’s not possible.” Z. Kagawa says, bursting to laughs, while S. Takano is far from finding it amusing.
Each and everytime he goes to prectice in the police headquarters dojo, he listens about Naîto’s feats, who fought this one and defeated that other one. In the beginning of November, someone tells him Naîto is about to join the police force.
“People say it was master Shimoé that recommended him.”
A recommendation from Shutaro Shimoé is of great value.
16.4.05
TODAY IS APRIL THE 16TH
Well, as a matter of fact, I've one more post already translated; it's about Shimoé sensei... I think.
But after that one... it's hasta la vista, baby.
15.4.05
20 ºs CAMPEONATOS DA EUROPA DE KENDO
Para já, se for até www.kendo.ch garanto-lhe que nem o quadro com o sorteio das equipas, que deve ter sido feito há um mês atrás, está disponível. E nós é que somos terceiro-mundistas.
Cambada de palhaços.
THE END OF THE "BILINGUAL" PART OF THE BLOG.
It's the last day to receive messages from you people out there, saying if you want this blog to still have a bilingual half. So far I've received one message.
I guess the answer is clear. I'll finish posting the stuff I've already translated and start posting only in portuguese, from then on.
P.S.: To the one that wrote me: sorry... and thanks a lot.
13.4.05
O PRIMEIRO COMBATE DE S. TAKANO E T. NAÎTO
Leia aqui ou, em francês, em: http://www.tokitsu.com.
Os dois adversários, S. Takano e T. Naîto, separados por uma distância de nove passos, avançam para o centro do dojo e assumem a posição de sonkyo, segundo a regra de treino Kôbusho da era Bakumatsu.
A revista “Kendo-Nippon” nº 10 – ano de 1977, oferece a seguinte descrição do combate:
“Takano assume a guarda jodan (alta), pé esquerdo à frente, e Naîto a guarda chudan/seïgan (média). Takano provoca Naîto para que ele ataque, mas o outro pernanece sereno. Takano acaba por lançar um ataque ao men (cabeça) usando o seu shinai para executar o ataque de cima para baixo. É então que Naîto se desloca para a direita e atinge o do (flanco) de Takano que diz que o golpe foi ligeiro, reassumindo em seguida a sua guarda. Depois, a cena repete-se e Takano declara a sua derrota ao parar e saudar o adversário. Naîto saúda igualmente Takano.”
Este artigo não é, no entanto, muito credível, visto que não menciona a origem das informações. Tanto mais que quando T. Naîto de tornou professor no Butokukaî, era conhecido por não apreciar que se atacasse ao flanco e mostrava o seu descontentamento quando os seus alunos ganhavam em torneios atacando desse modo ou através de alguma “habilidade técnica”. Com efeito, ele criticava severamente as técnicas superficiais, e dizia: “Golpeiem o men, pois é o mais difícil. Se conseguirem golpear correctamente o men, conseguirão golpear em qualquer lado.” Ele fazia também uma distinção severa entre aprofundar as técnicas e utilizar “técnicas habilidosas”.
Mas o combate contra Takano teve lugar possivelmente 25 anos antes. É provável que a sua maneira de combater e as suas ideias sobre o combate tenham evoluído ao longo dos tempos. Em todo o caso Sazaburo Takano perdeu e Takaharu Naîto ganhou.
Takano recua até à parede e tira a protecção da cabeça. Limpa o suor abundante que disfarça as suas lágrimas. Aquando do torneio desse mesmo ano no qual participaram os maiores peritos da polícia, Takano tinha perdido contra Seîsaku Umézawa, 3º kyu, uma graduação logo acima da sua. A derrota contra Naîto inflinge-lhe uma ferida incomparavelmente mais profunda. Não consegue deixar de pensar que se atrasou na via do espada. Foi muito difícil reconhecer a força do ki que não parou de o empurrar durante o combate. Está convencido que é uma força que Naîto obteve durante a sua musha-shugyo, enquanto vivia em condições adversas, dormindo na natureza e comendo o mínimo.
