25.5.06

ATITUDES PARA COM O SHIAI 3

Espectadores e colegas de equipa.

Num torneio não é suposto dar-se apoio vocal ou conselhos, ou então assobiar ou gritar para incentivar os combatentes. Pelo contrário, devemos demonstrar o nosso apoio apenas através de aplausos. Espectadores e colegas devem ter consideração pelos competidores e pelos árbitros para que estes se possam concentrar apenas no shiai e no shiai-jo, permitindo, assim, que a gestão do torneio se faça sem sobressaltos. É compreensível que toda a gente queira dar aos competidores apoio e encorajamento, gritando e dando conselhos. No entanto, tal como dito anteriormente, todas as decisões devem ser tomadas exclusivamente pelos competidores uma vez que o shiai começa. Cada vez mais, deles é esperado que demonstrem força mental e gestão individual das situações de stress que experimentam durante o shiai.

A coisa mais enervante para um árbitro numa competição é um flash de uma câmara fotográfica. Percebe-se que se queira ter fotografias dos membros do nosso clube combatendo ou que queiramos alguém conhecido a tirar fotografias nossas enquanto combatemos, mas um shinpam pode perder um momento crucial do combate se for momentaneamente cego por um flash disparado no momento em que um dos competidores ataca. Competidores, shinpam, espectadores e os oficiais do torneio, todos devem ter a sensação que o torneio é uma experiência maravilhosa, que toda a gente pode e deve desfrutar. Bater palmas (apenas) e mostrar consideração pelo trabalho dos árbitros, são as atitudes que os espectadores devem adoptar (N.Tr.: um pouco como nos torneios de ténis).


Atitude correcta: colegas aplaudem o membro da equipa que está a combater;
Atitude incorrecta: treinador lança impropérios aos árbitros e combatentes adversários;


Nas competições por equipas, a atitude mais correcta é que os membros das equipas, o team-manager e o treinador assistam, ou esperem pelo seu combate, em seiza. No entanto, para evitar que os pés fiquem dormentes no instante de entrar no shiai-jo, é hoje costume que os acima mencionados permaneçam em seiza apenas durante os combates de Senpo e Taisho (ou quando há um combate de desempate); o elemento da equipa que combate em seguida espera em pé (claro que nada disto se aplica para as pessoas que têm problema em permanecer em seiza)
Nos combates por equipas é importante sentir-se totalmente envolvido quando se assiste ao(s) combate(s) de um membro da nossa equipa. Apesar de ter dito que os competidores devem ser capazes de gerir as situações do shiai individualmente, quando todos os membros da equipa se juntam “em um” e apoiam os seus colegas, é como se tambérm eles estivessem a lutar e o competidor sente a força deste apoio e isso fornece-lhe coragem e confiança.(...)
A vitória de cada um é a vitória de todos na competição de equipas.

Este texto é parte de “Atitudes para com o Shiai”. Um artigo da autoria de Sotaro Honda, 6º dan Renshi e Treinador da Equipa Britãnica, gentilmente cedido pela BKA - British Kendo Association
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24.5.06

A PALAVRA DO SENHOR (OSAKA)

Quarta-feira, 24 de Maio


Não houve treino em Lisboa, por isso, aqui fica mais uma imagem de jodan-kamae, desta vez pelo sensei Kanaki Satoru, 8º dan Kyoshi.

22.5.06

A PALAVRA DO SENHOR (OSAKA) 10

Segunda-feira, 22 de Maio

Receita de Frango Frito à Algarvia.

É muito fácil de preparar e muito saboroso.

O segredo é, antes de fritar o frango, dar-lhe uma boa cozedura só em água e (pouquinho) sal.

Como o frango de aviário não aguenta uma boa cozedura, de 45 minutos a 1 hora, pois desfaz-se todo, aconselha-se a que se use frango do campo.

Depois de cozido, desfaz-se o frango em bocados e frita-se em margarina.

Para dar um gostinho, pode-se também juntar à margarina um pouco de vinha de alho ou molho picante.

O caldo que sobra da cozedura pode-se usar para preparar um arroz seco (ou se preferir, um arroz de risotto) para servir com o frango.

Acompanha lindamente com cerveja bem geladinha.

Ah, sim... antes que me esqueça, o senhor Osaka hoje não foi treinar.

Bom proveito.

21.5.06

ATITUDES PARA COM O SHIAI 2


Competidores (antes, durante e depois do shiai)
Não é minha intenção discutir como combater num shiai. Isso depende de vós e de contra quem se combate. Além disso, todas as decisões devem ser tomadas pelo(s) competidor(es) assim que o shiai começa. Costumava acontecer que os professores (N.Tr.:dos liceus) estivessem constantemente a dar ordens aos seus alunos antes e durante o shiai. Isso era um acto que ignorava a autonomia e “ensombrava” o progresso e a continuidade natural do shiai e do torneio em curso. Pela minha experiência, hoje, tais actos parecem já não acontecer em torneios oficiais, mas ainda podem ser vistos em torneios de prática. Gostaria de discutir agora as atitudes que são esperadas dos competidores antes, durnate e depois de um shiai.

Independentemente do momento do shiai, a coisa mais importante é o auto-controle.

Como se pode controlar o adversário se não nos controlamos nós mesmos?

É necessário controlar a excitação para um nível mais baixo antes do shiai. É preciso que nos concentremos apenas na pessoa que está à nossa frente durante o combate.
Depois do shiai é necessário acalmar-se de novo e reflectir na maneira como combatemos. Deve-se também mostrar agradecimento e apreciação pela pessoa com quem se acabou de combater. É necessário aprender todas estas coisas se se deseja ser um bom combatente e aprender alguma coisa com a experiência.
Vou agora descrever estes conceitos mais em profundidade. O mais importante antes do shiai é, primeiramente, imaginar o vosso melhor kendo, incrementar a auto-confiança e focar toda a atenção nesse desafio particular (no caso de ser um combate de um torneio de equipas, o resultado global da equipa também deve ter sido em conta). Nesse momento, se se pensa demais em ganhar, perde-se a paciência e o mais certo é ser-se atraído para uma “cilada” do adversário ou começar a atacar sem tomar as devidas cautelas.

Mais vale perder um minuto num shiai do que o shiai num minuto.

Convençam-se que o resultado será satisfatório se derem o vosso melhor e se acreditarem nisso, mais do que em ganhar. É também importante saber contra quem se vai combater e como é o kendo do adversário. Sem dúvida que há pessoas que acreditam que não interessa quem vão enfrentar e que fazer o seu melhor kendo é a melhor aposta. Pensar desta maneira também é importante, especialmente para principiantes que apenas conseguem usar algumas (N.T.: poucas) técnicas e ainda não possuem grande visão táctica. Para os outros, recomendo que aumentem a sua concentração, que imaginem o vosso melhor kendo de acordo com o tipo de kendo do adversário e que criem tácticas antes do shiai (cuidado para não pensar em demasia e acabar confundido). Ao fazer estas coisas uma vez e outra, antes, durante e depois dos combates, começarão a aperceber-se do que pensar antes do shiai e quais a tácticas que precisam adoptar.

Em segundo lugar, durante um shiai, é-se muitas vezes obrigado a modificar as tácticas e a controlar o nível de stress. Claro que isso deve ser feito num instante. A habilidade para enfrentar essas situações não é algo que se adquira suficientemente ao fazer ji-geiko, mas que só pode ser adquirida ao participar em shiai e na experiência que se ganha ao ser colocado sob pressão.

O que os competidores se devem concentrar durante o shiai é: a) tentar tomar as melhores decisões e b) desempenhar ao seu melhor nível contra os seus opositores, em cada situação particular.

Um acto, como olhar para os shinpam para confirmar se alguém marcou algum ponto, não deve ser feito durante o shiai. Mesmo que pensem que marcaram um ponto perfeito, devem concentrar-se apenas no oponente até que ele desvie os olhos e o shinai para outro lado. Num shiai de alto nível, ambos os adversários tentarão controlar-se mutuamente e é muito difícil encontrar uma ocasião apropriada para marcar. Nessa situação, a vitória ou a derrota podem ser decididas por um pequeno erro táctico, (...) tal como uma desatenção desse género (N.Tr.: olhar para o árbitro) durante o combate.
É importante desenvolver a habilidade de manter a concentração durante todo o combate e de tomar as decisões apropriadas sob pressão, à medida que se ganha experência de shiai.

Em terceiro lugar, é também vital ganhar o hábito de reflectir acerca de como se combateu em cada shiai. No caso de ter o próximo encontro brevemente, recomenda-se que se reflicta de um modo breve e simplificado sobre o shiai anterior e se prepare para o próximo. Dá-se muitas vezes o caso de não nos lembrarmos como combatemos, se estávamos nervosos ou se se venceu um combate muito longo ou muito cerrado. (...) Nesse caso, seria ideal de pudessemos ver um video do combate. Se isso não for possível, peçam às pessoas que assistiram o seu comentário e pensem naquilo que eles vos disserem.

Num shiai há sempre vencedores e vencidos.

O que procuramos é ser bons vencedores e bons vencidos. (...) um bom vencedor significa alguém que combate com o espírito de Sei-sei-doh-doh (+ ou - : justo e honrado), é modesto e tem um conhecimento do significado de shiai. Mesmo que ganhe um shiai, conhece os sentimentos do vencido e nunca se gaba da sua vitória. Um bom vencido é alguém que não ganhou o shiai, mas que, mesmo assim, apresenta a mesma atitude e o mesmo conhecimento do bom vencedor.
Por outro lado, um mau vencedor é alguém que se gaba da sua vitória e um mau vencido, alguém que mostra a sua frustração por não ter vencido e que não consegue elogiar a vitória do seu adversário. Estas são pessoas que esqueceram a essência do shiai no kendo.

