15.5.07

FUDOSHIN

Fudoshin significa "mente imóvel" (ou amovível) e é um conceito comum a outras artes marciais para além do kendo.
Fudoshin é também o título de um documentário dedicado a Miyazaki Masahiro.
Olha o trailer aqui:

http://www.youtube.com/watch?v=z9TKs0tzlLM

O homem é o maior.
O quê? Eiga?... Oh pá, não me façam rir que tenho cieiro nos lábios...

10.5.07

PORTUGAL VERSUS SUÉCIA ( 21º EKC, LISBOA)

Andava eu a dar um passeio pelos video-googles e youtubes da vida quando descobri isto:

http://video.google.com/videoplay?docid=6150096272023145695&q=kendo+portugal

Não sei a origem e, na verdade, nem me preocupo em saber.
Mas é interessante.

9.5.07

A PALAVRA DO SENHOR (OSAKA) 44

Quarta feira, 9 de Maio 2007

Dia fixe, calminho. Não "morri" pelo caminho.

Kirikaeshi (claro), shomen-uchi, uchikomi-geiko, kakari-geiko... o costume. e um bocadinho, uns 5 minutos ou 6, de ji-geikooooo. Ahahahah.

Há 3 meses que não fazia ji-geiko. Que gozo. Combati com o Jorge e depois com o Joni. Devo ter estado muito mal... mas soube muito bem. E quando já me sentia mais à-vontade e comecei a fazer jodan contra o "semi-japonês"... acabou-se o ji-geiko.

No fim, o sensei referiu que quando se faz treino com vários motodachi, como foi o caso de hoje, deve sempre procurar-se um motodachi que esteja livre e nunca empatar ou ficar a olhar sem treinar.

E disse outra coisa qualquer que agora não me lembro. Deve ter sido qualquer coisa relacionada com tentar fazer bem kirikaeshi, uchikomi-geiko e kakari-geiko. É que essa é a única forma de o kendo se tornar mais forte, mais definido... numa palavra: melhor.

É isso mesmo. Foi isso mesmo que ele disse.

E "magister dixit" está dixito.

7.5.07

A PALAVRA DO SENHOR (OSAKA) 43

Segunda-feira, 7 de Maio 2007.

Um dia sem treinar e o teu corpo nota.
Uma semana sem treinar e o teu adversário nota.
Um mês sem treinar e a assistência inteira nota.

Eu não treinava desde 14 de Fevereiro.

Tou quasequasequase, quase morto.

Tudo no treino de hoje me correu... esquisito. Isso, esquisito é uma palavra boa.

Adorei voltar a vestir o bogu andar à paulada, não haja ilusões acerca disso, mas não correu bem... não correu... a mão esquerda doía e não estava a funcionar correctamente, tanto que fiz uma bolha, no polegar claro; o ki-ken-tai não estava no-itchi; o meu kirikaeshi parecia as pás um helicóptero russo avariado, o uchikomi-geiko foi desastroso, o kakari-geiko um pesadelo.

Enfim, quem estava fresco que nem uma alface era o nosso incansável sensei Osaka (kendo nanadan, tirar chapéus por favor... ok, siga) que no final do treino se referiu às idiossincrasías de uchikomi-geiko e de kakari-geiko, dizendo que quando se faz uchikomi-geiko deve existir a preocupação de fazer movimentos maiores e mais bem feitos (donde o facto de motodachi, oferecer "os alvos" e facilitar a execução de kakarite); já quando se executa kakari-geiko, o importante é fazer rápido mesmo que durante pouco tempo. Manter um bom ritmo por pouco tempo (que seja) é o mais importante.
"Não pensar, fazer." dizia o senhor japonês. Cansado? Paciência.

Isso, paciência.

Quarta-feira será melhor...

... espero... digo eu.

CAMPEONATOS DA EUROPA DE KENDO 2007: CRÓNICA DA VITÓRIA DE PORTUGAL.

Este texto foi concluído na quarta-feira, 10 de Janeiro de 2007, às 16h:22m:23s.

Disseram-me: “Escreve um texto para a revista Kendo-World sobre o kendo em Portugal e os campeonatos da Europa de 2007... e despacha-te.”

E cá estou eu, enfrentando a tradicional folha em branco, cada vez com menos tempo para resolver a situação. A noite vai já avançada e a musa parece estar em vias de ser declarada como shiai-funo-sha (ausente, incapacitada para o combate).
Não fosse o facto de ser uma folha digital, e não de papel verdadeiro, e o cliché não poderia ser mais completo.

Para desanuviar atiro-me para cima do sofá e tento fazer divergir os meus pensamentos. Ligo a TV.
Num dos canais estatais, no telejornal da meia-noite, o pivot conversa com dois comentadores “especializados” em desporto sobre as possibilidades da selecção lusitana nos próximos campeonatos da Europa de kendo, os quais se realizarão em Abril de 2007 na capital portuguesa....

zap... salto para o outro canal estatal e um eminente historiador traça o percurso do kendo em Portugal, desde os primeiros tempos, no princípio dos anos oitenta. Sistemático o catedrático leva-nos ao tempo em que um pequeno núcleo de praticantes do então Budokan de Portugal, mais tarde liderados por Karan Tetsuo (7º Dan Kendo, 5º Dan Iaido) natural de Miyazaki, Kyushu, iniciaram uma prática regular da esgrima japonesa... “foi neste mesmo lugar, neste mesmo dojo, corria então o ano de 1986, que Karan Tetsuo...”

