9.5.06
O "OUTRO" TE-NO-UCHI
Uma positiva (creio) e outra negativa (tenho a certeza).
A positiva é que ao executar nidan-waza como, por exemplo, kote-men o tempo de intervalo entre as técnicas me pareceu consideravelmente reduzido.
Quer isto dizer que, talvez pelo esforço colocado (de cima para baixo) sobre o pulso da mão direita, o espaço até ao men parece ser percorrido mais rapidamente, uma vez que o referido esforço evita que a ponta do shinai suba demasiado, ou pelo menos, suba tanto como subia antes, entre os gestos.
A parte negativa deste TA, para já, centra-se no problema de, devido à falta de hábito (?), haver uma tendência natural para contrair os braços/ombros, o que provoca naturalmente uma perda de qualidade na postura. Além de poder contribuir para que o braço esquerdo não fique devidamente esticado.
O ideal seria conseguir mudar para este TA, no caso de kote-men por exemplo, apenas a meio do caminho, a partir do kote em diante.
8.5.06
A PALAVRA DO SENHOR (OSAKA) 4
Basicamente o que Osaka sensei referiu foi a necessidade de, mesmo cansado, e depois de um treino bastante vigoroso (vigoroso o tanas, foi agreste, mesmo) como foi o de hoje, tentar fazer sempre os últimos exercícios bem feitos.
Quer se trate de kirikaeshi ou de kakarigeiko é preciso fazer bem (o não quer dizer depressa; quer dizer: bem)
Mesmo que seja difícil é preciso um esforço extra; a princípio é sempre difícil mas depois os progressos tornam-se mais visíveis.
Como Miyamoto Musashi escreveu:
A princípio será difícil,
mas as coisas são sempre difíceis
a princípio.
Aí está. Até quarta.
7.5.06
4º TORNEIO (INVITATIONAL) AJKF PARA 8ºs DAN
O 4º Torneio da All Japan Kendo Federation para 8ºs Dan teve lugar em Nagoya, no Nakamura Sports Center, no dia 16 de Abril de 2006.
Sueno sensei, Hachidan (foto Usagi san)Sueno sensei (na foto acima) que tinha ficado em 1º lugar há dois anos atrás, este ano perdeu na meia-final com o vencedor e “não conseguiu melhor” do que um terceiro lugar.
Os resultados finais foram os seguintes:
1º Lugar - T. Futagoishi ( Hyogo )
2º Lugar - A. Toyomura ( Tokyo )
3ºs Lugares - E. Sueno ( Kagoshima ) e M. Mataki ( Kagoshima )
O combate final está nestes links, dividido em 3 partes. A 1ª parte posso dizer-vos que só tem a entrada no shiai-jo dos combatentes. A 2ª tem 109 megas e é onde está o kote da vitória. Na 3ª parte, basicamente, encontramos Toyomura a debater-se, em vão, na tentativa de empatar e pesa 63 megas. Divirtam-se.
Parte 1
http://www.megaupload.com/?d=Z7VRLBED
Parte 2
http://www.megaupload.com/?d=0KZHUOR9
Parte 3
http://www.megaupload.com/?d=X5IT9F6Q
Este combate foi gravado e colocado à disposição do mundo por um membro do forum kendo-world cujo nome artístico é Junaid.
5.5.06
A PALAVRA DO SENHOR (OSAKA) 3
Hoje a prelecção de Osaka sensei centrou-se (é a palavra) sobre a mão esquerda durante kiri-kaeshi. Mais uma vez chamou-nos a atenção para as duas coisas mais importantes do referido exercício. A saber:
1º - No momento do corte/impacto a mão esquerda deve estar (sempre) ao centro.
2º - A mão deve terminar o movimento ao centro mas não pode ficar fixa enquanto o shinai se move de um lado para o outro (ou seja, não fazer o famoso "kiri-cóptero"); deve sim, subir e cortar de cima para baixo na diagonal (exemplificou de um lado) e terminar ao centro e depois subir de novo e cortar de cima para baixo na diagonal (do outro lado) e "terminar sempre bem ao centro" (sic).
Depois disse apenas:
- Domo arigato gozaimasté.
E cada um foi à sua vida.
IMAGENS DE BOKUTO NI YORU KENDO KIHON-WAZA KEIKO-HO
Quem estiver interessado nos (extremamente úteis) exercícios com bokuto criados recentemente pela ZNKR pode encontrar uma boa descrição, e umas más fotografias, aqui:
http://www.mushinkankendo.com/kendo_kihon_waza.html
4.5.06
MEMÓRIAS DE UM FIM-DE-SEMANA GRANDE NO ALGARVE
(infelizmente) o Algarve tem
um grande problema:
NÃO HÁ KENDO NO ALGARVE.
Ao fim-de-semana, o kendo mais próximo tá a 200 e tal quilómetros... em Sevilha.
3.5.06
A PALAVRA DO SENHOR (OSAKA) 2
Hoje o senhor Osaka disse-nos, no fim da aula, que tinha lido no livro do Miyazaki Masahiro que, por acaso, até fui eu e Nuno Serrano que lho oferecemos este Verão em Tóquio, tinha lido, dizia, que havia uma outra maneira de fazer te-no-uchi para se fazer um bom men.
E, como sempre faz nestas ocasiões, agarrou no shinai e disse-nos para fazermos força só com os dedos médios de cada mão. A maneira normal é boa, referiu, mas esta também é boa (disse-o com um ar de quem teve uma boa surpresa).
Questionado se já tinha o usado respondeu que sim e que era um bom método, mas muito difícil de executar devido ao hábito de agarrar segundo o te-no-uchi tradicional.
E foi tudo o que disse na aula, no entanto, (quem é amiguinho, quem é?) quando seguíamos no carro a caminho de Campo de Ourique voltei ao assunto e disse-lhe:
- Com que então com o dedo grande de cada mão? Mas e isso é mesmo bom?
Respondeu que sim porque (parecia-lhe que) fazia com que um men-uchi cortasse mais de cima para baixo e bem no alto da cabeça. Ao mesmo tempo executou um pequeno men no vazio com os dedos grandes recolhidos e chamou-me a atenção para a posição do pulso direito.
Entretanto, eram 21 horas e 13 minutos e chegámos, como sempre a essa hora, à porta da casa dele. Saiu do carro e dissemos em uníssono aquilo que vos digo agora:
- Até sexta.
28.4.06
A PALAVRA DO SENHOR (OSAKA)
Esta rubrica começa bem.
Hoje a única coisa que ouvi o sensei Osaka dizer foi o seguinte:
- Está Joaquim? Hoje não posso ir treinar. Você dá o treino como lhe apetecer."
E eu disse:
- OK, não se preocupe. Até 4ª.
E ele:
- Bom fim-de-semana.
E eu:
- Bom fim-de-semana, sensei.
TANIGUCHI SENSEI 9º DAN
http://www.brkumdo.co.kr/mov/kumdobr_best128k.wmv
Trata-se de uma demonstração que teve lugar durante os 50ºs campeonatos do Japão. Nela podemos apreciar um dos 4 ou 5 nonos dan ainda vivos, Taniguchi sensei, de Fukuoka, na altura com 82 anos, a fazer ji-geiko (e depois, como motodachi, kakarigeiko e kirikaeshi) com respectivamente: Toshiya Ichida sensei, 7º dan, duas vezes campeão mundial por equipas e duas vezes campeão do Japão individual; Iwai sensei de Aichi e Sakudo sensei de Osaka, ambos 8º dan (hanshi, creio eu).
Pá, vejam que vale a pena. O "velhote" tem muita pinta. Afinal de contas, este é mesmo parte uma espécie em vias de extinção.
Nota: o gajo que está com a câmara de vídeo à esquerda de Taniguchi sensei quando ele se está a equipar, é o sensei Michael Komoto, 6º dan e tradutor oficial da AJKF durante o seminário de Verão de Kitamoto.
27.4.06
A IDEIA DO SÉRGIO
É, de facto, uma ideia. O meu único problema prende-se com o facto de, nos últimos doze ou treze (?) anos o ter ouvido dizer basicamente a(s) mesma(s) coisa(s).
Ou seja, que nós temos de "recolher" a perna esquerda mais rapidamente, manter a mão esquerda sempre ao centro quando fazemos kirikaeshi e que devemos esforçar-nos por fazer o ultimo kirikaeshi do dia mais bem feito (ainda que mais devagar) apesar de estarmos cansados.
Coitado, ele é que já deve estar cansado de repetir a mesma coisa a um bando de (baka) gaidjins que, ao fim de tantos anos, não aprenderam porra nenhuma.
Como ele diria: "Paciência".
A partir da próxima aula, sexta-feira, vou começar a publicar as recomendações diárias de Osaka sensei. Veremos se a ideia é boa ou não.
10.000 HITS! 10.000 CARAGO.
Parabéns ao internauta desconhecido, volte sempre... e parabéns para mim também, cacete.
26.4.06
UM DIA, QUEM SABE...
Parece mesmo os nossos campeonatos, não parece??? A começar pelo local, o Budokan de Tóquio, e a acabar no número de participantes... é que parece tanto...
