12.10.06

A AVE RARA 3

Ora aqui está um "rapaz" que teria dado um excelente kendoka.
Kamakura 2005. Foto Usagi San.

Ave ainda mais rara que o Kendum Principiantis, o Kendokam Intermedius (Vulgo: Kendoka Regular) é aquele que não desistiu e, de entre os cinco ou seis que ao mesmo tempo consigo começaram, o único que continuou a treinar.

E o Kendokam Intermedius pode ser a chave para entendermos todo este processo. Apesar de ter percebido que o kendo não lhe vai trazer quaisquer benefícios materiais ou reconhecimento social, não lhe vai (provavelmente) servir como meio de auto-defesa e também não faz dele, com certeza, nenhum Tom Cruise (ou uma Uma Thurman), apesar de tudo isso, há (ou houve num determinado momento do keiko) algo que diz ao Kendokam Intermedius que deve continuar a praticar.

Abro aqui um pequeno parêntese para vos contar uma história: um dos kendokas que eu mais admiro no dojo de Lisboa é o Jaime. O Jaime já não é nenhum jovem e nos primeiros dias em que o vi no dojo, reparei que ele tinha algumas dificuldades no capítulo de condição física. Olhei para ele e “dei-lhe” um mês. Há tantos meses que isso foi. O Jaime percebeu o que queria do kendo, recebeu o seu kendo-gu e todos os dias treina para atingir os seus objectivos.
Não tem a mania dos samurais e, que eu saiba, não vai ser protagonista de nenhum “Kill Bill 3”.
Eu não sei o que ele retira do treino de kendo, mas ele sabe.
E, dito isto, fecho o parêntese.

O semiólogo Roland Barthes, no seu livro A Cãmara Clara, refere-se à fotografia como algo que não pode existir por si só. Para ele, a fotografia em abstracto não existe. Só existe fotografia quando se fotografa algo, quando há um sujeito (mesmo que esse sujeito possa aparentemente ser abstracto).
Acredito que algo de semelhante se passa com o kendo.

Kendo keiko desu.

Não há kendo abstracto. Tal como para Barthes a fotografia não existe sem o objecto fotografado, o kendo não existe sem a sua prática. A compreensão do kendo não se transmite teoricamente, mas sim única e exclusivamente através sua prática.
É por isso que, para mim, fazer mitori-geiko, por exemplo (como tenho feito nos últimos tempos devido à minha tendinite), só faz sentido se existir uma perspectiva de keiko no futuro.
É claro que se pode falar, ler, reflectir, discutir sobre kendo, etc, mas, em última análise, se não houver uma aplicação prática posterior acerca do que se falou, leu, reflectiu ou discutiu, então, na minha opinião, tudo isso não serviu rigorosamente para nada.

Pois a verdade é que kendo É keiko.
E o objectivo é fazer com que o keiko de hoje seja melhor do que o de ontem. Nesse sentido, o kendo não tem outro motivo senão ele próprio. E é isso que é difícil de compreender e, mais ainda, de explicar, por exemplo, a um principiante.
Como é que se explica que o objectivo do treino de hoje é permitir treinar melhor amanhã?

Fazer kendo, e continuando no espírito de R. Barthes, é como fazer todos os dias um auto-retrato. Uma foto que deve evoluir e modificar-se a cada treino.

Eu parece-me que a competição, sobretudo para os mais jovens, pode ser uma boa maneira de os levar a entrar nas vizinhanças do kendo, digamos assim. É muito interessante, pode ser importante mas, no entanto, não creio que seja essencial para a formação de bons kendokas.

A meu ver, mais tarde ou mais cedo, e uma vez terminada a carreira como desportista, esse hipotético praticante, tal como todos os outros, vai ter de fazer a mesma escolha que consiste em continuar a treinar ou não. Já não pelas medalhas, mas tão só pelo prazer que o treino em si próprio proporciona e, claro, por outro lado, pelo esforço, agora já não “recompensado”, que tal decisão acarreta.

Estamos inevitavelmente diante da diferença entre desporto e budo. Esse praticante (dedicado, até aí, ao “desporto-do-kendo”), de certa maneira, ainda não começou a fazer budo. Ganhar ou perder pode ser muito importante, mas os tempos em que o uso da espada culminavam de forma dramática com “um gesto, uma vida” já lá vão, logo, ninguém deve ficar dermasiado satisfeito consigo próprio só porque ganhou um combate.
Até porque a competição hoje é mais uma demonstração de “jutsu” (técnica), chamemos-lhe assim, do que propriamente de “do” (via).

Mas qual é então a utilidade do kendo?
A resposta é muito simples: Melhorar. Para, ao aprofundar a dimensão simbólica do conflito, melhor o entender e daí retirar eventuais lições para a vida do dia-a-dia. Para melhor nos dar a conhecer a nós próprios. É isso afinal, a que O Objectivo de Praticar Kendo da ZNKR se resume.

O kendo é um auto-retrato que pode contribuir para revelar de uma maneira simples mas cruel, muitas das nossas insuficiências, por isso, um bom kendoka é um falhado magnífico.
É alguém que reconhece (e aceita) as suas falhas e compreende que o mais importante é tentar corrigir pacientemente essas insuficiências e apostar constantemente na formação de um "eu" que seja, ao mesmo tempo, física, intelectual e socialmente melhor.
Um keiko de cada vez.

8.10.06

A AVE RARA 2

Em 1975, a Federação Japonesa de Kendo criou o Conceito Oficial de Kendo e o Objectivo da Prática e “pôs no papel” aquilo que o kendo é, idealmente, suposto ser*:

O CONCEITO DO KENDO
Disciplinar o carácter humano através da aplicação dos princípos da katana.

Acerca deste aparentemente simples parágrafo, por exemplo, muitos são os que ultimamente têm manifestado as suas dúvidas e reticências sobre o que significa exactamente, em pleno século XXI, a expressão “aplicação dos princípos da katana”. Até porque, como dizem os seus críticos, o kendo não é uma arte marcial assim tão antiga como isso e nos últimos cem anos sofreu bastantes modificações, tendo em vista torná-lo mais acessível e socialmente aceite.

E se o Conceito Oficial de Kendo, demasiado vago (quais são:”os princípios da katana”’?), não é de grande ajuda para que os principiantes, eventualmente os mais curiosos, possam saber o que esperar quando se iniciam na prática da modalidade, o Objectivo da Prática, por seu lado peca, na minha modesta opinião, por aparentemente não se tratar de mais do que uma interessante declaração de boas-intenções:

O OBJECTIVO DE PRATICAR KENDO
Moldar a mente e o espírito,
cultivar um espírito vigoroso
e, através de um treino correcto e exigente,
esforçar-se para melhorar na arte do kendo.
Estimar a cortesia humana e a honra,
associar-se com os outros com sinceridade
e buscar sempre o auto-melhoramento.
Isso permitirá que se possa:
Amar o seu país e a sociedade,
contribuir para o desenvolvimento da cultura
e promover a paz e a prosperidade entre os povos.

E é tudo o que há para se dizer quando a pergunta surge de novo, cada vez mais incómoda:
Afinal para que serve ou o que se ganha em treinar kendo?

Quando se começa a treinar kendo tudo é anti-natural.
Cada gesto, por mais pequeno que seja, é um desafio físico e intelectual gigantesco. E a cada tentativa executada, os erros, em vez de serem gradualmente eliminados, parecem antes acumular-se. Situação que, aliás, e diga-se a bem da verdade, se mantém durante toda a vida do praticante.
Ao fim da primeira semana de treinos, 90% dos principiantes já tem bem estampada no rosto uma questão que, por mais que tente, não lhe sai da cabeça e que pode ser elaborada mais ou menos assim: “Mas o que diabo estou eu a fazer aqui?

Por esta altura, qualquer pessoa menos familiarizada com o treino típico do kendo, deve estar a perguntar-se que raio se passa de errado com a metodologia do mesmo.
Bom, não sei responder a essa pergunta. Mas quanto à outra, a primeira, tenho uma ideia ou duas que gostava de partilhar convosco.

E, a meu ver, até é bastante simples.

(Conclui no próximo post: A AVE RARA 3 ou O Kendokam Intermedius)

*Retirado do site da Zen Nippon Kendo Renmei

5.10.06

A AVE RARA 1

Como as imagens do Kendum Principiantis são raras (e muitos caras)
optou-se pelo uso de uma imagem de um Pássaro-Dodo.

O Kendum Principiantis (nome vulgar: principiante de kendo) é uma ave muito peculiar e tão poucas vezes avistada que é frequentemente tida como extinta.

Em certas épocas porém, como aquela que atravessamos, e que corresponde ao fim do verão e início do ano lectivo, ou por vezes por voltas de Janeiro (resoluções de ano novo?), o principiante de kendo faz a sua aparição nos dojos.

Um especimen de cada vez, timidamente, pequenos grupos de Kendum Principiantis atravessam a porta de entrada com aquele ar reveledor de um misto de curiosidade, receio e desejo.
Nos seus olhinhos inocentes não consigo ainda, na maior parte das vezes, e ao fim de tantos anos, vislumbrar o motivo que os levou até ali.

Já (mais do que?) uma vez “filosofei” neste blog acerca dos motivos que levam o português “comum” a embarcar numa aventura exótica como é começar a praticar kendo e não o vou fazer mais uma vez agora. Mas como estamos a atravessar uma fase de concentração de Kendum Principiantis gostaria, no entanto, de reflectir um bocadinho acerca destas fascinantes criaturas. Perguntas como “o que os faz entrar nos dojos de kendo?” ou “porque permanecem tão poucos?” são aquelas que mais imediata e forçosamente surgem.