Só podemos fazer shiai e aprender alguma coisa com isso porque há outros competidores para combater, shinpam para arbitrar, pessoas que nos apoiam durante a competição; como as que apontam os resultados, medem o tempo dos combates, colocam as fitas de cores diferentes e muitos outros.
Nunca devemos esquecer o objectivo do shiai e devemos mostrar sempre o nosso agradecimento para com todos eles.

Este texto é parte de “Atitudes para com o Shiai”. Um artigo da autoria de Sotaro Honda, 6º dan Renshi e Treinador da Equipa Britãnica, gentilmente cedido pela BKA - British Kendo Association.

20.5.06

ATITUDES PARA COM O SHIAI 1

Sei lá onde é que roubei esta imagem... foi na net.

Introdução
Na série de artigos que se seguem, o shiai de kendo é examinado nos seus diversos ângulos. O kendo pode ser um desporto de competição ou um Budo, conforme a compreensão do kendoka acerca do shiai e da sua atitude acerca de combater, observar ou ser um apoiante durante o mesmo. Uma melhor compreensão e atitude para com o shiai deve permitir um melhor entendimento acerca da essência do kendo enquanto Budo e da relação entre os kendokas. O objectivo deste artigo (1ª parte) é examinar 1) o objectivo do shiai de kendo; 2) atitudes dos competidores; 3) atitudes dos espectadores e colegas e 4) atitudes dos professores para com o shiai.

1. O objectivo do shiai no Kendo
Shiai significa, literalmente, “testar mutuamente”. No kendo, shiai significa basicamente “testar qualidades, métodos, atitudes e espírito aprendidos e adquiridos durante o keiko, com(ntra) outrém numa situação de competição.” Inoue (1994, pág. 162) explica: “O objectivo do kendo moderno é refinar/aperfeiçoar o nosso coração que é invisível através do treino de waza que são visíveis. O shiai no kendo deverá ter lugar em paralelo com esse objectivo.” Nós, como kendokas, devemos assim reconhecer o Shiai como uma oportunidade importante para desenvolver as nossas capacidades e adqurir as atitudes correctas perante o mesmo.

A atitude dos praticantes mais jovens, cujo objectivo é vencer a todo o custo, é frequentemente criticada no Japão. (...) É claro que não há nada de errado em querer vencer durante o shiai e, por outro lado, não é de bom tom para com o oponente, combater sem dar o seu melhor. Tal como mencionado anteriormente, no entanto, procurar desenvolver a habilidade para vencer e desenvolver a compreensão da essência do kendo e da nossa própria personalidade, tudo isso está estreitamente relacionado com o conceito de shiai, de como praticá-lo e de como encarar os resultados do mesmo. Assim, pode-se dizer que há normas de comportamento (que são esperadas da nossa parte) quando damos o nosso melhor para vencer no kendo enquanto budo.

Este texto é parte de “Atitudes para com o Shiai”. Um artigo da autoria de Sotaro Honda, 6º dan Renshi e Treinador da Equipa Britãnica, gentilmente cedido pela BKA - British Kendo Association.

19.5.06

A PALAVRA DO SENHOR (OSAKA) 9

Sexta-feira, 19 de Maio

"Tsuba-zeriai não é para descansar."

Foram estas as primeiras palavras que Osaka san nos disse no fim da aula de hoje.

Muitos de nós, segundo ele, fazemos um ataque men, por exemplo, e em seguida "abancamos" em tsuba-zeriai e ficamos a engonhar.

Ao contrário do que muita gente pensa, tsuba-zeriai também não serve para empurrar o adversário para ver quem tem mais força. Pelo contrário e como o sensei referiu depois, se se faz combate com um francês ou espanhol ou assim, a coisa que se nota é que eles fazem tsuba-zeriai o menos tempo possível e partem o mais depressa possível para hiki-waza.

A sensação que sempre tive é que o nosso sensei não gosta nada de tsuba-zeriai. Não é assim, não é que não gosta... é como se fosse... um mal necessário. Aliás, qualquer pessoa que já tenha feito ji-geiko com ele com certeza reparou que qualquer situação de tsuba-zeriai com o senhor Osaka, nunca chega aos 15 segundos. Não? Nunca repararam? Mal toca com as luvas nas luvas do outro, finta e... bang.

Tanto que, como demonstrou depois, muitas vezes é preferível fazer crer ao adversário que vamos "para" tsuba-zeriai com ele e quando ele baixa a guarda à espera de um choque luvas, nesse momento, a meio do caminho, paramos o nosso movimento e arrancamos em "marcha-a-ré" fazendo hiki-kote/men.

E assim foi. Conciso como sempre mas, como sempre, muito útil.

Abayoooo.

JODAN


Foto encontrada no mesmo sítio que outras.

É uma kamae tão... tão... uaaa que decidi que, a partir de agora, sempre que encontrar uma foto de jodan-kamae que eu goste, vou publicá-la. Mais nada.

17.5.06

A PALAVRA DO SENHOR (OSAKA) 8

Quarta-feira, 17 de Maio

A edição de hoje de "A palavra do senhor (Osaka)" é muito especial e isso acontece por dois motivos:

Primeiro porque abordou um tema que me é muito querido, na falta de melhor expressão, e segundo porque durante uma grande parte da aula estive numa posição privilegiada: durante todo o mawari-geiko dedicado (quase) exclusivamente a kiri-kaeshi, fiquei naquela posição "do que não roda"; para que todos possam fazer com todos tem de haver um que "não roda". Fui eu, mas já lá vamos.

Primeiro, o primeiro motivo: depois de voltar (de novo) a insistir connosco acerca da posição da mão esquerda, o senhor Osaka disse-nos para abordarmos cada ataque durante o kirikaeshi, mas sobretudo o último men, como se de IPPON se tratasse. O último men então, deve ser perfeito. Em força, em colocação, ki-ken-tai, sae, datotsu... tudo.
TUDO deve ser perfeito, ou seja, IPPON.
Em seguida, falou do movimento dos pés durante kiri-kaeshi. E esse é o tal motivo que me é muito prezado. Referiu que o movimento deve ser linear e que, mesmo que se use aquele sistema dos "saltinhos" quando se faz depressa, cada passo dado para a frente deve ser do mesmo tamanho de cada passo dado para trás. O porquê este tema ser muito interessante para mim tem a ver com kata, mas isso agora não interessa nada, adiante para o segundo motivo.

O segundo motivo que faz deste "A palavra do senhor (Osaka)" muito especial é que, como disse, na posição em que fiquei, colocado um dos extremos da fila, tive a sorte de ficar no extremo onde o sensei também permaneceu e onde corrigiu toda a gente que por lá passou a fazer kiri-kaeshi. E todos lá passaram. E todos fizeram kiri-kaeshi... comigo... para, logo a seguir, serem corrigidos pelo que tinham feito. Foi uma lição de kiri-kaeshi aplicado fenomenal. E eu, na primeira fila, a ver.
Claro que seria impossível dizer-vos tudo o que ele referiu, mas, mas houve duas coisas que Osaka san insistiu particularmente:

1 ) - O kiri-cóptero, como eu lhe chamo, que acontece quando NÃO SE CORTA MOVENDO AMBOS OS BRAÇOS DE CIMA PARA BAIXO .

2 ) - A machadada, que acontece quando não se coloca a mão direita (como, aliás, deve ser) mais próximo da tsuba mas, erradamente, a meio da tsuka.

Enfim... pois... foi isto.

Para o próximo dia tenho um feeling que ele vai falar de hiki-waza.

Domo arigato gozaimastéééé.

WALLPAPER "ARTÍSTICO"


Já que estamos numa de flexibilidade aqui deixo uma sugestão, um pouco mais artística é verdade, para um wallpaper diferente, quiçá, bué de... yah.
Enfim, é só clicar e copiar e voilá: um wallpaper lindo.

AAAAU (OU: COMO É FLEXÍVEL O MEU SHINAI)


Imagem subrepticiamente gamada de um site qualquer
de um clube de kendo qualquer
de uma universidade qualquer em Tóquio.

Não é tão espectacular como o outro que toda a gente já viu, mas este tsuki, não é por nada, também deve ter doído bastante.

15.5.06

A PALAVRA DO SENHOR (OSAKA) 7

Segunda-feira, 15 de Maio

O treino hoje foi bastante técnico. O sensei Osaka chegou cedo e começámos, logo após o aquecimento, a fazer kihon, muito kihon (muito mesmo); "enfiámos" o equipamento e continuámos com o kihon: kiri-kaeshi (bué), men, kote-men, taiaitari(s) e por aí fora, e apenas um bocadinho de ji-geiko (dois combates) no fim.

Depois do treino, o sensei Osaka, que estava um bocado parco de palavras, disse-nos apenas que os kiri-kaeshi (de toda gente) ainda precisam de ser mais apurados. Com a inevitável mão esquerda a terminar... hum... bom, sempre ao centro!

Referiu que o mesmo se passava com (os) shomen-uchi e saudou-nos.

Domo arigato gozaimasté.

KEN

Eis um excerto (quase 8 minutos) do filme Ken, realizado em 1964 por Kenji Misumi e baseado numa novela homónima de Yukio Mishima.

Nunca tinha sequer ouvido falar da dita novela, mas sendo Mishima e metendo rapazinhos à mistura, das duas uma: ou algum deles se apaixona por outro ou algum deles se suicida no fim... ou ambas.
Má língua à parte, valem as imagens, num preto e branco muito bonito, de uma elegância muito sixties.

