14.1.07

KI-O-TSUKE... MOKUSOOOO!!!

O mais provável é que quem assista a um treino de uma arte marcial se depare com um momento que considerará, no mínimo, intrigante.
São dados alguns instantes para que todos, uma vez em seiza, se “acomodem” e a voz que comanda o cerimonial pede atenção... ki-o-tsuke... e em seguida profere a palavra mágica: mokuso.
E tudo se cala, se imobiliza, o próprio tempo parece parar... é como se estivéssemos a entrar num outro mundo... um fanático de ficção científica (como eu), diria até, a entrar num universo paralelo.

Mas então, o que é, e para que serve, mokuso?

Os mais dados às coisas da meditação referirão, sem dúvida, o lado zen* das artes marciais, os mais místicos tenderão talvez para descobrir aspectos da componente zen do budo e os mais práticos evocarão provavelmente alguns resquícios inequívocos e inúteis do zen no... enfim... p’ra frente, com isto.

Quando o meu primeiro sensei me explicou o que era, e para que servia, mokuso achei a explicação perfeitamente simples e racional. Simples e racional demais, até. Também eu, nessa altura, aspirava a uma explicação mais esotérica, mais misteriosa... mais ... zen?... Isso! Sim, mais ZEN.
Mas não. Não me falou de zen nenhum. Que desilusão.

Com o passar dos anos muitas outras ilusões e mal-entendidos relacionados com o budo se dissolveram com a ajuda de leituras, contactos, práticas, etc. Curiosamente, no entanto, a sua explicação permaneceu na minha memória e hoje, para mim, encontra-se de tal forma fortalecida que não consigo pensar em mokuso de outra maneira.
Outras pessoas apresentaram-me (explicaram-me até) mokuso de outras maneiras mas, mais volta menos volta, a coisa acaba sempre por aparecer, por se transformar até, na maneira simples e original que o meu primeiro sensei (de karate) me explicou.

Fazer mokuso no começo da aula, dizia ele, é deixar para trás toda a “bagagem” que carregamos connosco. As chatices do trabalho, a escola, o trânsito, em resumo, a vida fora do dojo. Só depois disso podemos verdadeiramente apreciar a viagem que empreendemos: o keiko.

(Mokuso, às tantas, e vendo de uma perspectiva mais ocidentalizada, é um pouco como fazer o check-in das malas antes de uma viagem.)

O dojo transforma-se, assim, uma espécie de lugar fora do espaço e do tempo.
Um local em que se entra de uma forma ritualizada (anacrónica, diria até) e onde as regras de etiqueta, o comportamento e até o próprio vestuário e os assessórios, talvez muito para marcar esse mesmo isolamento, são, em si mesmo, muito diferentes dos utilizados fora do dojo. Próprios e exclusivos**.

Mas voltemos a mokuso.
Outra das coisas que faz confusão a muita gente é a duração do mesmo. Vinte, trinta segundos e já está. Não parece consistente. Então se meditamos antes da aula, como é que se justifica semelhante espaço de tempo tão curto? Que raio de meditação é essa, tão curta?
É que, apesar de assumir uma posição de meditação, e de se lhe chamar por vezes meditação, e de se parecer muito com meditação... mokuso... hum... não é bem meditação. Confuso? A escola de etiqueta e boas maneiras Ogasawara ryu-reiho, como sempre, explica. A diferença está na atitude.

Segundo dizia Ogasawara Kiyonobu***, no seu livro Nihon No Reiho, seiza deve ser uma postura calmante, mas não de descanso completo. Mokuso deve reflectir aquilo a que ele chama sei-chuu-do (movimento potencial na imobilidade) e não, como acontece na meditação zen, vulgarmente conhecida como zazen, sei-chuu-sei (imobilidade dentro da imobilidade).

O mokuso final deve ter o objectivo precisamente inverso do do início.
Depois, terminada a “viagem”, é hora de ir levantar as bagagens de novo. Só que, desta vez, a pessoa que vai levantar as ditas é suposto que seja uma pessoa melhor e mais bem preparada para enfrentar o mundo que “largou” umas horas antes.

Afinal de contas, o budo não é isso mesmo?



*Só por curiosidade, o lado zen das artes marciais é o lado da frente? Não. O de trás? Não, também não?... hum... agora a sério, acerca da relação entre budo e zen recomendo vivamente o artigo “Sword and zen”, acho que se chama assim, que pode ser encontrado no livro Budo Perspectives, The Direction of Japanese Budō in the 21st Century: Past, Present, Future. (KW publications).
**Quando alguém diz que as regras da etiqueta do dojo são coisas “de japoneses” e que vivemos na Europa, é caso para perguntar porque é que usa um keikogi para treinar em vez de um fato de treino tradicional.
***Dirigente máximo da escola de etiqueta e boas maneiras Ogasawara ryu-reiho, durante parte do Período Edo.

13.1.07

A PALAVRA DO SENHOR (OSAKA) 30

Sexta-feira, 12 de Janeiro.

O tratamento do dia foi muito semelhante ao de quarta-feira: Kirikaeshi+kakarigeiko+jigeiko. Talvez um bocadinho menos duro (ou talvez já comecemos a estar habituados?), mas, no entanto, duro o suficiente para deixar alguns valentes de bofes de fora (não é, ó Sousa?*).

No fim, o senhor Osaka apenas insistiu que kakari-geiko faz muita falta a quem deseja melhorar o seu kendo.

A princípio, nas primeiras vezes que se pratica, a velocidade não é um factor importante; até se pode fazer mais devagar, a velocidade de execução deve aumentar com a prática.

MAS DEVE SEMPRE SER CERTEIRO. Não serve de nada fazer rápido e mal.

E em seguida saudou-nos e a aula acabou.


Ah... e, já agora, parabéns ao meu irmão que faz anos hoje (isto cabe tudo num mesmo post).


*O Sousa anda-me sempre a chatear porque eu nunca combato em jodan-kamae contra ele, desta vez fiz-lhe a vontade... e o pobre rapaz mal me tocou. Arrastou-se o ji-geiko inteirinho ;-D. Até lhe meti vários kote a partir de jodan... eu, imagine-se.

12.1.07

CASO ENCERRADO


Às 14h e 45m, hora de Lisboa, a minha fisiatra declarou como "oficialmente curada" a tendinite que destruiu a minha vida de kendoka nos últimos quatro meses.

Para celebrar, hoje vou beber uma cerveja.

Oh, happy days... (todos)... oh, happy days.

10.1.07

A PALAVRA DO SENHOR (OSAKA) 29

Quarta-feira, 10 de Janeiro 2007.

Passámos mais de metade do treino de hoje a fazer kiri-kaeshi. O resto do tempo foi gasto, uns 30%, furiosamente, em kakari-geiko, os restantes 20%, ji-geiko. Acho que posso dizer, sem correr o risco de alguém me contradizer, que ficámos todos feitos em papa.

Se alguém esperava uma grande explicação metafísica para o treino ter sido tão desgastante, então deve ter ficado desiludido, pois no fim, o senhor Osaka apenas nos disse que kiri-kaeshi é muito importante, além do que, se queremos elevar o nível do nosso kendo, também temos de melhorar o nosso kakari-geiko (leia-se, fazer muito kakari-geiko).
Não há dúvida que é mesmo japonês, este.

À laia de conclusão gostava imenso de citar o capitão da equipa americana (que derrotou, pela primeira vez em 36 anos de campeonatos do mundo, a equipa japonesa) acerca da preparação que os elementos da mesma tiveram. Diz o senhor Cris Yang, rokudan, num post de um fórum de kendo:

"We had a trainer that created various cardio and strength training exercises for us.
However, I strongly believe that the best way to improve in kendo is through practicing kendo. This includes fundamentals (suburi, suriashi, etc.) as well as dedicating a large amount of time to basic kihon uchi and waza renshu.
In addition, in order to increase speed and endurance, kakari-geiko and oikomi are important (...)."

Okini pela vossa atenção e... abayo.

9.1.07

A PALAVRA DO SENHOR (OSAKA) 28

E assim, da mesma forma como tinha desaparecido, eis que renasce, qual fénix das suas próprias cinzas, a rubrica favorita de todos os leitores deste modest(íssim)o blog.
São esperadas grandes festividades um pouco por todo o "país kendoka".

Ontem, ao terminar o treino, o sensei Osaka dirigiu-nos umas, poucas, palavras acerca de tai-atari durante a execução de kakari-geiko, focando a sua atenção especialmente sobre o papel do motodachi.

Apesar de não o ter dito ontem, Osaka san já se referiu variadíssimas vezes à importância do papel de motodachi na execução de um bom kakari-geiko.
Kakari-geiko (tal como uchi-komi geiko ou, até, kiri-kaeshi ou qualquer outro keiko executado a pares) deve ser feito pelos dois participantes. Motodachi que "recebe" e kakarite que executa.
O papel de motodachi não é descansar enquanto o outro se esfalfa a correr de um lado para o outro como um doido. Motodachi tem obrigações. A saber, duas das mais importantes são:

1 - Estar na "distância correcta", e isso significa uma distãncia o mais aproximada possível de issoku-itto no ma, de cada vez que kakarite executa uma viragem;
2 - Ter (e este ponto foi o que o senhor Osaka ontem ressaltou) o espírito alerta e decidir antes (ANTES!!!) do ataque se "deixa passar" ou se faz tai-atari. É só isso: ANTES do ataque!