No entanto, depois de apenas alguns momentos de reflexão, as respostas, como sempre, aparecem simples, óbvias e plenas de uma verdade dura e incontornável. E a grande verdade é que o Kendum Principiantis, na maior parte dos casos, não sabe ao que vai.

Desde os últimos samurais, kill bills e zatoichis do cinema até à manga como os rurouni kenshins e vagabonds, passando por documentários do discovery channel, mais ou menos mal paridos, e personagens de role-play, os motivos que levam o principiante de kendo até ao dojo são os mais variados. O brilhozinho nos olhos da paixão pelo exótico e pelo desconhecido, tão bem camuflado no princípio, demora pouco, no entanto, a transformar-se, na maior parte dos casos, numa expressão de desapontamento bem visível agora em toda a face.

O kendo, que parecia um ser acessível e fácil e simples, é afinal um/uma amante exigente e rigoroso/a. Uma entidade que, afinal, exige muito quer fisíca quer intectualmente e que APARENTEMENTE retribuiu muito pouco ou nada.

Ao contrário de muitas outras artes marciais no kendo, por exemplo, não há “cintos”. A típica “cenoura” que incentivaria o Kendum Principiantis a “puxar o carro” não está lá. Tradicionalmente, as graduações de kyu são teoricamente existentes mas, na prática, irrelevantes. O primeiro momento de verdadeiro teste é, para a grande maioria, o exame de shodan*, depois de, no mínimo e com sorte, um ou dois anos a treinar “sem recompensas”.

E a treinar o quê? À primeira vista, uma arte marcial sem quaisquer objectivos práticos.

Um anacronismo total e absoluto. Ou não?

(CONTINUA)
* Nalguns locais, no entanto, os exames de kyu são feitos e parece terem cada vez mais adeptos. Mas mesmo nesses lugares, não há a prática do uso de cintos de cores.

3.10.06

SORTEIO INDIVIDUAIS 13º WORLD KENDO CHAMPIONSHIPS

Cá está, cá esão eles. Agora é muita oração a Nossa Senhora do Caravaggio

Na competição individual a coisa TAMBÉM está linda: o Paulo e o Sérgio, sobretudo, foram "brindados" logo com um japonês cada um, na 1ª volta.

Malta, divirtam-se. Que inveja.

SORTEIO EQUIPAS 13º WORLD KENDO CHAMPIONSHIPS

Quem será o infeliz que vai este ano levar com o Cris Yang?


Eis finalmente o sorteio das pools para os 13ºs Campeonatos do Mundo.
Portugal apanha com os cámones e os americanos logo na primeira ronda.
A grande vantagem é que da "nossa" pool saem dois classificados. Com os americanos não há nada a fazer, portanto, "só" têm de ganhar aos bifes e passam logo à segunda ronda.

28.9.06

BREVE SINOPSE DA HISTÓRIA DO KENDO MODERNO

Depois de muito trabalho tenho o prazer de anunciar que estará em breve disponível no site da revista kendo-world (www.kendo-world.com) a principal responsável pela tendinite que actualmente me aflige.
Trata-se da tradução para português do excelente artigo da autoria do Dr. Alex Bennett intitulado "A Brief Synopsis of the History of Modern Kendo".
Dez páginas de pura informação, alguma dela inédita, sobre o kendo desde a Restauração Meiji até aos nossos dias.

Quando eles mudarem o visual da página. Em breve.

26.9.06

EIGA NAOKI



Vale a pena ir ver e fazer o download de cada uma das 4 partes em que este documentário, produzido pela NHK, está dividido.
É um documento sobre a "vida e obra" de Eiga Naoki, Campeão do Mundo em 2000 (individuais e equipas em LA) e em 2003 (equipas em Glasgow).
Claro que não é nenhum Miyazaki Masahiro (mas isso mais ninguém é, senão o próprio) mas, a sério, é muito bom. Mesmo.

Sigam até:
http://www.yorku.ca/kendo/cgi-bin/board/board.cgi?id=Kendo&action=view&gul=655&page=2&go_cnt=0

e toca a descarregar e a curtir.

Ah... e durante o documentário, quem conseguir ver-me e ver o Nuno Serrano e o Paulo Martins ganha um doce.

19.9.06

STOP

Esta NÃO é a minha radiografia, só achei que ficava bem como ilustração.
Mas é muito parecida.

Desta vez é que é.
Este blog vai ter mesmo de ficar suspenso durante uns tempos.
O meu rico ombro direito pifou de vez. O médico ordenou-me pelo menos 5 metros de distãncia de teclados de computador.
Medicação, fisioterapia e, em último caso, operação serão os meus únicos keikos para o futuro mais próximo.
Divirtam-se. Vemo-nos por aí.

12.9.06

O KENDO É LINDO.

A vertente desportiva do kendo é, a meu ver, uma das mais interessantes formas de demonstrar a vitalidade (ainda) existente nesta incrível actividade de que tanto gostamos.

A foto acima refere-se aos 23º Campeonato Japonês Inter-regiões de Kendo para "Donas-de-casa", que se realizou no Budokan deTokyo a 17 de Julho de 2006.

Quantas outras artes marciais se podem orgulhar de semelhante coisa?

Da competição que, creio, só se realiza por equipas, ficam para a história deste budo verdadeiramente adulto, os seguintes resultados:

1º lugar: Mie
2º lugar: Tokyo-A
3º lugar: Kagoshima and Fukuoka

Fighting Spirit: Gifu, Saitama, Osaka and Hiroshima

Cada vez gosto mais de kendo.

O "FERRARI" DOS MEN



Todo cosido à mão (1.0 Bu!), mengane de Titanium, cabedais de pele de veado, padrão do tsuki-dare opcional... e o rebordo? Ah, o rebordo, todo à volta do mengane, a NEGRO.

Lindo, lindo.

Estou apaixonado.

11.9.06

MODESTO TRIBUTO A MIYAZAKI MASAHIRO

O maior kendoka dos tempos modernos? Absolutamente.
Ainda outro dia cheguei à conclusão que há kendokas (shodan!!!) em Portugal que não fazem ideia quem é Miyazaki Masahiro.
Só para lhes dar uma pequena pista, dir-vos-ia que é o único a ter ganho 6 vezes o campeonato do Japão e que foi campeão mundial em equipas e em individuais (Kyoto 1997).
E como de conversa está a malta farta, aqui ficam dois clips do dito cujo.

Neste, o 14º campeonato de 7ºs dan do Japão, executa um kote-kaeshi-kote, ao passar o primeiro minuto de combate, que é de se lhe tirar o chapéu. Aliás, kote-kaeshi-kote era uma das suas técnicas favoritas quando era competidor oficial, é ver pra crer: Com repetição no fim do clip em câmara lenta.

http://www.youtube.com/watch?v=pHuG5thYdxc

Aqui, na final de 1998, no Budokan de Tokyo, se não estou em erro, contra Eto, de Osaka.
Dois men, pan-pan, de seguida e agora vai para casa porque ainda tens muito que aprender.

http://www.youtube.com/watch?v=4XRZF7IqakI&mode=related&search=

O homem era o máior, carago.

7.9.06

COPIÕES

Foi recentemente apresentada no site da Zen Nippon Kendo Renmei (aliás, diga-se, à semelhança do que já tinha sido feito aqui a propósito da selecção portuguesa) a formação que representará o Japão nos próximos 13ºs Campeonatos do Mundo de Kendo.

E as "bestas" são:

Kakehashi Masaharu - Manager
Ishida Kenichi - Treinador (lembram-se do documentário do National Geographic?)

1 - Uchimura Ryoichi de Tokyo (actual vice-campeão do Japão);
2 - Sato Hiromitsu de Osaka (campeão do mundo individual em título);
3 - Seike Kouichi de Osaka (eliminou K. Ando no último campeonato do Japão e chegou aos 4ºs de final... em JODAN!);
4 - Takanabe Susumu de Kanagawa;
5 - Tanaka Takeshi de Kyoto ;
6 - Teramoto Shoji de Osaka;
7 - Nakata Jun de Tokyo ;
8 - Harada Satoru de Tokyo (actual campeão do Japão);
9 - Houjo Masaomi de Kanagawa;
10 - Komeya Yuuichi de Saitama;

Agora, é rezar muito meus irmãos.

4.9.06

DESILUSÕES DA GRANDEZA

Tenho andado de novo interessado no karaté.

Não, não.. não estou a pensar em voltar a praticar, não obrigado. Tenho andado a ver as coisas com olhos do amante que, de repente, reencontra a pessoa amada de outros tempos na rua e quase não a reconhece mas que no entanto pára e tenta perceber o que mudou.

Eu sempre mantive dois ou três links relacionados com o karaté entre os meus “favoritos internéticos”, entre esses, um que mantenho desde que o conheço é o do Karaté Clube de Faro a coisa que (me parece) se encontra mais próxima do espírito da antiga União de Karate do Algarve (U.K.A.) de que, aliás, me orgulho muito de ter sido membro durante um bom tempo.

Mas tenho tentado olhar a imagem do karaté na net como um outsider, o que, para dizer a verdade, nos tempos que correm não me é assim tão difícil como isso. A verdade é que, aos olhos daquele que pela primeira vez tem contacto com essa imagem, e que me perdoem os eventuais karatekas que possam ler estas linhas, ela não me parece assim muito atraente.