Um estágio de kendo para jovens do liceu, no Japão dos anos sessenta era assim:

http://video.google.com/videoplay?docid=-2664084110146848999

13.5.06

MENINOS CONTRA MENINAS 2

Até tremo quando penso no que vou escrever.
Será que vão pensar que me estou a armar aos cucos? Parecerá muito pretencioso o que vou dizer? Vão entendê-lo como um ataque pessoal?
Dois dedos de reflexão (não muito profunda) e decido que me estou nas tintas para o que possam pensar. Afinal, sempre me estive nas tintas para o que os outros possam pensar.
Entre preocupar-me com o que pensam acerca de mim e desabafar acerca de qualquer coisa que me rói o espírito, o desabafo acaba sempre por levar vantagem... com as inevitáveis chatices e mal-entendidos que isso muitas vezes acarreta, mas... que se lixe, cá vai.

Vou contar-vos um episódio, testemunhado por alguns colegas, que me aconteceu durante o último estágio do senhor Ariga, aqui em Lisboa.

Durante um kihon-waza, aquele em que motodachi fazia sayü-men e kakarite partia mais tarde, fazia sho-men e interceptava o bokuto do primeiro, calhou-me um rapaz que não conheço e que estava a fazer aquilo tudo torto e atrapalhado. Até aí nada de mal, ninguém nasce ensinado. Durante várias repetições tentei ensinar-lhe como deveria fazer o exercício. Em vão. Mas qual não foi o meu espanto, quando perante a minha insistência em ajudá-lo recebo uma resposta cujos termos nunca esquecerei. Disse-me ele:
- Oh pá, tá lá calado que já não te posso ouvir.

Onde é que eu quero chegar com esta conversa toda? Aqui: a transmissão de conhecimentos no kendo não se rege pelas mesmas regras a que estamos habituados. O ensino numa aula de kendo não é como o ensino de uma aula de liceu ou de faculdade. Se alguém me está a facultar ensinamentos acerca de algo que eu estou a fazer, no kendo, só duas hipóteses:

a) - Sim. Concordo com o que esse alguém me diz. Saúdo e agradeço a sua atenção;
ou
b) - Não concordo com o que esse alguém me diz. Saúdo e agradeço a sua atenção;

A gestão do que me foi dito fica para depois e é um acto individual.

De qualquer maneira, exceptuando a fase inicial do ensinamento, a aprendizagem do kendo, e das artes marciais japonesas em geral, não segue um percurso pré-determinado. Pelo contrário, e porque é baseado na prática e não na teoria (a teoria é "apenas" um resultado da prática), é um ensino pontual, chamemos-lhe assim, feito de pequenos "remendos técnicos", aparentemente incoerentes, destinados a progressivamente tapar as lacunas, à medida que estas vão surgindo.

Tudo isto para dizer que as escolhas de um mestre de uma arte marcial, sejam elas decidir que não vai haver equipa feminina ou que as meninas, se quiserem fazer shiai, têm de fazer contra os meninos, são, na minha modesta opinião, tomadas tendo em conta uma série de factores os quais muitas vezes, a nossa mentalidade ocidental e descartiana tende a não apreender pela falta de linearidade que as mesmas muitas vezes contêm.

O problema não é se tem de haver uma equipa feminina. O problema é: faz sentido haver uma equipa feminina? Neste momento, parece-me que não.

Machista. Grita-se um pouco por todo lado.

Não. E eu digo-vos porque acho que não. A primeira vez que o sensei me perguntou se eu não estaria interessado em ir a uns campeonatos da Europa, já eu tinha completado seis anos de treino. Seis. Serei burro. Ok. Mas pela lógica corrente na cabeça de certas pessoas, posso alegar que a situação era perfeitamente igual à das raparigas, hoje.
Nessa altura éramos tantos a treinar regularmente que cheguei a fazer (vários) treinos em que éramos eu, o Alex e o sensei.

Pergunta: porque éramos poucos eu tinha automaticamente direito a ir aos campeonatos? (E eu era um dos mais assíduos...)

Doa a quem doer, deve-se ir a campeonatos quando se está preparado.
Isso significa, em termos muito mais simples, quando o sensei, acha que estamos preparados. E, perante a sua decisão, só nos restam as tais duas hipóteses:

a) - Sim. Concordo com o que ele decidiu. Saúdo e agradeço a sua atenção;
ou
b) - Não concordo com o que ele decidiu. Saúdo e agradeço a sua atenção;

Ah, e pode bem acontecer que ele hoje ache que sim e daqui a um ano/mês/dia ache que não. A lógica japonesa é assim. Não há lugares cativos, meus amigos... isso é nos estádios de futebol, não é no kendo.
Dói? Acreditem, eu sei que dói. Doeu-me durante quatro ou cinco anos, mas é assim mesmo. Faz parte do kendo.

Como diz o senhor Osaka: "Paciência".


12.5.06

A PALAVRA DO SENHOR (OSAKA) 6

Sexta-feira, 12 de Maio

Pois é, antes de mais nada deixem-me que lhes diga que estou cada vez mais convencido que tudo-tudo-tudo no kendo gira em torno do controle do centro do combate. Não é por acaso que o sensei nos diz para fazer o kirikaeshi com a mão esquerda bem ao meio, para exercer seme sobre o shinai (e sobre o centro) do adversário enquanto se avança ou para apontar o polegar direito na direcção do nariz do opositor quando (e depois de) se executa(r) men.

Tal como não é por acaso que, com hoje ele nos disse, um bom (chudan) kamae depende muito da convicção com que a mão esquerda de mantém, adivinhem onde, ao centro. Segundo ele um bom kamae deve manter a mão esquerda firme ao meio. Se a mão esquerda estiver firme as acções sobre o shinai (harai-waza) têm muito menos hipóteses de ser bem sucedidas.
Um bom kamae intimida o adversário. Como ele dizia hoje, a maior parte das vezes que faz ji-geiko com alguém percebe logo se o combate vai ser difícil ou fácil mediante a firmeza do kamae do opositor.

Para terminar, querem a receita para um kamae bem firme?

Segundo Osaka sensei basta fazer a primeira coisa que se aprende no kendo: segurar o shinai e fazer força só com os três últimos dedos da mão esquerda.

Bom fim-de-semana.

MENINOS CONTRA MENINAS

O escândalo rebentou.
As meninas vão combater contra os meninos no próximo torneio de Coimbra. Oh consternação, oh machismo. Nunca tal coisa se viu em lado nenhum no mundo. Não? Talvez fosse melhor fazer-se uma busca mais aprofundada antes de se começar a dizer disparates. Só assim de memória lembramos que, por exemplo:

Na Kurasawa Cup as equipas são mistas, os meninos combatem contra as meninas.
Na Nakakura Cup as equipas são mistas, os meninos combatem contra as meninas.
No Paris Taikai as equipas são mistas, os meninos combatem contra as meninas...

Os exemplos podiam continuar, mas a ideia não é essa e para que não se pense que essas terríveis barbaridades só acontecem na Europa aqui ficam as palavras de Karukome Mitsuyo, uma senhora japonesa, 7º dan kyoshi, acerca dos seus tempos de jovem-menina kendoka, numa entrevista concedida à revista Kendo World:

"Havia poucas raparigas a fazer kendo na altura. Acho que nem devia chegar aos 10%. Os meus adversários nos exames de graduação de kyu eram sempre rapazes e, devido ao pequeno número de raparigas, o shiai (...) também era misto."

A situação da senhora Mitsuyo faz-me lembrar alguma coisa, mas o que será?

10.5.06

A PALAVRA DO SENHOR (OSAKA) 5

Quarta-feira, 10 de Maio

O domínio do centro durante o combate.

Podia ser esse o título do post de hoje. E foi precisamente sobre isso que o sensei Osaka nos falou no fim do treino. Nomeadamente sobre a necessidade de "não abrir" a guarda antes de um ataque. Pelo contrário, deve-se sempre manter o nosso shinai junto ao do adversário "ao percorrer o caminho" para executar um bom men.

Quer se escolha fazer omote ou ura, ao manter o shinai junto ao do oponente exerce-se pressão quando se avança, o que por sua vez, digamos assim, aumenta o nosso domínio durante o referido percurso.

Esse conceito pode ser também aplicado de uma maneira mais "shiaieira", competitiva, ao fazer como Osaka sensei demonstrou a seguir, executando por exemplo, kote do lado de dentro do pulso direito do adversário. Exacto, do lado esquerdo do pulso direito, ou seja, por dentro do kamae do opositor. Claro que o objectivo nunca será marcar kote, mas simplesmente incrementar o domínio do centro, para a seguir fazer men (uma espécie de harai-men, só que executando o harai, não no shinai, mas no pulso do opositor).

Wakari massén?

E sexta há mais.

UM ESTÁGIO DE KENDO "COMO DEVE SER" 2

Toda a informação necessária (estágio, preços, alojamento,etc) está, agora sim, disponível em:
http://www.kendocampus-valencia.com

9.5.06

O "OUTRO" TE-NO-UCHI

Tenho andado a fazer umas experiências durante as aulas com o te-no-uchi alternativo (TA) que o sensei nos sugeriu no outro dia (ver post A palavra do senhor (Osaka) 2). Dessas experiências duas coisas saltaram-me imediatamente à vista.

Uma positiva (creio) e outra negativa (tenho a certeza).

A positiva é que ao executar nidan-waza como, por exemplo, kote-men o tempo de intervalo entre as técnicas me pareceu consideravelmente reduzido.
Quer isto dizer que, talvez pelo esforço colocado (de cima para baixo) sobre o pulso da mão direita, o espaço até ao men parece ser percorrido mais rapidamente, uma vez que o referido esforço evita que a ponta do shinai suba demasiado, ou pelo menos, suba tanto como subia antes, entre os gestos.