E, se decidir fazer tai-atari, concluia ontem o senhor japonês, aguentar sem recuar. Se se decidiu ficar na linha de fogo é preciso "arcar com as consequências".
Uma das piores coisas que pode acontecer a um kakarite é ir à procura do apoio necessário para hiki-waza e ficar a flutuar, porque o motodachi, no último momento, "se baldou" e recuou um passo. Quebra o ritmo, quebra a respiração (e quebra as perninhas), em resumo, pode destruir todo um esforço, e transformar o kakarigeiko, numa frustração total.

Qualquer pessoa um bocadinho mais atenta, ao observar um par a executar kakari-geiko, apercebe-se de imediato se o motodachi está "a domir" ou a fazer o seu papel.

Kakari-geiko já é difícil de fazer com um bom motodachi, com um mau, então, é um verdadeiro descalabro.

Pensem nisso. Até à próxima.

8.1.07

ARIGA SENSEI WEEK-END SEMINAR

Ariga sensei em Taiwan durante o 13º Campeonato do Mundo de Kendo.
Foto gamada em http://www.butokuden.com

Já no ano passado tinha "ameaçado" mas a meio do caminho o destino virou-lhe as voltas. Desta vez parece que é a sério e Tomoharu Ito sensei (8º Dan Kyoshi de Kendo e de Iaido) deslocar-se-à a Portugal para um estágio em Fevereiro deste ano.

Integrado na "comitiva" que inclui Taro Ariga sensei (6º Dan Renshi, Capitão da Selecção do Canadá) e Songyi Choi (5º Dan, Capitão da Selecção Feminina da Coreia), a presença do Shihan da Polícia de Tóquio promete intensificar, com toda a certeza, a 3ª edição do já habitual, e por si só intenso, "Ariga Sensei Week-End Seminar".

Presente estará também, como é óbvio, o "nosso" Director Técnico Nacional, o indispensável Masakiyo Osaka sensei, rokudan.

Para saber tudo o resto: local, horário, preço e programação do estágio basta dar um saltinho à página web da APK (www.kendo.pt).

7.1.07

O SENSEI 1


Shimojima sensei, um mestre "a sério", explicando kendo-no-kata.

Empolada, sobre-valorizada e, muitas vezes até, idolatrada, nenhuma figura das artes marciais japonesas é mais importante do que a do mestre.

Iluminados, rebeldes, obscuros, comerciantes, ascetas, sociáveis, anti-sociais, gentis, brutais, há-os, ao longo da história, de todos os géneros e feitíos.

Os textos que irão ler tentam demonstrar o que eu penso, neste momento da minha vida, acerca dessa mesma figura. Acerca de ”aqueles que chegaram antes” de mim. Algumas das histórias e opiniões que vos vou relatar podem não ser entendidas da melhor maneira por todos. Paciência, não vou pedir desculpa a ninguém por pensar como penso.

Kitamoto, Verão de 2005
A extremidade do meu shinai estala, com um ruído semelhante ao de um chicote, no kote direito do sensei. Foi tudo perfeito: seme perfeito, finta perfeita, entrada perfeita, timing perfeito, datotsu e kakegoe perfeitos... flack... e, em seguida, zanshin. Perfeito... kote-ari.

Mas, no entanto, há algo que não está perfeito. O sensei, um 8º dan cujo nome não vou revelar, parou e olha para mim com cara de poucos amigos. Ele chama-me mais para perto para me dizer algo e grita: kakari-geiko, hajimeeee!!!
Quando o kakari-geiko terminou, uma dúzia (ou mais) de passagens depois, chamou-me outra vez para próximo de si e, dessa vez, berrou-me: kiri-kaeshi... hajimeeee!!!

Lembro-me que era o primeiro ji-geiko do primeiro dia de estágio. Quando acabei o dito kiri-kaeshi (triplo, à moda de Kitamoto) mal me aguentava nas pernas e apresentava-se-me ainda pela frente uma hora e meia de keiko com alguns dos melhores kendokas do mundo.

E eu que me farto de apregoar que o kendo não é violento.

Tudo porque executei perfeitamente uma das técnicas que tinhamos estado a treinar minutos antes. A recompensa pelo meu esforço foi um castigo despropositado e desproporcionado.
Nenhum outro me voltou a punir por fazer coisas bem feitas... pelo contrário. A maior parte dos outros senseis quando se apercebiam que tinham sido enganados, que um “gaidjin de segunda” lhes tinha conseguido marcar uma técnica, sorriam e, por vezes até, chegavam a parar e a fazer uma vénia.

Até hoje não consegui encontrar uma explicação plausível para o sucedido. A única que me ocorre sempre quando penso nisso, e depois de muito pensar, é que aquele sensei, independentemente dos seus dans todos... é uma besta! Nem mais nem menos.

Uma grandessíssima besta. Pronto, já disse.

Mas, felizmente, esse senhor parece ser apenas uma pedra que, de uma maneira bastante estranha e improvável, passou pela peneira formativa e educacional que caracteriza a generalidade dos senseis de kendo com os quais me cruzei até à data.
Apesar dessa excepção de peso (afinal, trata-se de um 8º dan*) a regra continua a ser que as pessoas que atingem esse (quase inatingível**) patamar sejam, obviamente, indivíduos bastante equilibrados, conscientes não só das suas responsabilidades actuais mas também históricas, no mundo do budo em geral e do kendo em particular. Em resumo, mestres a sério.


* Hachidan é, desde 2002, a graduação máxima atingível pelos praticantes de kendo filiados na Zen Nippon Kendo Renmei.
**A taxa de sucesso no exame de hachidan oscila entre os 0,6 os 0,8%. Desde o fim da segunda guerra mundial, em 1945, apenas à volta de 500 pessoas acederam ao título de hachidan ou superior.

4.1.07

O “ORFÃO” (TAMBÉM CONHECIDO COMO SEMPAI)

Eu, por acaso ou sorte, até conheci grandes senseis.
Até hoje, tive a honra (e o prazer) de receber instrução, e refiro-me agora apenas ao kendo, de pessoas como Sumi Masatake, Okada Kazuyoshi, Shimojima, Sueno, e claro, Osaka Masakiyo, isto entre muitos outros.
Mas não vou falar da figura do sensei e do seu significado, isso ficará para um próximo post. Em vez disso, vou debruçar-me um pouco sobre uma outra figura da hierarquia marcial acerca da qual raramente se fala: os sempai.

O sempai que, muitas vezes, é mais responsável pela boa formação dos kendokas do que todos esses grandes mestres que conheci e que citei atrás.

De todos os livros que possuo que têm como tema central o kendo, apenas um refere no, quase obrigatório, glossário que preenche todas as últimas páginas de todos os livros sobre kendo, refere, dizia eu, a palavra “sempai”.
Duas palavras apenas “senior student” chegam para explicar sem grandes problemas o que é um sempai; é um aluno mais antigo, portanto.
Mas reparem que não disse o aluno mais antigo, uma vez que, e atrevo-me a semelhante raciocínio, nem todos os sempai são alunos mais antigos (raro, mas acontece) e que nem todos os alunos mais antigos são sempai (bastante frequente).

Mas a verdade é que esse orfão da atenção, e muitas vezes do respeito que lhe é devido, é muito mais do que um aluno mais antigo.

Muito bem e quem raio é sempai, então?

Sempai é um colega aluno mais graduado do que eu.
Sempai é a pessoa encarregada de ensinar os mais novos. Eu só tenho um sensei, mas tenho vários sempai. E ao mesmo tempo, em compensação, gosto de pensar que posso ser sempai para alguns dos praticantes mais novos que eu.
O relacionamento é sempre feito a “partir de baixo”, digamos assim.

OK, adiante. Mas então o que se pode esperar de um bom
sempai? Tenho a certeza que muitas outras caraterísticas servirão para identificar o dito, mas, assim de repente, as que me aparecem imediatamente, diria que são as seguintes:

Um bom sempai sente prazer em ajudar os alunos mais novos.

Um bom sempai fica chateado quando o sensei falta e é obrigado a dar uma aula, pois tem consciência que a sua aula será sempre uma “imitação menor” daquela que o seu sensei daria, caso estivesse presente.

Um bom sempai, quando dá aula, imita o melhor que sabe, e o melhor que se lembra e que pode, as melhores aulas que recebeu do seu sensei.

Um bom sempai é como uma boa ligação de internet. Deve conduzir e transmitir a informação com fidelidade.

Um bom sempai deve ser tão exigente para com os alunos mais novos como o seu sensei foi para com ele. Nem mais, nem menos.