zap... primeiro canal privado... representantes das claques apoiantes das diferentes associações nacionais de kendo, discutem as ídiossincrasias dos kendokas do sul comparativamente com as do centro e norte do país... entra bloco comercial... “Agora em DVD, toda a emoção do último campeonato nacional de kendo. Duas horas com os melhores ippons, os momentos mais dramáticos e mais decisivos da temporada....e a alegria dos vencedores apurados para a selecção do Euro 2007. Tudo num fantástico DVD, por apenas...“

zap... segundo canal privado... uma entrevista, em repetição, de Masakiyo Osaka sensei: “Quais foram as suas primeiras impressões quando chegou a Portugal em 1989, e como via a prática do kendo nesses tempos, comparada com o sucesso que o mesmo tem hoje?”... já vi isto antes... ele era godan na altura, depois mostram-no, já rokudan, a receber uma medalha comemorativa dos seus quinze anos de prática em Portugal...

zap... Canal de História: numas imagens de arquivo referentes ao Campeonato da Europa De Kendo de Bern, 2005, o presidente da Associação Portuguesa de Kendo (APK), Dr. Nuno Serrano, recebe o estandarte da EKF, como prova de compromisso da APK para a realização, em Lisboa, dos 21ºs campeo...

zap... SportTv... você vai poder assistir em directo e na integra, só aqui na SportTv, ao acontecimento desportivo de 2007. Contacte já a CableTv e assine este Pay-Per-View Especial Kendo 2007...

zap... canal de vendas...
- ... mas não é só, Jim - que dobragem horrível - ao adquirir este fantástico bogu, made in Taiwan, sabes o que é que podes ganhar?” – mas Jim não sabe, Jim não faz a mínima ideia. - pois então, seis bio-shinais, seis...
- Seis Jack? Seis bio-shinais?
- Sim Jim, mas há mais:
- Que é que queres dizer com isso, Jack?
- Olha para ali. – Jim está espantado, custa-lhe a acreditar, mas Jack não pára - vês esta caixa de DVD’s? – Jim acena e agora até eu fico curioso - é o DVd triplo da autoria de Chiba sensei... - dou um salto, o comando cai ao chão e o aparelho de TV desliga-se repentinamente.

Agarro-o rapidamente e parto em busca do DVD triplo de Chiba sensei.
Ligo de novo no canal onde estava sintonizado, mas tudo o que se me depara é um debate sobre a presumivel (e ilícita?) apropriação e utilização por parte da comunidade gay da imagem de um conhecido jogador de futebol português ao serviço do Manchester United.
“Zapo” com toda a minha energia, mas em vão. O Canal de História fala agora das rivalidades entre o Real Madrid e o Barcelona, nos canais portugueses, em todos eles, discute-se o resumo e os golos da jornada do fim-de-semana...

A minha desilusão só tem comparação com a tristeza que sinto. Apercebo-me que tudo não passou de um sonho e volto com esforço para o computador.

A folha ainda lá está, na mesma.

O meu problema mantém-se: como explicar a toda uma comunidade internacional a importãncia que um evento como um campeonato da europa tem para os praticantes de um país como Portugal? Um país com uma comunidade japonesa residente que rondará, talvez, as trezentas pessoas e onde o kendo é praticado há pouco mais de vinte anos?
Começo a duvidar se tal explicação será possível ou se fará sequer sentido, mas há apenas uma coisa de que eu tenho a certeza. E isso é que a APK e todos os seus associados e voluntários vão fazer tudo o que estiver ao seu alcance para que este campeonato seja inesquecível para todos os participantes.

As estações de TV não vão entrar em guerra pelos direitos de cobertura do campeonato? Provavelmente não. Os jornais desportivos, caso haja falta de escãndalos relacionados com a arbitragem de futebol, talvez dispensem um pequeno espaço para um notícia minúscula? Provavelmente sim.


Mas isso é o que menos importa, com maior ou menor cobertura mediática, melhores ou piores resultados desportivos, o 21º Campeonato da Europa da Kendo em Lisboa será um sucesso.
“Como pode ele afirmar semelhante coisa?” – perguntarão talvez os leitores mais incrédulos?
A verdade é que, para nós, kendokas de Portugal, só o facto de a European Kendo Federation ter confiado a uma pequena e recente associação nacional como a portuguesa, a tarefa de organizar os campeonatos, só isso já é uma vitória.
Se acrescentarmos a possibilidade aprender que tal evento representa, bem como a quantidade de informação e de experiências que serão trocadas ao longo dos 3 dias de provas e exames, então não tenho menor dúvida: Portugal (já) ganhou o Campeonato da Europa 2007.

Já ganhámos, digo-vos eu.

E isso é um sonho que, ainda os campeonatos não se realizaram e, esse sim, já é uma realidade.

2.5.07

PARABÉNS OSAKA SENSEI (KENDO NANADAN)

Muitos parabéns para o sensei Masakiyo Osaka pelo bem sucedido shinsa de domingo passado, no qual obteve o seu nanadan.
(Como, aliás, já era de esperar.)
Agora é só mais sete anitos e já poderá candidatar-se ao exame cuja taxa de sucesso é uma das mais baixas do mundo... o de oitavo dan de kendo.

Gambatte Osaka san.

19.3.07

A VINGANÇA DO CHINÊS (ou o torneio do Porto 2007)

"El Chino" is back... beware of "El Chino".


Ah ganda Alex!

14.2.07

A PALAVRA DO SENHOR (OSAKA) 42

Quarta-feira, 14 de Fevereiro 2007.