A parte negativa deste TA, para já, centra-se no problema de, devido à falta de hábito (?), haver uma tendência natural para contrair os braços/ombros, o que provoca naturalmente uma perda de qualidade na postura. Além de poder contribuir para que o braço esquerdo não fique devidamente esticado.
O ideal seria conseguir mudar para este TA, no caso de kote-men por exemplo, apenas a meio do caminho, a partir do kote em diante.

8.5.06

A PALAVRA DO SENHOR (OSAKA) 4

Segunda-feira, 8 de Maio

Basicamente o que Osaka sensei referiu foi a necessidade de, mesmo cansado, e depois de um treino bastante vigoroso (vigoroso o tanas, foi agreste, mesmo) como foi o de hoje, tentar fazer sempre os últimos exercícios bem feitos.
Quer se trate de kirikaeshi ou de kakarigeiko é preciso fazer bem (o não quer dizer depressa; quer dizer: bem)
Mesmo que seja difícil é preciso um esforço extra; a princípio é sempre difícil mas depois os progressos tornam-se mais visíveis.

Como Miyamoto Musashi escreveu:

A princípio será difícil,
mas as coisas são sempre difíceis
a princípio.

Aí está. Até quarta.

7.5.06

4º TORNEIO (INVITATIONAL) AJKF PARA 8ºs DAN

Futagoishi vence Toyomura na Final.

O 4º Torneio da All Japan Kendo Federation para 8ºs Dan teve lugar em Nagoya, no Nakamura Sports Center, no dia 16 de Abril de 2006.

Sueno sensei, Hachidan (foto Usagi san)

Sueno sensei (na foto acima) que tinha ficado em 1º lugar há dois anos atrás, este ano perdeu na meia-final com o vencedor e “não conseguiu melhor” do que um terceiro lugar.

Os resultados finais foram os seguintes:

1º Lugar - T. Futagoishi ( Hyogo )
2º Lugar - A. Toyomura ( Tokyo )
3ºs Lugares - E. Sueno ( Kagoshima ) e M. Mataki ( Kagoshima )

O combate final está nestes links, dividido em 3 partes. A 1ª parte posso dizer-vos que só tem a entrada no shiai-jo dos combatentes. A 2ª tem 109 megas e é onde está o kote da vitória. Na 3ª parte, basicamente, encontramos Toyomura a debater-se, em vão, na tentativa de empatar e pesa 63 megas. Divirtam-se.


Parte 1

http://www.megaupload.com/?d=Z7VRLBED

Parte 2
http://www.megaupload.com/?d=0KZHUOR9

Parte 3
http://www.megaupload.com/?d=X5IT9F6Q

Este combate foi gravado e colocado à disposição do mundo por um membro do forum kendo-world cujo nome artístico é Junaid.

5.5.06

A PALAVRA DO SENHOR (OSAKA) 3

Sexta-feira, 5 de Maio

Hoje a prelecção de Osaka sensei centrou-se (é a palavra) sobre a mão esquerda durante kiri-kaeshi. Mais uma vez chamou-nos a atenção para as duas coisas mais importantes do referido exercício. A saber:

- No momento do corte/impacto a mão esquerda deve estar (sempre) ao centro.

- A mão deve terminar o movimento ao centro mas não pode ficar fixa enquanto o shinai se move de um lado para o outro (ou seja, não fazer o famoso "kiri-cóptero"); deve sim, subir e cortar de cima para baixo na diagonal (exemplificou de um lado) e terminar ao centro e depois subir de novo e cortar de cima para baixo na diagonal (do outro lado) e "terminar sempre bem ao centro" (sic).

Depois disse apenas:

- Domo arigato gozaimasté.

E cada um foi à sua vida.

IMAGENS DE BOKUTO NI YORU KENDO KIHON-WAZA KEIKO-HO

Imagens de bokuto ni yoru kendo kihon-waza keiko-ho
retiradas do site referido.

Quem estiver interessado nos (extremamente úteis) exercícios com bokuto criados recentemente pela ZNKR pode encontrar uma boa descrição, e umas más fotografias, aqui:
http://www.mushinkankendo.com/kendo_kihon_waza.html

4.5.06

MEMÓRIAS DE UM FIM-DE-SEMANA GRANDE NO ALGARVE

Nada de especial, pois
(infelizmente) o Algarve tem
um grande problema:

NÃO HÁ KENDO NO ALGARVE.

Ao fim-de-semana, o kendo mais próximo tá a 200 e tal quilómetros... em Sevilha.

3.5.06

A PALAVRA DO SENHOR (OSAKA) 2

Quarta-feira, 3 de Maio

Hoje o senhor Osaka disse-nos, no fim da aula, que tinha lido no livro do Miyazaki Masahiro que, por acaso, até fui eu e Nuno Serrano que lho oferecemos este Verão em Tóquio, tinha lido, dizia, que havia uma outra maneira de fazer te-no-uchi para se fazer um bom men.

E, como sempre faz nestas ocasiões, agarrou no shinai e disse-nos para fazermos força só com os dedos médios de cada mão. A maneira normal é boa, referiu, mas esta também é boa (disse-o com um ar de quem teve uma boa surpresa).

Questionado se já tinha o usado respondeu que sim e que era um bom método, mas muito difícil de executar devido ao hábito de agarrar segundo o te-no-uchi tradicional.

E foi tudo o que disse na aula, no entanto, (quem é amiguinho, quem é?) quando seguíamos no carro a caminho de Campo de Ourique voltei ao assunto e disse-lhe:
- Com que então com o dedo grande de cada mão? Mas e isso é mesmo bom?
Respondeu que sim porque (parecia-lhe que) fazia com que um men-uchi cortasse mais de cima para baixo e bem no alto da cabeça. Ao mesmo tempo executou um pequeno men no vazio com os dedos grandes recolhidos e chamou-me a atenção para a posição do pulso direito.

Entretanto, eram 21 horas e 13 minutos e chegámos, como sempre a essa hora, à porta da casa dele. Saiu do carro e dissemos em uníssono aquilo que vos digo agora:

- Até sexta.

28.4.06

A PALAVRA DO SENHOR (OSAKA)

Quarta-feira, 26 de Abril

Esta rubrica começa bem.
Hoje a única coisa que ouvi o sensei Osaka dizer foi o seguinte:
- Está Joaquim? Hoje não posso ir treinar. Você dá o treino como lhe apetecer."
E eu disse:
- OK, não se preocupe. Até 4ª.
E ele:
- Bom fim-de-semana.
E eu:
- Bom fim-de-semana, sensei.

TANIGUCHI SENSEI 9º DAN

Um amigo dos "states" mandou-me este link:
http://www.brkumdo.co.kr/mov/kumdobr_best128k.wmv
Trata-se de uma demonstração que teve lugar durante os 50ºs campeonatos do Japão. Nela podemos apreciar um dos 4 ou 5 nonos dan ainda vivos, Taniguchi sensei, de Fukuoka, na altura com 82 anos, a fazer ji-geiko (e depois, como motodachi, kakarigeiko e kirikaeshi) com respectivamente: Toshiya Ichida sensei, 7º dan, duas vezes campeão mundial por equipas e duas vezes campeão do Japão individual; Iwai sensei de Aichi e Sakudo sensei de Osaka, ambos 8º dan (hanshi, creio eu).
Pá, vejam que vale a pena. O "velhote" tem muita pinta. Afinal de contas, este é mesmo parte uma espécie em vias de extinção.

Nota: o gajo que está com a câmara de vídeo à esquerda de Taniguchi sensei quando ele se está a equipar, é o sensei Michael Komoto, 6º dan e tradutor oficial da AJKF durante o seminário de Verão de Kitamoto.

27.4.06

A IDEIA DO SÉRGIO

Ontem dizia-me o Sérgio que seria uma boa ideia se eu "postasse" aqui, neste mesmo blog (que já passou os 10.000 hits!!!) os tradicionais comentários de fim de aula do nosso sensei.
É, de facto, uma ideia. O meu único problema prende-se com o facto de, nos últimos doze ou treze (?) anos o ter ouvido dizer basicamente a(s) mesma(s) coisa(s).
Ou seja, que nós temos de "recolher" a perna esquerda mais rapidamente, manter a mão esquerda sempre ao centro quando fazemos kirikaeshi e que devemos esforçar-nos por fazer o ultimo kirikaeshi do dia mais bem feito (ainda que mais devagar) apesar de estarmos cansados.
Coitado, ele é que já deve estar cansado de repetir a mesma coisa a um bando de (baka) gaidjins que, ao fim de tantos anos, não aprenderam porra nenhuma.
Como ele diria: "Paciência".
A partir da próxima aula, sexta-feira, vou começar a publicar as recomendações diárias de Osaka sensei. Veremos se a ideia é boa ou não.

10.000 HITS! 10.000 CARAGO.

O autor celebra, visivelmente emocionado, os 10.000 hits no seu blog.
Às 00:31:07 de dia 27 Abril de 2006, um utilizador de Windows XP usando o Internet Explorer 6.0 como browser marcou a décima milésima entrada neste humilde, sim, humilde blog de kendo.
Parabéns ao internauta desconhecido, volte sempre... e parabéns para mim também, cacete.

26.4.06

UM DIA, QUEM SABE...

Foto gamada a alguém no forum kendo-world

Encontrei esta foto num dos posts da kendo-world. Segundo o autor, cujo nome já não me lembro, trata-se de um campeonato nacional de alunos de liceu, no Japão.
Parece mesmo os nossos campeonatos, não parece??? A começar pelo local, o Budokan de Tóquio, e a acabar no número de participantes... é que parece tanto...
Eu olhei e pensei imediatamente: "Quem é este gajo que tirou uma foto ao nosso último campeonato? Deixa lá ver, onde é que eu estou?..."