O karaté em Portugal cresceu muito desde esses tempos em que fui um jovem viciado em porrada três vezes por semana. E não me parece que tenha crescido saudável. A míriade de estilos, de escolas dentro dos estilos, de associações de escolas dentro dos estilos, federações de associações de estilos, confederações associações de estilos dentro dos estilos... eu que me gabava de conhecer, mais ou menos (um mínimo), as linhagens das escolas mais importantes, hoje em dia dou por mim como um burro a olhar para um palácio.
Kata? Deixem-me rir, ou chorar, sei lá; das dezenas de katas que aprendi não há uma que tenha permanecido na mesma nas últimas duas décadas. Em vinte anos mudou praticamente tudo. Dos nomes à execução, só a muito custo e com muita sorte consigo vislumbrar o que é o quê.

Eu ainda recordo os tempos, não tão antigos como isso, em que os karatekas falavam com desdém do judo. De como o judo já não era budo coisa nenhuma, de como era um mero desporto, assim como uma luta greco-romana em pijama. Irreconhecível. Frutos do grande crescimento, sem dúvida.
Será? É que, apesar uma ou outra pequena alteração de pormenor, nage-no-kata continua a ser nage-no-kata, e katame-no-kata, kime-no-kata e shiken-no-kata, também continuam elas próprias, tal como eram uma há mais de cem anos atrás.
Uma coisa é a competição (e os seus exageros) e outra coisa é o judo como arte marcial, tradicional, budo da cabeça aos pés.

E o que se poderá dizer, hoje em dia, do crescimento do karaté?

Não há uma linguagem uniformizada nem uma imagem uniformizada, nada é uniforme no karaté em Portugal aos olhos do recém-chegado.
Os kata mudam todos os dias, os bunkai, que ninguém fazia há trinta anos atrás, hoje são indispensáveis... e depois, para complicar (leia-se: sofisticar) junta-se água com azeite, uns juntam kobudo ao karaté, outros ju-jitsu, outros até koryu... em resumo, vale tudo.

A sensação que dá é que cada um se limita a puxar a braza à sua sardinha. Os egos comandam.


Não gosto de fulano, sicrano tem uma associação diferente, vou ter com ele. Beltrano juntou-se a uma associação estrangeira, o estilo não é bem o mesmo, mas seria melhor se... eh, quero lá saber, crio a Associação de Karaté de Alguidares de Cima (constituida só pelo meu clube, o “Bushido Alguidarense”) e junto-me a ele....

Por seu lado, o kendo em Portugal é muito pequenino. Quase se pode dizer que ainda nos conhecemos todos. Por inúmeros motivos que agora não interessa analizar aqui, é minha convicção que, por muito que cresça, nunca terá uma aceitação ou um desenvolvimento semelhante ao do judo ou do karaté. Muita coisa teria que mudar, até internacionalmente, para que algo idêntico se passasse. Mas na hipótese de semelhante coisa acontecer, e digo-o com muita pena pois nunca escondi a minha paixão pelo karaté, eu preferiria mil vezes o modelo do judo (mesmo com a sua vertente “estropiada” de competição) que o exemplo caótico e de “salve-se quem puder” do karaté.

Outro dia, um casal amigo, conhecedor das minhas paixões marciais pedia-me conselho sobre uma arte marcial para um dos filhos (ainda pequeno para o kendo) praticar.

- Karaté?
- Não!!! Não façam isso à criança. Judo, sem dúvida, judo.

Disclaimer: Esta opinião é pessoal e, para além da ajuda de um amigo karateka ou dois, foi sobretudo baseada na minha visão actual do karate através da internet.

3.9.06

BUDO KENSHO

Ryoan-ji. Foto roubada na net.

Visto que estamos no começo de um novo "ano lectivo" nunca será demais relembrar

A Cartilha do Budo
O budo, as artes marciais japonesas, tem as suas origens no antigo espírito marcial do Japão. Durante séculos de mudança histórica e social estas formas de cultura tradicional evoluiram passando de técnicas de combate (jutsu) a métodos de auto-aperfeiçoamento (do).

Buscando a perfeita unidade entre a mente e a técnica, o budo tem sido refinado e cultivado métodos de treino físico e desenvolvimento espiritual. O estudo do budo encoraja o comportamento cortês, desenvolve as capacidades técnicas, fortalece o corpo e aperfeiçoa a mente.

Os japoneses modernos herdaram os valores tradicionais através do budo, o qual continua a desenpenhar um papel importante na formação da identidade japonesa, servindo de fonte de inesgotável energia e rejuvenescimento. Por isso, o budo atraiu um forte interesse internacional e é hoje estudado por todo o mundo.

No entanto, a forte tendência actual para uma valorização excessiva da habilidade técnica, aliada a um desejo desmesurado de ganhar, constitui uma séria ameaça à essência do budo. Para prevenir possíveis mal-entendidos, os praticantes de budo devem compenetrar-se numa auto-avaliação e esforço contínuos para aperfeiçoar e preservar esta cultura tradicional.

É com esta esperança em mente que nós, os membros da Japanese Budo Association (Associação Japonesa de Budo), criámos esta Cartilha do Budo, de modo a preservar os princípios funtamentais do budo.

ARTIGO 1: OBJECTIVO DO BUDO
Através do treino físico e mental nas artes marciais japonesa, os praticantes do budo buscam o reforço do seu carácter, o melhoramento do seu raciocínio e procuram tornar-se indivíduos disciplinados, capazes de contribuir para sociedade no seu todo.

ARTIGO 2: KEIKO (Treino)
Ao treinar um budo, os praticantes devem sempre agir com respeito e cortesia, aderir aos fundamentos requeridos pela arte e resistir à tentação de perseguir meras habilidades técnicas, mas antes concentrar-se na união perfeita entre a mente, o corpo e a técnica.

ARTIGO 3: SHIAI (Competição)
Quando em competição ou demonstração de técnicas (kata), os praticantes devem exteriorizar o espírito subjacente ao budo. Devem sempre dar o seu melhor, ganhar com modéstia, aceitar a derrota graciosamente e exibir constantemente auto-controle.

ARTIGO 4: DOJO (Local de treino)
O dojo é um local especial onde de se treina a mente eo corpo. No dojo, ops praticantes de budo devem preservar a disciplina e mostrar autêntica cortesia e respeito. O dojo deve ser sossegado, limpo, seguro e de ambiente solene.

ARTIGO 5: ENSINO
Os professores de budo devem encorajar sempre os alunos para se esforçarem no seu aperfeiçoamento e treinarem afincadamente as suas mentes e corpos, continuando a melhorar o seu entendimento dos princípios técnicos do budo. Os professores não devem permitir que seja dado enfâse à vitória ou derrota em competição ou à mera habilidade técnica. Acima de tudo os professores têm a responsabilidade de ser exemplos a seguir.

ARTIGO 6: PROMOÇÃO DO BUDO
Os promotores do budo devem manter uma atitude aberta e uma perspectiva internacional ao preservar os valores tradicionais. Devem esforçar-se para contribuir na pesquisa e no ensino e fazer o seu melhor para desenvolver o budo de todas as maneiras.

ORGANIZAÇÕES MEMBROS DA ASSOCIAÇÃO JAPONESA DE BUDO:

Zen Nihon Judo Renmei (Federação Japonesa de Judo)
Zen Nippon Kendo Renmei (Federação Japonesa de Kendo)
Zen Nihon Kyudo Renmei (Federação Japonesa de Kyudo)
Zen Nihon Karatedo Renmei (Federação Japonesa de Karatedo)
Zen Nihon Naginata Renmei (Federação Japonesa de Naginata)
Zen Nihon Jukendo Renmei (Federação Japonesa de Jukendo)
Aikikai (Fundação Aikikai)
Shorinji Kempo Renmei (Federação de Shorinji Kempo)
Nihon Sumo Renmei (Federação Japonesa de Sumo)
Nippon Budokan (Fundação do Nippon Budokan)

1.9.06

E O MAIS VOTADO FOI...



A votação está encerrada.
E sim, é verdade, o nosso semi-japonês foi o kendoka mais votado no conjunto das duas categorias.
Mas infelizmente, o nosso amigo que, creio, ainda se encontra no Japão neste momento, não conseguiu vencer em nenhuma das mesmas. Às vezes a vida é mesmo assim.

Os resultados serão anunciados no próprio dia da entrega de prémios, ou seja, durante o próximo Torneio de Kendo de Lisboa que deverá ter lugar no dia... no mês de... sei lá, vão ao site da APK e vejam qual é o dia.

Ah valente (e azarado) Jôni!

31.8.06

UM “GANDA” DESABAFO

Há uns tempos atrás fui almoçar com um amigo. A conversa deu uma volta ou duas e foi parar à moda das “bruxarias new age”. E enquanto desancávamos nas runas e nos fins-de-semana esotérico-energéticos em Sintra, nos cursos de descoberta pessoal através da aura (a aura, aura, tanto que eu poderia dizer acerca da aura), nos tarots e feng-shuis da vida moderna, apercebi-me, ou foi o meu amigo que me chamou a atenção, já não me lembro bem, que um fenómeno muito semelhante se passa com o mundo das artes marciais.

(Faço aqui um pequeno parênteses para vos dar a conhecer o extremo estado de ansiedade que me assalta no momento em que escrevo estas palavras. Há uma sensação de impotência que me acode enquanto tomo consciência que estas mesmas palavras podem ser lidas como uma justificação, mesmo para os malandros que um pouco por todo o lado vendem “gato por lebre”.
De qualquer maneira, diga eu o que disser, esta batalha está perdida à partida, mas adiante.)