Belo treino.
Grande treino.
Grande ji-geiko.
Fiz jodan-kamae contra o senhor Osaka durante uns bons cinco minutos. Não lhe acertei uma (ou acertei uma?) mas que é que isso interessa? Curti p'ra caraças. (PS.: Obrigado Rui, por me cederes o teu lugar. Fico a dever-te uma.)

No fim, Osaka san referiu-se apenas ao facto de hoje ter sido o último treino antes do estágio com os senseis Itto e Ariga. Acho que ele está contente com a condição técnica em que o pessoal se encontra.

Foi um último keiko excelente.

Obrigado a todos.

Vemo-nos num dojo por aí.

13.2.07

KATA: SIM OU SIM E PORQUÊ? (4 E ÚLTIMO)

Para assistir aos dez katas actuais (7 tachi + 3 kodachi) clique no link
http://www.youtube.com/watch?v=XWzdIpayeFk

Nakanishi Chuta Tanesada não é um nome imediatamente reconhecido no mundo das artes marciais. De tal modo, que até hoje há quem discuta se estudou kenjutsu instruído por Ono Jiroemon Tadakata, o quinto representante da tradição do Ono-ha Itto-ryu, ou pelo sexto, Ono Jiroemon Tadakazu.

No entanto, o que se sabe é que depois de alguns desacordos com os seus superiores, Nakanishi Chuta abandonou o estilo Ono-ha Itto-ryu e fundou a sua própria escola de kenjutsu denominada Nakanishi-ha Itto-ryu*.

Quando, por volta de 1750, Nakanishi teve a idéia (mais tarde implementada pelo seu filho e sucessor Nakanishi Chuzo Tadakata) de desenvolver e melhorar as protecções existentes utilizadas dos praticantes de kenjutsu**, estava, de certa maneira e pela primeira vez, a separar as águas daquilo a que hoje comumente nos referimos como kendo e kenjutsu, ou se se quiser ser um bocadinho mais radical, entre shinai-kendo e kendo-kata.

Claro que muitos anos e muitos acontecimentos tiveram de ter lugar antes que o kendo se transformasse naquilo que é hoje, e é também claro que Nakanishi Chuta não terá nunca (injustamente?) a fama de um Miyamoto Musashi, mas o seu papel de pioneiro na concepção e melhoramento do equipamento protector foi, é e deverá ser sempre entendido um dos maiores e mais importantes contributos para o desenvolvimento não só do kendo, mas do próprio budo.

Basicamente, o que Nakanishi Chuta fez foi separar e identificar os diferentes elementos que, digamos assim, constituem, por um lado, o “vocabulário” e, por outro, a “gramática” da linguagem do kendo.
Desde essa altura, o kenjutsu, propriamente dito, e tudo o que ele envolve, kumitachi, kata, reiho, etc, passa a ser o vocabulário, a fonte, a origem das diferentes técnicas.
A parte de combate, e na falta de melhor palavra, chamemos-lhe kendo, passa a ser a gramática, que é como quem diz, a utilização dos vocábulos no diálogo (combate) com o opositor.

Chegamos assim ao fim da nossa viagem. Para que serve kata?
Continuando a abusar um bocadinho da metáfora da linguagem, e esperando que não da vossa paciência, kata serve para se poder falar melhor.
Kata serve para se saber a origem das palavras que trocamos todos os dias.

Kata ensina a ver (enzan no metsuke), ensina ritmo e ma-ai; ensina a respirar, a posicionar-se e a deslocar-se.
Kata ensina a tomar iniciativa e a esperar.
Kata ensina a liderar e a seguir.
Kata ensina tudo isso e muito, muuuuito mais.

Em resumo, kata ensina os fundamentos da boa linguagem do kendo.
E essa, é preciso não esquecer, é como qualquer outra linguagem:

O QUE INTERESSA NÃO É FALAR DEPRESSA, O QUE INTERESSA É FALAR BEM.

Abayo.


*“Ha” significa facção ou variante. Assim, Nakanishi-ha Itto-ryu significará algo como “a variante Itto-ryu de Nakanishi”.
**Acerca deste assunto, ver a versão corrigida do artigo “A escola da paciência” algures neste blog.

A PALAVRA DO SENHOR (OSAKA) 41

Segunda-feira, 12 de Fevereiro 2007.

Hoje as palavras do senhor Osaka centraram-se apenas sobre a postura a ter quando se executa sho-men uchi.

Muito brevente, recomendou apenas que se mantenha o corpo direito durante toda a execução do movimento.

Estava muito económico com as suas declarações, hoje o sensei.

O treino? O treino não foi tão "barra pesada" como nos últimos dias mas foi bastante vigoroso, a moda do kakarigeiko continua, com kakarite a decidir a duração de cada ronda, muito kirikaeshi, depois men, kote-men... depois ji-geiko... enfim, foi bom.

Kirikaeshi para acabar... foi bom.

Até quarta...

8.2.07

KATA: SIM OU SIM E PORQUÊ? (3)

(À laia de introdução)
No kendo, o combate não deverá estar apenas centrado sobre o facto de tocar ou ser tocado, mas deverá debruçar-se sobre a busca de uma plenitude de si-mesmo no acto do combate; e quem não perceber isto, só muito dificilmente poderá perceber o porquê de praticá-lo*.

Já sabemos que o kendo não é uma repetição directa da prática da arte do sabre dos samurai.
Os samurai que se preparavam para combater na época feudal, previam e preparavam o combate de uma maneira que ultrapassava largamente a prática no dojo.
Mas convém lembrar que, por outro lado, nos séculos XVIII e XIX a arte do sabre, o kenjutsu, desenvolveu-se e aprofundou-se, sobretudo, através da prática nos dojos. Os praticantes, que procuravam a profundidade e a eficácia da arte, limitaram, no entanto, o número de técnicas em relação às que tinham sido usadas na época das guerras feudais.