ROENTGENS

É preciso que saibamos umas coisas sobre radiação. E tudo o que há para saber, neste caso, é muito simples. O dispositivo usado para medir os níveis de radiação chama-se contador Geiger. Se o ligarmos em Lisboa, ou no meio de outra cidade da Europa, deverá marcar cerca de 10 a12 microroentgen por hora.
Ora bem, 1.000 microroentgens são 1 milliroentgen e 1.000 milliroentgens são 1 roentgen.
Sendo assim, 1 roentgen vale (+ ou -) 100.000 vezes a radiação média de uma cidade europeia.

Uma dose de 500 roentgens em 5 horas é fatal para os seres humanos.
Nos primeiros dias a seguir à explosão do reactor de Chernobyl, nalguns locais próximos da central, os contadores marcavam entre 3.000 e 30.000 roentgens por hora.



"Liquidadores" a caminho da central nuclear.
A maior parte das pessoas nesta fotografia estão mortas.
(Foto de Lu Taskey, Abril de 1986)

Os bombeiros que foram mandados para apagar o incêndio no reactor foram queimados vivos no próprio local pelos raios gama.

A região de Chernobyl permanecerá radioactiva durante os próximos 48.000 anos. No entanto, a área poderá começar a ser repopulada, em princípio, dentro de 600 anos, com uma margem de 300 anos de erro, mais século menos século.


O mais irónico é que acabo de ver o actual ministro da energia ucraniano, na EuroNews, a defender a construção de mais centrais nucleares no seu país.
Ele há gente que não aprende mesmo. Enfim, amanhã voltamos ao kendo.

23.4.06

ALGUMA VEZ TERIA DE SER

Este é, que me lembre, o primeiríssimo post que vou escrever neste blog que NÃO TEM NADA A VER com kendo, budo, Japão ou o que quer que seja que foi escrito neste blog. E o motivo é, salvo seja, muito simples.

Dia 26 de Abril, quarta-feira passam vinte anos (já) sobre o acidente nuclear de Chernobyl.

Elena Filatova é o nome.
http://www.kiddofspeed.com/ é o site.
Elena revisits Chernobyl é o link a não perder.

Aviso à navegação: é duro.

Portanto, da próxima vez que virem um certo industrial chico-esperto a defender na TV que o nuclear é a alternativa certa (e mais segura!!!) para os problemas energéticos de Portugal lembrem-se:
a) eles pensavam precisamente o mesmo há vinte anos atrás em Chernobyl;
b) de tal maneira pensavam que era seguro que, na noite do acidente, as pessoas da cidade subiam aos pontos mais altos para "apreciar" a luminosidade cor-de-laranja que iluminava os céus do lado da central nuclear;
c) por mais seguro que seja, nada garante que um Akimov português (um Silva) não carregue no botão errado no momento errado;

Nuclear? Não obrigado.

19.4.06

UM ESTÁGIO DE KENDO "COMO DEVE SER"

Foto Sandrine Pivert
Ora cá está um estágio pelo qual vou fazer tudo para estar presente. Nuestros hermanos é que "sabem-la toda".
Entre 24 e 30 de Julho decorre, em Valência, o (1º?) Kendo Campus, como eles lhe chamam.
Estarão presentes os seguintes mestres:

Akira MIYAZAKI - 8ºdan Hanshi
Naoshi ABE - 8ºdan Kyoshi
Satoshi MARUYAMA - 8ºdan Kyoshi
Tadao KURODA - 7ºdan Kyoshi

O keiko terá lugar entre as 9 da manhã e as 12 e 30.
Tarde livre.
E depois ji-geiko das 19 e 30 às 20 e 45.

Dia 29 da parte da manhã há campeonato e da parte da tarde ji-geiko e exames.

O preço (das aulas) para os 7 dias é de 120 euros.

Mais informações é só escrever para kendocampus@hotmail.com.

Bute lá???

17.4.06

KENDO E JOGOS OLÍMPICOS III

E de repente, boas notícias.
Na passada sexta-feira, 7 de Abril 2006, em Seoul, a IKF (International Kendo Federation) apresentou perante a assembleia geral da Associação Geral Internacional de Federações Desportivas (GAISF), o seu pedido de adesão, o qual foi aceite. E em boa hora, diga-se.

E o que é que os Jogos Olímpicos têm a ver com isto, perguntarão?
Então, é muito simples. Um dos requisitos indispensáveis para uma disciplina ser aceite no COI (Comité Olímpico Internacional) é ter uma federação internacional (e só uma) que tenha sido reconhecida pela GAISF como único representante mundial da actividade/desporto que promove, no caso da IKF, o kendo.

Por outras palavras, se a IKF foi aceite na GAISF como sendo o legítimo (e único, repito) representante mundial do kendo, isso quer dizer que a WKA, apesar do seu lobby, não foi. O que quer dizer que, sem a WKA na GAISF, não há “kendo olímpico” para ninguém.

Se já sonhavam com medalhas podem tirar o cavalinho da chuva.

10.4.06

KENDO E JOGOS OLÍMPICOS II

Agora a sério.

O problema do kendo.

Imaginemos que, com bastante tempo e paciência, até se conseguia que TODA A GENTE, NO MUNDO, aprendesse as regras e percebesse a competição de kendo tal como ela é.
Vamos ser optimistas. Quanto tempo tolerariam as grandes redes de televisão mundiais (não esquecer que os jogos são sobretudo um evento televisivo à escala planetária que vive de patrocínios comerciais) um desporto sem duração pré-determinada?

Sabemos muito bem que uma final de um campeonato pode acabar em segundos, mas também (por exemplo, a final por equipas masculinas do mundial de Glasgow) sabemos que pode estender-se por 15 ou 20 minutos de anti-shiai sem que nada de interessante (pelo menos, para um tele-espectador vulgar) se passe.

O que é um facto é que, tal como é entendido e praticado hoje, o shiai de kendo é impensável nuns Jogos Olímpicos. Já nem vou falar da fome das medalhas e de tudo o que os atletas são capazes de fazer para as obter. Afinal, o mais importante no kendo nem é vencer.

Porque é que o judo criou os "famosos" koka e yuko? Para abreviar os combates? Não tenho a mais pequena dúvida. Porque é que o taekwondo olímpico tem vitórias por acumulação de pontos, tal qual como, por exemplo, o boxe? É tudo uma questão de tempo, do seu controle e do dinheiro que esse "tempo televisivo olímpico" vale em compromissos comerciais.

Qual a solução?

A solução proposta pela World Kumdo Association, desvirtua completamente aquilo a que chamamos kendo actualmente: marcação electrónica, acumulação de pontos, pontapés (sim, sim), etc. O exemplo do judo também não é o melhor. Criar fracções de ippon numa arte marcial que tem como um dos seus fundamentos o conceito de "um golpe, uma morte", parece-me, no mínimo, ridículo. E assim, de repente, não estou a ver mais nada.

Então, repito: Qual a solução? Não há solução e não me parece que haja vergonha nenhuma nisso. Porque é que o kendo deveria ser desporto olímpico? Seria mais importante por isso? Será menos desporto assim?
Pelo contrário, a verdade é que tudo indica que, tal como se desconfiava, o kendo é muito mais do que um simples desporto.

KENDO E JOGOS OLÍMPICOS

Outro dia estava a falar com o Jorge acerca de kendo e Jogos Olímpicos e a meio da conversa lembrei-me de tudo (?) o que é, ou deve ser, necessário para que um ataque seja bem sucedido e, portanto, marcado um ponto ao kendoka.
Pensei: “Não queria ser o locutor de serviço de um canal de televisão nesse dia”. Acham que exagero? Então vamos lá, isto é só que me lembrei agora.
Para um ponto ser marcado num combate de kendo ele deve ser mais ou menos assim:

Deve-se atingir um dos yuko-datotsu demonstando ki-ken-tai no itchi, a partir do ma-ai apropriado, executando ha-suji correctamente e batendo com a parte correcta do shinai (o datotsu), o impacto, esse, deve ter sae e o praticante deve manter zanshin mesmo depois do golpe.

Simples, não é? OK, é um bocadinho subjectivo...
Façam a experiência: tentem explicar (só) ki-ken-tai no itchi a alguém que nunca viu kendo na vida e digam-lhe que é um dos factores que determina se um ponto é atribuido ou não, e porquê.

Bom, podia-se sempre fazer como no judo. Criavam-se waza-ari(s), meios-pontos, koka(s) e yuko(s) quartos e oitavos de ponto. (Nota: pode ser ao contrário não sei; yuko é um quarto e koka um oitavo de ponto... sei lá.) Olha, teve ki-ken mas não teve tai, vale um koka. Bateu só de raspão? Não há problema: um yuko resolve isso já. Acertou no Do mas não demonstrou zanshin? Eh, até fez barulho, toma lá um waza-ari, prontes.

Ou, mais simplesmente ainda, fazia-se como os coreanos da World Kumdo Association querem fazer: “tipo” esgrima olímpica. Assim, uma espécie de sport chambara com marcadores electrónicos:
- Tocou?
- Acho que sim... pelo menos a luz acendeu...
- Então marcou.
- Ah... mas não teve ki-ken-tai no...
- Não teve o quê? Não me venha cá com essas paneleirices japonesas, amigo... bateu, bateu. Ah, campeão. Mais uma medalha, carago.

9.4.06

SAITO SENSEI EM MADRID

Foto gentilmente roubada em: www.kenwakai.org

Da direcção do Kenwakai de Madrid recebi uma comunicação dando a conhecer o retorno de Akitsuna Saito sensei, 7º dan kyoshi, a Madrid para mais num mini-estágio de 2 dias. O referido terá lugar nos dias 29 e 30 de Abril, sábado e domingo, no dojo do clube; segunda-feira, dia 1 de Maio (feriado) o sensei desloca-se até Zaragoza para mais um dia de treinos.
Este ano, uma das novidades é que A. Saito se fará acompanhar por um outro sensei japonês 6º dan.
O estágio é completamente grátis.
Mais informações, suponho que em breve no site do Kenwakai (www.kenwakai.org). Para já não vi nada.