Um bom sempai não tem o direito de esperar nada em troca, quando ensina o pouco que sabe. Ao contrário, por exemplo, de um bom sensei que, a meu ver, tem.

Um bom sempai é resultado de um bom sensei. Embora um bom sensei não tenha a obrigação de todos os seus alunos serem bons sempai... ou sempai, sequer.

Um bom sempai repete o que o seu sensei lhe ensinou. À sua maneira, por hipótese, mas o mesmo.

Um bom sempai interessa-se por aprender mais.

Um bom sempai não tem medo ou vergonha de interrogar os seus sempai e/ou o seu sensei para aprender mais.

Um bom sempai não se importa, nem tem de se importar, se não lhe chamarem sempai... se se importar é porque não é sempai.


E além do mais, sempai(s) há muitos.

3.1.07

EU, O MITORI-GEIKO E UM OUTRO GAJO PORREIRO

INTRODUÇÃO
Oh pá, deu-me para divagar... deve ser da idade, sei lá. Riam, riam, devem pensar que estão todos a ficar mais novos, não?
(Nota: o texto que se segue usa e abusa um bocadinho, mas só um bocadinho, de aspas e parênteses... mas olha, deu-me pr'aí, quéquessá-de fazer?)

O Dicionário de Kendo Japonês-Inglês (o tal de que eu só ainda traduzi as letras “a” e “b”) define assim Mitori-geiko:

“Método de keiko através do qual se observa a prática de outros, aprendendo com os seus bons aspectos/pontos, reflectindo assim e melhorando o nosso próprio kendo.”

E eu, sempre que ouço falar em mitori-geiko, há duas coisas que me vêm imediatamente à cabeça.

A primeira coisa sou eu, treze anitos, sentado no saudoso dojo da UKA (União de Karate do Algarve) no 1º andar do antigo mercado de Faro, durante uma “mão-cheia de tempo”, à espera que a minha mãe acabasse o karate-gi que me estava a fazer. Sim, que nesse tempo não havia karate-gi(s) à venda por todo o lado como há hoje, qu’é que julgam? Não... era muito dif... enfim, adiante.
Enquanto esperava que o dito cujo “kimono”, como lhe chamávamos na altura, ficasse pronto, pouco mais me restava do que assistir às aulas e absorver tudo o que podia para que um dia, também eu, o pudesse pôr em prática.
E, acreditem ou não, aprendi muito.

A segunda coisa que me lembro é um tipo que se sentava ao meu lado, naquele mesmo banco de madeira corrido, e que durante anos a fio, às segundas, quartas e sextas, quando o primeiro treino começava, às 18 horas, imperetrivelmente se encontrava já sentado para o seu mitori-geiko tri-semanal, saindo apenas às 21 quando o treino de graduados acabava.

Simpático, dotado de uma memória visual razoável (ou fruto de milhares de conselhos ouvidos e de milhões de repetições executadas à sua frente) algum tempo depois ele “era já capaz” de aconselhar soluções práticas para certos movimentos e mesmo emendar posições, encadeamentos técnicos e o diabo a quatro. Tudo numa boa, sem pedantices ou arrogãncias.
Em resumo, o tipo parecia uma espécie de livro técnico lá do dojo.

Ora acontecia nesse tempo que os karatecas que treinavam nesse dojo (incluindo moi) tinham por hábito, para além dos três treinos semanais, encontrar-se aos sábados e/ou domingos de manhã no mesmo local para fazer o que apelidávamos “treinos livres”.
Escusado será dizer que "o nosso amigo" passou a "frequentar" também os treinos livres. E aí, sem os constrangimentos de um sensei presente na sala, dava azo, sempre em amena cavaqueira, à sua extensa sabedoria marcial.

Não sei porquê, mas houve uma vez que, naturalmente, acabámos por convidá-lo para treinar, não regularmente, porque ele já tinha declarado várias vezes a sua incapacidade monetária para tal, mas para participar num dos treinos de sábado ou domingo de manhã.

Arranjou-se um karate-gi emprestado e, dito e feito, lá estava ele.

E, como já devem ter calculado por esta altura, os resultados não foram os melhores.


Na sua cabeça, tudo era perfeitamente claro.

No seu corpo, nada.

As mesmas coisas que ele tão eficazmente aconselhara a outros, eram agora chinês (ou japonês?) completo para o seu corpo. As posições teoricamente mais simples eram-lhe, fisicamente, extremamente complicadas de assimilar ou imitar, como se de uma espécie qualquer de (passo o termo) kama-sutra marcial se tratasse.

Não vou “bater mais no ceguinho”, que o rapaz até era um tipo porreiro, mas a conclusão que tirei ao fim de alguns anitos ligado às artes marciais é, pelo menos para a minha prática "budo-ística", bastante importante.

Mitori-geiko pode ser uma boa maneira de aprender desde que não seja um mero “voyeurismo marcial”, mas sim se estiver assegurada, ou pelo menos perspectivada, a existência de uma continuação prática; física, na verdadeira acepção da palavra. De nada serve ver (ou ler/discutir/teorizar sobre) um budo, seja ele qual fôr, se não se praticar em seguida o que se viu, pois, ao observar, estamos apenas a criar uma imagem. A esculpir uma estátua que, até que experimentemos o que vimos, por mais voltas que dê na nossa cabeça, é imóvel, sem vida.

Como dizia o falecido sensei Tsurumaru Juichi (9º dan hanshi de kendo) a propósito da essência do kendo:
“Esculpe uma estátua* e põe-lhe uma alma dentro.”

Eu acredito que essa alma é o keiko.


Não o mitori, outro.

2.1.07

QUAL O QUÊ???

- "O Karate Tradicional não é para competição, é para o Bushido."*
- Qual Bushido?
- O Bushido.
- Qual Bushido?
- O Bushido.

- Qual Bushido?
- O Bushido.

- Qual Bushido?
- O Bushido.
- Ah... qual Bushido?
- O Bushido.
- Qual Bushido?
- O Bushido.

- Qual Bushido?
- O Bushido.
- Qual Bushido?
- O Bushido.

- Qual Bushido?
- O Bushido.

- Qual?...
- O Bushido.

- ...
- O Bushido.
- Qual Bushido?
- Olhe leia isto: "mesmo os tão enunciados MESTRES 7º, 8º e 9º Dans, estão-se nas tintas para o Bushido"**
- Qual Bushido?
- O Bushido.
- Qual Bushido?

- O Bushido.
- Qual Bushido?
- O Bushido.

- Qual Bushido?
- O Bushido.

- Sim, mas...qual Bushido?
- O Bushido.

- Qual Bushido?
- O Bushido.

- Qual Bushido?
- O Bushido.

- Qual Bushido?
- O Bushido.

- Qual Bushido?
- O Bushido.

- Aaah... atão... atão e o zeeeen?

* frase retirada de uma discussão num blog dedicado ao karate.
** idem

31.12.06

2007, 2007... EU SEI LÁ...

No fim do ano passado desejei que 2006 fosse ao menos tão “pouco mau” como 2005.
Já não seria mau. Afinal, em 2005 ainda fui até Kitamoto.
Mas o meu ano de 2006 foi muito pior do que o ano que o antecedeu. De longe.

Nota. A neura previamente localizada neste espaço foi dissolvida pelo autor.

A todos, um ano 2007 de keiko melhor que o meu de 2006... também não deve ser difícil.

Abayo.

28.12.06

CONSULTÓRIO KENDIMENTAL 2

Caro Senhor:

Preciso da sua ajuda.
As pregas do meu hakama não ficam no devido lugar a cada vez que o lavo.

Como sou maníaco compulsivo, não só em termos de limpeza, mas também de arrumação e de ordem, é uma carga de trabalhos. Lavo o hakama na máquina três vezes por semana e as pregas quando ele seca, como já lhe disse, nunca ficam no devido lugar.

Aí, tenho um trabalhão enorme a passá-lo a ferro. E as pregas lá vão ao lugar; mas se fôr treinar nesse dia, eu tenho de o lavar quando volto do treino e assim as pregas deixam de estar no seu devido lugar.

Compreende o meu problema?

Kendoka Kompulsivo


Caro Kompulsivo:

O máximo que lhe posso dizer é explicar-lhe como faço para lavar e secar os meus hakamas (atenção ao plural) e como mantenho as pregas, o que, no meu caso, é tudo a mesma coisa.

A primeira coisa que tem de fazer é comprar um segundo hakama, tendo em conta o seu “problema”, parece-me o mais aconselhável.

Depois, NÃO LAVE O HAKAMA NA MÁQUINA DE LAVAR.

Faça uma “barrela” à maneira antiga.
Deite uma mão-cheia de detergente para dentro de um alguidar, encha de água morna e mergulhe o dito cujo lá dentro, agitando-o vigorosamente.
Deixe de molho e, se fôr dia de treino, pegue no 2º hakama e vá treinar sossegado.

Depois de lavado PENDURE-O PRESO PELA PARTE SUPERIOR E DEIXE QUE O PESO DA ÁGUA O ESTIQUE.