THE FIRST COMBAT BETWEEN S. TAKANO AND T. NAÎTO
It’s done. Two atacks and it’s over. And who won the first figth?
Read it her or, in french, here: http://www.tokitsu.com.
The two opponents, S. Takano and T. Naîto, separated by a nine steps distance, walk towards the middle of the dojo and assume the sonkyo position, according to the Kôbusho training rule from Bakumatsu period.
The 10th issue from “Kendo-Nippon” magazine – 1977 – offers the following escription of the fight:
“Takano takes jodan stance (high), his left foot forward, and Naîto takes chudan/seïgan stance (middle). Takano provoques naîto hopeing for an attack, but the other man remains serene. Takano finally launches an attack to the adversary’s men (head) using his shinai in a downwards movement. That’s when Naîto moves his body to the right and hits Takano’s do (flank), who claims it’s was light strike and reassumes his jodan stance. After that the scene repeats itself and Takano declares his defeat by stopping and bowing to his adversary. Naîto does the same.”
This article, however, is not very credible, since it does not mentions the source of the informations. Furthermore, when T. Naîto became a Butokukaî teacher, he was known for not appreciating do attacks and for showing his unhappiness when his students won tournaments that way or through any “technical hability”. As a matter of fact, he used to severely criticize superficial techniques, and said: “Hit the men, because it’s the most difficult. Once you can correctly hit the men, you will be capable to hit anywhere.” He also used to make harsh comments between deepining the techniques and doing “technical habilities”.
But the fight against Takano took place some 25 years earlier. It’s probable that his was of fighting and also his ideas about combat evolved as times went by. Anyway, Sazaburo Takano lost and Takaharu Naîto won.
Takano moved back to the wall and took his protective mask off. He cleaned the sweat that concealed his tears. During the year’s tournamnet, attended by all the greatest police experts, Takano had lost against Seîsaku Umézawa, 3rd kyu, just a rank above him. The defeat against Naîto opens an incomparably deep wound. He can’t stop thinking he felt behind the way of the sword. It was very hard for him to recognize the ki stenght that didn’t stop pushing him backwards during the fight. He’s convinced Naîto obtained it during his musha-shugyo, while living in difficult conditions, sleeping in nature and eating a minimum.
12.4.05
O ENCONTRO DE DOIS RIVAIS INEGÁVEIS (II)
Mais só em http://www.tokitsu.com.
Na esquadra de polícia de Honjo-Motomachi havia quatro professores: Seikichi Kakimoto 2º kyu, Taménosuké Kikuchi 3º kyu, Juntaro Hiyama 4º kyu superior e S. Takano, igualmente 4º kyu superior. O sistema de graduação em “dan” ainda não encontrava em uso nessa época e 1º kyu era a graduação mais alta, em teoria, pois na prática ninguém o possuia. O 2º kyu de então equivaleria ao 9º dan de hoje.
Quando os quatro professores entram na sala, já equipados, T. Naîto está sentado na parte inferior do dojo, pronto para combater a todo o momento. A atmosfera está repleta de tensão.
Nesse momento J. Hiyama diz: “Olha, é o Takaharu, não é?”
“Oh, o senhor Hiyama?”
“Sim, eu agora trabalho aqui.”
Hiyama diz, voltando-se para os outros professores:
“Nós fomos colegas no Tôbukan-dojo do mestre Torakichi Ozawa, em Mito. Entrei alguns anos antes dele.”
“Senhor Hiyama”, diz Naîto, “falaremos dessas coisas mais tarde. Agora gostaria de receber umas lições.”
“Tem razão.” Responde Hiyama endurecendo a expressão. “Não convém relaxar a combatividade visto que está em situação de musha-shugyo.”
Se bem que a expressão “receber umas lições” tenha uma tonalidade modesta, trata-se de um desafio, tanto para aquele que pede como para aquele que aceita. Para aquele que lança o desafio, não é exagerado dizer que deve ter determinação suficiente para investir a sua própria vida e para os que recebem o desafio, trata-se da honra da sua arte e do seu dojo.
Seikichi Kakimoto, o mais alto graduado, diz: “Eu serei o árbitro. Takano, você é o primeiro.”