Eu olhei e pensei imediatamente: "Quem é este gajo que tirou uma foto ao nosso último campeonato? Deixa lá ver, onde é que eu estou?..."
ROENTGENS
Ora bem, 1.000 microroentgens são 1 milliroentgen e 1.000 milliroentgens são 1 roentgen.
Sendo assim, 1 roentgen vale (+ ou -) 100.000 vezes a radiação média de uma cidade europeia.
Uma dose de 500 roentgens em 5 horas é fatal para os seres humanos.
Nos primeiros dias a seguir à explosão do reactor de Chernobyl, nalguns locais próximos da central, os contadores marcavam entre 3.000 e 30.000 roentgens por hora.
Os bombeiros que foram mandados para apagar o incêndio no reactor foram queimados vivos no próprio local pelos raios gama.
A região de Chernobyl permanecerá radioactiva durante os próximos 48.000 anos. No entanto, a área poderá começar a ser repopulada, em princípio, dentro de 600 anos, com uma margem de 300 anos de erro, mais século menos século.
O mais irónico é que acabo de ver o actual ministro da energia ucraniano, na EuroNews, a defender a construção de mais centrais nucleares no seu país.
Ele há gente que não aprende mesmo. Enfim, amanhã voltamos ao kendo.
23.4.06
ALGUMA VEZ TERIA DE SER
Dia 26 de Abril, quarta-feira passam vinte anos (já) sobre o acidente nuclear de Chernobyl.
Elena Filatova é o nome.
http://www.kiddofspeed.com/ é o site.
Elena revisits Chernobyl é o link a não perder.
Aviso à navegação: é duro.
Portanto, da próxima vez que virem um certo industrial chico-esperto a defender na TV que o nuclear é a alternativa certa (e mais segura!!!) para os problemas energéticos de Portugal lembrem-se:
a) eles pensavam precisamente o mesmo há vinte anos atrás em Chernobyl;
b) de tal maneira pensavam que era seguro que, na noite do acidente, as pessoas da cidade subiam aos pontos mais altos para "apreciar" a luminosidade cor-de-laranja que iluminava os céus do lado da central nuclear;
c) por mais seguro que seja, nada garante que um Akimov português (um Silva) não carregue no botão errado no momento errado;
Nuclear? Não obrigado.
19.4.06
UM ESTÁGIO DE KENDO "COMO DEVE SER"
Entre 24 e 30 de Julho decorre, em Valência, o (1º?) Kendo Campus, como eles lhe chamam.
Estarão presentes os seguintes mestres:
Akira MIYAZAKI - 8ºdan Hanshi
Naoshi ABE - 8ºdan Kyoshi
Satoshi MARUYAMA - 8ºdan Kyoshi
Tadao KURODA - 7ºdan Kyoshi
O keiko terá lugar entre as 9 da manhã e as 12 e 30.
Tarde livre.
E depois ji-geiko das 19 e 30 às 20 e 45.
Dia 29 da parte da manhã há campeonato e da parte da tarde ji-geiko e exames.
O preço (das aulas) para os 7 dias é de 120 euros.
Mais informações é só escrever para kendocampus@hotmail.com.
Bute lá???
17.4.06
KENDO E JOGOS OLÍMPICOS III
Na passada sexta-feira, 7 de Abril 2006, em Seoul, a IKF (International Kendo Federation) apresentou perante a assembleia geral da Associação Geral Internacional de Federações Desportivas (GAISF), o seu pedido de adesão, o qual foi aceite. E em boa hora, diga-se.
E o que é que os Jogos Olímpicos têm a ver com isto, perguntarão?
Então, é muito simples. Um dos requisitos indispensáveis para uma disciplina ser aceite no COI (Comité Olímpico Internacional) é ter uma federação internacional (e só uma) que tenha sido reconhecida pela GAISF como único representante mundial da actividade/desporto que promove, no caso da IKF, o kendo.
Por outras palavras, se a IKF foi aceite na GAISF como sendo o legítimo (e único, repito) representante mundial do kendo, isso quer dizer que a WKA, apesar do seu lobby, não foi. O que quer dizer que, sem a WKA na GAISF, não há “kendo olímpico” para ninguém.
Se já sonhavam com medalhas podem tirar o cavalinho da chuva.
10.4.06
KENDO E JOGOS OLÍMPICOS II
O problema do kendo.
Imaginemos que, com bastante tempo e paciência, até se conseguia que TODA A GENTE, NO MUNDO, aprendesse as regras e percebesse a competição de kendo tal como ela é.
Vamos ser optimistas. Quanto tempo tolerariam as grandes redes de televisão mundiais (não esquecer que os jogos são sobretudo um evento televisivo à escala planetária que vive de patrocínios comerciais) um desporto sem duração pré-determinada?
Sabemos muito bem que uma final de um campeonato pode acabar em segundos, mas também (por exemplo, a final por equipas masculinas do mundial de Glasgow) sabemos que pode estender-se por 15 ou 20 minutos de anti-shiai sem que nada de interessante (pelo menos, para um tele-espectador vulgar) se passe.
O que é um facto é que, tal como é entendido e praticado hoje, o shiai de kendo é impensável nuns Jogos Olímpicos. Já nem vou falar da fome das medalhas e de tudo o que os atletas são capazes de fazer para as obter. Afinal, o mais importante no kendo nem é vencer.
Porque é que o judo criou os "famosos" koka e yuko? Para abreviar os combates? Não tenho a mais pequena dúvida. Porque é que o taekwondo olímpico tem vitórias por acumulação de pontos, tal qual como, por exemplo, o boxe? É tudo uma questão de tempo, do seu controle e do dinheiro que esse "tempo televisivo olímpico" vale em compromissos comerciais.
Qual a solução?
A solução proposta pela World Kumdo Association, desvirtua completamente aquilo a que chamamos kendo actualmente: marcação electrónica, acumulação de pontos, pontapés (sim, sim), etc. O exemplo do judo também não é o melhor. Criar fracções de ippon numa arte marcial que tem como um dos seus fundamentos o conceito de "um golpe, uma morte", parece-me, no mínimo, ridículo. E assim, de repente, não estou a ver mais nada.
Então, repito: Qual a solução? Não há solução e não me parece que haja vergonha nenhuma nisso. Porque é que o kendo deveria ser desporto olímpico? Seria mais importante por isso? Será menos desporto assim?
Pelo contrário, a verdade é que tudo indica que, tal como se desconfiava, o kendo é muito mais do que um simples desporto.
KENDO E JOGOS OLÍMPICOS
Pensei: “Não queria ser o locutor de serviço de um canal de televisão nesse dia”. Acham que exagero? Então vamos lá, isto é só que me lembrei agora.
Para um ponto ser marcado num combate de kendo ele deve ser mais ou menos assim:
Deve-se atingir um dos yuko-datotsu demonstando ki-ken-tai no itchi, a partir do ma-ai apropriado, executando ha-suji correctamente e batendo com a parte correcta do shinai (o datotsu), o impacto, esse, deve ter sae e o praticante deve manter zanshin mesmo depois do golpe.
Simples, não é? OK, é um bocadinho subjectivo...
Façam a experiência: tentem explicar (só) ki-ken-tai no itchi a alguém que nunca viu kendo na vida e digam-lhe que é um dos factores que determina se um ponto é atribuido ou não, e porquê.
Bom, podia-se sempre fazer como no judo. Criavam-se waza-ari(s), meios-pontos, koka(s) e yuko(s) quartos e oitavos de ponto. (Nota: pode ser ao contrário não sei; yuko é um quarto e koka um oitavo de ponto... sei lá.) Olha, teve ki-ken mas não teve tai, vale um koka. Bateu só de raspão? Não há problema: um yuko resolve isso já. Acertou no Do mas não demonstrou zanshin? Eh, até fez barulho, toma lá um waza-ari, prontes.
Ou, mais simplesmente ainda, fazia-se como os coreanos da World Kumdo Association querem fazer: “tipo” esgrima olímpica. Assim, uma espécie de sport chambara com marcadores electrónicos:
- Tocou?
- Acho que sim... pelo menos a luz acendeu...
- Então marcou.
- Ah... mas não teve ki-ken-tai no...
- Não teve o quê? Não me venha cá com essas paneleirices japonesas, amigo... bateu, bateu. Ah, campeão. Mais uma medalha, carago.
9.4.06
SAITO SENSEI EM MADRID
Foto gentilmente roubada em: www.kenwakai.org Da direcção do Kenwakai de Madrid recebi uma comunicação dando a conhecer o retorno de Akitsuna Saito sensei, 7º dan kyoshi, a Madrid para mais num mini-estágio de 2 dias. O referido terá lugar nos dias 29 e 30 de Abril, sábado e domingo, no dojo do clube; segunda-feira, dia 1 de Maio (feriado) o sensei desloca-se até Zaragoza para mais um dia de treinos.
Este ano, uma das novidades é que A. Saito se fará acompanhar por um outro sensei japonês 6º dan.
O estágio é completamente grátis.