Verá que, sobretudo se fôr feito com “bom acrílico” como os meus, as pregas se mantêm no devido lugar.
Quando secar, NÃO O PASSE A FERRO, dobre-o apenas correctamente, respeitando as pregas originais.

E por falar em pregas e dobras, eis aqui um esquema traduzido pelo sensei R. Stroud* da All United States Kendo Federation, e da autoria de Tasuke Honda sensei, nanadan, acerca do significado das diferentes pregas do hakama (e, curiosamente, dos nódulos no bambú do shinai).



Tenho quase a certeza que um maníaco da ordem e da arrumação como você vai adorar saber, quiçá decorar, os significados de todas e cada uma das ditas pregas e nódulos do shinai.

Fui.

*E depois, traduzido por mim.

21.12.06

ECOS DE NATAL

Impõe-se por esta altura, por muito que não se seja fã da época natalícia, a habitual saudação que faz eco do espírito da estação.
Por isso, e só por isso:

FELIZ NATAL... E TAL E TAL E TAL E TAL

Pronto, este já está despachado.

15.12.06

OURO OLÍMPICO, OUTRA VEZ? NÃO, OBRIGADO

Ui, qué miedo... ya san los coreanitos electronicos?
Foto legalmente roubada em:
http://www.simulacre.org/wordpress/photos/album/72157594418471719/

Facto 1 - Os kendokas do mundo inteiro sabem (ou deviam saber) que a Federação Internacional de Kendo (FIK) foi aceite como membro de pleno direito do GAISF*;

Facto 2 - Sabem (ou deviam saber) que depois de ter sido aceite pelo GAISF a FIK é a única organização mundial que se pode denominar representante dos praticantes do “desporto” apelidado “kendo”;

Facto 3 - Assim sendo (Facto 2), nenhuma outra organização mundial pode usar o nome “kendo” com a intenção de o transformar num “desporto olímpico”;

Facto 4 - A FIK é contra o “kendo olímpico”, e no entanto...

No entanto... basta a equipa coreana ganhar a final de equipas no campeonato do mundo para, um pouco por toda a parte, nos forúns dedicados ao kendo, o fantasma do “kendo olímpico” fazer a sua reaparição... em força.

Pouco ou nada importa que os representantes da Coreia façam, obviamente, parte da Korean Kumdo Association (KKA) que, por sua vez, obviamente, faz parte da FIK, que (ver Facto 4) é contra o denominado kendo olímpico.

Pouco importa que a World Kumdo Association (WKA), favorável ao dito cujo “kendo olímpico”, não tenha grande peso na balança do kendo coreano, tal como pouco importa que a KKA seja a legítima representante da grande maioria dos kendokas naquele país.

Nada disso importa.
Começa-se por se falar da arbitragem durante o último mundial, timidamente, compara-se com a arbitragem da esgrima olímpica, antes e depois de ser introduzida a pontuação electrónica, e três post depois, está tudo “histérico”, a discutir o que acontecerá quando esta for introduzida na competição de kendo.
Daí em diante, como diz o outro, só há dragões.

Claro que tudo não passa, antes de mais nada, de um reflexo racista e primário, a meu ver bastante condenável, e que pode ser resumido mais ou menos assim:

“Os coreanos” ganharam e como “os coreanos” é que "inventaram" o kendo olímpico, logo, “os coreanos” vão implementar, ou tentar implementar, o dito cujo.

É um pouco como dizem “os brasileiros”, que “os portugueses” chamam-se todos ou Joaquim ou Manuel.

Assim, também “os coreanos” são todos a favor do kendo olímpico.

Tivesse sido o Japão a ganhar ou, por falar nisso, qualquer outra equipa, que não “os coreanos”, e pouco ou nada se falaria do assunto.

A discussão sobre a arbitragem poderia levar à pontuação electrónica da esgrima ocidental, mas o assunto, muito provavelmente, morreria por aí, visto que “os japoneses”, ou “os outros”, tinham ganho e como “os japoneses e os outros” são contra o kendo olímpico a discussão acabava cedo.
Mas não... foram “os coreanos” que ganharam. Enfim, se não os podes vencer, junta-te a eles.

Eu já encomendei um kendogu electrónico e vocês?


*Se houver paciência, ver, a este propósito, os 3 artigos “Kendo e Jogos Olímpicos” em:
http://usagikendo.blogspot.com/2006_04_01_usagikendo_archive.html

AULAS DE NAGINATA EM LISBOA



Consta por aí
... que uma naginataka belga, sandan de graduação, vai começar a dar aulas de Naginata, às 2ªs e 6ªs a partir das 18 horas, no ginásio da Escola Secundária Patrício Prazeres em Lisboa.

Diz-se que, a acontecer, seria a primeira vez que alguém o faria no nosso país, pelo menos de um modo regular.

Isto é o que consta... é o que se diz por aí.

13.12.06

13WKC VIDEOS: COREIA X EUA

Aqui, os cinco combates da final Coreia x Estados Unidos:

Senpo
Sandy Maruyama (USA 4) Young Dae Kim (COR 6)
http://www.youtube.com/watch?v=oP-puSpBETc

Jiho
Danny Yang (USA 2) Wan Soo Kim (COR 5)
http://www.youtube.com/watch?v=tZYSCTCqI8A

Chuken
Cris Yang (USA 1) Kang-Ho Lee (COR 5)
http://www.youtube.com/watch?v=CG91pnx5kTs

Fukusho
Fumihide Itokazu (USA 3) Sang Hoon Kang (COR 7)
http://www.youtube.com/watch?v=w2rZSk9oNwo

Taisho
Marvin Kawabata (USA 5) Jung Kook Kim (COR 1)
http://www.youtube.com/watch?v=CtnjmKhz970

13WKC VIDEOS: JAPÃO X EUA

Os cinco combates da meia-final Japão x Estados Unidos:

Senpo
Ryuichi Uchimura (JPN 1) Sandy Maruyama (USA 4)
http://www.youtube.com/watch?v=GvRazdBgIaQ

Jiho
Susumu Takanabe (JPN 4) vs Daniel Yang (USA 2)
http://www.youtube.com/watch?v=lZABMQc-fGI

Chuken
Shoji Teramoto (JPN 6) vs Fumihide Itokazu (USA 3)
http://www.youtube.com/watch?v=0Wggem42PIc

Fukusho
Jun Nakada (JPN 7) vs Christopher Yang (USA 1)
http://www.youtube.com/watch?v=fEro3z8Xa2w

Taisho
Koichi Seike (JPN 3) vs Marvin Kawabata (USA 5)
http://www.youtube.com/watch?v=Zu06p0Or1P0

RON BEAUBIEN

One Chance in the Blink of an Eye
Todos os anos a Federação Japonesa de Kendo (ZNKR) organiza um concurso de fotografia subordinado ao tema... kendo, claro. Este ano a fotografia vencedora, intitulada “One Chance in the Blink of an Eye“ é da autoria de Ron Beaubien.

Ron Beaubien vive em Tóquio desde 1992 e practica Toda-ha Buko-ryu Naginatajutsu e Tatsumi-ryu Hyoho. É membro da Nihon Kobudo Shinkokai e da Nihon Kobudo Kyokai participa regularmente em demonstrações de artes martiais clássicas (Nihon Kobudo) por todo o Japão.

O seu trabalho fotográfico aparece em livros como Keiko Shokon, Sword & Spirit e Filipino Fighting Arts, entre outros, e nas revistas Kendo World, Martial Arts Illustrated e Furyu: The Budo Journal.
Neste momento, Ron trabalha num projecto pessoal documentando as artes martiais clássicas no Japão.

Ron ensina inglês e trabalha também como tradutor para a associação Nippon Budokan de Tóquio.

No seu site, em www.ronbeaubien.com, podem encontrar alguns dos seus trabalhos.

11.12.06

13TH WORLD KENDO CHAMPIONSHIPS (ÚLTIMO)

RESULTADOS DO QUARTO DIA: EXAMES DE GRADUAÇÃO

Era só o que faltava saber.

Como é que os nossos "meninos" se portaram nos exames, depois de não terem sido bafejados pela sorte durante o torneio propriamente dito?

Pois é caso para dizer que tiraram a barriga da miséria. Dos três propostos a exame... todos três sairam triunfantes. 100% de sucesso.
Já temos um 4º dan, o Sérgio; temos um novo Nidan, o Henrique e um novo shodan, o Luis, mais conhecido como : "O Sousa".
Aos três, da minha parte, um grande PARABÉNS.

DESCONTOS ESPECIAIS PARA SHIMPAN(S) DE TAIWAN

Algumas imagens do campeonato do mundo, nomeadamente um combatente japonês, em jodan, a ser prejudicado num combate de equipas contra os USA.

Vejam (na repetição em cãmara lenta) como os árbitros marcam um men do americano que não existe... e não marcam um kote do japonês na mesma acção.