Ao mesmo tempo, várias codificações técnicas e regras de combate foram implementadas TENDO EM VISTA FACILITAR A BUSCA dessa mesma profundidade e constituiram a estrutura de uma arte do sabre que era então denominada kenjutsu ou gekiken.
Kenjutsu que, dentro desse quadro estrutural, atingiu um nível notável no fim da época Edo.

O significado da prática do sabre mudou progressivamente nos finais do século XIX, virando-se ainda mais no sentido da sua interiorização e dando assim origem ao kendo. As técnicas foram (ainda mais) limitadas e é nesse novo enquadramento que os adeptos do kendo procuram a profundidade do combate.
E é essa mudança qualitativa que marca a nascença do budo.
(Fim da tal espécie de introdução).


Já me perguntei várias vezes neste blog e volto agora a perguntar:
Para que serve então a prática do kendo?

O leitor mais atento simplesmente recorrerá ao primeiro parágrafo da introdução acima e responderá: “Para buscar a plenitude de si-mesmo durante o acto de combate.”
Mas, sob a capa essa resposta aparentemente tão simples, há muito mais que se lhe diga. Se não vejamos, então porque não praticar simplesmente uma outra arte marcial ou um desporto de contacto?
É inegável que, se a dita plenitude de si mesmo “se esconde” debaixo do acto de combate, então o lugar e o momento onde essa plenitude pode ser descoberta, surgirá tão fácil ou dificilmente no kendo como numa outra actividade marcial (leia-se budo) qualquer.

Ou não?

E assim, entramos agora naquela fase em que eu digo aquilo que acredito em relação ao tema.

Eu acredito que a resposta à pergunta é não.
Acredito que, nos dias que vivemos, o kendo continua a ser o mais próximo que se consegue chegar dessa tão desejada plenitude do combate, no budo, e que o mesmo possui, desde a sua criação, todos os instrumentos necessários e indispensáveis para o efeito, coisa que nenhuma outra arte marcial moderna (exceptuando talvez a naginata) se pode gabar.

Dirão:
Mas o shinai não é uma katana. Com certeza que não.
As técnicas são limitadas em número e em utilização. Podemos dizer que sim, embora haja peritos que possam discordar de tal frase.
O kendo “transformou-se demasiado” em desporto. Parece-me que nenhuma afirmação demonstra mais a ignorãncia e o desconhecimento total da realidade que essa.

Meus amigos deixemo-nos de histórias. A verdade é que, mais que não seja, o kendo é a única arte marcial japonesa, das que se debruçam sobre o uso da espada, que possui no seu curriculum a prática de combate livre. Vão buscar os kenjutsu’s que quiserem nenhum deles pratica o combate livre.
Mesmo casos extremos e muito “avançados” como, por exemplo, o Ono-ha Itto-ryu, famoso sobretudo por ser o estilo tradicional de kenjutsu da Polícia de Tóquio, não pratica ji-geiko.

E é a prática do ji-geiko, RECORRENDO AO USO DE EQUIPAMENTO APROPRIADO DE PROTECÇÃO, que faz toda a diferença.

Mas temos de concordar que a plenitude do combate com shinai apesar de poder ser alcançada pela via do ji-geiko, não corresponde exactamente, em termos técnicos, ao uso de uma katana.

Depois de isso só há duas coisas a dizer:
1ª - Bokuto ni yoru kendo kihon waza keiko ho;
2ª - Nihon kendo-no-kata;


Depois deste elogio rasgado à arte marcial que pratico e que adoro, concluo no próximo post. Prometo.



*Na verdade, estou plenamente convencido que este é o busílis da questão; o que explica a pequena quantidade percentual de praticantes que continuam a prática do kendo, uma vez passada a fase de deslumbramento inicial.

7.2.07

A PALAVRA DO SENHOR (OSAKA) 40

Quarta-feira, 7 de Fevereiro 2007.

Que lhes posso eu dizer que ainda não lhes tenha dito???
Ou, melhor ainda, que nos pode ele dizer que não nos tenha dito ainda?

O treino de hoje, desculpem a expressão, foi do caraças.

Vejam só, back to basics:
Tai-so... shomen-suburi... sayumen-suburi... seiza... kirikaeshi (bué)... kakari-geiko (buéreré)... kirikaeshi (50 sem parar). Seiza... e já está.

Nas suas palavras finais Osaka sensei encorajou as hostes a fazer sempre "kirikaeshi bonito". Só assim, diz ele, o nível do nosso kendo pode subir.
Especialmente na última série do dia (mesmo que seja uma série de 50 como hoje), o último shomen deverá ser sempre forte e bem marcado... como se fosse ippon.

Mais fácil de dizer do que de fazer.

Tou feito em papa... e ralada.

Até segunda, pois que sexta-feira há reunião da Assembleia Geral e não há treino.

5.2.07

A PALAVRA DO SENHOR (OSAKA) 39

Segunda-feira, 5 de Fevereiro 2007.

Enfim, :-) mais um dia "rico" em kirikaeshi. :-D
Parece que o sensei Osaka está decidido a só parar de fazer kirikaeshi quando formos todos minimamente eficientes na execução do mesmo.
Desta vez, depois de (mais) uma sessão espectacular de kirikaeshi-geiko, as suas palavras finais foram breves e extremamente precisas. Com três palavrinhas apenas se pronuncia a expressão "te-no-uchi".