Sócrates dizia que a verdade já reside em nós; só temos é de fazer com que ela saia cá para fora. E uma conversa inocente à volta de um arroz de polvo malandrinho pode ter um efeito tão revelador como todas as ironias e maiêuticas do velho sábio grego.

A frase mágica que saiu dos lábios do meu amigo foi algo como:
- Não te esqueças que no fim, lá atrás disso tudo, está sempre alguém a ganhar bom dinheiro com o negócio.
Ora, eu tenho um faro do caraças para detectar o que normalmente chamo o bullshido. Tenho. São muitos anos que é que vos posso dizer? Desculpem lá esta pequena imodéstia e continuemos.

Voltei para casa pensativo e liguei-me à internet. Na minha caixa do correio, qual confirmação dos meus receios, um e-mail de uma Associação Nihon-Tai-Budo-Shoshen-Ryu-Jutsu qualquer convidava-me para estar presente num estágio de um tal Soké-Shihan-Sifu Billy Batmuma, 13º dan e meio na misteriosa arte marcial do Origami-Ninjutsu-Tekai, um ramo da lendária escola Ikebana-Pachinko-Bujutsu originária de Okinawa de Baixo.
É claro que, acompanhada de um sorriso de desprezo irónico, foi imediatamente enviada para o lixo.
No entanto, as palavras do meu amigo lá estavam. E soavam como sinos na minha cabeça:
- ... no fim, lá atrás disso tudo, está sempre alguém a ganhar bom dinheiro com o negócio.

Mas seria possível que alguém ganhasse dinheiro com um embuste tão óbvio? Recusava-me a acreditar em semelhante coisa. As pessoas, os budokas em Portugal não são assim tão ingénuos... ou são?

O motivo que me levou a escrever hoje este texto prende-se com o facto de, enquanto surfava um bocadinho entre os blogs e sites que constituem o meu pequeno mundo marcial virtual, o facto dizia, de ter encontrado fotos e comentários acerca do tal estágio com o Soké-Shihan-Sifu Batmuma.

E a minha alma está parva, como se costuma dizer. E das duas uma: ou sou muito cínico ou muito ingénuo... certo é que tenho mau fundo, como dizia o outro.

Mas ninguém vê que aquilo é um monte de bullshido? Ninguém percebeu que os títulos que o homem deste caso dizia ostentar são títulos FAMILIARES (de família) japoneses que um ocidental não pode nunca ostentar? Mas ninguém lê nada nesta pôrra deste mundo? Comem a primeira patranha que lhes dão assim? Sem mais nem menos?

Que fome é esta? É como ir a um restaurante, a pagar um mão-cheia de dinheiro por um prato ricamente temperado de especiarias exóticas e coloridas, por baixo das quais está, nem mais nem menos, que uma gigantesca porção de nada.

Nada? Se calhar é aí que reside o meu erro.
Bem me lembro, já lá vão uns anitos, de assistir, num campeonato de karate, a uma competição de kata (sim, sim os gajos do karate fazem isso), onde um rapaz, enquanto se babava de extãse e satisfação ao ver o seu sensei (à época com 2 ou 3 dans) competir, repetia, embevecido, para a direita e para a esquerda a quem o quisesse ouvir:
- É o maior. O meu sensei vai ganhar isto nas calmas.
Escusado será dizer que, entre talvez trinta participantes, o sensei dele deve ter ficado classificado do 27º para baixo... e ex-equo. Ainda me lembro até que essa competição foi ganha pelo Sensei Gomes da Costa que executou uma impressionante Suparimpe... bom, seguimos.

Volto à ideia anterior. Nada? Há muita gente que não pensa assim. Vão lá dizer aos que participaram no estágio, que “o homem”, sim, que o Mestre Batmuma não é legítimo. Para muitos poderá até ter sido o momento marcial definidor das suas vidas. Tal como para o rapaz que assistia à execução medíocre do seu sensei na competição de kata. É tudo uma questão de referências.

Não sou dono da verdade, não senhor... mas também não tenho ilusões. E disse-o logo no parênteses inicial deste post. Porque enquanto os budokas portugueses não se informarem, não lerem, não se interessarem em procurar informação fidedigna, não se preocuparem com cruzar essa informação... enquanto não se habituarem também, e parece um contra-senso, a duvidar do que lêem, enquanto todas essas coisas, todas, não acontecerem, vai haver muito Marco Paulo das artes marciais a ser tomado por Mozart e muito boa gente a aplaudir o “Eu tenho dois amores” convencida que é o “Requiem”.

E no fim, lá atrás disso tudo, estará sempre alguém a ganhar bom dinheiro com o negócio.

30.8.06

EMPATE

A apenas 24 horas do final da votação para a eleição de Kendoka do Ano e Kendoka Revelação a situação está ao rubro.

Se na categoria Kendoka do Ano, o vencedor está já praticamente definido, na outra categoria, Kendoka Revelação, dois kenshis têm-se teimosamente mantido empatados desde o início da contagem dos votos.

Estas primeiras eleições, contrariamente às (minhas próprias) expectativas, não podiam estar mais cerradas.

Se ainda não votou, despache-se. Amanhã já é dia 31.

29.8.06

THE MAGNIFICENT SIX... HEU... FIVE!!!

(Esq. p/ dir.: Nuno, ... , Sérgio, Henrique, Paulo e Luis)

Já está decidida a "versão final" da Selecção Nacional que nos vai representar em Dezembro próximo nos 13ºs Campeonatos do Mundo de Kendo, que terão lugar em Taiwan.
Dos seis primeiros classificados do ranking apenas um (adivinhem quem) não vai estar presente a defender as cores da Lusa Pátria.

Assim mesmo, a Direcção Técnica da APK decidiu enviar apenas os cinco "indispensáveis" para a competição de equipas.

Desde já, boa sorte aos Magníficos Cinco.

Gambatéééé.

28.8.06

JODAN


Kendo keiko, supostamente numa foto dos anos vinte, supostamente na Escola Agrícola de Tóquio.
O que não é suposto, pelo contrário, é bem real, é o soberbo jodan-kamae do kendoka da esquerda.
É bonito, jodan kamae é sempre bonito.

De notar que o pé direito está todo assente no chão e a distância entre os pés é maior do que na posição moderna... muito mais parecido com a actual posição dos pés de waki-gamae [shumoku-ashi (?) acho eu que se chama].

Nice. Muito nice.

TODAS AS DEFINIÇÕES, CONCEITOS E PALAVRAS ESQUISITAS DO KENDO QUE OUVIU NAS AULAS E LEU NOS LIVROS E NUNCA SOUBE O QUE SIGNIFICAM NEM ONDE PROCURAR.

Por falar em kigurai, shidachi, depois de executar o kote em nihonme, volta para o eixo central do kata para terminar; ele deve "demonstrar" kigurai, seme ou kime?

Esta e outras perguntas e definições estarão em breve à sua disposição, amigo kendoka, no
1º Dicionário de Kendo Japonês-Português (1º DKJ-P) "editado" neste mesmo espaço por este vosso criado.

Directamente pilhado do Japanese-English Dictionary of Kendo, editado pela Zen Nippon Kendo Renmei, o 1º DKJ-P é uma obra fundamental que todo o kendoka português deve possuir na sua estante virtual.

Impressione e irrite os seus colegas de treino e amigos com aquelas "perguntas de algibeira" que ninguém sabe responder. Cientificamente estudado para todos os casos, o 1º DKJ-P é também ideal para animar festas de crianças, nos intervalos do cinema, nos autocarros, e em todo o lado.

Mas há mais, o 1º DKJ-P contém assuntos especificamente indicados para meter conversa na discoteca na sexta-feira à noite.

Em breve, num blog perto de si.

Disclaimer: os editores do 1º Dicionário de Kendo Japonês-Português, não se responsabilizam pelo mau/indevido uso do mesmo, nem por agressões/ofensas dos colegas fartos da sua "chico-esperteza", crianças aborrecidas de morte com as suas parvoíces ou se você ficar a falar "pro boneco" na discoteca. Get a life.

25.8.06

JODAN VS JODAN


David Bell vs J. Schmidt durante o Bowden Taikai 2005.


Como já disse antes, uma vez que não me apetece dizer nada de novo... aqui está uma mais imagem de jodan-kamae, ou serão duas?

Esta imagem foi gentilmente cedida por Jakob Schimdt e, tal como outras do género, pode ser encontrada no seu blog em www.kigurai.com.

RELAX

E agora, porque ainda faltam alguns dias até ao recomeço dos treinos, aqui fica um par de clips relaxantes para descontrair. Divirtam-se:

http://video.google.com/videoplay?docid=3206096042854433992&q=tsuki

http://www.youtube.com/watch?v=qH1_zBf1aLs&search=kendo%20tsuki

Então que tal? Estamos mais descontraídos ou quê? O primeiro então, é muito relaxante não é?

20.8.06

DOENÇAS INFANTIS DAS ARTES MARCIAIS JAPONESAS 2 - O BUSHIDO CRÓNICO

Para onde quer que se vire, por onde quer que vá, qualquer que seja o caminho que escolha percorrer, o recém-chegado ao mundo das artes marciais japonesas, mais cedo ou mais tarde, ver-se-á confrontado com uma inevitável(?) palavra: bushido.

E tudo é bushido. Tudo.