O segundo, o kote do americano, é limpinho, sim senhor, mas o primeiro... só tenho uma coisa a dizer: uma promoção "Multiópticas" para shimpan seria um sucesso.

http://www.youtube.com/watch?v=-nCquKiw3DY

10.12.06

13TH WORLD KENDO CHAMPIONSHIPS

RESULTADOS DO TERCEIRO DIA DE PROVA

E, ao terceiro dia, o milagre aconteceu.

Pela primeira vez na história dos campeonatos do mundo surge um vencedor não-japonês.

O feito histórico coube à selecção da Coreia que venceu na final a sua congénere... hã... ??? americana???
Wow, que volta meus amigos. Os americanos ficaram em segundo?... Bem bem bem bem... que coisa estranha.

Enfim, para a história, o resultado da competição masculina por equipas foi o seguinte:

1º Lugar - Coreia;
2º Lugar - USA;
3º Lugar - Japão e Taipé.

A minha alma está parva.

9.12.06

13TH WORLD KENDO CHAMPIONSHIPS

RESULTADOS DO SEGUNDO DIA DE PROVA

Bom, pode-se dizer que pelo menos o Paulo Martins já tem mais alguma coisa nova a juntar aoseu curriculum. Combateu em competição contra um campeão do mundo.

Na verdade, o japonês M. Hojo sagrou-se o novo campeão do mundo individual. Pode-se dizer que, até agora, estes campeonatos (pelo menos em termos de resultados) não trouxeram grande coisa de novo.

Resultados do torneio individual masculino:

1º Lugar - M. Hojo (Japão)
2º Lugar - T. Tanaka (Japão)
3º Lugar - S. Kang (Coreia) e G. Ho (Coreia)

Amanhâ é o dia do grande embate do costume. Se as coisas correrem como habitualmente, o Japão e a Coreia defrontar-se-ão ao fim do dia, para decidir mais uma vez quem é o melhor na competição de equipas.

8.12.06

O KENDOKA PORTUGUÊS MAIS GRADUADO DO MUNDO?

Manuel Alves, o segundo a contar da direita, na fila de baixo, kendo godan.

Que se saiba, o Sr Manuel Alves é o kendoka português mais graduado que existe e fez-nos uma visita um dia destes. Treina em Avignon na França e é 5º dan. Apesar de eu estar presente na foto, não tive o prazer de poder fazer keiko com ele (chuif).
Nessa altura a minha tendinite estava a dar-lhe forte e feio, por isso, o meu keiko resumia-se a mitori-keiko.
Falei com ele 2 minutos e fiquei muito feliz por saber que ele, de vez em quando, visita este modesto blog.
Caro sensei Manuel volte sempre, ao blog e ao nosso dojo.
PS.: A foto que ilustra este post foi gentilmente roubada do site da Charlotte.

13TH WORLD KENDO CHAMPIONSHIPS

RESULTADOS DO PRIMEIRO DIA DE PROVA

Na competição individual feminina, é caso para dizer que o Japão não podia arrasar mais do que arrasou. As quatro participantes japonesas classificaram-se nos quatro lugares do topo:

1º lugar - Sugimoto;
2º lugar - Komuro;
3º lugar - Inagaki e Shimokawa.

Nas equipas, mais do mesmo.
O Japão ficou em 1º lugar, Coreia em 2º e o Canadá dividiu o 3º com... aqui a grande surpresa destes campeonatos... a Alemanha.

Mais notícias à medida que elas vão surgindo.

7.12.06

CAMPEONATO NACIONAL (2)

Esta é uma das fotos que a nossa naginataka (naginateira, naginatadora?) residente, enfim, a Charlotte Vandersleyen, tirou durante o último campeonato no pavilhão do Casal Vistoso.

O Paulo Martins já me tinha dado o link mas por um motivo qualquer não funcionou, pelo menos comigo. Ou seria quando o meu computador estava out?...

Enfim, aqui está, em grande destaque, o dito cujo:
http://mediaplan.ovh.net/~widescre/naginata/site/pictures/kendochamp/

4.12.06

MAAI, HYOSHI E YOMI (3 e último)

YOMI

Até agora falámos de dois de três conceitos essenciais para compreendermos melhor a essência do combate no budo: maai e hyoshi.

O conceito final, Yomi, é uma forma de conjugação do verbo “yomu” que significa basicamente ler, embora também possa por vezes ser traduzido como decifrar. Só isso.

Podemos então tentar resumir as funções dos diferentes componentes do combate:
Controlar o Maai, é gerir, por assim dizer, o intervalo espacio-temporal entre nós e aquele que a nós se opõe.
Hyoshi, tem a ver com o uso correcto da(s) arma(s) à nossa disposição e das nossas capacidades técnicas, bem como do conhecimento que se tem do próprio corpo e das suas possibilidades, de forma a poder suplantar o adversário.
Aplicado à prática do budo, Yomi significa ler gestos, intenções e pensamentos do oponente; decifrar as suas acções, movimentações e ataques.
E apesar de, por vezes, poder parecer uma componente menor, Yomi é a chave do sucesso num combate de kendo.

Eu explico. Normalmente as possibilidades de desenvolvimento de um combate são explicadas por três conceitos conhecidos no seu conjunto como mittsu-no-sen (os três sen):
Go-no-sen, sen-no-sen e sensen-no-sen.

Go-no-sen (também chamado sengo-no-sen ou tai-no-sen) consiste em, depois do ataque do adversário, bloquear e contra-atacar.
Sen-no-sen (ou senzen-no-sen) existe quando, face a um ataque do adversário, se consegue antecipar o seu movimento e desferir com sucesso um ataque (reparem que não digo contra-ataque) antes que o seu gesto técnico seja completado*.
Sensen-no-sen (por vezes referido como kakari-no-sen) é normalmente explicado como o reconhecer da intenção de ataque do opositor, o que origina um ataque vitorioso antes mesmo dele iniciar o seu.

Ora tudo isto seria muito lindo e muito simples não fosse o caso de nos ensinarem que durante um combate todos os movimentos de ataque devem ser resultado de um trabalho de criação de suki. Ou seja, que antes de se atacar deve-se sempre “criar” a oportunidade, o vazio que se vai preencher com um ataque vitorioso. Quer através de fintas “físicas”, quer através da aplicação de pressão psicológica sobre o adversário (seme).

Onde eu quero chegar com isto tudo é ao facto de não se poder, como muito boa gente faz, encarar cada um dos componentes do mitssu-no-sen como compartimentos estanques, quer temporal quer espacialmente.

Há tempos, nas palavras que habitualmente dirige aos seus alunos após o treino, o sensei Osaka mencionou um conceito conhecido como Tame. Tame é, grosso modo, a capacidade de encontrar e reconhecer o “ponto de não-retorno”, chamemos-lhe assim, durante um combate.
Aquele momento em que a pressão exercida pelos adversários é tal que já não há maneira de voltar atrás.
Tame é um momento onde, mais do que a distãncia e do que a técnica, é a leitura do adversário que vai ser fundamental para o sucesso.

Voltando agora a Yomi não me parece muito díficil perceber que a definição de “leitura do adversário” ganhe um peso e uma importância que à partida, possivelmente, não teria.
Na verdade, não será exagero dizer que tudo num combate de kendo, sobretudo se os adversários forem tecnicamente equivalentes, está dependente da leitura que se faz da atitude do opositor.

E se isso é evidente em sen-no-sen e sensen-no-sen, mesmo no caso de go-no-sen as possibilidades de sucesso são infinitamente mais elevadas se, ao invés de simplesmente esperar o ataque do adversário para depois contra-atacar, perante uma situação de tame, lhe “oferecer” um suki falso, um engodo, uma abertura falsa na nossa guarda. Aquilo que aos olhos do opositor se apresenta como uma falha nossa é, na verdade, uma falha dele. Uma falha que vai significar a sua “morte”.

É caso para dizer que é uma maneira de ler as coisas.



*Não deixa de ser interessante mencionar que, no seu livro “Kendo”, Takano Sasaburo (1862-1950), um dos maiores teóricos do kendo moderno, se refere a sen-no-sen apenas como sen. Estão a ver a coisa?...

3.12.06

MAAI, HYOSHI E YOMI (2)

HYOSHI (ou Hyô-shi)

O Dicionário Japonês-Inglês de Kendo define assim o conceito de hyoshi: “Ritmo e fluidez de movimentos da espada ou do corpo; referente à respiração em sintonia com o adversário; intercâmbio de sensações entre o próprio e o opositor”.

Tendo em conta, e colocando em contexto, a sua inseparável ligação com o conceito de maai, será justo dizer que a correlação maai-hyoshi define-se como uma sequência de intervalos espacio-temporais produzidos pela actividade existente entre dois opositores e visível graças à cadência própria de cada um deles, a qual, por sua vez, está intimamente ligada à (dependente da?) respiração e condição física dos mesmos.

Parece-me que uma boa forma de tentar simplificar esta “complicação” toda é reflectir por uns instantes sobre a forma como, por exemplo, a idade (e a “disponibilidade física” que ela proporciona) interfere na relação entre dois combatentes.