E foi só isso que ele disse: no kirikaeshi, falta te-no-uchi.

Nota mental para o próximo dia: Lembrar de fazer kirikaeshi com mais e melhor te-no-uchi.

É assim. Falta sempre alguma coisa. Nunca se sabe tudo.

Quer dizer que isto dá pr'á vida toda?... hein?... É?...

2.2.07

A PALAVRA DO SENHOR (OSAKA) 38

Sexta-feira, 2 de Fevereiro 2007.

O "curso intensivo" de kirikaeshi prossegue a bom ritmo.
E o dia de hoje não foi excepção. Kirikaeshi, kirikaeshi e mais kirikaeshi e... ji-geiko.

E teria sido um dia mais apenas, não fosse a presença do nosso ilustre sempai Nuno Ricardo que, arribando de terras do norte, nos deu o prazer de ilustrar ao vivo a arte de bem fazer kirikaeshi em qualquer dojo.

No fim, as palavras do sensei Osaka viraram-se, inevitavelmente, para kirikaeshi.
Disse-nos que temos de ter atenção com a posição das mãos no momento do impacto.
Ter cuidado em fazer bem o ãngulo sayu-men de um lado e de outro, usando sempre a mão esquerda como referência, ao meio.

Que o mesmo é dizer, cortar com ângulo igual de ambos os lados.

Por fim, deixou uma pequena nota acerca da movimentação dos pés. Deve ser sempre igual... o tamanho dos passos para a frente e para trás, certo?

E não disse mais.

Depois disso, já a caminho de Campo de Ourique disse-me mais qualquer coisa, disse-me que o pessoal que vai fazer o estágio com Itto sensei e Ariga sensei vai ter uma surpresa. E mais não digo, pois se calhar já toda a gente sabia menos eu.

1.2.07

KATA: SIM OU SIM E PORQUÊ? (2)

Para poder escrever este pequeno resumo da história de kendo-no-kata socorri-me do excelente artigo “A Brief Synopsis of The History Of Modern Kendo” da autoria do Dr. Alex Bennett que, desde já, recomendo vivamente.

No princípio do século XX, numa tentativa de unificar (e popularizar e manter sob controle durante a sua disseminação) as variadissimas tradições e escolas de kenjutsu, o Dai Nippon Butokukai, à época a instituição estatal que geria os destinos das artes marciais japonesas, decidiu desenvolver uma série de kata que podessem ser praticados por todos, independentemente dos seus antecedentes marciais.

Em 1906, o primeiro comité encarregado da tarefa, dirigido por Watanabe Noboru, apresentou o resultado dos seus esforços sob a forma de 3 kata: Jodan (ten=céu), Chudan (chi=terra) e Gedan (jin=humano).

No entanto, devido à grande oposição surgida face a esta série de kata, a mesma acabou por ser posta de lado sem nunca chegar a ter a circulação e a disseminação nacional para que fora desenvolvida.

O problema agravou-se quando, em 1911, o governo decidiu que o kenjutsu deveria ser incluído como parte integrante no currículo de educação física das escolas japonesas.

Mais uma vez, o Butokukai ficou encarregado de criar e desenvolver uma série de kata que tornasse possível uma disseminação efectiva e unificada.
Neste segundo comité, os 5 mestres de kenjutsu, conhecedores de vários ryuha e responsáveis pelo trabalho, foram Negishi Shingoro, Tsuji Shimpei, Monna Tadashi, Naito Takaharu e Takano Sasaburo.

Em 1912 apresentaram os Dai Nippon Teikoku Kendo Kata (Kendo Kata do Grande Japão Imperial) que consistiam em 7 kata de tachi contra tachi e 3 kata de tachi contra kodachi.
Inúmeras mudanças e emendas da versão original foram feitas ao longo dos anos que se seguiram mas, na sua essência, esses 10 kata ainda hoje constituem o que os adeptos modernos praticam e a que chamam Nihon Kendo Kata ou kendo-no-kata.

No próximo post, depois desta pequena introdução histórica, vamos finalmente “apresentar o caso” e tentar demonstrar, tanto quanto possível, porque é que kendo kata é, senão essencial, pelo menos deveras importante para qualquer kendoka que se preze dessa denominação.

A PALAVRA DO SENHOR (OSAKA) 37

Quarta-feira, 31 de Janeiro 2007.

Depois de um treino muito vocacionado, uma vez mais, para kirikaeshi, as palavras do senhor Osaka, no fim do dito, focaram-se sobre... bem, kirikaeshi.
E parece (parece???) que cada dia há coisas novas e importantes acerca deste exercício aparentemente tão simples que nós, para variar, não topamos.

Se todo este trabalho de repetição de kirikaeshi, se trata de mostrar ao pessoal que kirikaeshi é mais do que aparenta, então tenho a certeza que, pelo menos comigo, a coisa está a resultar.

Ontem o sensei Osaka dizia uma coisa que, confesso, já me tinha passado pela cabeça e acerca da qual às vezes "me passo". Trata-se daquela mania que muita gente tem, e que se vê noutros exercícios além de kirikaeshi, a mania de, dizia eu, começar a fazer o exercício "na diagonal", ou em zig-zag.

Kirikaeshi não é ji-geiko, caso alguém ainda não tenha notado. E aquele "jeitinho" que alguns têm de sair na diagonal (com "muito espírito") depois de cada série de avanços e recuos é simplesmente errado dizia ontem Osaka san.
Kirikaeshi faz-se sobre uma linha recta imaginária traçada no chão.