Mais informações, suponho que em breve no site do Kenwakai (www.kenwakai.org). Para já não vi nada.
8.4.06
E NO QUE A JI-GEIKO DIZ RESPEITO...
Ah, a propósito de Ji-geiko, que belo Ji-geiko que fiz ontem com Osaka sensei. Fiquei muito contente.
Saudámo-nos. Em seguida, eu, respeitosamente, proferi a frase: Shitsurei-shimassu.?. algures entre uma pergunta e um pedido de desculpas. Ele assentou com gesto e pude assim assumir Jodan-kamae. Quando se faz Jodan-kamae com alguém mais graduado (godan para cima) é de bom tom dizer sempre shitsurei-shimassu. Sim, podia ter dito "goburei-shimassu", mas shitsurei-shimassu, pelo que Osaka san me disse uma vez, é mais bem educado. É uma espécie de desculpa. Significa mais ou menos, desculpe-me pela minha ousadia em assumir uma guarda tão agressiva (eu, um reles verme, um invertebrado que deveria passar o resto da minha vida era em gedan, que é o que mais se aproxima da minha condição de ser rastejante). Voltando ao Ji-geiko, é claro que a seguir levei uma carga de porrada enorme, mas foi uma carga de porrada enorme extremamente educativa.
Abayo.
6.4.06
3. COMO ENCARAR O JI-GEIKO EM CADA FASE DE DESENVOLVIMENTO II.
Do Kendoka destes níveis deseja-se que seja capaz de aprimorar Shikake-waza; é também importante que tente utilizar uma grande variedade de tércnicas, por sua própria iniciativa. Por outro lado, deve atacar não só avançando, mas também usar activamente Hiki-waza (recuando) e deve sempre lembrar-se que deve completar o seu ataque. Tal como mencionado anteriormente, ganhar ou perder não constitui uma prioridade no Ji-geiko. Não se deve preocupar apenas com as vezes que atingiu ou que foi atingido pelo seu adversário, mas reflectir no processo de “como e porquê” atingiu e/ou foi atingido.
“Utte-hansei, utarete-kansya”, ou seja, pensar no nosso ataque depois de ter atingido o adversário com sucesso e agradecer-lhe quando ele nos atinge, é uma atitude esperada nos Kendokas deste nível.
Os praticantes nesta fase devem, além disso, começar a reflectir nas três maneiras de se impôr a um adversário (San-sappo) em Ji-geiko. Uma é matar o Ki (espírito) do adversário. Trata-se de abater o Ki do oponente demonstrando o poder total do nosso. Outra é matar o Ken (espada) do opositor. Isso significa controlar a ponta da espada contrária restringindo os seus movimentos ou anulando-os. A terceira, e última maneira, é matar a Waza (técnica) do adversário. Por outras palavras, antecipar o seu ataque, não lhe dando qualquer oportunidade de o executar (All Japan Kendo Federation, 2000, pp. 79-80).
Nesta fase, ainda é certa uma maior utilização de Ken e Waza do que de Ki para se sobrepôr ao adversário e antecipar o seu ataque. Kendokas neste nível tem ainda Waza(s) para aperfeiçoar (nesta altura é ainda demasiado cedo para começar a fazer Kendo que ponha um maior enfâse em derrotar o adversário através da força da personalidade ou presença (Ki), tal como os kendokas de nível 6º ou 7º dan conseguem fazer.). Encoraja-se o uso de uma maior variedade de Waza em Ji-geiko, através de um uso mais activo do shinai, de deslocações e de esquivas mas também são encorajados para usar Oji-waza (bloqueios) numa proporção de 2 para 8 em relação a Shikake-waza (técnicas de ataque simples). O importante aqui é compreender o conceito fundamental de Oji-waza. Não se deve esperar que o opositor ataque e responder ao seu ataque. Deve-se atraí-lo para uma situação que nos seja vantajosa assim que ele executa o seu ataque. Nunca seremos capazes de executar Oji-waza com sucesso se apenas ficarmos à espera que o adversário tome a iniciativa. Deve-se tentar mostrar espírito atacante sem bater com os pés no chão ou fazer movimentos com o shinai e colocá-lo numa posição em que o seu ataque até é benvindo (Nota Trad.: Porque já o esperamos e podemos assim controlá-lo).
Há certas pessoas que pensam que a razão pela qual não conseguem fazer Oji-waza se deve à sua (falta de) habilidade técnica, aos seus movimentos e à forma como os executam. O que devem pensar, em vez disso, é se estão ou não a tentar atrair o adversário para que ele inicie o ataque.
Neste nível, não é pedido que se seja capaz de executar Oji-waza sem pensar, mas apenas se encoraja o seu uso no Ji-geiko, desde que mantendo sempre em mente o conceito fundamental atrás referido.
Este texto é parte de “Atitudes para com o Ji-geiko”. Um artigo da autoria de Sotaro Honda, 6º dan Renshi e Treinador da Equipa Britãnica, gentilmente cedido pela BKA - British Kendo Association.
4.4.06
OLD KENDO
http://www.youtube.com/watch?v=VsX1A2EIndY&search=kendo
3.4.06
3. COMO ENCARAR O JI-GEIKO EM CADA FASE DE DESENVOLVIMENTO.
Em primeiro lugar, o ponto mais importante que o Kendoka deste nível deve ter em mente é de tentar de usar as técnicas (Shikake-waza) por sua própria iniciativa. Não se limitar a Men ou Kote, mas tentar usar TODAS as técnicas que aprendeu em Kihon-geiko e Kata-geiko. Não deve ter medo de falhar ou ser derrotado. É de esperar que o Kendoka se aperceba gradualmente do timing apropriado de cada uma das técnicas, à medida que as utiliza quando toma a iniciativa de atacar. Outro ponto importante é que não deve parar o seu movimento depois de atacar, mas sim tentar completar o ataque e rapidamente preparar-se para a próxima acção. É frequente no Ji-geiko que os principiantes percam a atenção (e a guarda) assim que concluem o primeiro ataque e enquanto voltam para onde estavam antes de o iniciarem. É fulcral manter a concentração, onde quer que se esteja, e preparar-se para a próxima acção assim que se conclui o primeiro ataque.
Em segundo lugar, é normal que a maioria dos principiantes não tenha ainda aprendido, nesta fase, como se defender. Dá-se também o caso de os principiantes não saberem exactamente o que fazer; permanecerem ausentes e estáticos sem tentar responder aos ataques, ou então fechar os olhos e contrair os ombros, por vezes recuando ou fugindo, sempre que o adversário toma a iniciativa de atacar primeiro. É também razoável assumir que podem até sentir medo perante o ataque do opositor.
O que é importante aqui é (ajudá-los a) compreender as noções de Ko-bo-ichi e Ken-tai-itchi (N.Tr.: Não confundir com Ki-ken-tai-no-itchi). Estas expressões ilustram a importância de estar sempre física e intelectualmente preparados para se defender de um eventual contra-ataque do adversário enquanto estamos a atacar, mas também preparados para contra-atacar enquanto defendemos (All Japan Kendo Federation, 2000, p. 47).
O acto de defesa não existe, por si só, no Kendo.
A defesa existe tendo como objectivo o ataque ou o contra-ataque.
Usar uma defesa adequada possibilita-nos atacar imediatamente a seguir, mas não se deve permanecer estático e simplesmente defender utilizando só o shinai. Deve-se manter os joelhos relaxados e defender usando o shinai e sabaki (esquivando).
À medida que se ganha experiência, adquire-se também uma gama maior de Waza e um melhor timing. Nesta fase, deve-se encorajar a utilização de técnicas com movimentos grandes, que envolvam todo o corpo, a não confiar em técnicas com movimentos pequenos e a não tentar apenas atingir o adversário mais vezes do que ele nos atinge a nós.
Se, nesta fase, se criam maus hábitos na maneira de atacar e defender , demorará muito tempo até que eles desapareçam. É importante reflectir sobre a maneira com que encaramos o Ji-geiko, ouvindo os conselhos dos Sempai e Sensei, mas também através de um auto-exame
Este texto é parte de “Atitudes para com o Ji-geiko”. Um artigo da autoria de Sotaro Honda, 6º dan Renshi e Treinador da Equipa Britãnica, gentilmente cedido pela BKA - British Kendo Association.
2.4.06
TORNEIO DO PORTO 2006 (INCLUI PRÉMIOS USAGI SAN)
Desta vez, e visto que fui árbitro (e como, aparentemente, não havia vencedor pré-determinado) tive de estar (mesmo mesmo) com muita atenção aos combates. Assim, gostaria de deixar aqui a minha impressão a propósito do assunto.
Primeiro a parte negativa: não houve. Ou se houve, não dei por ela. Foi tudo muito escorreito... beuh, que palavra.
Enfim, alguns participantes, mais por ignorãncia do que por desrespeito, ainda não conhecem bem as regras de competição. Precisam de aprender quais são as suas obrigações enquanto estão dentro do shiai-jo; mas enfim, nada de especial.