Quando o “mestre” não sabe explicar o fundamento teórico de um movimento ou gesto técnico, quando não conhece a origem da sua arte, quando o que quer que seja não corre bem, logo se atira, qual remédio (remendo?) universal para todas as maleitas marciais... o bushido.

O golpe parece ilógico? O bushido explica. Não tem aplicação prática? O bushido, com a sua tremenda profundidade, fruto de séculos e séculos de aperfeiçoamento, imediatamente resolve.

O bushido é a panaceia universal do budo e está por toda a parte.

Na TV, o comentador de K1 (kick-boxing) define os combatentes como “estes guerreiros do bushido”.
Na internet, nos sites mais variados, dedicados às artes marciais mais variadas, toda a gente, toda, reclama para a sua um poucochinho de bushido.
Nas revistas o bushido tem honras de capa. Há até uma (cada vez pior) revista chamada “Karaté-bushido”.
Há até quem “crie e desenvolva” artes marciais, baseadas, pasme-se, nas "técnicas do antigo bushido".

Basicamente pode dizer-se que o bushido está para o budo como o fermento para doçaria portuguesa.

O bushido é isto tudo? Chegamos assim àquele momento fatídico em que inevitavelmente somos forçados, mais que não seja pela curiosidade crescente, a perguntar:

Mas afinal... sim, afinal o que raio é essa coisa do bushido?

Então, não tem nada que saber - dirá o “mestre” do lado. - O bushido é o antiquíssimo código de conduta dos samurais.

Nem tanto, responde modestamente este vosso humilde escriba. O bushido de que toda a gente fala e refere foi “inventado” já a “raspar” o século XX. Mais exactamente, foi obra de um homem, nascido precisamente no mesmo ano que Sasaburo Takano, de seu nome Inazo Nitobe (1862-1933), que nesse não tão antiquíssimo ano de 1899 (há quem diga 1905) publicou Bushido, the Soul of Japan (Bushido, a Alma do Japão).

E quem era então Inazo Nitobe?

Se mencionei que Inazo Nitobe (IN) nasceu no mesmo ano de S. Takano foi apenas como referência temporal porque, na verdade, as suas vidas não têm, além desse facto, a menor semelhança.
IN nasceu, tal como já disse 1862 mas embarcou quase de seguida numa educação que de certa maneira o isolou imediatamente dos acontecimentos da sua época. Começou a estudar inglês aos nove anos e depois de alguns anos de estudo em Tokyo foi enviado, aos quinze anos, para Hokkaido; aí abraçou a fé cristã e estudou principalmente Economia Agrícola, em língua inglesa e com professores americanos.
Nessa terra, que apenas então começava a ser considerada parte real do Japão, IN estava basicamente isolado das correntes culturais da época Meiji em todos os sentidos: espacial, cultural, religiosa e até linguisticamente.

Não vamos agora, aqui, batalhar muito sobre os problemas que o passado de IN criou aos seus escritos sobre o Japão. De uma maneira simples, digamos que não tinha senão um entendimento muito superficial acerca da história e da literatura japonesas, tal como os seus inúmeros erros demonstram, tanto nos textos japoneses como ingleses (IN admitiu-o, aliás, frente aos seus críticos japoneses mas não aos estrangeiros). Ele simplesmente não lera praticamente nenhum dos textos clássicos japoneses.

E nenhum dos trabalhos de IN foi mais aclamado do que, precisamente, o mencionado “clássico” Bushido que, no entanto, é sem duvida o mais inexacto de todos os seus livros.
IN nem tinha consciência (quando escreveu o livro) que o termo “bushido” já existia. Estava convencido que a palavra bushido era obra sua e revelou grande surpresa quando, anos mais tarde, um compatriota seu lhe chamou a atenção para o facto de a mesma existir desde, pelo menos, o período Tokugawa.

Durante o surto de nacionalismo que acompanhou as vitórias nas guerras sino e russo-japonesas o livro de IN, mas sobretudo o seu conceito de bushido, capturou os espíritos de muitos dos seus conterrâneos. (Tal como hoje nas artes marciais) o bushido estava em toda a parte.

Nakariya Kaiten escreveu sobre o bushidó como a religião do Japão.
Takagi Takeshi comparou o bushido ao código de cavalaria.
O colega de IN, e também cristão, Uchimura Kanzó chegou ao ponto de imaginar o bushido como:
“... a melhor criação do Japão... a cristandade apoiada sobre o bushido será a melhor criação do mundo.
Salvará não apenas o Japão mas todo o mundo.”


A informação, senhores mestres, a informação.

Há um ditado japonês que diz mais ou menos assim: “Não é vergonha ser ignorante. Vergonha é não perguntar e permanecer ignorante.”

Se há coisa que não falta nos tempos que correm é informação. E que nos diz a informação existente sobre o assunto?

Primeiro, que o bushido dos séculos XIX e XX pouco ou nada tem a ver com os princípios éticos e comportamentais dos samurais desde a fundação da sua classe por voltas do século VII da nossa era, e que foram mais ou menos explicitados, por exemplo, no Hagakure de Tsunemono Yamamoto ou no Budoshoshinshu de Daidoji Yozan, (apenas) nos séculos XVII e XVIII.
Uma época aliás, de paz, onde o importante era a criação de um código de conduta para uma classe social que, tendo sido criada exclusivamente para a guerra, se encontrava profundamente “debilitada” na sua função. Os samurai desses tempos eram burocratas e administradores e não guerreiros. Assim, as ideias apresentadas são muito mais uma mera declaração de “boas-intenções” do que um retrato fiel do comportamento dos guerreiros japoneses.

Depois, sabe-se que, desde o princípio da sua existência, a relação entre os samurais e os seus senhores era contratual. Ou seja, dependia muito do interesse e vantagens mútuas. Os guerreiros medievais permaneciam fiéis aos seus senhores, apenas enquanto beneficiavam com isso e mudavam rapidamente de partido assim que as situações lhes permitia, sendo inclusive históricas várias mudanças de campo, por vezes mesmo a meio de batalhas.

Tanto pior para o primeiro princípio do bushido, a lealdade, tão comumente apregoado pelos seus “vendedores”.

Afinal em que é que ficamos?

Lealdade, veracidade, honra, blablabla...blablabla. Por muito bonitos que esses ideiais possam ser, encarar Bushido, the Soul of Japan como sendo uma referência, um código universal de ética e de “comportamento samurai”, que se pode recitar tal como os Dez Mandamentos, parece-me um disparate monumental.

Os, mais líricos que autênticos, escritos onde o bushido provavelmente se apoia nem foram criados para toda a população japonesa, quanto mais para gaidjins. Foram sim criados para descrever - e prescrever - um comportamento ideal de uma determinada classe social, num determinado ambiente social e num determinado momento histórico.
Como diz Karl Friday: “Não tivessem eles sido cremados e Yamamoto Tsunemoto, Daidóji Yúzan e Yamaga Sokó (...) possivelmente estariam às voltas nos seus túmulos.”

Além do mais, o bushido foi fruto de uma época. Escrito por um (quase)estrangeiro “ignorante” da realidade japonesa foi aproveitado, empolado, sobrevalorizado, elevado a um nível semi-religioso pelos motivos mais oportunística e politicamente torpes. Foi trave-mestra para surtos de nacionalismo fascistas, justificação para guerras e desculpabilização de massacres.

O BUSHIDO NÃO TEM LUGAR NO BUDO MODERNO.

Diga-se o que se quiser, o objectivo das artes marciais modernas não é criar guerreiros melhores. O objectivo do budo moderno (N.A: pleonasmo), tal como se pode ver na mission statement da Nippon Budokan, é criar pessoas melhores.

Por isso, faço minhas as palavras de Almada Negreiros, poeta, modernista e tudo:
“Morra o bushido, morra... pim.”

28.7.06

FAZ HOJE UM ANO...


Kitamoto 2005: primeiro treino com bogu.
Moi, no canto direito, por cima da data.
Foto: Uehara Kichio Sensei.

26.7.06

VAI KOREA

Será talvez a primeira vez que alguém me vê a torcer por um coreano e provavelmente a única.
São imagens (um bocado maradas) do 7º campeonato do mundo.
O coreano, em jodan-kamae, contra o brasileiro, em seigan.
Vale a pena ver:
http://222.122.15.175/class/7wkc%200005.asf

A PALAVRA DO SENHOR (OSAKA) 27

Olha, o Sousa voltou a dar notícias sobre os treinos a que eu me tenho baldado e diz ele:

Ois,

6ª feira o discurso foi basicamente o mesmo de sempre - a mão esquerda.
Que tem estar ao centro e que quanto mais cansados estivermos menos força devemos fazer com a direita.
O sensei acha que nos penduramos demasiado na direita à medida que o treino avança.
Não me lembro de mais nada de especial.

Ontem, o discurso centrou-se sobre o pouco kakarigeiko que fizemos e que tanto nos estoirou. "Ainda muito fraco..."
Um pouco frustante, mas verdade.
"Setembro recomeça, ok?"
Referia-se às aulas e ao kakarigeiko! O sensei acha que quando se conseguir fazer 8 vezes kakarigeiko sempre ao mesmo ritmo, e com kiai, então tudo muito muito melhor.
"Vocês, ao segundo já cansado, né?" :)

Joaquim, desculpa lá mas tou com pressa, percebeste a ideia né? Depois pões isso bonitinho sff.. :P

1 abc e continuação de boas férias.

Luis

Gosto do "depois pões isso bonitinho sff". Nada disso, meu. Isto é blog-verité, tás a ver?... É como cinema-verité só que não tem imagens em movimento.