Os números apontam para a seguinte teoria: quanto mais pequena é a distãncia de combate, maior é a vantagem dos combatentes mais jovens e portanto mais fortes e mais rápidos. Ou seja, quanto menor fôr maai mais hyoshi necessita de energia.

À medida que a distância aumenta, a necessidade de força e rapidez diminui.

As estatísiticas nos anos sessenta e princípios dos setenta, mostravam claramente que, em actividades como o Judo, onde o maai é mínimo, as carreiras dos campeões, EM GERAL, terminavam antes dos 30 anos. À medida que o maai se tornava maior, as idades também acompanhavam a tendência. No Sumo, os campeões duravam até entre os 30 e os 35 anos; no Kendo, os grandes reinavam até por volta dos 40 (Yamazaki foi campeão do Japão em 1969 com a bonita idade de 45 anos); já na Naguinata encontravam-se campeãs com idades bem para lá dos quarentas.

E se hyoshi está intimamente ligado à respiração e à condição física, yomi, pelo seu lado, está estreitamente relacionado com a experiência.

Quando a estas duas noções, maai e hyoshi, juntarmos a terceira, yomi, iremos inevitavelmente encontrar-nos frente-a-frente com um outro conceito denominado: sen.

Mas isso é conversa para o próximo post.

Abayo.

2.12.06

MAAI, HYOSHI E YOMI (1)

MAAI (ou Ma-ai)

A noção de maai é frequentemente traduzida pelos praticantes de artes marciais japonesas como distância.
Mas o facto é que a palavra maai é composta por duas outras palavras. E se a segunda, o verbo “ai”, se aplica para definir o encontro entre duas ou mais pessoas (ou objectos), já a primeira, “ma”, exprime não apenas distância, ou seja, um intervalo espacial entre sujeitos, mas também um intervalo temporal (podendo até ser utilizada para definir um momento de mudança de ritmo, por exemplo, numa música).

Ora bom, sendo assim e segundo este prisma, maai seria definido através de uma expressão semelhante a: “maai é o intervalo de espaço e de tempo, mas também o movimento de aproximação e/ou afastamento, existente entre dois opositores”.

Para entender melhor a importãncia de maai na prática diária, basta pensar em certo tipo adversários que aparecem de tempos a tempos e com os quais nenhuma técnica parece funcionar seja a que distância fôr.

De facto, o que se passa é que somos muitas vezes levados a pensar que, uma vez atingida a “distância” denominada como issoku-itto no ma (fig. 1), nos encontramos numa situação, tal como a expressão se auto-define de “um passo de distãncia” do adversário. E se eu estou a um passo de distãncia, nada mais natural que ele, o meu adversário, também esteja.



Fig. 1

Por outras palavras, estamos numa situação de “igualdade”, certo? Errado! Nada mais errado.

Issoku-itto no ma (aliás, tal e qual como chika-ma ou to-ma) deve ser uma distãncia subjectiva e individual. A denominação clássica tem muito mais a ver com a posição dos shinais do que com a efectividade técnica ou facilidade de execução que daí possa resultar.

Issoku-itto no ma, tal como nos é ensinada no kendo, é uma referência, mais que isso, diria que é uma convenção.

Não se “deixem levar” pela definição que remete para a posição das pontas cruzadas dos shinais. Esqueçam por uns instantes a imagem acima e imaginem um kendoka de um metro e noventa e oito de altura, enfrentando um outro com um metro e cinquenta e cinco.
É fácil perceber que “um passo de distância”, e mesmo com as pontas dos shinais na sua posição convencional, possa ser uma expressão que, nessa situação, resuma realidades extremamente diferentes para essas duas pessoas.

A ideia de maai está estreitamente ligada, diria até que é inútil, sem a compreensão dos conceitos de hyoshi e de yomi.


Por isso mesmo, no próximo post vamos falar de hyoshi que, em linguagem de kendo, remete para o ritmo e a movimentação, tanto do shinai como do corpo.


Abayo.

28.11.06

CAMPEONATO NACIONAL

Pois, lá se acabou mais uma época regular de torneios.

Este Torneio dos 24, como lhe costumo chamar, foi uma boa prova da vitalidade crescente que reina no (pequeno) meio dos praticantes de kendo nacional.

Os problemas (conhecidos dos meus fiéis leitores) ligados ao meu PC impedem-me de fazer a minha habitual e mui reflectida crítica e atribuição dos prémios Usagi San.
Prometo fazê-la assim que estiver na posse de um novo aparelhómetro informático (bem como ir roubar algumas fotos ao Frederico para a ilustrar, eheheh).

Para já, parabéns a todos os participantes.
Do local onde me encontrava tive ocasião de apreciar excelentes combates e a honra de assistir ao combate (massacre?) mais rápido da história do kendo nacional.

Enfim, gambate, como diz o outro.

21.11.06

LEIS DE MURPHY E O MEU PC

A 1ª Lei de Murphy diz claramente: "Se alguma coisa pode correr mal, (então) vai correr mal, de certeza."
Aplicada ao(s) meu(s) computador(es) a lei de Murphy sofre uma mutação e passa a enunciar-se da seguinte maneira: "Se alguma coisa pode correr mal, (então) vai correr TUDO mal, de certeza."

O meu computador morreu. F...-se.

NOTA: Um dia destes volto a postar regularmente... espero eu.

6.11.06

PROBLEMAS COM PC

Na próxima semana, pelo menos, não vale a pena passarem por cá à procura de novos posts. Este mesmo está a ser feito num ciber-café.
O meu PC pifou.
Over and out.

3.11.06

54th ALL JAPAN (MAIS)

Ipponme.
Mesmo os craques precisam de ver os "velhotes" a fazer kata.
O senhor da esq. (uchidachi) chama-se Masatake Sumi. Lembrem-se deste nome.

R. Uchimura (dir.) num momento do torneio...

... e o "rapaz" com a sua bela taça na mão.

54th ALL JAPAN KENDO CHAMPIONSHIPS

Que loucura! Olhem bem para isto.
Harada a perder com Takanabe nos oitavos... tch... loucura.

Decorreu hoje, como de costume no dia 3 de Novembro, o Campeonato do Japão de Kendo.
O resultado desta 54ª edição teve (como podem apreciar pelo diagrama do torneio) algumas surpresas.

Em 1º lugar:
R. Uchimura, de Tokyo, (2ª participação, godan)

2º - T. Furusawa, de Kumamoto (3ª participação, godan)
3º - S. Takanabe, de Kanagawa (4ª participação, godan)
3º - H. Toyama, de Aichi (3ª participação, rokudan)

Uchimura, que o ano passado se tinha classificado em segundo lugar, perdendo na final contra o seu Sempai da Polícia de Tokyo, Harada Sato, torna-se assim no primeiro kendoka de que há registo a ganhar:

O campeonato japonês de Kendo de Escolas Básicas;
O campeonato japonês de Kendo de Escolas Secundárias;
O campeonato japonês de Kendo de Universidades;
O campeonato japonês de Kendo da Polícia;
E, finalmente,
O campeonato japonês, ponto.

E é “só” godan.

2.11.06

PEQUENO DICIONÁRIO JAPONÊS-PORTUGUÊS (ÀS VEZES) ILUSTRADO DE KENDO - B

Battō (v.) 1. Desembainhar a espada. 2. Desembainhar o bokuto antes de executar kata. 3. Desembainhar o shinai antes de praticar ou competir.

Bō-gyo (v.) 1. Escapar a um ataque. (pode-se escapar de um ataque usando um bloqueio com o shinai, um movimento corporal ou ashi-sabaki.) 2. O acto de desencorajar um opositor de atacar através do uso de intimidação.

Bokken (subs.) Ver Bokutō.

Bokutō (subs.) Espada feita de madeira (normalmente de carvalho). / Também Bokken ou Kodachi.

Bu (subs.) 1. O significado original do símbolo chinês Bu é “marchar com a armadura na mão", ou "atacar em frente". 2. Referente a artes marciais/militares. Durante o período Edo, devido a uma grande influência do confucionismo chinês, o significado de Bu passou a ser traduzido como o resultado da junção de dois outros símbolos : hoko (arma) e todomu (parar) o que significaria "parar as armas", e desde então é visto como um símbolo de pacifismo.

Bu-dō (subs.) 1. Doutrina da classe militar japonesa. 2. Budō também se refere ao código de conduta militar e às artes militares, Bujutsu. 3. Hoje, a definição de Budō abrange as seguintes artes marciais: Kendō, Judō, Kyūdō, Sūmō, Naginata, Aikidō, Karatedō, Jū-Kendō e Shōrinji-Kenpō.

Budōjō (subs.) Ver Budō-kan.

Budō-kan (subs.) 1. Sala ou edifício destinado à prática das artes marciais. (Pode ser um centro que permita a prática de todas as artes marciais ou criado especificamente para uma só.) 2. A Fundação Nippon Budōkan é frequentemente designada aepnas por Budōkan. (Antigamente, o termo Budōjō era usado em vez de Budōkan).