Ah, sim, uma coisa negativa: fiquei lixado por me terem dito que não havia goodwill-geiko no fim e depois haver goodwill-geiko no fim. Não levei o kendo-gu e depois fiquei a olhar para o boneco, enquanto toda a gente se divertia à grande e à paulada. Mas que se lixe, acho que até foi resultado de tudo ter corrido de maneira tão.... como dizê-lo... escorreita?
Os resultados toda a gente sabe quais foram, mas não custa nada “espetá-los” aqui nesta página. É aquela idéia... assim como a RTP ser serviço público, tão a ver?
OK, então:
1º Lugar - Sérgio Andrade (AKL);
2º Lugar - Henrique Martins (AKC);
3ºs Lugares - Luis Sousa (AKL) e Paulo Martins (AKL);
Fighting Spirit
Helder Sacramento (AKP) e Rui não me lembro do último nome mas sei muito bem quem és, (AKL);
PRÉMIOS USAGI SAN
Uma mão cheia deles. Primeiro os sérios:
Prémio Fighting Spirit: Luis Sousa (AKL);
Prémio de Desempenho Extraordinário: Rui, o tal que não sei o último nome;
Prémio de Desempenho Extraordinário: Vai para um "chavalo", assim grandão, de Coimbra cujo nome ignoro mas que me surpreendeu BUÉ;
Prémio Técnico: Mário Lehmann (AKP);
E agora os prémios especiais do júri:
Começo por um prémio que tem um significado muito especial para mim que é o
Prémio Otário Não Te Queixes Quem Te Mandou Tentar Fazer Por Duas Vezes Kote Ao Paulinho Sabendo Tu Que Ele Faz Sempre Kote-Nuki-Men Nessas Ocasiões? - E que vai, com muito carinho, para o meu irmão (ver rodapé do post);
Uma excelente série de ippons usando Men está na origem do prémio seguinte, o
Prémio Quem Me Dera Ter Menos Vinte Anos Para Poder Ser Assim Tão Rápido
também conhecido como
Prémio “Dor De Corno” Do Autor Deste Texto - Este vai para o “puto” Joni;
Seguimos para o
Prémio Tanto Trabalho Para Empatar A Meia-Final E A Seguir És Comido Como Um Patinho (Hehehe) - Luis Sousa;
E para acabar em beleza o prémio para o melhor ippon do campeonato:
Prémio Porra Até Que Enfim Alguém Vai Atrás Do Adversário E Lhe Espeta Um Grande Men No Toutiço Quando Ele Se Vira, Em Vez De Ficar De Braços Cruzados À Espera Que Ele Volte Para O Meio Do Shiai-jo - Nem preciso de dizer o nome do contemplado, não é verdade?
(Nota: não, querida, não arbitrei NENHUM dos combates dele, não te canses, sequer a investigar. Oh! Terá sido por isso que ele não ganhou???)
24.3.06
2 - O QUE JIGEIKO DEVE SER
O restante deste artigo explica como encarar o Ji-geiko, de acordo com as diferentes fases de desenvolvimento de cada um.
Este texto é parte de “Atitudes para com o Ji-geiko”. Um artigo da autoria de Sotaro Honda, 6º dan Renshi e Treinador da Equipa Britãnica, gentilmente cedido pela BKA - British Kendo Association.
23.3.06
1 - A RELAÇÃO ENTRE KIHON-GEIKO, KATA-GEIKO E JI-GEIKO
No Kihon-geiko, as técnicas são repetidas uma vez e outra e outra, numa situação pré-determinada, de modo a que o praticante se torne capaz de as executar correctamente, com um bom Ki-ai e uma boa postura final, demonstrando Ki-Ken-Tai no Itchi.
Kata-geiko coloca maior enfâse na utilização da espada do que Kihon-geiko (uma vez que os kata são normalmente executados com um bokuto). Kata-geiko é também onde aprendemos a respirar como deve ser, utilizando o abdomén.
Kihon-geiko, Kata-geiko e Ji-geiko não existem separadamente. É suposto estarem ligados nas suas fundações. Há algumas pessoas que desempenham maravilhosamente em Kihon-geiko e Kata-geiko, mas que perdem a postura e a coordenação entre braços e pernas durante o Ji-geiko. Isso não será um problema se essas pessoas estiverem a desenvolver um trabalho que visa ultrapassar as suas inabilidades no Ji-geiko.
No entanto, há outras pessoas que centram a sua atenção apenas em derrotar os seus adversários e em desferir mais golpes do que o oponente. Este tipo de atitude no Ji-geiko reflecte uma preocupação exclusiva em ganhar apenas nesse preciso momento. Em contraste, há outros que preocupam apenas com a sua postura e aspecto formal e dão menos atenção ao Chu-shin (controle do centro) e Seme-ai. Tudo isto não é relevante se as pessoas que o fazem, o fizerem intencionalmente, com o objectivo de ultrapassar os seus mais variados problemas (p.e. tentar manter as costas direitas quando atacam).
Se não estão a tentar resolver quaisquer problemas, então tais abordagens apenas servem para degradar o Ji-geiko, tornando-o numa mera performance e, assim, impedindo-nos com a sua atitude errada de experimentar o real prazer da prática de Ji-geiko.
Este texto é parte de “Atitudes para com o Ji-geiko”. Um artigo da autoria de Sotaro Honda, 6º dan Renshi e Treinador da Equipa Britãnica, gentilmente cedido pela BKA - British Kendo Association.
NOVO MATERIAL
Eu mandei a vergonha às urtigas e enviei um mail para o webmaster da BKA British Kendo Association, pedindo autorização para traduzir uns artigos da autoria do treinador da equipe inglesa, o sensei Sotaro Honda.
E não é que povo tinha razão? Nem cinco minutos se tinham passado quando recebi a dita autorização.
Assim, nos próximos tempos vou dedicar algum do meu tempo livre a traduzir para vós, caros camaradas kendokas portugueses, três (extensos) artigos dedicados ao nosso "favorite pastime".
O primeiro chama-se "Atitudes para com o Ji-geiko" e já comecei a respectiva tradução; o segundo chama-se “Atitudes para com o Shiai” e o terceiro "Tácticas em Kendo".
Espero que gostem... se não gostarem... pois... paciência. Quero lá saber.
ATITUDES PARA COM O JI-GEIKO
Introdução
Ji-geiko é a essência do treino de kendo. Durante o Ji-geiko, nós, kendokas, podemos tentar utilizar as técnicas em situações não-restritas. Podemos também aprender e adquirir conhecimentos sobre o que fazer antes de atacar (Seme) ou acerca de como reagir ao Seme de um oponente (suas intenções e ataque). Graças ao Ji-geiko, podemos reconhecer com que técnicas somos, ou não, eficazes e o Ji-geiko pode guiar-nos nos próximos Kihon-geiko e Ji-geiko de forma a melhorarmos a nossa progressão técnica. Mas, além disso, também proporciona maneiras de desenvolver a nossa habilidade e o espírito de verdadeiros kendokas.
Se abordarmos o Ji-geiko da maneira errada, focando-nos apenas o objectivo de bater o adversário, não devemos esperar no futuro um desenvolvimento real enquanto kendokas. É por isso importante, antes de mais, envolvermo-nos no Ji-geiko com a compreenção correcta do mesmo.
Assim o propósito deste artigo (parte 1) é reexaminar a relação entre Kihon-geiko, Kata-geiko and Ji-geiko, seguido de uma reflexão de como esse último deve ser praticado.
17.3.06
MENOS UM 8º DAN KYOSHI NO MUNDO.
10.3.06
KENDO NÃO É FUTEBOL 2
Post encontrado no forum da Associação de Kendo do Porto.
É muito triste.
1.3.06
ARIGA SENSEI

E, no fim de contas, não foi assiiiim tão duro como isso. Confesso que estava à espera de uma coisa muito mais "agreste". Nem houve kakari-geiko...
Enfim, mesmo com o pé esquerdo e o ombro direito a funcionarem a 50% consegui fazer o estágio... hum... numa boa, diria.
Importante importante, para mim, foram aquela meia-dúzia de minutos em que tive ocasião de fazer gi-geiko com alguém que já ganhou 4 medalhas de bronze em campeonatos do mundo. Apesar de ser um tipo de kendo ("de polícia") cujo visual não aprecio particularmente, tenho de me render à evidência quanto à sua, óbvia, eficácia.
Mas também daqui a dez ou vinte anos possivelmente ninguém se vai lembrar que existiu kendo "de universidade". Não sei os números certos mas, se calhar, hoje em dia uns 80% (ou mais) dos 8º dan devem ser polícias.
NOTA FINAL: Agora, muito muito muito educativo foi o gi-geiko de ontem na Patrício Prazeres entre os senseis Osaka e Ariga.
2.2.06
SÓ FALTOU PÚBLICO
Na verdade, vou até mais longe e digo que foi, na minha modesta opinião, um dos melhores torneios de kendo a que assisti em Portugal.
Quase todos os combatentes mostraram um espírito valente e decidido. Onde os outros vêem falta de qualidade nos inúmeros empates, eu vejo um equilíbrio que não deixa de ser marcante, uma vez que todos os adversários em contenda sabiam perfeitamente que o que interessava, o que dava os 4 pontos, era a vitória.