É tudo real... realismo, percebes? Ok, então... fui.

23.7.06

KEN 3

Págs 68 e 69:

"Quando, com o shinai por sobre a cabeça, Jiro se lançava para atingir o men do seu opositor, a sua segurança explodia, evidente, aristocrática, esmagando imediatamente o adversário.
(...)
Assim, nessa guarda perfeitamente correcta, o seu shinai transformava-se num imenso corno ameaçador plantado na sua cabeça, enquanto que uma energia proliferava, semelhante à dos cumulo-nimbus no azul do verão, parecendo transcender o céu."

19.7.06

51º ESTE-OESTE

51º Taikai Este-Oeste (nanadan e acima).

Com a participação especial de Eiga Naoki (aka) a executar um kote-men de antologia:
http://user.chol.com/~kummisa2/51ds/ds003.wmv

Alguns resumos de combates:
http://user.chol.com/~kummisa2/51ds/ds002.wmv

Mais alguns resumos de combates:
http://user.chol.com/~kummisa2/51ds/ds015.wmv

KEN 2

Consegui.

Consegui comprar o livro no fim-de-semana passado. Começa assim:

"Sobre o Do negro lacado, resplandeciam, dourados, dois botões de Genciana, o brasão da família Kokubu.
Através do largo raio de sol poente que penetra pela janela do dojo, as gotas de suor escapam-se como fagulhas do espesso keiko-gi indigo de Kokubu Jirô e voam à sua volta."


Parágrafo de abertura de “Ken” de Hiraoka Kimitake, mais conhecido como Yukio Mishima.

18.7.06

A PALAVRA DO SENHOR (OSAKA) 26

Segunda-feira, 18 de Julho

O texto seguinte foi-me enviado pelo Luis, o "Sousa":

Joaquim,

Ontem o sensei apenas se referiu ao calor/abafamento do ginásio "Muito quente, né?" e riu-se.

O treino foi bom, suburi, ashi-sabaki, kihon com bogu, jigeiko e kirikaeshi.

Abraço,

Luis

Prontes.

11.7.06

DOENÇAS INFANTIS DAS ARTES MARCIAIS JAPONESAS 1 - O MISTICISMO

As artes marciais japonesas, que daqui em diante designarei por budo, são, possivelmente, uma das mais bem sucedidas exportações culturais de todos os tempos.

Nos locais mais recônditos do planeta e pelos motivos mais variados que podem ir desde a simples “saudade de casa” até razões como treino militar, auto-defesa, exercício físico, preservação da identidade cultural, etc, etc, etc, alguém pratica judo, karate, jukendo, iaido ou qualquer outra forma de budo.
No espectro abrangido entre sociedades totalitárias de esquerda e de direita, passando por todos os tipos de realidade social e cultural, sem olhar a raças, convicções religiosas ou opções sexuais, o budo assenta as suas raízes pacífica mas tenazmente. Onde quer que esteja, Jigoro Kano deve estar muito feliz.

E estranhamente perante tal fartura, se por um lado os “livros técnicos”, chamemos-lhes assim, acerca dos mais variados budos não faltam (muito pelo contrário), qualquer leitor mais atento se dará conta da falta de literatura que se debruce de uma maneira séria sobre os fundamentos teóricos e filosóficos do budo.

Talvez por isso a biblioteca típica dos praticantes de budo de todo o mundo, por mais cépticos que se auto-denominem, está repleta de títulos que reflectem tudo menos cepticismo perante as realidades do combate.

Se, por um lado, se advoga por vezes uma eficácia sem igual acerca do método praticado, por outro, “Segredos do samurai”, “A via zen das artes marciais”, “A arte cavalheiresca do arqueiro zen”, juntamente com obras como “A Mente Imaculada (cartas de um mestre zen para um mestre da espada)” ou o inevitável “Livro dos cinco anéis”, são presença frequente (obrigatória?) nas estantes dos budokas, um pouco por todo o lado.

Mais, são muitas vezes o motivo que leva a que a prática tenha sido iniciada, mas por vezes também, o motor que mantém a dita prática em funcionamento.

Exagero, dirão?

Na sua comunicação “The Myth of Zen in the Art of Archery” (O mito do zen no tiro com arco), Yamada Shoji refere um inquérito de opinião conduzido em 1983 pelo Projecto de Pesquisa de Kyudo (Kyodo Kenkyoshitsu) da Universidade de Tsukuba, onde foi perguntado a 131 praticantes alemães de kyudo o que os tinha levado a iniciar a prática do tiro com arco japonês.
Os resultados foram surpreendentes (?):
Uns “gigantescos” 84% responderam “para treino espiritual”. Cerca de 61% referiram interesse pelo zen e 49% especificaram que tinham começado a praticar kyudo porque tinham lido “A arte cavalheiresca do arqueiro zen” (Zen in der Kunst des Bogenschiessens), escrito por Eugen Herrigel (1884-1955).

Não sendo o objectivo deste post desancar na credibilidade do livro escrito pelo senhor Herrigel (o artigo mencionado acima, fá-lo melhor do que ninguém) gostaria, no entanto, de levantar algumas questões que me parecem pertinentes.

A primeira parece-me óbvia pelo que já foi dito ao longo deste post. A falta de bons livros sobre as teorias e as filosofias do budo, traduzidos para a biblioteca “ocidental”, leva a que os praticantes procurem um pouco de tudo o que lhes pareça que pode ajudar, não só à sua prática diária, mas que lhes forneça algo parecido com alicerces em que possa assentar as suas ideias e convicções acerca da mesma.

Se não, como explicar que um praticante de kendo (e não só de kendo) possa, por exemplo, ter como livro de cabeceira o “Livro dos cinco anéis” de Miyamoto Musashi, uma obra sobre esgrima japonesa escrita no séc. XVI? Como explicar o sucesso de obras como “Bushido”, de Inazo Nitobe (1862-1933), um professor universitário sem qualquer ligação conhecida ao budo e que viveu grande da sua vida fora do Japão?

Escusado será dizer que isso se traduz muitas vezes em mal-entendidos difíceis de sarar. Certas atitudes e hábitos que, na opinião deste vosso escriba, raiam por vezes o ridículo, tornam-se difíceis, senão impossíveis, de contrariar.

Pego, como exemplo, nas palavras do senhor Yamada Shoji acerca da relação entre o kyudo e o zen:
“Se nos confinarmos ao período pós-Meiji (após 1868), a maior parte das pessoas praticaram-no (N.Tr.: ao kyudo) quer como forma de educação física quer pelo simples prazer. Nos textos anteriores à (segunda) guerra, dedicados ao tiro com arco japonês, com a excepção de algumas seitas religiosas isoladas, existem poucas ou nenhumas referências às afinidades entre o kyudo e o zen. Do mesmo modo, entre os praticantes de kyudo japoneses modernos, os que o abordam como uma prática zen são extremamente raros.
Apesar desses factos, livros e comentadores populares continuam a enfatizar a relação entre o tiro com arco japonês e o zen.”

Ki, zen, shin, mushin, fudoshin, seme, kokoro e muitas outras “palavras difíceis” que povoam páginas e páginas, são muitas vezes conceitos que evoluem através dos tempos e que, num texto do séc. XVI, por exemplo, significavam uma coisa e hoje significam uma outra completamente diferente. Se a isso juntarmos as dificuldades de tradução do japonês onde, consoante o contexto, certos conceitos, já de si bastante vagos, podem adquirir as significações mais diversas e o facto de muitos livros já serem uma tradução de uma tradução, qual será a atitude mais certa a tomar?
Deixar simplesmente de ler? Não vou tão longe. Mas parece-me que o melhor será não fazer tanta “fé” na leitura e abordar certos temas mais “mistico-filosóficos” com alguma prudência ou mesmo algum cinismo.

Afinal de contas, por mais livros que se leia, o entendimento do budo passa única e exclusivamente pela prática.

É preciso que nunca nos esqueçamos que, ao invés de uma corrente muito em voga nos dias de hoje e que muita gente segue, e vende, nos seus livros, a filosofia das artes marciais não é constituída por uma mão cheia de valores budistas, duas colheres de chá de zen, um pouco de confucionismo e umas pitadas de xintoísmo.

Esses supostos ensinamentos do budo que muitas vezes são apresentados como moral devem ser, pelo contrário e antes de mais nada, o fruto de uma praxis. Como, e muito bem, diz o sensei Kenji Tokitsu:
“Esse ensinamento é por vezes concebido como moral, mas o seu fundamento é técnico. A arte do combate é uma arte pragmática. Diria que a moral emerge aqui de um pragmatismo levado ao limite. É uma particularidade do budo. Não se trata de uma associação de valores morais à prática das armas.”

Em resumo: se o que se procura nesse tipo de leitura, filosófica, digamos assim, é uma revelação que permita um maior entendimento dos fundamentos do budo, para assim melhorar o desempenho no mesmo, isso parece-me ser um caminho completamente errado.

No budo, as revelações dão-se apenas no dojo, à luz do keiko.

Um lançador de dardo, pode gostar de ler sobre relva.
Pode saber tudo sobre os diferentes tipos de relva que crescem nos estádios onde pratica e compete.
Pode mesmo ser um botãnico especializado em relva.
Pode até cultivar relva com muito sucesso.
Mas tudo isso nunca vai fazer com que o dardo que lança se vá espetar um centímetro sequer a mais do que a sua melhor marca, só porque se vai espetar... na relva.