Há um motivo pelo qual este kirikaeshi é como é. E, segundo o que sensei Osaka dizia ontem, tem também a ver com a colocação da mão esquerda... há tanto tempo que não se falava nisto.... ao centro, pois claro.

Para os amantes das linhas diagonais, no entanto, há esperança.
Existe pelo menos um tipo de kirikaeshi no qual o motodachi recua, em zigzag, num padrão pré-determinado.

Mas é o motodachi que origina o zigzag... e não o kakarite.

E, pronto, já está.

31.1.07

KATA: SIM OU SIM E PORQUÊ? (1)

Kodachi-no-Kata Nihon-me
Ontem estava a ler um blog de um kendoka nortenho, http://kenshin.blogs.sapo.pt/, e deparei-me com uma frase que achei muito curiosa:

“Hoje vou falar sobre kata, ontem foi dia de kata, como é costume de 15 em 15 dias às segundas-feiras, o que eu acho que é pouco, mas para muita gente chega e sobra uma vez que, quando é aula de kata, nem aparece no dojo porque não vale a pena ir perder tempo, pelos vistos...”

A verdade é que kata, seja lá qual for a arte marcial de que se fale, é um exercício muitas vezes entendido com um filho pobre... ou, pior ainda, como... um enteado.

A quem é que interessa praticar kata? A ninguém, diria. E não se pense que isso acontece apenas em Portugal. Lembro-me de, durante o estágio de shinsa em Glasgow, assistir a candidatos a sandan executando kata de uma maneira tão pobrezinha, com uma qualidade tão miserável, tão execrável*, que dava para perceber de um modo evidente que, onde quer que seja que pratiquem, kata não é, definitivamente, uma coisa que exercitam com frequência.
E estou a falar de kendokas oriundos de países como Taiwan ou Malásia, onde a percentagem de hachidan residentes é, de longe, superior a qualquer país da Europa.

Então, what’s the point? O que se passa? O que se passa é que, para toda essa grande maioria de gente, kata é apenas um obstáculo a contornar durante os exames.
Treina-se kata para fazer exame. Quinze dias, uma semana (?), antes do exame pede-se ao “cromo de serviço” do dojo, normalmente um colega um bocadinho mais antigo que, ninguém sabe muito bem porquê, tem aquela “pancada” pelos kata, que dê uma ajudinha de modo a contornar o obstáculo. Tem de ser.
Kata é inevitável, mas para todos os efeitos, chato.

E, no entanto... no entanto, kata tem muito que se lhe diga.


No próximo post não perca
:
O essencial da história de kendo-no-kata, contada aos jovens e lembrada aos velhos.
Só faltava agora a “Teresinha” a dizer: “Há coisas fantásticas não há?”


*E El Presidente, que estava comigo, não me deixa mentir. Perguntem-lhe, perguntem-lhe.

30.1.07

KAKARITE 10 - MOTODACHI 8

Apesar do que título possa sugerir, não vou falar dos resultados dos jogos da Liga de Andebol do Japão.

Não, este post é acerca de kirikaeshi.

Tradicionalmente, dizia-se que só após três anos de treino intensivo de kirikaeshi é que o kendoka começava a ter uma visão básica dos fundamentos do kendo.

Estamos um pouco longe desses princípios, quer espacial quer temporalmente, no entanto, kirikaeshi continua, ainda e sempre, a ser um dos métodos mais eficazes de “julgar” as qualidades de um praticante. Apesar de, e curiosamente, não ser exigida a sua execução durante os exames de graduação.

E como é que kirikaeshi nos pode ajudar? Para responder a esta pergunta simples recorro mais uma vez à tradição. Supostamente, e sem motivo nenhum que me leve a crer em contrário, kirikaeshi desenvolve 10 efeitos benéficos sobre o seu executante.
A saber, estas são as vantagens de ser kakarite (kirikaeshi-no-toku):

1 – Melhora a postura;
2 – Melhora a respiração e resistência;
3 – O (gesto de) corte torna-se mais forte e confiável;
4 – Os ombros ganham flexibilidade;
5 – Desenvolve o te-no-uchi;
6 – Facilita os movimentos dos braços;
7 – O tronco torna-se mais firme e sólido;
8 – Melhora ashi-sabaki;
9 – Clarifica ma-ai;
10 – Promove o uso correcto de ha-suji;

Por outro lado, literalmente, do lado de motodachi, os efeitos de kirikaeshi também se fazem sentir.
Ao receber o encadeamento, e sempre segundo a tradição, motodachi recebe 8 lições importantes (kirikaeshi-uke-no-toku):

1 - Melhora a postura;
2 - Desenvolve a agilidade do corpo;
3 - Desenvolve a visão (do alvo);
4 - Toma consciência da habilidade do adversário;
5 - Desenvolve a consciência de ma-ai;
6 - Melhora e fortifica te-no-uchi;
7 - Melhora a habilidade de bloquear;
8 - Acalma o espírito;

Claro que estes são apenas pressupostos teóricos.
O que é importante para o praticante é a atitude e a correcção técnica que deve ter quando executa kirikaeshi.