De facto, só faltou público, mas... espera... ah, falta sempre.
Bom trabalho, pessoal.
31.12.05
30.12.05
2006
Bom keiko.
7.12.05
CONCLUSÃO (ACERCA DOS MÉTODOS DE ATINGIR O KI)
É preciso, ao mesmo tempo, evidentemente, enfrentar as técnicas do budo. Devemos ver nelas um dos elementos essenciais pelos quais o budo se constitui. Estou convencido que a chave do budo está no nosso corpo, o que significa que se encontra para lá das barreiras culturais. Penso que se trata do ki, mas não do ki em geral. Na prática das artes marciais, estamos face ao ki, moldado de uma forma técnica, sem a qual o budo não pode existir.
Apresentei e analisei brevemente dois métodos clássicos que visam desenvolver o ki, seja através da prática do kata, seja directamente pelo exercício energético.
A história do budo, e do kendo em particular, mostram que os dois métodos convergem.
Pôr em evidência o trabalho do ki permite, não apenas concretizar a prática do budo, mas também abrir a possibilidade de uma prática a longo prazo. O budo pode assim contribuir para o bem-estar e melhoramento da vida. Segundo a minha análise, a sensação de ki é o fundamento do budo. Ela pode ser sentida para lá das barreiras culturais, abrindo assim perspectivas acessíveis fora da cultura budista e shintoísta japonesa, mas conservando sempre aquilo que é a especificidade do budo.
6.12.05
O MÉTODO ENERGÉTICO (2ª PARTE)
Durante a segunda metade da sua vida, Shiraï Toru dominava os seus adversários com um estranho poder que emanava da sua espada. Diz a lenda que na ponta do seu bokuto se apercebia um círculo luminoso. Tendo atingido esse nível, emcontrou-se num impasse que apenas conseguiu ultrapassar a poder de longos anos de treino e de meditação ascética. Esse método, o “rentan”, baseia-se principalmente sobre um trabalho energético que corresponde, em grande parte, ao qi cong marcial dos dias de hoje. Segundo Shiraï Toru, o rentan seria o único método concreto para atingir o nível superior da via da espada.
Yamaoka Tesshu atingiu, também ele, um nível extraordinário com a espada; e, para isso, apoiou-se na prática do zen. Era pobre e, por volta dos trinta anos, habitava uma casa em mau estado. Chamavam-lhe “Tetsu vestido com cortinas”, mas também, “Tetsu, o demónio do dojo”. Muitos dos seus amigos contam que, durante a noite, o chão da casa, ressoava com o ruído dos ratos. Mas assim que Tesshu começava o zazen, o seu ki preenchia o espaço e os ratos cessavam de fazer barulho, chegando alguns a cair das vigas por onde corriam. Alguns anos depois, quando Tesshu começava o zazen, os ratos paravam de correr e desciam para brincar à sua volta. Não sei da autenticidade desta anedota.
Em todo o caso, existem inúmeros testemunhos da força do ki de Yamaoka. Takano Sasaburo (1862-1950), um dos maiores mestres do kendo do princípio do séc. XX relata:
“Durante os treinos, o mestre deixava-se atingir pelos golpes dos seus alunos, mas eles nunca tinham a sensação de o ter verdadeiramente atingido. Quando tentava atingi-lo com um golpe mais poderoso, encontrava sempre a ponta do shinai do Mestre na minha garganta... a atitude do Mestre era semelhante à de um balão que nunca se consegue fazer tombar. Ele possuia uma enorme flexibilidade, mas essa flexibilidade escondia uma potência brutal. É assim que, durante os treinos, mesmo atingindo-o bem no meio do men, nunca consegui sentir que o tinha (verdadeiramente) tocado. Toda a gente era empurrada pelo seu ki. Mesmo quando a ponta do seu shinai parava a trinta centímetros diante de mim, tinha sempre a sensação de ter recebido um tsuki. O Mestre não manejava a espada com as mãos, mas com o seu centro de energia. Aconteceu-me um dia receber um muito ligeiro tsuki e no momento não sentir nada. Mas quando voltei para casa apoderou-se de mim a estranha impressão, como se a minha garganta tivesse sido perfurada e o ar circulasse livremente. Essa impressão estranha persistiu durante dois dias.”
Se estes dois grandes mestres transformaram radicalmente a qualidade da sua espada, um através do rentan, o outro do zazen, podemos pensar que essas práticas os ajudaram a reorganizar a maneira de sentir e de agir subentendidas na técnica da espada. Do ponto de vista prático, a pessoa que se exercita dessa forma não pensa forçosamente estar envolvida numa reorganização. Subjectivamente, ela sentirá um melhoramento moral ou, segundo a sua crença, uma iluminação, ou uma purificação, do corpo e do espírito. Mas o mais comum será provavelmente uma forte sensação do ki.
Se o zen influenciou a prática da espada japonesa, não foi apenas como filosofia especulativa, mas fundamentalmente através da prática corporal do zazen. Penso que, pelo menos a princípio, o zen atraiu os guerreiros do período das guerras feudais pelo seu aspecto pragmático.
Como disse antes, uma particularidade do budo consiste no facto de, levado a fundo o seu pragmatismo, este se começar a confundir com moral e filosofia.
Mesmo se a filosofia do budo é intrigante no plano intelectual, discutir esssa filosofia não contribui para uma melhor compreensão do mesmo.
O método rentan, tal como o do zen, visam desenvolver o essencial do budo sem passar por uma aprendizagem de técnicas específica. Mas na arte da espada, que exige um manejamento e trajectos certos, esse método não é aplicável senão depois obter um domínio técnico mínimo. Pois que, mesmo que se tenha adquirido uma mestria energética e uma percepção correcta da acção em combate, os gestos não serão transpostos com eficácia se a espada não seguir as trajectórias correctas. Mesmo com uma grande força, a espada não corta se a lãmina não se encontrar na posição devida. Enquanto que na arte de combate de mãos nuas, trata-se de aplicar um golpe, e não de perfurar com uma lâmina, pode-se golpear eficazmente sem a precisão necessária na espada. (...)
Próximo post: Conclusão
O MÉTODO ENERGÉTICO (1ª PARTE)

Depois do método do kata, eis então segundo método de treino, o método energético. Como sempre, todos estes textos estão disponíveis em www.tokitsu.com mesmo aqui ao lado, na zona dos links.
Este método traça um caminho quase inverso ao primeiro e visa desde o início reforçar o que veicula o princípio da eficácia: o ki. Diria que este método tenta reorganizar o sistema sensorial para que o corpo funcione com uma melhor regulação energética. Se o primeiro se apoia sobre as formas técnicas elaboradas até à perfeição, este apoia-se directamente sobre o sistema sensorial inerente às técnicas gestuais da mais alta eficácia.
Eis porque, segundo este método, a técnica deve aparecer espontaneamente a partir da sensação de ki. Ele não se apoia na aprendizagem específica das técnicas como o método do kata. Se houver uma elaboração técnica, ela virá depois de se ter dominado suficientemente o princípio da eficácia, que o mesmo é dizer, o ki. (...)
N(a arte d)o sabre, mesmo para um método que situa no lado oposto ao método do kata e visa a formação directa no combate pela aquisição de um elemento mental e energético essencial, há um minímo de mestria técnica que é obrigatória para saber utilizar a lãmina.
O método de Hirayama Gyozo (1759-1828) é um bom exemplo disso e a aprendizagem técnica era aí limitada ao mínimo. O seu método consistia numa só técnica. Um exercício a dois, onde se ataca com um shinai longo um adversário munido de protecções e um shinai curto de 40 cm. Este último deve atacar para desferir um golpe no abdómen do primeiro, com o espírito de o trespassar, isso, quaisquer que sejam os golpes que receba enquanto se aproxima.
Hirayama Gyozo escreveu num dos seus livros, Kensetsu (Explicação da espada):
“O objectivo da arte da espada é matar o inimigo. O essencial é fazer passar o vosso espírito “matador” através da barriga do adversário.”
À escola de Hirayama Gyozo chama-se Sinkan-ryu ou Shinnuki-ryu (escola de atravessar pelo espírito ou escola de atravessar pelo essencial, conforme os ideogramas).
Segundo Hirayama Gyozo, se o vosso espírito atravessa o adversário, sois os vencedores e esse é o método mais seguro e eficaz em combate real com espada. Vemos aqui um trabalho energético que visa o reforço do espírito da maneira mais directa. A simplicidade deste treino reside na repetição de um só gesto, no que é comparável ao exercício aparentemente simples de permanecer de pé e imóvel em “ritsu-zen” (zen em pé). No entanto, com a postura imóvel do ritsu-zen, exercemos o espírito no sentido de criar uma disposição mental e física destinada a esmagar o adversário, qualquer que ele seja. No combate com sabre, é preciso utilizá-lo correctamente, daí que o exercício simples de suburi seja a base do método de Hirayama Gyozo. O seu método é, assim, resumido a um gesto simples e ao reforço daquilo que é o fundamental do combate. Caracterizaria-o então como um método que visa reforçar directa e simplesmente o essencial da energia: o ki do combate.