Próxima doença: o bushido crónico

10.7.06

FIM DE ÉPOCA

Hoje o senhor Osaka também não apareceu no treino e assim, este que seria o meu último post dedicado às suas palavras na presente época, passa a ser um post de despedida até Setembro.

Tal como faço sempre, paro de treinar a meio do mês de Julho (a idade e tal e tal), o que quer dizer que só voltarei a treinar kendo lá para... daqui a um mês e meio, pronto.

Se aparecer/acontecer alguma coisa interessante pelo caminho, se calhar, ainda "posto" aqui umas baboseiras; se não, como sempre diz o senhor Osaka: Paciência.

Divirtam-se e bom keik... qual quê... boa praia, gente! E boas cervejinhas geladinhas e boa má-vida. Ehehehe.

8.7.06

O REGRESSO ÀS AULAS

A partir de 2ª feira e até ao fim do mês de Julho as aulas da APK serão ministradas nas instalações do Clube Nacional de Natação, na Rua de S. Bento.
Os horários serão os mesmos da Escola Patrício Prazeres mas os treinos apenas terão lugar às 2ªs e 6ªs.
Só resta saber se, depois do treino, vai haver possibilidade de dar um mergulhinho na piscina, eheheh.

6.7.06

A(S) PALAVRA(S) DO SENHOR

Depois de vinte poucas entradas neste blog do assunto "A PALAVRA DO SENHOR (OSAKA) parece-me relevante neste instante fazer, um pouco em jeito de balanço, uma pequena dissertação sobre o mesmo.

Antes de mais, gostava de voltar a referir que a autoria do conceito pertence a uma pessoa que já tem bastante tempo de kendo nas pernas e que é o Sempai Sérgio Andrade.

Quando, há uns tempos atrás, no fim de uma aula e precisamente após as palavras finais de Osaka Sensei, o Sérgio me desafiou para começar a reproduzir as suas afirmações neste blog, confesso que não fiquei particularmente excitado com a ideia.

Mas resolvi dar dois minutos de reflexão ao assunto e as minhas conclusões não podiam ter sido mais surpreendentes.

Depois de mais de uma década a ouvir as recomendações finais de Osaka Sensei, apercebi-me subitamente que me habituara a escutá-lo... com um filtro, digamos assim. Não que, como se costuma dizer, as suas palavras "entrassem a cem e saíssem a duzentos", não era assim. Numa atitude que me custa agora bastante a reconhecer como minha, habituara-me a seleccionar o que me interessava da sua dissertação final e simplesmente esquecer/ignorar o resto. Coisa que, por motivos óbvios, não posso agora "dar-me ao luxo" de fazer.

No entanto, só me apercebi mesmo do valor desse trabalho quando um Sempai emigrado para outras paragens, me mandou uma mensagem onde referia as saudades e a falta que lhe faziam que "aquelas palavrinhas do sensei" no fim do treino. As "palavrinhas" para ele, que se encontrava ausente, eram todas, de grande importância.
Se dúvidas tivesse quanto à tolice da minha abordagem anterior elas estavam agora completamente resolvidas.


Assim, o que esta série de post's me tem proporcionado é, sobretudo, uma abordagem muito diferente de uma situação que, a meus olhos, estava completamente resolvida. O pequeno discurso final de Osaka San era um hábito, um dado adquirido, nada mais. Reveledor por vezes, "normal" por outras.

Mas é com alguma vaidade que vos digo que essas declarações finais são hoje muito diferentes para mim. Mais que não seja pela necessidade que sinto de investir mais frequentemente numa reflexão sobre cada tema abordado. Entre ouvir, memorizar, racionalizar, explicar(-me) e passar para a escrita, tudo junto, conto pelo menos uma horita de raciocínio, às vezes mais, sobre o que foi dito.

Portanto, não me parece que seja de estranhar, depois de tudo o que foi dito, que "a mão esquerda sempre ao centro", "a perna bem esticada", "o recolher do pé esquerdo mais rapidamente" e todos esses avisos frequentes ganhem um novo significado a cada dia que passa.

Não sei o que o futuro nos traz mas, se depender de mim, tenciono continuar a escutar, guardar, memorizar, analisar, espremer até à medula as declarações do único Sensei de kendo residente em Portugal, tanto quanto os meus parcos conhecimentos sobre o assunto assim o permitam.

Sem filtros. Palavra por palavra.

Palavra.

4.7.06

UMA BOA NOTÍCIA E UMA MÁ NOTÍCIA

A boa:
Enfim, haja Deus. Finalmente as mal-fadadas obras no chão do ginásio da Patrício Prazeres vão começar.
A má:
Amanhã.

A PALAVRA DO SENHOR (OSAKA) 25

Segunda-feira, 3 de Julho

Hoje o senhor Osaka não compareceu no local de treinos, na Escola Secundária Patrício Prazeres e assim, fui eu que dei o treino; logo, não há palavra do senhor para ninguém.

Enfim, voltem sempre e não se esqueçam de votar para "Kendoka do Ano" e "Kendoka Revelação" 2005/06.

Eh pá... pensando bem, se não quiserem votar não votem, quero lá saber já disto tudo. Já tenho votos mais que suficientes para premiar alguém, por isso...

Tou cansado.

2.7.06

ESTÁGIO DO PORTO

No momento que escrevo este post já deve ter terminado, ou estará mesmo a terminar, o estágio do Porto dirigido por D. António Gutierrez e Osaka san, ao qual fui obrigado a faltar, com muita pena minha, por motivos profissionais.
Espero que tudo tenha corrido sobre rodas, que tenham passado uns bons momentos e aprendido alguma coisa nova.

28.6.06

A PALAVRA DO SENHOR (OSAKA) 24

Quarta-feira, 28 de Junho

Semelhança e diferenças entre executar Harai-Men Omote e Harai-Men Ura.

Semelhança: em ambos, deve-se acertar o mais possível ao centro do shinai do adversário. Mais, o mais próximo possível do punho direito do adversário;

Diferenças: em Omote o ataque deve ser feito em dois tempos, dois fumikomi-ashi, um para cada gesto. Um para o Harai, outro para o Men. Em Ura, por sua vez, o ataque deve ser feito num tempo. O Harai "faz-se pelo caminho". Um fumikomi-ashi (no Men, obviamente), usando o braço direito (que se encontra levantado) enquanto se avança "para esconder" (sic) o resto do corpo.

Palavra do senhor (Osaka)... amén.

Até segunda porque sexta o sensei desloca-se para Norte e... não há nada p'ra ninguém.

Fui.

26.6.06

A PALAVRA DO SENHOR (OSAKA) 23

Segunda-feira, 26 de Junho

Hoje o senhor Osaka terminou a aula num tom de brincadeira(?) dizendo que, na próxima vez que fizermos ji-geiko shobu-ippon a fechar a aula, os que perderem devem fazer 100 sayu-men (daqueles a saltitar no mesmo sítio?...)como "castigo".

E a coisa teria ficado por aí não fosse a Sylvia dirigir-se-lhe e pedir-lhe conselho acerca de harai-men. Como ainda não tinha arranjado "material" suficiente para esta rubrica, aproximei-me também e escutei.

Com o Paulo a servir de "manequim" explicou que o mais importante em harai-men é acertar no shinai do adversário mais próximo da mão. Mais ao meio do shinai e evitar acertar na ponta do mesmo.

Porquê?

Primeiro porque a ponta é mais fácil de "repor no lugar", é mais "leve" e o efeito do harai não é tão sentido pelo opositor;
segundo, porque ao acertar mais ao meio, o harai não só é mais "pesado" mas também temos naturalmente tendência para nos aproximarmos mais e assim ganhar mais vantagem no que a distâncias diz respeito.

Satisfeito, afastei-me e comecei logo a magicar como iria escrever a palavra do senhor (Osaka) de hoje. E pensei começar mais ou menos assim:

"Hoje o senhor Osaka terminou a aula num tom de brincadeira(?) dizendo..."

24.6.06

A PALAVRA DO SENHOR (OSAKA) 22

Sexta-feira, 23 de Junho

Nas suas palavras finais o Sensei falou hoje apenas em duas coisas.

Primeiro fez uma referência breve à importância de a perna esquerda vir imediatamente para a frente quando a direita avança, ou seja quando se ataca não se pode deixar a perna de trás presa ao chão. Esta deve de imediato também avançar.
Este movimento é essencial para nidan waza, por exemplo kote-men e ainda para um correcto Zanshin

Falou ainda com mais demora de um assunto que achei muito interessante, e que não é muito comum ele abordar.


Quando se ataca (ou se entra fazendo Seme), o nosso Shinai não se deve desviar do do adversário. Pelo contrário deve deslizar encostado a este de forma a que possamos “sentir” a reacção do adversário.

O sensei usou uma expressão que me pareceu engraçada: o nosso Shinai deve ser uma espécie de antena para captar a reacção. Caso sentimos que o nosso oponente faz força para a esquerda (dele) então podemos atacar Kote, caso faça para a sua direita então é o Men o seu ponto fraco.

Isto parece tão fácil de perceber, mas é mais uma daquelas coisas que leva uns 10 anos até começares a sentir alguma coisa na “antena” e ainda outros 10 até conseguires aproveitar isso de forma eficaz.

Um abraço
Sérgio Andrade


E assim se vê que há pessoas que tomam atenção às palavras do senhor (Osaka).

Obrigado ao Sérgio, que por acaso e nunca é demais lembrar, até foi o inventor deste conceito dos posts com as considerações finais do nosso inestimável Osaka San.