Basicamente, tomar atenção à respiração, ao ritmo e à distãncia. Nunca é demais recordar que o essencial é:
Preocupar-se sempre com “fazer bem” em vez de “fazer rápido”. Como aliás de pode ver neste exemplo, a cargo do bi-campeão nacional:


http://www.youtube.com/watch?v=6QDLIYq200c

Outra coisa que acontece com kirikaeshi é que se pode variar as técnicas uitlizadas.
Fazer do-kirikaeshi, por exemplo, ou, misturando tudo, fazer uma ida (e volta) em men-kirikaeshi e a ida seguinte em do-kirikaeshi... ou então experimentar esta variação interessante que encontrei num site japonês chamado Ichinikai:


最初に面を打ってから体当たりして前進の左右面を4回
Ataque sho-men seguido de tai-atari, avançar fazendo 4 sayu-men


前進の左右胴を4回、後進の左右面を4回
e depois 4 sayu-do; recuar fazendo 4 sayu-men


後進の左右胴を5回やってから面を打って抜けて
seguidos de 5 sayu-do. Acabar com sho-men “a passar".


Seja como for, nunca esquecer, o mais importante acerca de kirikaeshi não é nenhuma destas coisas todas que para aqui estive a falar.

O mais importante de kirikaeshi é fazê-lo.

29.1.07

A PALAVRA DO SENHOR (OSAKA) 36*

Como já tem sido costume, uma grande parte do treino foi dedicada a Kirikaeshi, e sendo assim, no final o sensei falou-nos da importância do Kiai durante Kirikaeshi.

Sensei Osaka referiu que o kirikaeshi deve ser contínuo e que todo o exercício deve ser efectuado com duas respirações, uma no final de cada men (os dois 1ºs de cada sequência de ataques) e não aproveitar para respirar e descansar antes de efectuar o Men (o 3º), chegando mesmo a fazer uma analogia com um arco a ser disparado, em que a tensão do fio vai aumentando até atingir o auge antes do disparo.

O mesmo deve passar-se com o Men. O kiai deve estar sempre presente e não deve esmorecer, culminando com um Men que, como já referiu milhentas vezes, deve ser um ippon.

:)
Abraço e até quarta.

*mais uma vez fruto da amabilidade e autoria do nosso amigo (v)EIGA. Obrigado Tiago.

28.1.07

UMA GRANDE ERRATA AO POST ANTERIOR

O mais novo elemento da equipa nacional (à direita) contra o mais antigo.
Foto de Charlotte Vandersleyen.

EL PRESIDENTE - Adivinha lá quem passou?

Depois daquele tempo todo a arbitrar, eu sabia lá... mas no entanto, e apenas pelo que me lembrava dos combates, disse-lhe:

EU - O Sérgio, o Joni, o Sousa e... (arrisquei)... o Henrique.
EL PRESIDENTE - Todos certos, menos o Henrique.
EU – (lembrando-me do belo kaeshi-do do Pedro Marques): Então, o Pedro.
EL PRESIDENTE – Corrrecto, o Pedro.

O que El Presidente não viu foi que eu estava a apontar para o Pedro (Marques, lá está).

Pois, pois, pois, enfim, já todos perceberam que meti os pés pelas mãos no assunto dos Pedros. Mas, como diria o grande Bart Simpson “Não fui eu, a culpa não foi minha, e se fui eu, ninguém viu e não podem provar nada”. :-).

Ó Pedrinho, desculpa lá a confusão mas, já viste bem?
Vais ao Europeu, pá.

Parabéns, puto.

27.1.07

HABEMOS SELECTIO

Acabou a época de torneios nacionais. Pode começar o Europeu.

Com a realização do "Torneio dos 10", que reuniu os classificados entre a posição 3 e 12 do ranking nacional, terminou oficialmente a época de kendo referente ao ano de 2006.

Sérgio Andrade, Luis (o) Sousa e Joni Duarte, todos de Lisboa, e ainda (um brilhante*) Pedro Marques, de Coimbra, são os quatro restantes elementos apurados para a selecção que representará Portugal no Europeu que se realiza em Abril no nosso País.

Juntam-se assim aos dois atletas já anteriormente qualificados (pela sua posição cimeira no ranking nacional), Nuno Ricardo (Porto) e Paulo Martins (Lisboa).

Aos apurados, o autor este modesto blog gostaria de apresentar os seus sinceros parabéns pelo lugar (duramente) obtido na selecção nacional, com uma menção especial para os dois estreantes: Joni Duarte e Pedro Marques.

Aos outros seis, os que não conseguiram um lugar, gostaria apenas de lhes dizer que como diz o povo "Há mais marés que marinheiros". É preciso é ter calma, treinar mais e não esquecer que a época de 2007 está mesmo a começar.

Domo arigato gozaimashité.

*Pedro, grande kaeshi-do aquele que valeu o ippon.
O Eiga Naoki deve ter tido um arrepio na espinha, lá em Hokkaido ou onde quer que esteja.

25.1.07

A PALAVRA DO SENHOR (OSAKA) 35*

Quarta-feira, 24 Janeiro 2007

Já agora, uma vez que o caro Usagi san não compareceu ao treino de hoje (quarta-feira), deixo aqui o que foi referido.

O sensei hoje foi muito breve nas suas palavras, salientando apenas a importância de fazer Kirikaeshi "grande".

Pode ser rápido mas deve ser sempre "grande", não caindo na tentação de fazer Kirikoptero. :P
um abraço Tiago v(Eiga) aka kodomo :P

10:08 PM

*amavelmente enviada pelo nosso (v)EIGA.

23.1.07

A PALAVRA DO SENHOR (OSAKA) 34

Segunda-feira, 22 de Janeiro 2007.

Hoje (ontem), o senhor Osaka falou sobre alguma coisa que hoje (hoje) já me esqueci...

Pede-se a alguém que tenha estado presente no treino que me reavive a memória... ou então que escreva o post inteiro no espaço dos comentários.