Na tradição da espada japonesa, o método energético é o mais frequentemente aplicado, paralelamente ao método do kata ou a continuação do mesmo. Referirei, como exemplo, dois mestres célebres do séc. XIX, Shiraï Toru (1783-1845?) e Yamaoka Tesshu (1836-1888), na foto acima, que seguiram essa tendência.
Os problemas encontrados por esses dois adeptos são incontornáveis para qualquer reflexão sobre o método (N.Tr.: de treino) nas artes marciais japonesas.
28.11.05
ATINGIR O KI PELO MÉTODO DO KATA (2ª PARTE)

Ora cá estamos com a conclusão acerca do método do kata. Esta tradução foi difícil. Agradeço eventuais sugestões caso alguém, diante do original, que se encontra página de Tokitsu sensei (ver links), encontrar uma tradução mais adequada para alguma passagem.
Nessa situação sente-se uma plenitude. Neste caso, porque mesmo sem ter consciência de tal, fomos guiados por uma sensação especial e agimos entregando-nos a essa sensação. No momento do impacto, sentimos uma sensação de fusão com algo. É o sentimento do ki. O qual está presente na sensação de perfeita execução técnica no decurso do combate. E não só está presente, como é modulado pela técnica.
Ao exercitar kata, banhamo-nos nessa sensação moldada em formato de técnica.
Quando se estuda os kata clássicos, eles comportam os elementos necessários para atingir um estádio de combate superior. Muitos kata foram deformados no decurso da sua transmissão. Mas um kata no momento em que é formado, mostra um estado idealizado de técnicas efectivas de formação para combate. O estado idealizado da técnica corresponde ao mais alto grau de uma técnica, o de fusão da técnica corporal e do espírito. O ki deve circular naturalmente. Podemos dizer que exercê-lo dessa maneira, com e na técnica, equivale a um princípio energético. Se um gesto técnico é perfeito, é porque está em harmonia com o princípio de eficácia que gere o ki dessa técnica. A forma perfeita de uma técnica que não tenha eficácia não faz sentido, tal como não existe um sabre soberbo que não corte. De certa maneira, toda a perfeição técnica é um invólucro para um princípio de eficácia.
Vimos que o termo ki cobre sensações vagas e muito vastas. Nós utilizamo-lo no budo modelando-o de uma forma técnica.
Dizia-se a propósito de um mestre:
“Quaisquer que sejam os seus gestos, constituem uma técnica perfeita.”
Porque, justamente, ele era capaz de seguir o ki de uma maneira não-formal, mas profundamente técnica. Tinha de tal maneira bem integrado as técnicas, que os seus gestos estavam em conformidade com o princípio subjacente das mesmas, no sentido mais lato do termo kata. É o que chamamos ultrapassar a forma apreendendo-a: ultrapassar o kata penetrando profundamente no kata.
O kata mostra um modelo técnico do combate, elaborado de tal forma que nos convida, e nos guia, na escalada até ao cume. O kata apoia-se assim sobre um sistema onde o saber se situa mais acima e os praticantes tentam elevar-se para o atingir. A forma técnica é um meio de ascenção e não um objectivo por si só. O objectivo do kata é de se ultrapassar a si mesmo.
Ao observarmos o que se passa no nosso espírito durante um treino mais duro, em que procuramos adquirir uma melhor técnica, encontramos a imagem do nosso mestre, aquele que no-la mostrou ou ensinou. Os nossos gestos não estão ligados à imagem de perfeição representada pelo mestre quando, por exemplo, nos treinamos a sós?
No processo de treino, esforçamo-nos para fazer (as técnicas) tão bem como os nossos sempai, como o sensei, depois desejamos ultrapassá-los; vencê-lo. Quanto mais pesada é essa imagem mais ela nos persegue. Lutar contra essa imagem, é o processo do treino: a repetição.
Esse encadeamento psicológico é característico da aplicação do método do kata.
Uma melhor compreensão da lógica inerente ao método do kata e da sua ligação ao ki permite-nos avançar na prática do budo. Para isso é indispensável saber observar e tratar os kata sob um ângulo diferente. O kata não é uma simples codificação técnica, não é nem molde, nem cerimónia, nem combate imaginário.
O kata é um método de treino que exige algumas chaves para se poder usufruir plenamente. Desenvolveremos esta ideia mais adiante.
Próximo artigo sobre utilização do ki. O método energético
PRÉMIOS USAGI SAN
Roubando a ideia aos gordos do Sumo, e referente ao campeonato de sábado passado, passo a apresentar a lista de Prémios Usagi San:
Prémio Fighting Spirit: António Gabriel (tá tudo dito)
Prémio Fighting Spirit: Roberto Ferreira (mais sorte para a próxima)
Prémio de Desempenho Extraordinário: Rui Araújo (kiai, meu, kiai)
Prémio Técnico: Henrique Martins (muito bom)
Prémio Técnico: Joni Duarte (é um verdadeiro japonês falsificado)
Para além destes, criei agora mesmo um novo prémio, que acho que vai ter muita saída nos próximos campeonatos e torneios, que é o Prémio Porra Que Já Tava Farto De Ir A Campeonatos E Ser Eliminado Nas Pools Ou Na Primeira Eliminatória Directa e que é atribuído a: João Lourenço
Estes prémios referem-se, como devem ter reparado, apenas ao sector masculino. Ao contrário do torneio anterior em que fui árbitro, neste não tomei atenção ao sector feminino. Vi a final e pouco mais, de modo que, para não ferir susceptibilidades, não vou “dar prémios” ao que não vi.
E pronto, por agora é tudo. Até ao próximo torneio, a 28 de Janeiro.
27.11.05
"MEDALHA"

Eu nem imagino em que estado este rapaz deve ter o gargalo, ainda hoje. Esta é uma das fotos mais famosas de tsuki que circula na net. Via-a pela primeira vez na contra-capa do número 2 da revista Kendo-World já lá vão uns três anitos ou coisa que o valha. Só de olhar, ainda hoje, me dói.
Isto tudo a propósito do tsuki que o Sérgio me “espetou” ontem no mune-do. É que apesar de me ter acertado numa zona aparentemente bem protegida, tenho cá um “medalhão” negro no meio do peito...
Nota: Se alguém encontrar um site a pedir dinheiro para comprar uma traqueia artificial para o rapaz da foto, digam-me, tá bem?
OBRIGADO
Mas no dia 27 de Novembro de 2005 às 02 horas 37 minutos e 38 segundos da manhã alguém, utilizando um computador equipado com um sistema Windows ME e através do browser Firefox 1.7, visitou este modesto kendo blog e marcou o hit 5000.
A esse viajante ciberespacial os meus cumprimentos.
Espero que tenha gostado (e que volte).
A todos os outros, obrigado pelos 5000 hits. Tou muito feliz.
25.11.05
KENDO NO FEMININO
Actualmente a Jenny voltou para Hong Kong, onde está a treinar seriamente para fazer parte da equipa daquela ex-colónia inglesa para os 13ºs Campeonatos do Mundo.
Designer gráfica de profissão, alimenta o seu blog regularmente, qual tamagoshi, e ainda possui uma secção de fotos muito interessante.
Um blog de kendo no feminino, interessante (tanto quanto um blog consegue ser) para homens e mulheres kendokas em http://mingshiwan.blogspot.com.
ATINGIR O KI PELO MÉTODO DO KATA (1ª PARTE)

A continuação deste artigo da autoria de Kenji Tokitsu sensei sobre ki, encontra-se no site do dito, mesmo aqui ao lado na minha, relativamente nova, secção de links. Quem conseguir encarar um texto em francês pode ir lá ver como é que acaba.
O primeiro método tem como base a formação técnica e a sua aplicação através da repetição. É a mais frequentemente aplicada.
Por exemplo, para aprender kendo, começa-se a partir do manejamento correcto do shinai; para aprender karaté, começa-se por aprender a forma precisa dos socos e pontapés. Não se trata de bater de qualquer maneira. Em combate, não se consegue obter um ippon se não se bater correctamente. Treina-se com o objectivo de fazer combates superiores com uma técnica magnífica.
Se, hoje em dia, analizarmos as técnicas de kendo tal como foram preconizadas, podemos obter um certo número de modelos técnicos a aprofundar. Esses modelos representam uma espécie de ideal técnico imprescindível de assimilar. Podemos dizer que os kendokas praticam jigeiko tendo esses modelos como critério, acerca do que é uma boa ou má maneira de combater. E o mesmo acontece com os karatekas. Se bem que no kendo esses modelos não sejam classificados como kata. (N.Tr.: suponho que o autor se esteja a referir aqui a exercícios como oji-waza, hiki-waza, etc) Eles são muito diferentes dos Nihon Kendo Kata.