Bu-gei (subs.) 1. Artes marciais/militares. (O símbolo chinês Gei implica uma preparação mental e física cultivation através de treino técnico). 2. As ideias relativas ao desenvolvimento mental e físico inerente às artes marciais.

Bugei-jūhappan (subs.) As 18 disciplinas diferentes que faziam parte do Bugei.

Bu-jutsu (subs.) Ver Bugei.

Bu-toku-den (subs.) A sala de artes marciais do templo Heian Jingu em Kyoto, construido pelo Dainippon-Butokukai.

Butokusai (subs.) Cerimónia e festival para o desenvolvimento das artes marciais. (Em 4 de Maio de 1899 (Meiji 32), o Butokusai teve lugar no Templo Heian Jingū. Com a fundação da All Japan Kendō Federation em 1953 (Shōwa 28) o festival renasceu e faz agora parte do Kyōto-Taikai que se realiza todos os anos na mesma data e locais).

Byō-ki (subs.) 1. Estado de saúde debilitada. 2. No Budō, focar a concentração apenas num determinado ponto, interrompendo a fluidez natural da energia e do espírito. (Quando um competidor perde fluidez ao preocupar-se apenas em ganhar, resultado de demasiada concentração na escolha das técnicas e de muita tensão; demasiada preocupação que impede a resposta natural durante o combate). Ver Shi-kai.

31.10.06

PEQUENO DICIONÁRIO JAPONÊS-PORTUGUÊS (LIGEIRAMENTE) ILUSTRADO DE KENDO - A


Eis a letra A. “A” como:

Agari (subs.) Apreensão ou nervosismo, p.e. antes da primeira experiência de competição ou antes de um torneio particularmente importante, que provoca perda de balanço mental e físico.

Age-gote (subs.) Golpe num dos pulsos do adversário (kote) quando as suas mãos se encontram elevadas acima da guarda Chūdan (mais exactamente, numa posição igual ou acima do mune-do).

Ai-chūdan (subs.) 1. Quando dois praticantes assumem a guarda Chūdan antes de um combate, prática ou kata. 2. A posição que se assume sempre que se começa ou recomeça um combate durante o shiai.

Ai-gedan (subs.) Quando dois praticantes assumem a guarda Gedan antes de um combate, prática ou kata.

Ai-jōdan (subs.) Quando dois praticantes assumem a guarda Jōdan antes de um combate, prática ou kata.

Ai-ki (subs.) Estado de sintonia com as sensações do adversário. Uma atitude complementar à do opositor. Durante um confronto é preciso manter uma atitude oposta à do adversário até ao último instante do combate; p.e. quando um adversário é forte devemos mostrar-nos fracos, quando ele é fraco devemos atacar vigorosamente. Este princípio denomina-se, em japonês, Ai-ki-wo-hazusu (evitar ai-ki). Visto que os combates de artes marciais são decididos quando o ki de um dos oponentes iguala o do outro, não estar em sintonia com o (ki do) adversário, será a base do sucesso num desafio. Ver Ai-ki-wo-hazusu.

Ai-ki-wo-hazusu (v.) Evitar situações de ai-ki. Atitude correcta durante um combate. Ver Ai-ki.

Aisatsu (subs.) Saudações e conversação de etiqueta, incluindo expressões de parabéns, agradecimentos e camaradagem. Etiqueta e respeito para com os colegas kendokas são aspectos importantes do kendo. Ver Rei.

Ai-tai-suru (v.) Enfrentar o adversário.. Ai-te (subs.) Designação do opositor em competição, prática ou Kata. Também Shiaiaite (adversário de competição) ou Keikoaite (adversário de prática).

Ai-uchi (n.) 1. Situação em que ambos os opositores conseguem yūkō datotsu (golpes válidos) simultaneamente. (Durante uma competição nenhum dos golpes é considerado válido, visto que anulam-se mutuamente). 2. Situação em que ambos os opositores falham simultaneamente yūkō datotsu.

Amasu (v.) Prever as intenções do adversário quando ele inicia uma técnica e recuar com calma e compostura (deixando algum espaço que o “convida” a prosseguir) e colocar-se assim numa posição de vantagem face ao mesmo.

Ashi-gamae (subs.) Posição dos pés; posição e relação entre os pés que permita responder instantaneamente aos movimentos do opositor.

Ashi-haba (subs.) Distãncia entre os pés quando em ashi-gamae Ashi-hakobi (subs.) Ver Ashi-sabaki.

Ashi-sabaki (subs.) Os quatro tipos de deslocação usados para atacar ou evitar um ataque: Ayumi-ashi, Okuri-ashi, Hiraki-ashi e Tsugi-ashi.




















Ataru (v.) Acertar, atingir o alvo.

Aun-no-kokyu (subs.) Respirar em sintonia com o adversário. Ao executar kata, estar em sintonia com o ritmo e as particularidades do colega. A letra “A”, de “aun”, significa expirar e “un” significa inspirar. Além disso, em Sânscrito, “a” é o primeiro letra/som e é dito com a boca aberta e “un” é a ultima letra/som do alfabeto e é dita com a boca fechada, juntas, simbolizam o princípio e o fim de todas as coisas.

Ayumi-ashi (n.) Tipo de deslocação no kendo, que permite percorrer maiores distâncias mais rapidamente. Ver Ashi-sabaki.

29.10.06

VOLUNTÁRIOS EURO 2007

Aí está.

Para os (muitos?) que se andavam a queixar nos últimos tempos que não sabiam como, e quando, se poderiam voluntariar para a organização do Europeu 2007, notícias frescas: o processo de voluntariado COMEÇOU.

Vão até ao site da Associação, www.kendo.pt, e lá podem preencher online a respectiva ficha de inscrição.
Tanta tanga, tanto blábláblá, agora vamos lá a ver quantos é que estão dispostos a dar o corpinho ao manifesto.

28.10.06

CORREIO KENDIMENTAL 1


Caro Correio Kendimental:

Quero comprar um shinai novo mas não percebo nada disto. Estou muito confusa com todos estes nomes que aparecem nos sites e nos catálogos dos vendedores.
Madake, chokuto, koban... as designações não faltam.
Afinal que tipo de shinais existem e como é que se pode saber o que é o quê?

Peço desculpa pela ignorância e por perguntar uma coisa que toda a gente sabe.

Ass.: Sonhadora do Dojo


Cara Sonhadora:
A sua pergunta é muito mais frequente do que pensa e há muito boa gente que não sabe nem sonha, como diria o outro.


Então, como diria um esquartejador, vamos por partes:
Os shinais, antes mais nada, dividem-se de duas maneiras distintas, consoante: o tamanho e o formato.

Assim, no que diz respeito ao tamanho, temos dois géneros: o daito e o shoto.
O daito é um shinai com um tamanho maior ou igual a 114 cm de comprimento.
O shoto é um daqueles shinais mais pequenos usados apenas pelos praticantes de nito-ryu e deve ter um comprimento menor ou igual a 62 cm.

E, no que ao tamanho respeita, estamos aviados.

Passemos então aos formatos do shinai.
Também aqui, existem apenas dois géneros de shinais: dobari e chokuto.
O dobari é mais largo junto da zona da tsuba e mais fino na zona mais extrema, próxima do sakigawa. O peso também é mais concentrado “atrás”, junto do punho.
O chokuto, esse, é mais uniforme no formato e o peso também é dividido mais uniformemente por todo o corpo do shinai.

Como viu não é nada difícil. Há uma outra designação que aparece por vezes nos catálogos de material e que é koban.
Koban significa apenas que o shinai em causa, que pode ser dobari ou chokuto, tem uma tsuka de formato oval, mais nada.

Tudo o resto que ler ou ouvir acerca de um shinai não são características intrínsecas do mesmo, mas possivelmente de materiais e técnicas de fabrico; por exemplo, um shinai madake, é um shinai fabricado com um tipo de bambú japonês de alta qualidade chamado, curiosamente, madake; se ouvir alguém dizer que tem um hasegawa, isso quer dizer que é um shinai feito em fibra de carbono, etc, etc.

No que diz respeito à sua utilização, um dobari é (normalmente) mais aconselhado para competidores, enquanto o chokuto é o preferido de muitos senseis mais avançados para os quais a componente competitiva já não tem grande valor.

A maior parte dos shinais que se pode comprar no mercado não especializado, chamemos-lhe assim, sport-zones e decathlons e quejandos, são misturas (maiores ou menores) dos dois tipos referidos; embora frequentemente estejam mais próximos do chokuto que do dobari.

E agora, cara sonhadora, compre lá o shinai, menos sonhos e mais keiko.


Caros leitores, se desejarem saber alguma coisa sobre os fait-divers do kendo façam como a "Sonhadora do Dojo" mandem um e-mail para IMDRabbit@hotmail.com, escrevam CORREIO KENDIMENTAL no subject da mensagem e exponham o vosso problema ou dúvida. Desde que tenha a ver com kendo, a redacção do blog fará tudo o que for possível para responder às vossas questões (nem que para isso se recorra ;-) ao Sensei Osaka, claro).