S. Kakimoto já tem mais de 50 anos e é um bushi originário de Echigo. Na sua juventude, mudou-se para Tóquio para estudar a arte da espada no dojo de Seiichiro Otani, da escola Jiki-shin-kagé-ryu, onde se tornou num dos melhores. É considerado um dos maiores peritos do fim da época Edo (Bakumatsu).
THE MEETING BETWEEN TWO UNDENIABLE RIVALS (II)
Everybody is ready. There they go. Who’ll win the first fight?
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In Honjo-Motomachi police station there were four teachers: Seikichi Kakimoto 2nd kyu, Taménosuké Kikuchi 3rd kyu, Juntaro Hiyama 4th kyu superior and S. Takano, also 4th kyu superior. The “dan” grading system wasn’t yet in use in those days, and so 1st kyu was the highest grade, in theory, because in fact nobody had it. 2nd kyu back then would be like 9th dan today.
When the four teachers enter the room, fully equipped, T. Naîto is seated in the lower section of the the dojo, ready to fight. There’s plenty of tension in the atmosphere.
Then, J. Hiyama says: “But, it’s Takaharu, isn’t it?”
“Oh, mister Hiyama?”
“Yes, I work here now.”
Hiyama looks at the other teachers and says:
“We were colleagues at sensei Torakichi Ozawa’s Tôbukan-dojo in Mito. I entered there a few years before him.”
“Mister Hiyama”, Naîto says, “we’ll talk about those things later. Now I’d like to receive some lessons.”
“You are right.” Hiyama answers toughening his face. “It’s not appropriate to relax one’s combativeness, after all, you’re in musha-shugyo.”
Although the expression “to receive some lessons” holds a modesty like tone, it is really a challenge, both for the one that launches it and the one that accepts it. For the first one, it’s not very exaggerated to say that he must have enough determination to commit his own life and for those who receive it, it’s all about the honor of their art and their dojo.
Seikichi Kakimoto, the senior teacher, says: “I’ll judge. Takano you’re first.”
S. Kakimoto is over 50 and he’s from Echigo. In his youth he moved to Tokyo to study the sword art at Seiichiro Otani’s dojo, from the Jiki-shin-kagé-ryu school, where he became one of the best. He is considered one of the greatest experts of the end of the Edo period (Bakumatsu).
O ENCONTRO DE DOIS RIVAIS INEGÁVEIS
Como sempre obrigado a http://www.tokitsu.com.
É já quase no fim da sua viagem de aprofundamento (musha-shugyo) que T. Naîto se dirige à esquadra de polícia de Motomachi, onde Takano desempenha o papel de professor de kenjutsu.
Uma tarde de Outubro, Sazaburo Takano espera que chegue a hora do treino na recepção da esquadra. Como era hábito, já tinha dirigido o treino da manhã. A silhueta de um homem aparece no vestíbulo da esquadra. Transporta a sua armadura de protecção, nua, suspensa no shinai. Não é de grande estatura, mas a largura dos seus ombros é impressionante. Avança directamente até à recepção e pergunta:
“Estou em musha-shugyo, como pode ver. Gostaria, se fosse possível, receber uma lição neste dojo.”
A visita aos dojos da polícia de Tóquio é para T. Naîto a última etapa e a “prova final” da sua musha-shugyo, a qual se prolongava, fazia já três anos e meio. Antes de Tóquio, tinha visitado Kanagawa, onde, a 20 de Outubro de 1887, no dojo "Seifu-kan" de Yokosuka, tinha combatido contra mais de trinta peritos originários de seis escolas diferentes. Nesse dia, cada um dos combates devia prolongar-se até que um dos dois combatentes se declarasse vencido. Takaharu Naîto enfrentou sozinho todos esses peritos. Se os combates duraram, em média, dez minutos cada um, o que é pouco para que um praticante dessa época reconhecesse a sua derrota, isso perfaz logo cinco horas de combates. Essa experiência deve ter sido umas das provas mais duras que teve de enfrentar, mas não existe nenhum documento que relate os detalhes da mesma.