Tal e qual como no karaté, podemos exercitar as técnicas directamnente utilizáveis: os encadeamentos técnicos, deslocações, etc. Podemos mesmo codificar um conjunto de gestos úteis e necessários para os tipos de combate que fazemos diariamente. Podemos, quase, formar kata com esses gestos, mas obteremos kata diferentes dos kata “tradicionais”. E podemos fazer o mesmo com o judo.
Em todo o caso, não nos exercitamos para combate de qualquer maneira. Seguimos um modelo que se aproxime de uma certa perfeição. Ao fazer mil suburi, trata-se de repetir mil vezes uma procura de um ataque perfeito.
Dessa maneira, quando se exercita repetindo uma técnica com um modelo idealizado, trata-se do método do kata, no sentido mais lato da palavra. A única razão porque não dizemos que é o método de kata é porque atribuimos a génese dos kata à tradição. Mas quando analizamos o dinâmismo inerente à génese dos kata, conclui-se que, antes de um kata “nascer”, cada um foi praticado da mesma maneira que agora praticamos as técnicas úteis, necessárias, indispensáveis, até, para formação das nossas capacidades técnicas de combate.
Não se trata apenas de um cerimonial gestual do qual sentimos necessidade de justificar o desfasamento em relação à prática do combate efectivo.Assim, sem que o nomeemos, é o método de kata, no sentido mais amplo da palavra, que aplicamos no kendo ou no karaté.
Não basta fazer um movimento perfeito a sós, é necessário fazê-lo em situação de combate, face a um adversário. O jigeiko é um processo de assimilação dos requisitos necessários para realizar um combate mais perfeito. Não se fazem bons combates por sorte.
Quando se é capaz de fazer combates satisfatórios, é porque já se consegue sentir uma espécie de plenitude ao marcar um ippon. Nessa situação, criámos, anteriormente ao golpe, um instante de vulnerabilidade no adversário, pois fomos capazes de perturbar a sua guarda e o seu espírito. O nosso ataque apoiou-se no vazio do oponente, enquanto nos sentiamos repletos de energia, produto de uma boa postura do corpo que transporta o sabre numa trajectória perfeita. (...)
Próximo artigo: Atingir o ki pelo método do kata (2ª, e última, parte)
23.11.05
OS MÉTODOS CLÁSSICOS DE DESENVOLVIMENTO DO KI
Penso que o trabalho apoiado no ki está presente, explícita ou implicitamente, naquelas disciplinas do budo em que os adeptos podem percorrer um longo caminho, melhorando sempre as suas capacidades. No kendo, o trabalho sobre o ki torna-se efectivo a partir de um certo nível e no taiki-ken desde o começo. Em certas escolas de jujutsu e de kenjutsu, não se insiste sobre o trabalho do ki, mas ele está presente implicitamente.
Na tradição do budo, podemos distinguir dois métodos de desenvolvimento do ki, distintos na sua aparência mas, no fundo, complementares.
Próximo artigo: Atingir o ki através do kata
ACERCA DE “UMA CHAVE PARA O BUDO”
Sou o orgulhoso dono de um exemplar de Ki and the way to the martial arts e conheço os escritos de Tokitsu sensei desde os tempos, nos fim dos anos setenta, em que escrevia para a revista francesa Karaté (hoje, Karaté-Bushido).
Por mais que tente não me surpreender, acabo sempre... hum... pois, surpreendido com a racionalidade e a facilidade com que explora e explica os temas mais obscuros, chamemos-lhes assim, das artes marciais, sem nunca cair no esoterismo fácil e no bullshit (seja o bullshit new-age ou o bullshit do costume).
Óóói, estão a ouvir o que eu estou a escrever? LEIAM OS TRÊS ÚLTIMOS ARTIGOS.
Vale a pena.
Trust me.
22.11.05
UMA CHAVE PARA O BUDO (3ª PARTE)
A estrutura do budo é dupla: é preciso estar pronto a todo o momento para desencadear a violência, mas, ao mesmo tempo, manter um estado de lucidez no qual o espírito possa captar amplamente tudo o que se passa ao seu redor. Quando num estado de tranquilidade, a lucidez permite transformar a agressividade em potencial. Um poema famoso de Miyamoto Musashi comunica essa disposição:
“Na torrente invernosa rápida,
a água transparente e calma à superfície,
reflecte a lua como um espelho.”
Mergulhar a mão na água gelada e rápida evoca o frio cortante da lâmina do sabre. A rapidez é o dinamismo do combate. Ao mesmo tempo, a superfície da água dá uma ideia de pureza e calma. Se a superfície se agita, a Lua será deformada. Este poema, frequentemente citado para descrever o estado de espírito do sabre, mostra bem a dupla componente da violência e da calma.
Num nível de combate mais primário, aquele que age com agressividade e violência tem mais chances de obter uma vitória. Mas o nível que devemos procurar no budo corresponde a uma melhor mestria da técnica e do ser. Aí, o estado de espírito reflecte-se da maneira mais refinada. Neste caso, assim que se pensa em atacar com o intuito de fazer mal ao adversário, algo sussurra no mais profundo da consciência que isso é errado. Esse sussurro, por mínimo que seja, é suficientemente importante para travar a espontaneidade do acto. Penso que é nesse sentido que se diz:
“Se o espírito é justo, o sabre é justo; se o espírito não é justo, o sabre não é justo.”
Esse ensinamento é por vezes concebido como moral, mas o seu fundamento é técnico. A arte do combate é uma arte pragmática. Diria que a moral emerge aqui de um pragmatismo levado ao limite. É a particularidade do budo. Não se trata duma associação de valores morais à prática das armas.
Se buscamos agir espontânea e justamente, é preciso libertar o espírito dos entraves da consciência; daí provém o ensinamento do “espírito vazio”.
A este nível, a procura da eficácia desenboca numa espécie de paradoxo porque, se queremos vencer o adversário (o que significa matá-lo no sentido técnico) da maneira mais segura, é preciso não desejar vencer (matar), é preciso ter desapego pela vitória, se a desejamos obter. O que se aproxima da máxima: “É preciso preparar-se para morrer, se queremos sobreviver.”
Desse modo, o acto do combate conduz-nos a uma introspecção e a uma dúvida que nos empurra para a reorganização da nossa pessoa, tendo em vista ser mais perspicaz, capaz de não se deixar perturbar, agir espontaneamente e, precisamente, desencadear as capacidades ao máximo. O processo dessa reorganização é o treino que inclui uma tensão no sentido do auto-aperfeiçoamento. É aí que nasce a prática do budo.
Ao observar assim a evolução da consciência do praticante, podemos perceber que é a partir do momento em que toma consciência da importância do (de uma coisa) que é normalmente invisível, que a sua formação subjectiva começa. Essa coisa, que é a chave do budo, é o ki. Dito de outra forma, enquanto uma pessoa não entender essa sensação de ki na prática das artes marciais e não conseguir construir a sua prática pondo em causa o seu ser, ela não conseguirá seguir o caminho da auto-formação, (como que) por falta de luz num trilho escuro.
É também neste sentido que eu penso que o ki é a chave do budo.
20.11.05
UMA CHAVE PARA O BUDO (2ª PARTE)
Eis o significado do célebre ensinamento: “Não ganhes depois de atacar, ataca depois de ganhar”.
“Depois de ganhar”, é precisamente depois de ter ganho o combate de pontas e de seme.
No momento em que os dois adversários se enfrentam, começa a interferência do ki. Os gestos do seme são um meio de projectar o ki sobre o adversário. Se o acto do seme influi sobra a atitude do oponente é porque esse acto toca e faz mexer a percepção directora do adversário. Diria que é uma interferência de ki. Eis porque podemos dizer que, mesmo numa fase onde se efectua o seme sem ter consciência do ki, o essencial do seme consiste de ki.
Penso que esse nível de combate é desconhecido para muitas das disciplinas de combate (judo, karaté, boxe...) nas quais a consciência dos praticantes é limitada aos elementos mais directamente perceptíveis: a velocidade, a força ou a agressividade. É uma percepção muito difícil de estabilizar num combate de percursão como, por exemplo,no karaté. (...)
É portanto no kendo que podemos constatar, de maneira mais concreta, o papel daquilo a que chamamos ki. Nesse sentido, o kendo é uma disciplina privilegiada.
No entanto, não se trata de fazer um elogio incondicional do kendo. Pois antigamente, o kendo incorporava técnicas corporais bem mais ricas e com um âmbito muito mais alargado. Relacionando-o com a sua tradição, o modelo de kendo actual parece-me um pouco incompleto, sobretudo no que diz respeito à formação geral do corpo e às suas regras de combate. Parece-me que são pontos que os praticantes contemporâneos não podem senão ser sensíveis, se desejarem aprofundar o valor do kendo “enquanto budo”.
Em todo o caso, podemos dizer que é no momento em que o praticante começa a sentir vivamente o papel do ki, que a sua prática tende a constituir-se como uma via (do) e que aparece a verdadeira consciência do budo.
Porquê?