26.10.06

UM "NOVO" FORUM DE ARTES MARCIAIS

Já não é assim tão novo quanto isso, mas ainda está a arrancar.

Trata-se do forum criado pela e-bogu Portugal e pretende ser o local de encontro dos praticantes de artes marciais nacionais.
É um bom local para mandar uns "posts de pescada" sobre temas tão variados como kendo, karate, iaido, aikido, jogo do pau e muito mais.

É assim como ir ao café num centro comercial.
Fala-se, discute-se e depois, se assim se desejar, pode-se ir fazer umas compras.

A e-bogu foi criada pelo sensei Taro Ariga (kendo rokudan) e é um dos maiores fabricantes/vendedores do mundo de material para artes marciais e não, não me pagaram nada para colocar este post aqui.


http://forum.e-bogu.com.pt/

Ah, e parece-me que ainda estão à procura de moderadores para certas artes marciais.

KENDO DO OUTRO MUNDO


Umas asinhas e era um anjinho perfeito.

Eis a prova, se dúvidas houvesse, que até as entidades divinas praticam kendo.
Esta foto faz parte do portfolio do Fred e pode ser encontrada, e mais uma data delas, aqui:


http://flickr.com/photos/frederico/270405508/in/set-72157594329583311/

25.10.06

14º WKC NO BRASIL

" Blade Runner tropical"

Ainda o 13º Campeonato do Mundo de Kendo não arrancou e já se fala acerca do 14º, que deverá ter lugar, segundo as normas da Federação Internacional de Kendo, num país do continente americano.

Até ao ano passado o grande pretendente a hospedar o campeonato de 2009 era o Hawaii, no entanto, a federação local "roeu a corda" algures durante o segundo semestre de 2005 e desistiu do evento.

Como se diz, "chegaram-se à frente" os brasileiros. Segundo as fontes deste blog, geralmente bem informadas e colocadas ao mais alto nível na European Kendo Federation, consta que a Confederação Brasileira de Kendo aceitou acolher o campeonato depois de um acordo ter sido atingido com, nomeadamente, a Federação Americana que deverá ajudar a custear a coisa.

Ora aí está uma bela ideia! Devíamos fazer o mesmo com a federação europeia a respeito do próximo europeu de Lisboa. Ou então, pelo menos, "chulávamos" os espanhóis, que estão aqui mesmo ao lado. Ah, queres campeonato? Então, nós fazemos mas TU tens de NOS pagar.

Enfim, brincadeiras à parte parece que é definitivo, os 14ºs WKC terão lugar em S. Paulo em 2009.

Pelo menos, e mais que não seja, come-se bem. Para além disso, não estou assim a ver grandes atractivos mais...

24.10.06

A “ESPADA SAMURAI”

Ontem começou a semana das artes marciais do National Geographic Channel.
O trabalho de abertura dedicado à katana foi, acho que lhe podemos chamar assim, sofrível.

Quando é que alguém se irá decidir a fazer um documentário DECENTE sobre a espada japonesa? Que raio, nem a National Geographic?
É que, por um lado, a reportagem até se debruça de uma maneira competente e extremamente interessante sobre a concepção e criação da espada por parte de um dos actuais ferreiros ainda em actividade.

Mas por outro, tudo o resto, o envolvimento e suposta explicação das origens e da mística da katana, descambou irremediavelmente (?) numa imitação pobrezinha (e em “câmara-lenta”) das séries de TV japonesas de chambara*.


Se tirarmos as encenações historico-irrealistico-foleiras, alguns tame-shigiri bastante merdosos e o número de circo em que a filha atira setas contra o pai, o qual se defende usando apenas a espada, pouco tivemos que valha a pena.

Mas felizmente ainda tivemos.
Um dos segmentos do documentário apresentava um excerto minúsculo de um keiko de iai bastante interessante.

Foi pena, porque a parte da feitura da espada até foi gira e merecia um bocadinho mais de “trabalho” à sua volta.

De resto, mal posso esperar pelo monge do kung fu em Nova Iorque e pelo especial sobre Armas Chinesas do kung fu que dão continuidade a esta “semana” das artes marciais.

Estou aqui que não me aguento.

P.S.: Não existe nenhuma, como os comentadores portugueses no programa frequentemente referem, “espada samurai”. Provavelmente, é só mais uma das excelentes traduções com que somos diariamente brindados nos canais-cabo. “The samurai sword”, em inglês, significa “a espada DO samurai”.
Porque como o possessivo “apóstrofo+s” não se aplica se a palavra seguinte começar, também ela, por “s”, quando os comentadores americanos convidados dizem “the samurai sword” (e não, claro, “the samurai’s sword”), o que querem dizer é “a espada DO samurai”.

Samurai, que eu saiba, não é nenhuma marca ou tipo de espada. Cretinos.

*Aventuras de samurais.


22.10.06

MEN (BY PLAYMOBIL?)

Andava eu a "dar umas voltinhas pela net" quando me deparei com um filminho muito interessante. Nele, e durante uma demonstração na Coreia, um grupo de jovens apresentam-se equipados com um “men” completamente diferente do habitual.
A demonstração, perfeitamente normal, não teria nada que valesse a pena comentar, não fosse a presença daqueles “novos” equipamentos de protecção.
Fiquei curioso e como sabia que alguns dos membros do forum kendo-world são praticantes coreanos e “coreano-descendentes”, na esperança de obter mais informações sobre o material em causa, coloquei um post no dito forum.
O resultado resumiu-se a 12 páginas de polémica, ofensas e “gritos”.
Não querendo repetir aqui o “feito”, aqui deixo, no entanto, o link para o filme em causa:
http://www.youtube.com/watch?v=pfoNFXnN7zQ
Para além de parecer um "capacete" criado para os bonecos da Playmobil, digam vocês de vossa justiça.

Eu, por acaso, até gosto...
... mas gosto mais dos actuais... acho eu.

19.10.06

O “KEN“ É FÁCIL DE SE VER; ONDE É QUE ESTÁ O “DO”?

ou

Os devaneios de um kendoka quando impossibilitado de praticar.

O “ken” do kendo, creio que todos concordarão, está à vista. Com maior ou menor dificuldade todos conseguimos aperceber, pelo menos, o que é necessário para que o “ken” seja praticado.
E todos os que praticam, do mesmo modo, com maior ou menor dificuldade, serão unânimes em concordar que, bem vistas as coisas, o “ken” é até bastante limitado e não é, digamos, nada do outro mundo.
Se tivermos em consideração que, independentemente das “variações” migi, hidari, morote e katate, temos à nossa disposição, basicamente, apenas quatro ataques diferentes, o “ken” não surgirá aos nossos olhos como uma actividade muito complexa ou elaborada.


Para não falsear a informação, podemos até ser um bocadinho mais exigentes e juntar à “lista técnica” os diferentes grupos de técnicas de bloqueio e antecipação.
Assim, temos: oji-waza e debana-waza... ah e, já agora, também hiki-waza, claro; e assim... de utilização frequente... pouco mais temos.


Para comparar com o judo por exemplo, digamos que, no capítulo das projecções, sem contar com imobilizações no solo e estrangulamentos, a arte de Jigoro Kano deve ter o dobro ou o triplo dos ataques do kendo, se calhar mais.

Mas porque é que uma coisa, aparentemente, assim tão simples é, na realidade, tão difícil? (parece-me que já perguntei isto antes) Acho que a resposta se encontra na parte que falta da palavra kendo.
Na sílaba “do”. Senão, vejamos, é tudo um problema de perspectiva:

“Ken” é o shinai, é o waza que o shinai executa. “Ken” é jutsu, é o melhor ou pior domínio de cada waza. “Ken” é o corpo, o espaço e as deslocações do corpo no espaço. Certo?
“Ken” é shiai (absolutamente!!!).

“Do” é tudo o resto. “Do” é o que não se vê. É rei-ho, zanshin e kigurai; “Do” é ki, seme, kizeme, tame e, em último caso, sutemi-no-itto (será? parece-me que sim). Correcto?
“Do” é kata (será???).

“Ken” é o que se vê. “Do” é o que se sente (esta gosto, saiu bem...).

Sem “do”, o “ken” não passa de uma série, mais ou menos bonita conforme o executante, de habilidades e malabarismos.
Mas por seu lado, sem “ken”, o “do” não passa de um amontoado de conceitos vagamente filosóficos mas completamente inúteis.

Os dois não podem passar um sem o outro, estão condenados a complementar-se.
Afinal, de que serve existir um caminho se não existir um corpo para podermos caminhar? Por outro lado, de serve saber caminhar se não existir um caminho? (muito filosófico, hein? Faz-me lembrar aquela da árvore que cai na floresta e se ninguém... hum... enfim... adiante)

A falta de um dos dois elementos leva inevitavelmente ao desequilíbrio do praticante, tal como, aliás, este post faz prova ;-).