22.6.06

DON ANTÓNIO


Foi com muito prazer que tomei conhecimento da presença prevista de D. António Gutierrez (2º a contar da esq. na foto) no próximo estágio do Porto.
Para além de uma excelente técnica o Sensei António (rokudan, se alguém ainda não sabe) é também portador de uma simpatia a toda a prova.

21.6.06

A PALAVRA DO SENHOR (OSAKA) 21

Quarta-feira, 21 de Junho

Neste primeiro dia de Verão, os principiantes floresceram um pouco por todo o dojo.

Seis pessoas sem bogu a treinar é coisa que já há algum tempo não se via no dojo de Lisboa.

Osaka san que não é lá muito dado a estas coisas de "os grandes pr'áli e os pequenos pr'acolá" põs o povo todo a fazer kihon. Mais nada. Um treino de técnica-base nunca fez mal a ninguém. Au contraire.

Tá tudo a fazer shomen e bem feitiiiinho. Mas antes um doce: tá tudo a fazer ashi-sabaki. Mais nada.
Acham pouco? Ok, sayu-men porque tou bem disposto. Kote e essas modernices vão ter de ficar pr'a outro dia. Shomen e sayu-men. Chega.

No fim, as suas palavras foram dirigidas a todos e, ao contrário do que muito boa gente pensa, não só aos principiantes. E ele disse:

"A MÃO ESQUERDA, QUER EM SHOMEN QUER EM SAYU-MEN, ACABA SEMPRE AO MEIO DO CORPO."

Os japoneses são um povo muito persistente.

Até segunda... pois, porque vou até ao Algarve e lá, na sexta à noite, não há kendo nem senhores Osakas para citar.

Infelizmente.

19.6.06

A PALAVRA DO SENHOR (OSAKA) 20

Segunda-feira, 19 de Junho

Hoje, o senhor Osaka destinou as suas palavras finais a alguns conselhos referentes a um exercício que fizemos durante o treino. Nada técnico.

No entanto, uma vez de viagem de volta para Campo de Ourique tive oportunidade de esclarecer a dúvida sobre kasumi-no-kamae. E ele concorda comigo quando digo que hidari-kote é um alvo válido contra semelhante kamae.

Portanto, se alguém quiser experimentar para o próximo campeonato, tamos aí.

Arigato gozaimasté.

ELEIÇÃO 2005/2006 (2)

Segue a bom ritmo a votação para Kendoka do Ano e Kendoka Revelação 2005/06.

Nesta altura, apenas posso revelar que são dois kendokas que comandam destacados nos dois primeiros lugares de cada categoria.

Não deixe para amanhã o que pode eleger hoje.

Vote já nos seus favoritos.


Para mais informações, consulte o regulamento no post anterior ELEIÇÃO 2005/2006.

18.6.06

O KENDOKA MANETA

Encontrei isto:
http://www.star-kumdo.co.kr/movies/kim.asx
há coisa de um mês atrás e achei bastante inspirador.

O video é em coreano mas posso dizer-vos que se trata da história verídica de um senhor chamado Kim (30 anos e 2º dan) que perdeu a sua mão esquerda quando trabalhava numa fábrica. Kim começou a fazer kendo porque toda a gente lhe dizia que isso era impossível.

Neste vídeo vemos a sua história e a sua preparação para um campeonato regional. Ah... e um choyaku-suburi só com uma mão que é de partir a carola.

Há ainda uns excertos de uns quantos combates, mas sobre isso não digo mais nada... a não ser "DÔÔÔÔÔ"!

KOTE-ARI

É engraçado quando nos ensinam uma coisa e, por um motivo qualquer, seja ignorância, medo do conflito, ou por mera vontade própria, simplesmente aceitamo-la como certa, sem sequer ter vontade de questionar a sua veracidade.

É uma regra. Uma certeza.

Depois o tempo passa e passado algum, descobrimos que a "tal" certeza que nos ensinaram não é assim tão... certa. Há excepções.

Depois, mais algum tempo passa e passado também esse, descobrimos que a regra que nos foi ensinada afinal, é ela própria, uma excepção.

Mas vamos lá então falar de kote.

Para ser válido um ataque ao pulso deve ser executado sobre o pulso direito (migi-kote)... e quando o adversário se encontra em chudan-no-kamae. Esta é regra, certo?

Errado, esta é a excepção. Na verdade, os ataques aos dois kotes (migi e hidari) são válidos em todas as situações, excepto quando o adversário se encontra em chudan-kamae.

E MESMO ASSIM, ISSO NÃO É COMPLETAMENTE VERDADE.

Há duas (três?) situações em que se pode atacar o kote esquerdo do adversário, mesmo quando este está em chudan-no-kamae.

A teoria que diz que só se pode atacar o kote esquerdo quando o pulso do adversário se encontra mais alto do que o mune-do (em "age-gote") não é completamente verdadeira. Então e se (numa situação idealizada) o adversário se encontrar em waki-gamae? Com'é qu'ié? O pulso esquerdo, definitivamente, não está em situação age-gote. Posso atingi-lo?

A última regulamentação da AJKF (ed. 2002) declara que “A zona de alvo de kote será o pulso direito (...) contra chudan-no-kamae e ambos os pulsos contra as outras kamae".

Para definirmos o que significa "outras kamae", recorremos a um outro guia, neste caso o escrito para a Kokutai (Organização Nacional Atlética*), “(...) o kote esquerdo é também um alvo válido quando o opositor se encontra em chudan-kamae com a mão esquerda à frente, em jodan-no-kamae, hasso-no-kamae, waki-gamae, nito-no-kamae, age-gote, e outras variantes de chudan.”

Age-gote já se sabe que é quando o pulso está mais alto do que o plexus solar (ou que o mune-do, como se quiser) e/mas não se encontra em trajectória de ataque. Então e as outras variantes de chudan-no-kamae? Quer dizer o quê?

Duas coisas: Hira-seigan kamae e kasumi-no-kamae. As duas kamae mais utilizadas contra jodan-kamae.

(Nota interessante: Hoje em dia, há uma corrente de árbitros japoneses que são a favor de marcar kote se, por exemplo, durante a execução de hiki-men o combatente que sofre o ataque (para o evitar) levantar os braços e em vez de ser atingido na cebeça ser atingido no pulso.)

Tenho de falar disto com Osaka sensei... hum... quer dizer que quando assumirem seigan ou kasumi contra o meu jodan posso atacar os dois kote.

Os malandros que ontem já se babavam de contentamento, a pensar usar kasumi contra mim, vão ter uma ou duas surpresas.


*"National Athletic" no original.

17.6.06

KASUMI NO KAMAE

Imagem retirada de
Ora muito bem, então cá estamos. O Tiago conseguiu encontrar uma imagem de kasumi kamae e teve a amabilidade de ma enviar. Como ele diz, apesar de ser um kendoka "à paisana", a imagem é muito boa.
Na verdade, o dito cujo kendoka chama-se Neil Gendzwill, é 5º dan e é um utilizador frequente de jodan kamae (a quantidade de coisas inúteis que eu sei!!!).

16.6.06

A PALAVRA DO SENHOR (OSAKA) 19

Sexta-feira, 16 de Junho

Conspiração. Sim, sim, é o que é. CONS-PI-RA-ÇÃO.

Temos de chamar os bois pelos nomes. E isto chama-se conspiração.

Já no outro dia foi a mesma coisa. Toda a gente a treinar contra jodan-kamae:

a )- Como defender (e contra-atacar) quando o adversário executa katate-men a partir de jodan;

b )- Como rodar para evitar katate-men;

c )- Como fazer bem seigan kamae;

d )- Suri-age men (ura) contra katate-men;


E como se isso tudo não bastasse, hoje as palavras finais do senhor Osaka foram dedicadas a kasumi-no-kamae. Adivinhem contra quê?

Quem disse “jodan-kamae” ganhou um doce.

Agora, não consigo explicar kasumi por palavras. Quem esteve na aula sabe que não me estou a armar. Fui ao google-images e busquei kasumi no kamae e sairam uma coisas (só 5 resultados) de Iaido e Kenjutsu parecidas... mas não eram a mesma coisa.

É muito difícil explicar por palavras o que é kasumi-no-kamae. Já sei o que estão a pensar, estou a defender-me. Quero ficar com a informação para mim. Afinal, eu é que faço jodan, certo?

Errado. E mantenho o que disse. Desafio qualquer um dos que estiveram hoje fazer a aula a colocarem nos comentários uma descrição do que é kasumi.

De qualquer maneira, uma palavra para o senhor Osaka: "Não havia necessidade".

Até segunda... espero que com menos técnicas contra jodan-kamae.

JONI SAN IN JAPAN (2)

O nosso amigo deu notícias.

Diz ele que ainda não começou a treinar, pois anda ocupado a procurar trabalho, coisa que parece não abundar na antiga Capital do Império. Sobretudo trabalho temporário "só" para dois ou três meses.

Aparte um pequeno tufãozinho que passou mais a norte parece que o tempo não está mau, uns aguaceiros... enfim, é como cá!

Eu sempre disse que o Japão era como Portugal, só que com melhores transportes públicos... e melhores salários, claro... e dojos de kendo a torto e a direito... e com seis dias de trabalho por semana e com uma função pública eficiente, ah... com TODOS os serviços públicos eficientes... e pessoas que cumprem horários e empregados de lojas e cafés simpáticos... e eficientes.

Só acho que eles são um bocadinho obcecados por essa coisa da eficiência.

Mas enfim, tirando isso... é igualziiiiinho a Portugal. Igual, digo-vos eu.