8.4.06

E NO QUE A JI-GEIKO DIZ RESPEITO...

... para já, estamos conversados. O resto da comunicação de Sotaru Honda, debruça-se, a partir de agora, sobre como fazer Ji-geiko de 4º dan para diante e coisas semelhantes: como fazer ji-geiko com idoso, mulheres e crianças e tudo mais. Não sendo assuntos que me parecem particularmente relevantes nesta altura, vou dedicar o meu próximo trabalho de tradução a outra comunicação do autor, desta feita, dedicada ao Shiai.

Ah, a propósito de Ji-geiko, que belo Ji-geiko que fiz ontem com Osaka sensei. Fiquei muito contente.
Saudámo-nos. Em seguida, eu, respeitosamente, proferi a frase: Shitsurei-shimassu.?. algures entre uma pergunta e um pedido de desculpas. Ele assentou com gesto e pude assim assumir Jodan-kamae. Quando se faz Jodan-kamae com alguém mais graduado (godan para cima) é de bom tom dizer sempre shitsurei-shimassu. Sim, podia ter dito "goburei-shimassu", mas shitsurei-shimassu, pelo que Osaka san me disse uma vez, é mais bem educado. É uma espécie de desculpa. Significa mais ou menos, desculpe-me pela minha ousadia em assumir uma guarda tão agressiva (eu, um reles verme, um invertebrado que deveria passar o resto da minha vida era em gedan, que é o que mais se aproxima da minha condição de ser rastejante). Voltando ao Ji-geiko, é claro que a seguir levei uma carga de porrada enorme, mas foi uma carga de porrada enorme extremamente educativa.

Abayo.

6.4.06

3. COMO ENCARAR O JI-GEIKO EM CADA FASE DE DESENVOLVIMENTO II.

3-2. Entre 1º e 3º dan.
Do Kendoka destes níveis deseja-se que seja capaz de aprimorar Shikake-waza; é também importante que tente utilizar uma grande variedade de tércnicas, por sua própria iniciativa. Por outro lado, deve atacar não só avançando, mas também usar activamente Hiki-waza (recuando) e deve sempre lembrar-se que deve completar o seu ataque. Tal como mencionado anteriormente, ganhar ou perder não constitui uma prioridade no Ji-geiko. Não se deve preocupar apenas com as vezes que atingiu ou que foi atingido pelo seu adversário, mas reflectir no processo de “como e porquê” atingiu e/ou foi atingido.

Utte-hansei, utarete-kansya”, ou seja, pensar no nosso ataque depois de ter atingido o adversário com sucesso e agradecer-lhe quando ele nos atinge, é uma atitude esperada nos Kendokas deste nível.
Os praticantes nesta fase devem, além disso, começar a reflectir nas três maneiras de se impôr a um adversário (San-sappo) em Ji-geiko. Uma é matar o Ki (espírito) do adversário. Trata-se de abater o Ki do oponente demonstrando o poder total do nosso. Outra é matar o Ken (espada) do opositor. Isso significa controlar a ponta da espada contrária restringindo os seus movimentos ou anulando-os. A terceira, e última maneira, é matar a Waza (técnica) do adversário. Por outras palavras, antecipar o seu ataque, não lhe dando qualquer oportunidade de o executar (All Japan Kendo Federation, 2000, pp. 79-80).
Nesta fase, ainda é certa uma maior utilização de Ken e Waza do que de Ki para se sobrepôr ao adversário e antecipar o seu ataque. Kendokas neste nível tem ainda Waza(s) para aperfeiçoar (nesta altura é ainda demasiado cedo para começar a fazer Kendo que ponha um maior enfâse em derrotar o adversário através da força da personalidade ou presença (Ki), tal como os kendokas de nível 6º ou 7º dan conseguem fazer.). Encoraja-se o uso de uma maior variedade de Waza em Ji-geiko, através de um uso mais activo do shinai, de deslocações e de esquivas mas também são encorajados para usar Oji-waza (bloqueios) numa proporção de 2 para 8 em relação a Shikake-waza (técnicas de ataque simples). O importante aqui é compreender o conceito fundamental de Oji-waza. Não se deve esperar que o opositor ataque e responder ao seu ataque. Deve-se atraí-lo para uma situação que nos seja vantajosa assim que ele executa o seu ataque. Nunca seremos capazes de executar Oji-waza com sucesso se apenas ficarmos à espera que o adversário tome a iniciativa. Deve-se tentar mostrar espírito atacante sem bater com os pés no chão ou fazer movimentos com o shinai e colocá-lo numa posição em que o seu ataque até é benvindo (Nota Trad.: Porque já o esperamos e podemos assim controlá-lo).
Há certas pessoas que pensam que a razão pela qual não conseguem fazer Oji-waza se deve à sua (falta de) habilidade técnica, aos seus movimentos e à forma como os executam. O que devem pensar, em vez disso, é se estão ou não a tentar atrair o adversário para que ele inicie o ataque.
Neste nível, não é pedido que se seja capaz de executar Oji-waza sem pensar, mas apenas se encoraja o seu uso no Ji-geiko, desde que mantendo sempre em mente o conceito fundamental atrás referido.

Este texto é parte de “Atitudes para com o Ji-geiko”. Um artigo da autoria de Sotaro Honda, 6º dan Renshi e Treinador da Equipa Britãnica, gentilmente cedido pela BKA - British Kendo Association.

4.4.06

OLD KENDO

Só visto. E VALE A PENA VER. Kendo dos anos 50, quando ainda valia fazer rasteiras e projecções. Um espectáculo.
http://www.youtube.com/watch?v=VsX1A2EIndY&search=kendo

ACERCA DO PRÓXIMO TORNEIO: ISTO É SÓ UM AVISO.


Belíssima foto de Toda Sensei encontrada em http://www.jexmatex.net/taikai2005/index.html.

3.4.06

3. COMO ENCARAR O JI-GEIKO EM CADA FASE DE DESENVOLVIMENTO.

3-1. Graduações Kyu
Em primeiro lugar, o ponto mais importante que o Kendoka deste nível deve ter em mente é de tentar de usar as técnicas (Shikake-waza) por sua própria iniciativa. Não se limitar a Men ou Kote, mas tentar usar TODAS as técnicas que aprendeu em Kihon-geiko e Kata-geiko. Não deve ter medo de falhar ou ser derrotado. É de esperar que o Kendoka se aperceba gradualmente do timing apropriado de cada uma das técnicas, à medida que as utiliza quando toma a iniciativa de atacar. Outro ponto importante é que não deve parar o seu movimento depois de atacar, mas sim tentar completar o ataque e rapidamente preparar-se para a próxima acção. É frequente no Ji-geiko que os principiantes percam a atenção (e a guarda) assim que concluem o primeiro ataque e enquanto voltam para onde estavam antes de o iniciarem. É fulcral manter a concentração, onde quer que se esteja, e preparar-se para a próxima acção assim que se conclui o primeiro ataque.


Em segundo lugar, é normal que a maioria dos principiantes não tenha ainda aprendido, nesta fase, como se defender. Dá-se também o caso de os principiantes não saberem exactamente o que fazer; permanecerem ausentes e estáticos sem tentar responder aos ataques, ou então fechar os olhos e contrair os ombros, por vezes recuando ou fugindo, sempre que o adversário toma a iniciativa de atacar primeiro. É também razoável assumir que podem até sentir medo perante o ataque do opositor.
O que é importante aqui é (ajudá-los a) compreender as noções de Ko-bo-ichi e Ken-tai-itchi (N.Tr.: Não confundir com Ki-ken-tai-no-itchi). Estas expressões ilustram a importância de estar sempre física e intelectualmente preparados para se defender de um eventual contra-ataque do adversário enquanto estamos a atacar, mas também preparados para contra-atacar enquanto defendemos (All Japan Kendo Federation, 2000, p. 47).


O acto de defesa não existe, por si só, no Kendo.

A defesa existe tendo como objectivo o ataque ou o contra-ataque.

Usar uma defesa adequada possibilita-nos atacar imediatamente a seguir, mas não se deve permanecer estático e simplesmente defender utilizando só o shinai. Deve-se manter os joelhos relaxados e defender usando o shinai e sabaki (esquivando).
À medida que se ganha experiência, adquire-se também uma gama maior de Waza e um melhor timing. Nesta fase, deve-se encorajar a utilização de técnicas com movimentos grandes, que envolvam todo o corpo, a não confiar em técnicas com movimentos pequenos e a não tentar apenas atingir o adversário mais vezes do que ele nos atinge a nós.
Se, nesta fase, se criam maus hábitos na maneira de atacar e defender , demorará muito tempo até que eles desapareçam. É importante reflectir sobre a maneira com que encaramos o Ji-geiko, ouvindo os conselhos dos Sempai e Sensei, mas também através de um auto-exame

Este texto é parte de “Atitudes para com o Ji-geiko”. Um artigo da autoria de Sotaro Honda, 6º dan Renshi e Treinador da Equipa Britãnica, gentilmente cedido pela BKA - British Kendo Association.