No dojo da polícia recebiam, de tempos a tempos, visitantes em musha-shugyo e geralmente estes saiam exaustos, depois de terem gasto toda a vivacidade com que tinham entrado no dojo contra os shinais dos professores.
S. Takano responde: “Entendido. O treino começa dentro de momentos, eu conduzo-o até ao dojo, onde poderá aguardar. Entretanto, peço-lhe que inscreva o seu nome neste registo.”
Antes de escrever o seu nome, o visitante apresenta-se a Sazaburo Takano: “Chamo-me Takaharu Naîto e sou de Mito.”
Takano fica surpreendido por ouvir o nome que lhe pesava na memória e olha de novo para o personagem cuja imagem e presença se ajustam pela primeira vez. A cara redonda coberta de barba sorri-lhe com um ar simpático e lembra-lhe imediatamente a figura do Bodhidharma.
Assim que o Bodhidharma acaba de preencher o formulário, S. Takano apresenta-se.
“Mestre Takano? É talvez da família de mestre Mitsumasa?”
“Sim, Mitsumasa era meu avô.”
Sabemos, claro, que se tratava de Takano Sakichiro-Mitsumasa.
“Quando visitei Chichibu, no ano passado, gostaria de ter beneficiado de uma lição do mestre Mitsumasa, mas soube que ele tinha morrido e renunciei a visitar o seu dojo... perdi uma ocasião, nessa altura, mas hoje... poderia receber um treino particular?”
S. Takano, de olhos brilhantes, responde:
“Era mesmo isso que eu lhe queria propor.”
THE MEETING BETWEEN TWO UNDENIABLE RIVALS
The moment has come. They’re finally face to face. Ready for the first of many duels they’ll fight through their lifes.
As always thanks to http://www.tokitsu.com.
By the end of his sword art deepening journey (musha-shugyo) heads to the Motomachi police station, where Takano works as a kenjutsu teacher.
One October evening, Sazaburo Takano, in the police station’s reception, waits until it’s time to start the second practice of the day. As usual, he had already conducted the morning practice. The silhouette of a man appears in the entrance hall. He has his protective gear, naked and suspended from the shinai. He is not tall, but the width of his shoulders is quite remarcable. He walks directly to the reception and asks:
“As you can see, I’m in musha-shugyo. I would like, if possible, to receive a lesson in this dojo.”
The visit to the Tokyo police dojos is for T. Naîto the last step and “final exam” of his musha-shugyo, which already lasted for three and a half years. Before Tokyo, he was in Kanagawa, where, in October the 20th 1887, in the "Seifu-kan" dojo of Yokosuka, he fought more than 30 experts, from six different schools. That day, each and everyone of the combats should last until one of the fighters agreed that he was defeated. Takaharu Naîto faced all of those experts alone. If the combats lasted, an average of 10 minutes each, which was a short period of time for a fighter of those days to recognize his defeat, that makes, at least, five hours fighting. That experience must have been one of the toughest he had to face, but there’s no document reporting the event or it’s details.
In the police dojo they used to receive, from time to time, visitors who were in musha-shugyo and generaly they’d leave worn out, after having spent all the
vivacity they entered the dojo with, against the teachers shinais.
S. Takano answers: “Very well, the practice will begin in a few moments, I’ll lead you to the dojo, and you’ll wait there. Meanwhile, please sign your name in this registration book.”
Before writting down his name, the visitor presents himself to Sazaburo Takano: “My name is Takaharu Naîto and I’m from Mito.”
Takano is taken by surprised when listening to the name that marked his memory and looks again to the character, whose presence and image are one, for the first time. The round face, covered with a beard smiles at him with an honest smile and imediately reminds him of the image of Bodhidharma.
As soon as the Bodhidharma finishes filling the registration, S. Takano presents himself.
“Master Takano? Are you maybe from master Mitsumasa’s family?”
“Yes, Mitsumasa was my grandfather.”
We know, of course, they were talking about Takano Sakichiro-Mitsumasa.