Sentir vivamente o papel do ki implica que um adepto pratica o combate buscando “atacar depois de ganhar”. Não se trata de procurar a vitória tentando golpear a todo o custo, mas de acertar um golpe certo, sem erros. Trata-se assim de construir um combate onde a justeza da sensação seja confirmada através de um ataque seguro. Quando atinge esse nível, o adepto confere uma grande importância às fundações do combate, que o mesmo é dizer, ao combate de ki, aquele que se desenrola antes da troca efectiva de golpes.
Se, pelo seme ou pela ofensiva de ki do adversário, nos sentimos atacados e esboçamos um movimento de defesa no vazio, isso significa agir explicitamente contra algo implícito. Nesse caso cometemos um erro no descernimento da realidade. Se nos damos conta instantaneamente, sentimos em nós mesmos uma dissociação, pois o nosso espírito não foi capaz de reter o nosso corpo no seu gesto erróneo. O esboçar do gesto inútil significa que, apesar de tudo, o adversário conseguiu atingir algo. Perdemos assim, nesse instante preciso, a possibilidade de ganhar a iniciativa e fomos derrotados antes de receber o golpe. (N.Tr.: As vezes que isto me aconteceu, ao fazer ji-geiko com Osaka sensei, davam para escrever um blog inteiro. Mas seria tããão repetitivo.)
Quando a percepção está aberta dessa maneira à interferência do ki, perder assim é tão importante como receber um golpe de verdade. E o problema passa a ser: como descernir o verdadeiro do falso, como não ser afectado pela ofensiva do adversário, seja pelo gesto ou pelo ki?
Quando se busca a ocasião para atacar o adversário, usa-se o seme para ganhar o combate das pontas, afim que o adversário desvie a extremidade do sabre da sua linha central, a sua linha vital. O adversário que cede semelhante abertura, apesar da sua vontade, torna-se vulnerável. Nesse instante, se lhe desferirmos o golpe, será uma vitória incontestável. Não sentiremos essa satisfação, se o atingirmos por sorte e ele permanecer imperturbável, apesar de atingido. Diremos então: acertei, mas o golpe não conseguiu perturbar o seu espírito.
Agora, o problema passa a ser: como atingir o espírito do outro, utilizando o ki?
Próximo capítulo: Uma chave para o budo (3ª e última parte)
19.11.05
UMA CHAVE PARA O BUDO (1ª parte)
A reflexão sobre a via (do) aparece espontaneamente, à medida que o tempo progride, quando a tensão no sentido da formação do indivíduo se associa à prática da arte marcial. Dito doutro modo, enquanto essa tensão não surge, a prática não contém essa reflexão sobre a via e, consequentemente, não constitui budo. No sentido mais rigoroso do termo, o budo não designa disciplinas particulares, mas sim a qualidade e o conteúdo prático de uma disciplina. Logo, não é porque se pratica seriamente kendo, karaté, jo-do, kyudo...que se pratica budo. É apenas quando a prática contém espontaneamente essa tensão no sentido do auto-formação da pessoa na sua totalidade, a tensão do do, que a prática de transforma em budo.
O budo não é, assim, um género entre as disciplinas de combate, mas a maneira como nos envolvemos numa disciplina da combate em busca da eficácia.
A tensão no sentido da formação do Eu, da maneira como expliquei mais acima, não surge de uma forma abstracta, mas antes apoiada numa sensação corporal concreta. Trata-se de uma sensação corporal que todos os seres humanos podem conceber, qualquer que seja a sua origem cultural. Dito doutra forma, essa sensação é a chave que permite praticar o budo de uma forma completa, ultrapassando os obstáculos culturais.
Que sensação corporal é essa? Em japonês, ela é designada através da noção de “ki”.
Penso que a sensação corporal de ki está frequentemente presente na experiência humana. Mas a forma de interpretação dessa sensação varia consoante a cultura. Por exemplo, o carácter lógico está muito mais desenvolvido nas línguas ocidentais do que na língua japonesa. Mas não há nas línguas ocidentais, e isso é uma dificuldade importante, uma palavra equivalente a ki. Esse termo cobre, em japonês, toda uma série de sensações e de impressões misteriosas, vagas, intangíveis, que tocam qualquer coisa de fundamental no nosso ser e onde que ressaltam uma perspicácia provavelmente arcaica e recôndita. Esse conjunto de impressões dificilmente definíveis por uma palavra está presente na experiência quotidiana, na literatura e nas artes japonesas. Quando se lhe quer dar um nome, chama-se-lhe ki.
A exclusão desse tipo de sensações e de impressões da superfície dos vocábulos, parece-me paralelo ao desenvolvimento do carácter lógico das línguas ocidentais. O pensamento racional desenvolveu-se provavelmente a refutar essa sensibilidade.
É por isso que na prática (das artes marciais), a sensação de ki deve ser captada como ki, sem passar pelo sistema de tradução de palavras equivalentes. Parece-me que para possuir a chave do budo e ultrapassar os obstáculos culturais, é necessário cultivar uma perspicácia em relação à sensação de ki e de se deixar guiar em extensão e em profundidade por essa sensação, através das técnicas corporais de combate.
No kendo, o praticante aprende desde o início o que é o ki de uma maneira simples, através da expressão “ki-ken-tai”. Ao longo dos anos aprende a importância de “seme” no combate. Não se pode descrever de uma maneira simples o que é o seme. Mas é evidente que o nível do praticante se reflecte directamente na qualidade do seu seme.
Geralmente, o seme implica atitudes ou gestos que comunicam a combatividade ao adversário. Mas o seme é bem mais do que as fintas que se utilizam no combate de karaté (N.Tr.: ou de kendo). Quando se faz fintas, mas esses gestos não conseguem criar uma reacção no adversário, então elas não são seme. Pelo contrário, trata-se de seme, quando um gesto, por mínimo que seja, consegue perturbar o espírito do adversário e, num nível mais elevado, quando se consegue “atingir o espirito” do oponente sem efectuar qualquer gesto explícito. Quando se consegue perturbar o espírito do adversário utilizando apenas o ki, sem qualquer gesto aparente, a isso chama-se “kiseme”
É por isso que não se pode definir o seme através da mera descrição de movimentos. O gesto do seme é aquele que transmite qualquer coisa de essencial. Se essa “coisa essencial” não é comunicada, então nenhum dos gestos constituiu seme. Dito doutro modo, se essa coisa é comunicada (mesmo) sem gesto aparente essa trasmissão constitui seme.
Essa coisa essencial, (claro) é o ki.
Próximo capítulo : Uma chave para o budo (2ª parte)
18.11.05
ACERCA DE TSUKI, MUKAE-ZUKI E KÔBÔ-ICHI

Facto nº 1 – Tsuki é uma técnica válida, tão válida como men ou kote;
Facto nº 2 – Tsuki é muito mais difícil de executar do que men ou kote;
Facto nº 3 – Mukae-zuki não é uma técnica válida.
Facto nº 4 – Mukae-zuki é uma maneira clara de declarar incapacidade de fazer frente ao seme do adversário.
Facto nº 5 (e último) – Mukae-zuki não é o mesmo que tsuki.
Costumo dizer logo nos primeiros treinos, às pessoas que começam a fazer kendo, que “os segredos” do kendo são dois: a) - a mão esquerda é que faz força e b) – seja qual for o ataque que se faça, essa mesma mão acaba sempre ao centro.
Não é exagero dizer que um combate de kendo começa com uma batalha pelo domínio da linha central e acaba quando um dos participantes cede esse domínio ao adversário. É tão simples quanto isso.
Ora, na busca de obtenção desse domínio, muitas técnicas foram criadas.: harai, kaeshi, suriage, enfim, técnicas “positivas” de controle do centro do combate. Uma das que não entra nessa denominação consiste em, durante um ataque do adversário, aproveitar o facto de o kensen se encontrar ao centro e intencionalmente esticar os braços atingindo o tsuki-dare do oponente.
É corrente pensar (erradamente) que, mesmo que o shinai do adversário se espraie generosamente sobre a nossa cabeça, ele não levou a melhor.
Esse gesto, normalmente designado mukae-zuki é, na maior parte das vezes, uma confissão acerca da incapacidade de defender a linha central.
Kôbô-ichi é um conceito que define ataque e defesa como fazendo parte de um todo inseparável. Kôbô-ichi é estar sempre mental e fisicamente preparado para um eventual contra-ataque do adversário e/ou para contra-atacar durante o ataque dele.
Mukae-zuki não faz parte desse quadro de acção. Ataque e defesa estão claramente separados.
Mukae-zuki não se enquadra no kendo ideal, ao contrário de tsuki-waza que exige, tal como men ou kote ou dô, um controle central antes da sua execução, aplicação de pressão sobre o kamae adversário e, finalmente, face a uma abertura, um ataque concreto, positivo e inegável.
Parece extremamente simples, mas tsuki é uma técnica que requer do kendoka mais competência, chamemos-lhe assim, que qualquer outra. As ancas e as pernas têm de estar numa posição sólida durante o impacto mas, ao mesmo tempo, prontas para voltar para trás para kamae (zanshin). Tsuki não se faz “a passar”. É preciso ir e voltar.
Afinal de contas, será por acaso que sanbonme é sempre a kata mais difícil de executar?