2.4.06

TORNEIO DO PORTO 2006 (INCLUI PRÉMIOS USAGI SAN)

Decorreu ontem no FCDEF (fuck a def?) o torneio do Porto de Kendo 2006.
Desta vez, e visto que fui árbitro (e como, aparentemente, não havia vencedor pré-determinado) tive de estar (mesmo mesmo) com muita atenção aos combates. Assim, gostaria de deixar aqui a minha impressão a propósito do assunto.
Primeiro a parte negativa: não houve. Ou se houve, não dei por ela. Foi tudo muito escorreito... beuh, que palavra.
Enfim, alguns participantes, mais por ignorãncia do que por desrespeito, ainda não conhecem bem as regras de competição. Precisam de aprender quais são as suas obrigações enquanto estão dentro do shiai-jo; mas enfim, nada de especial.
Ah, sim, uma coisa negativa: fiquei lixado por me terem dito que não havia goodwill-geiko no fim e depois haver goodwill-geiko no fim. Não levei o kendo-gu e depois fiquei a olhar para o boneco, enquanto toda a gente se divertia à grande e à paulada. Mas que se lixe, acho que até foi resultado de tudo ter corrido de maneira tão.... como dizê-lo... escorreita?
Os resultados toda a gente sabe quais foram, mas não custa nada “espetá-los” aqui nesta página. É aquela idéia... assim como a RTP ser serviço público, tão a ver?
OK, então:

1º Lugar - Sérgio Andrade (AKL);
2º Lugar - Henrique Martins (AKC);
3ºs Lugares - Luis Sousa (AKL) e Paulo Martins (AKL);

Fighting Spirit
Helder Sacramento (AKP) e Rui não me lembro do último nome mas sei muito bem quem és, (AKL);

PRÉMIOS USAGI SAN

Uma mão cheia deles. Primeiro os sérios:
Prémio Fighting Spirit: Luis Sousa (AKL);

Prémio de Desempenho Extraordinário: Rui, o tal que não sei o último nome;
Prémio de Desempenho Extraordinário: Vai para um "chavalo", assim grandão, de Coimbra cujo nome ignoro mas que me surpreendeu BUÉ;
Prémio Técnico: Mário Lehmann (AKP);

E agora os prémios especiais do júri:
Começo por um prémio que tem um significado muito especial para mim que é o
Prémio Otário Não Te Queixes Quem Te Mandou Tentar Fazer Por Duas Vezes Kote Ao Paulinho Sabendo Tu Que Ele Faz Sempre Kote-Nuki-Men Nessas Ocasiões? - E que vai, com muito carinho, para o meu irmão (ver rodapé do post);

Uma excelente série de ippons usando Men está na origem do prémio seguinte, o
Prémio Quem Me Dera Ter Menos Vinte Anos Para Poder Ser Assim Tão Rápido
também conhecido como
Prémio “Dor De Corno” Do Autor Deste Texto - Este vai para o “puto” Joni;

Seguimos para o
Prémio Tanto Trabalho Para Empatar A Meia-Final E A Seguir És Comido Como Um Patinho (Hehehe) - Luis Sousa;

E para acabar em beleza o prémio para o melhor ippon do campeonato:
Prémio Porra Até Que Enfim Alguém Vai Atrás Do Adversário E Lhe Espeta Um Grande Men No Toutiço Quando Ele Se Vira, Em Vez De Ficar De Braços Cruzados À Espera Que Ele Volte Para O Meio Do Shiai-jo - Nem preciso de dizer o nome do contemplado, não é verdade?

(Nota: não, querida, não arbitrei NENHUM dos combates dele, não te canses, sequer a investigar. Oh! Terá sido por isso que ele não ganhou???)

24.3.06

2 - O QUE JIGEIKO DEVE SER

Não deve haver uma oscilação de preferências entre Kihon-geiko, Kata-geiko e Ji-geiko.
É importante encarar Ji-geiko como um meio de utilizar as diferentes Waza (técnicas) adquiridas durante Kihon-geiko e Kata-geiko. Ao fazê-lo temos a oportunidade de melhor compreender o significado e o propósito de cada um desses Keiko e aumentar o nosso interesse por cada um deles de cada vez que os praticamos. Como foi atrás mencionado, Ji-geiko destina-se a dar a oportunidade de testar a nossa habilidade em condições de combate livre, rão-restrito. A juntar a isso, Tomiki (1991) faz notar que o propósito de Ji-geiko no Kendo moderno é o de nos permitir compreender os aspectos estritamente espirituais do Kendo enquanto Budo. No passado, os Bujutsu-ka (praticantes de Bujutsu) apenas podiam apreender a sua habilidade ao derrotar adversários e ao sobreviver a, literalmente, situações de vida ou de morte. Esse lugar de batalha pela própria vida do passado, foi convertido numa área de competição onde todos usam Kendogu e onde se pode atacar e defender em segurança. No Kendo moderno, espera-se do Kendoka o controle sobre o conflito emocional das situações competitivas. Por isso, para desenvolver a habilidade e o espírito enquanto Kendokas completos, é essencial compreender como Ji-geiko deve ser encarado e praticá-lo correctamente. E a maneira de praticar Ji-geiko não é a mesma para toda a gente. Com os principiantes há uma maneira certa que os mais avançados devem utilizar para praticar Ji-geiko, consoante o nível desses mesmos iniciados. A aplicação de Ji-geiko, muda mais ou menos consoante os conhecimentos que a pessoa tenta adquirir ou melhorar através do Ji-geiko e também com quem estamos a praticar (p.e. com Kohai, Sempai, alguém mais idoso, do sexo oposto, etc.).
O restante deste artigo explica como encarar o Ji-geiko, de acordo com as diferentes fases de desenvolvimento de cada um.

Este texto é parte de “Atitudes para com o Ji-geiko”. Um artigo da autoria de Sotaro Honda, 6º dan Renshi e Treinador da Equipa Britãnica, gentilmente cedido pela BKA - British Kendo Association.

23.3.06

1 - A RELAÇÃO ENTRE KIHON-GEIKO, KATA-GEIKO E JI-GEIKO

Tal como Ji-geiko, também Kihon-geiko e Kata-geiko são elementos indispensáveis do treino de kendo.
No Kihon-geiko, as técnicas são repetidas uma vez e outra e outra, numa situação pré-determinada, de modo a que o praticante se torne capaz de as executar correctamente, com um bom Ki-ai e uma boa postura final, demonstrando Ki-Ken-Tai no Itchi.
Kata-geiko coloca maior enfâse na utilização da espada do que Kihon-geiko (uma vez que os kata são normalmente executados com um bokuto). Kata-geiko é também onde aprendemos a respirar como deve ser, utilizando o abdomén.
Kihon-geiko, Kata-geiko e Ji-geiko não existem separadamente. É suposto estarem ligados nas suas fundações. Há algumas pessoas que desempenham maravilhosamente em Kihon-geiko e Kata-geiko, mas que perdem a postura e a coordenação entre braços e pernas durante o Ji-geiko. Isso não será um problema se essas pessoas estiverem a desenvolver um trabalho que visa ultrapassar as suas inabilidades no Ji-geiko.
No entanto, há outras pessoas que centram a sua atenção apenas em derrotar os seus adversários e em desferir mais golpes do que o oponente. Este tipo de atitude no Ji-geiko reflecte uma preocupação exclusiva em ganhar apenas nesse preciso momento. Em contraste, há outros que preocupam apenas com a sua postura e aspecto formal e dão menos atenção ao Chu-shin (controle do centro) e Seme-ai. Tudo isto não é relevante se as pessoas que o fazem, o fizerem intencionalmente, com o objectivo de ultrapassar os seus mais variados problemas (p.e. tentar manter as costas direitas quando atacam).
Se não estão a tentar resolver quaisquer problemas, então tais abordagens apenas servem para degradar o Ji-geiko, tornando-o numa mera performance e, assim, impedindo-nos com a sua atitude errada de experimentar o real prazer da prática de Ji-geiko.

Este texto é parte de “Atitudes para com o Ji-geiko”. Um artigo da autoria de Sotaro Honda, 6º dan Renshi e Treinador da Equipa Britãnica, gentilmente cedido pela BKA - British Kendo Association.

NOVO MATERIAL

Diz o povo que "quem não tem vergonha todo o mundo é seu".
Eu mandei a vergonha às urtigas e enviei um mail para o webmaster da BKA British Kendo Association, pedindo autorização para traduzir uns artigos da autoria do treinador da equipe inglesa, o sensei Sotaro Honda.
E não é que povo tinha razão? Nem cinco minutos se tinham passado quando recebi a dita autorização.
Assim, nos próximos tempos vou dedicar algum do meu tempo livre a traduzir para vós, caros camaradas kendokas portugueses, três (extensos) artigos dedicados ao nosso "favorite pastime".
O primeiro chama-se "Atitudes para com o Ji-geiko" e já comecei a respectiva tradução; o segundo chama-se “Atitudes para com o Shiai” e o terceiro "Tácticas em Kendo".
Espero que gostem... se não gostarem... pois... paciência. Quero lá saber.

ATITUDES PARA COM O JI-GEIKO

“Atitudes para com o Ji-geiko” é um artigo da autoria de Sotaro Honda, 6º dan Renshi e Treinador da Equipa Britãnica, gentilmente cedido pela BKA - British Kendo Association.

Introdução
Ji-geiko é a essência do treino de kendo. Durante o Ji-geiko, nós, kendokas, podemos tentar utilizar as técnicas em situações não-restritas. Podemos também aprender e adquirir conhecimentos sobre o que fazer antes de atacar (Seme) ou acerca de como reagir ao Seme de um oponente (suas intenções e ataque). Graças ao Ji-geiko, podemos reconhecer com que técnicas somos, ou não, eficazes e o Ji-geiko pode guiar-nos nos próximos Kihon-geiko e Ji-geiko de forma a melhorarmos a nossa progressão técnica. Mas, além disso, também proporciona maneiras de desenvolver a nossa habilidade e o espírito de verdadeiros kendokas.
Se abordarmos o Ji-geiko da maneira errada, focando-nos apenas o objectivo de bater o adversário, não devemos esperar no futuro um desenvolvimento real enquanto kendokas. É por isso importante, antes de mais, envolvermo-nos no Ji-geiko com a compreenção correcta do mesmo.
Assim o propósito deste artigo (parte 1) é reexaminar a relação entre Kihon-geiko, Kata-geiko and Ji-geiko, seguido de uma reflexão de como esse último deve ser praticado.