“When I visited Chichibu, last year, I would ahev loved to receive a lesson from Mitsumasa sensei, but I heard he was dead, and so, I didn’t went to the dojo… I lost an opportunity then, but today… can you give me a lesson?
S. Takano’s eyes shine and he answers:
“That exactly what I was about to propose.”
8.4.05
O DOJO DE KENKICHI SAKAKIBARA
K. Sakakibara tem 53 anos quando T. Naîto visita o seu dojo.
“Diz que é aluno de mestre Ozawa? Bem, então entre.”
Sakakibara recebe-o com simpatia e leva-o até ao dojo, onde a atmosfera, misto de calor e cheiro a suor, o atinge assim que ultrapassa o limiar da entrada. A violência dos treinos era célebre. No dojo, K. Sakakibara forçava toda a gente a utilizar um tipo de protecções especiais. O aço da grade do protector da cabeça era particularmente sólido, pois os shinais do dojo eram fabricados com um bambú duas vezes mais espesso do que o que estamos habituados hoje. Possuiam apenas um pequeno espaço interior e diz-se que dava a impressão que o shinai era feito de um bambú sólido. Os golpes de K. Sakakibara eram especialmente fortes, e é por isso que, se a grade do men não fosse particularmente sólida, podia partir-se para o lado de dentro, o que provocaria acidentes graves.
Jirokichi Yamada, o sucessor de K. Sakakibara escreveu:
“Os ataques do mestre eram de tal maneira fortes que não podia deixar de antecipar a dor antes de receber um golpe na cabeça. Para dominar essa anticipação negativa, precisava de me habituar a suportar choques violentos no crânio. Com esse objectivo, exercitava-me todos os dias a dar cabeçadas num num grande pilar do dojo. Quando, por causa da dor e a fatiga, eu baixava a cadência da repetição e a força das cabeçadas, agarrava o pilar com as mãos e continuava a bater, muitas vezes até desmaiar.”
J. Yamada conta que, graças a esse treino, acabou por não ter medo de receber golpes de shinai e tornou-se capaz de os receber sem fechar os olhos.
A parte onde cabeçeava regularmente o pilar estava “escavada”, depois de alguns anos de prática. J. Yamada sucederia a K. Sakakibara na direcção do dojo e quando mandou construir um novo dojo, um dos discípulos, cortou e guardou a parte gasta desse pilar, em memória do seu mestre.
Esse tipo de atitude é, sem dúvida, imcompreensível, se visto à luz do kendo moderno, mas na época em que T. Naîto visitou K. Sakakibara, ainda se treinava aí dando continuidade à prática do sabre verdadeiro, onde o objectivo é, a cada ataque, cortar verdadeiramente e não apenas contentar-se em tocar o adversário com o shinai, tal como acontece nas competições desportivas do kendo moderno.
Convidado por Sakakibara, Naîto veste a sua armadura de protecção e agarra um shinai do dojo, muito mais grosso e pesado do que um shinai normal.
Agarrando também um shinai, K. Sakakibara diz-lhe, sem colocar protecções:
“Vamos lá ver.”
T. Naîto espanta-se que ele não coloque armadura de protecção e fica um pouco espicaçado no seu orgulho juvenil, mas, uma vez face a face com o adversário, compreende imediatamente que se trata de um oponente de peso. Sem que possa fazer algo, sente-se empurrado por uma força, como se o ar entre ambos se tivesse tornado pesado. Permanece imóvel.
“Que se passa? Venha, ataque-me.”
Encorajado pelo incitamento e mau-grado sentir-se dominado, ele atira-se para a frente e ataca a cabeça, ao mesmo tempo que lança um poderoso kiai. Apesar de forte, o kiai não se conseguiu associar ao movimento de ataque, pois, a meio do caminho, sente e ouve o ruído do golpe que recebe no seu antebraço direito. O seu shinai cai ao chão. Nunca tinha recebido um golpe assim tão forte e fica com a sensação que o seu braço foi cortado.
“O kiai é bom. Fique connosco o tempo que desejar.” Diz-lhe K. Sakakibara com um sorriso.
Takaharu Naîto permaneceu no dojo de K. Sakakibara durante quase dois anos, depois, num dia de 1885, partiu em viagem de “musha-shugyo”, da qual já conhecemos uma parte.
KENKICHI SAKAKIBARA’S DOJO
Takaharu Naîto is considered a “sword saint”. But how does one becomes a saint? A little bit more of Takanos’s rival lifestory. Want more? Go to: http://www.tokitsu.com.
K. Sakakibara is 53 when T. Naîto visits his dojo.
“You say you’re one of master Ozawa’s student? Well, come on in.”
Sakakibara receives him with sympathy and takes him to the dojo, where the atmosphere, a mixture of heat and smell of sweat, hits him as soon as he walks in. The violence of practice in there was famous. In his dojo, K. Sakakibara ordered everybody to wear a special protective gear. The steel from the head protection mask’s grid was particulary solid, because dojo’ shinais were made out of a bambu wood, twice as thicker as the ones we’re used to today. It had very small free spacing on the inside and, it is said, that one would have the impression of being hit with a solid bambu stick. Sakakibara’ strikes were specially strong, and that’s why if the men’s grid wasn’t particulary strong, it could break for the inside and cause serious accidents.
Jirokichi Yamada, K. Sakakibara successor wrote:
“The master’s attacks were so powerful I couldn’t stop anticipating the pain even before I received a men strike. In order to dominate that negative anticipation, I needed to get used to support violent blows on my head. So, I’d exercice everyday striking my head against a big wood column in the dojo. Everytime I slowed down the rhythm and the intensity of the headblows, because of the pain and the fatigue, I’d grab the column with both hands and kept striking, often until I pass out.”
J. Yamada tells that, thanks to that practice, he ended up by not being afraid of receiving shinai strikes and was even capable of receiving it without closing his eyes. The part of the wood column he used to strike his head against, was “eroded” after a few years of such practice. J. Yamada succeed to K. Sakakibara in the dojo’s direction and when he ordered a new dojo to be built, one of the disciples cut and kept the eroded part of the wood column, in memory of his master.
This kind of attitude is, no doubt, hard to understand, if seen in the context of modern day kendo, but, by the time T. Naîto visited K. Sakakibara, they were still following the tradition of true sword practice, where the aim, at any attack, was to really cut the adversary and not only touch him with the shinai, just like it happens in today’s kendo matches.
Following Sakakibara’s invitation, Naîto puts on his protective gear and grabs a house shinai, much more thicker and heavy than a regular one.
Grabbing another shinai, and without any protective gear, K. Sakakibara tells him:
“Allright, let’s see.”
T. Naîto was amazed with the fact his opponent didn’t put on any gear and he felt slightly touched in his pride, but, as soon as he faced him, he realized imediately how strong of an antagonist he was.
Unable to do anything, he feels a force pushing him, as if the air between them had become heavy. He stays put.
“What’s the matter? Come on, hit me.”
Encouraged by these words and even though he feels dominated, he charges and attacks the head, while roaring a powerful kiai. But the kiai, although strong, didn’t manage to punctuate the action, because he then feels and ears the sound of the strike he receives in his right forearm. His shinai falls to the ground. He had never received such a strong blow and feels like his arm has been cut.
“The kiai is good. You can stay with us for as long as you like.” Kenkichi Sakakibara says with a smile.
Takaharu Naîto remained in Sakakibara’s dojo for almost two years, and then, one day, in 1885, he left and went on a “musha-shugyo” trip, but we already know a part of that journey.
WELL, I GUESS IT'S THE END OF THE "BILINGUAL" PART OF THE BLOG.
So, here's what I'm going to do. Today it's april the 8th, if by april 15th, nobody says anything about continuing to translate to english I'll just stop, and I'll do it only in portuguese.
It's your call (assuming there's someone out there reading this sh... heu, stuff).
Now, we can do this two ways: you can e-mail me to pcoelho@esoterica.pt, or leave a comment in the comment boxes. If you'd like to send me an e-mail: just write BILINGUAL in the subject case.
Hey, at least I'm not asking for money.