17.3.06

MENOS UM 8º DAN KYOSHI NO MUNDO.



Foi com muito prazer que descobri outro dia, no site da ZNKR, que o sensei Kazuyoshi Okada, que nos visitou há uns tempos atrás, já é Hachidan HANSHI.
Muitos parabéns, Okada sensei.

10.3.06

KENDO NÃO É FUTEBOL 2

"Ou seja mais uma vez as raparigas ficam de fora??? Alguma razão válida... ou o "Sr" Nuno Serrano e o "Sr" Luis não estão para apanhar "secas" na arbitragem?... ou talvez a Namorada do "Sr" Luis não possa participar e logo não valerá a pena organizar um torneio feminino...afinal de contas teriam [MM (mesmo mesmo??)] de estar com atenção aos combates visto não haver desde o iníco uma vencedora planeada."
Post encontrado no forum da Associação de Kendo do Porto.

É muito triste.

1.3.06

ARIGA SENSEI



E, no fim de contas, não foi assiiiim tão duro como isso. Confesso que estava à espera de uma coisa muito mais "agreste". Nem houve kakari-geiko...
Enfim, mesmo com o pé esquerdo e o ombro direito a funcionarem a 50% consegui fazer o estágio... hum... numa boa, diria.
Importante importante, para mim, foram aquela meia-dúzia de minutos em que tive ocasião de fazer gi-geiko com alguém que já ganhou 4 medalhas de bronze em campeonatos do mundo. Apesar de ser um tipo de kendo ("de polícia") cujo visual não aprecio particularmente, tenho de me render à evidência quanto à sua, óbvia, eficácia.
Mas também daqui a dez ou vinte anos possivelmente ninguém se vai lembrar que existiu kendo "de universidade". Não sei os números certos mas, se calhar, hoje em dia uns 80% (ou mais) dos 8º dan devem ser polícias.
NOTA FINAL: Agora, muito muito muito educativo foi o gi-geiko de ontem na Patrício Prazeres entre os senseis Osaka e Ariga.

2.2.06

SÓ FALTOU PÚBLICO

Correndo o risco de ser crucificado pelos meus pares, gostava de elogiar a qualidade dos combates disputados pelos kendokas que se deslocaram no dia 28 à escola secundária Patrício Prazeres.
Na verdade, vou até mais longe e digo que foi, na minha modesta opinião, um dos melhores torneios de kendo a que assisti em Portugal.
Quase todos os combatentes mostraram um espírito valente e decidido. Onde os outros vêem falta de qualidade nos inúmeros empates, eu vejo um equilíbrio que não deixa de ser marcante, uma vez que todos os adversários em contenda sabiam perfeitamente que o que interessava, o que dava os 4 pontos, era a vitória.
De facto, só faltou público, mas... espera... ah, falta sempre.

Bom trabalho, pessoal.

12.1.06

E QUE 2006 SEJA TÃO BOM (NALGUMAS COISAS) COMO 2005

Photo by Manuel "Musashi" Rodrigues

31.12.05

SERENIDADE. PARA 2006, SERENIDADE.

photo by Usagi San

30.12.05

2006

Como é da praxe nesta altura, gostaria de desejar a todos os que por aqui passam, um bom ano novo, cheio de shinais e tudo o mais.

Bom keiko.

7.12.05

CONCLUSÃO (ACERCA DOS MÉTODOS DE ATINGIR O KI)

Para desenvolver a prática qualitativa do budo ultrapassando as barreiras culturais, acredito que devemos ter a abertura de espírito que nos permita compreender que existem outros sistemas de pensamento noutras culturas.
É preciso, ao mesmo tempo, evidentemente, enfrentar as técnicas do budo. Devemos ver nelas um dos elementos essenciais pelos quais o budo se constitui. Estou convencido que a chave do budo está no nosso corpo, o que significa que se encontra para lá das barreiras culturais. Penso que se trata do ki, mas não do ki em geral. Na prática das artes marciais, estamos face ao ki, moldado de uma forma técnica, sem a qual o budo não pode existir.
Apresentei e analisei brevemente dois métodos clássicos que visam desenvolver o ki, seja através da prática do kata, seja directamente pelo exercício energético.
A história do budo, e do kendo em particular, mostram que os dois métodos convergem.
Pôr em evidência o trabalho do ki permite, não apenas concretizar a prática do budo, mas também abrir a possibilidade de uma prática a longo prazo. O budo pode assim contribuir para o bem-estar e melhoramento da vida. Segundo a minha análise, a sensação de ki é o fundamento do budo. Ela pode ser sentida para lá das barreiras culturais, abrindo assim perspectivas acessíveis fora da cultura budista e shintoísta japonesa, mas conservando sempre aquilo que é a especificidade do budo.

6.12.05

O MÉTODO ENERGÉTICO (2ª PARTE)

Chegamos assim ao fim do artigo de Kenji Tokitsu sensei, dedicado ao método energético para atingir o ki. O próximo post será de conclusão sobre os assuntos que foram desenvolvidos até agora.

Durante a segunda metade da sua vida, Shiraï Toru dominava os seus adversários com um estranho poder que emanava da sua espada. Diz a lenda que na ponta do seu bokuto se apercebia um círculo luminoso. Tendo atingido esse nível, emcontrou-se num impasse que apenas conseguiu ultrapassar a poder de longos anos de treino e de meditação ascética. Esse método, o “rentan”, baseia-se principalmente sobre um trabalho energético que corresponde, em grande parte, ao qi cong marcial dos dias de hoje. Segundo Shiraï Toru, o rentan seria o único método concreto para atingir o nível superior da via da espada.
Yamaoka Tesshu atingiu, também ele, um nível extraordinário com a espada; e, para isso, apoiou-se na prática do zen. Era pobre e, por volta dos trinta anos, habitava uma casa em mau estado. Chamavam-lhe “Tetsu vestido com cortinas”, mas também, “Tetsu, o demónio do dojo”. Muitos dos seus amigos contam que, durante a noite, o chão da casa, ressoava com o ruído dos ratos. Mas assim que Tesshu começava o zazen, o seu ki preenchia o espaço e os ratos cessavam de fazer barulho, chegando alguns a cair das vigas por onde corriam. Alguns anos depois, quando Tesshu começava o zazen, os ratos paravam de correr e desciam para brincar à sua volta. Não sei da autenticidade desta anedota.
Em todo o caso, existem inúmeros testemunhos da força do ki de Yamaoka. Takano Sasaburo (1862-1950), um dos maiores mestres do kendo do princípio do séc. XX relata:
“Durante os treinos, o mestre deixava-se atingir pelos golpes dos seus alunos, mas eles nunca tinham a sensação de o ter verdadeiramente atingido. Quando tentava atingi-lo com um golpe mais poderoso, encontrava sempre a ponta do shinai do Mestre na minha garganta... a atitude do Mestre era semelhante à de um balão que nunca se consegue fazer tombar. Ele possuia uma enorme flexibilidade, mas essa flexibilidade escondia uma potência brutal. É assim que, durante os treinos, mesmo atingindo-o bem no meio do men, nunca consegui sentir que o tinha (verdadeiramente) tocado. Toda a gente era empurrada pelo seu ki. Mesmo quando a ponta do seu shinai parava a trinta centímetros diante de mim, tinha sempre a sensação de ter recebido um tsuki. O Mestre não manejava a espada com as mãos, mas com o seu centro de energia. Aconteceu-me um dia receber um muito ligeiro tsuki e no momento não sentir nada. Mas quando voltei para casa apoderou-se de mim a estranha impressão, como se a minha garganta tivesse sido perfurada e o ar circulasse livremente. Essa impressão estranha persistiu durante dois dias.”
Se estes dois grandes mestres transformaram radicalmente a qualidade da sua espada, um através do rentan, o outro do zazen, podemos pensar que essas práticas os ajudaram a reorganizar a maneira de sentir e de agir subentendidas na técnica da espada. Do ponto de vista prático, a pessoa que se exercita dessa forma não pensa forçosamente estar envolvida numa reorganização. Subjectivamente, ela sentirá um melhoramento moral ou, segundo a sua crença, uma iluminação, ou uma purificação, do corpo e do espírito. Mas o mais comum será provavelmente uma forte sensação do ki.
Se o zen influenciou a prática da espada japonesa, não foi apenas como filosofia especulativa, mas fundamentalmente através da prática corporal do zazen. Penso que, pelo menos a princípio, o zen atraiu os guerreiros do período das guerras feudais pelo seu aspecto pragmático.
Como disse antes, uma particularidade do budo consiste no facto de, levado a fundo o seu pragmatismo, este se começar a confundir com moral e filosofia.

Mesmo se a filosofia do budo é intrigante no plano intelectual, discutir esssa filosofia não contribui para uma melhor compreensão do mesmo.
O método rentan, tal como o do zen, visam desenvolver o essencial do budo sem passar por uma aprendizagem de técnicas específica. Mas na arte da espada, que exige um manejamento e trajectos certos, esse método não é aplicável senão depois obter um domínio técnico mínimo. Pois que, mesmo que se tenha adquirido uma mestria energética e uma percepção correcta da acção em combate, os gestos não serão transpostos com eficácia se a espada não seguir as trajectórias correctas. Mesmo com uma grande força, a espada não corta se a lãmina não se encontrar na posição devida. Enquanto que na arte de combate de mãos nuas, trata-se de aplicar um golpe, e não de perfurar com uma lâmina, pode-se golpear eficazmente sem a precisão necessária na espada. (...)

Próximo post: Conclusão