Tou farto de dar voltas à carola e não me consigo lembrar. Varreu-se-me.

Não há dúvida, trabalhar FAZ MAL.

21.1.07

UMA CURIOSIDADE INTERESSANTE

Risuke Otake
Não faz parte da lista de interesses deste blog a divulgação de outras artes marciais para além do kendo, no entanto, como já se falou aqui de outras coisas que directa ou indirectamente influenciaram (e influenciam ainda hoje) a sua teoria e práticas, aqui fica um link interessante dedicado ao katori shinto ryu, supostamente gravado em 1969 e com a participação do Shihan-ke Risuke Otake.

Inclui katas com bokuto, kodachi, bokuto e kodachi (Maneeeeeel), naginata, etc.

http://video.google.com/videoplay?docid=-3592341485993959661&q=otake&hl=en

É muito bonito... e o filme tem aquele ar datado, tipo kodachrome gasto pelos anos.

É muito lindo, a sério.

20.1.07

A PALAVRA DO SENHOR (OSAKA) 33

Sexta-feira, 19 de Janeiro 2007.

O treino de hoje (ontem) decorreu mais ou menos na mesma lógica e ordem com que têm decorrido os últimos treinos. Kirikaeshi, kakari-geiko, ji-geiko e já está. Podes ir p'ra casa feito em papa.
Mas isso acho que, e por motivos particulares que não vêm agora aqui à baila, foi apenas o meu caso.
O resto pessoal aparentemente já se habituou e ninguém estava de bofes de fora como eu. Siga.

As palavras finais do senhor Osaka incidiram mais uma vez sobre o papel do motodachi durante kakari-geiko e mais uma vez realçou a importância do mesmo (ver nº 28).

Apesar de estar a escrever isto depois de 12 horas a dormir, ainda não estou muito bom. Vou acabar.

Enfim, malta do "Torneio dos 10" está tudo em ordem? Falta uma semana para ver quem vai à selecção... e ao europeu.

Com'é qu'é???

18.1.07

A PALAVRA DO SENHOR (OSAKA) 32

Quarta-feira, 17 de Janeiro 2007.

Basicamente hoje foi dia de paulada. Apesar de uns "rounds" de kirikaeshi e de kakari-geiko, à laia de aquecimento, hoje deve ter sido o dia deste ano em que mais ji-geiko fizemos. E soube bem.

No fim do treino, o senhor Osaka apenas nos disse que o nosso último kirikaeshi (depois do ji-geiko) estava muito fraco e, recorrendo à mímica, imitou algo muito parecido com um kendoka com os bofes de fora, à medida que faz kirikaeshi.

Depois, Osaka sensei esclareceu-nos, pela 13.874ª vez, que o último kirikaeshi do dia, sobretudo esse, deve ser sempre feito com o máximo de fé.

Grande e rápido. Sempre maior e sempre mais rápido.

And we all called it a day.

Sayonaraaa.

16.1.07

OLHA, UM PEQUENO POST SOBRE ARBITRAGEM


Ó pra eles com a bandeirola da minha cor levantada.
Devo ter feito alguma coisa bem feita.

Dizia-me alguém em Kitamoto, no dia anterior ao meu shinsa, que os juízes apenas procuram as “coisas bem feitas” nas acções do examinado, em número suficiente, para o passarem no exame.

Não deixa de ser curioso, pensei. Habituados como estamos a criticar e a sobre-valorizar o que está mal e a não reparar, ou pelo menos colocar sempre em segundo plano, o que é bem feito, eis uma maneira interessante de encarar o mundo.

E o que tem isto a ver com o título que este post ostenta?

Ser árbitro de kendo é, a meu ver, um pouco assim. Só que, de certa maneira, mais fácil.
É que, enquanto os requisitos de exame necessários (ler: o número de “coisas bem feitas”) aumentam e se modificam à medida que se vai progredindo, ao árbitro de kendo só se lhe pede, essencialmente, que reconheça uma coisa, qualquer que seja o núivel dos competidores que arbitra e essa coisa é: ki-ken-tai.

Eu sei, eu sei, há toda uma série de termos e situações que é necessário aprender e dominar mas, em última análise, um bom árbitro é a aquele que reconhece e recompensa devidamente uma situação de ki-ken-tai.

Aliás, ki-ken-tai no itchi é inconfundível. A situação resultante de uma acção executada com o espírito adequado (ki), uma utilização técnica correcta do shinai (ken) e a colocação corporal perfeita (tai) durante a mesma, só pode significar uma coisa: ippon.

O problema dirão é como reconhecer, muitas vezes no meio de uma saraivada de golpes e contra-golpes, onde está a técnica boa? Aquela que vale e merece ser recompensada.

Shimojima sensei
durante as aulas de arbitragem (do curso de gaidjins de Kitamoto) dizia que uma das melhores maneiras de reconhecer um ippon é, para além dos olhos, claro, ter os ouvidos bem atentos.
O som de um ippon a ser marcado é, pelo menos, meio caminho para o reconhecer.

Ora, como sei que no passado fim-de-semana ouve um treino em Coimbra que incluiu, ao que me disseram, um pouco de arbitragem, vou recorrer aos meus apontamentos de Kitamoto e transcrever as dicas mais importantes que me ensinaram acerca da acção de avaliação, propriamente dita, de um ippon. Diziam eles que um árbitro deve:

Dica 1Nunca tirar os olhos dos competidores e, para tal, acompanhar sempre o combate numa posição que permita que tal aconteça a todo o instante;
Dica 2Tomar muita atenção aos ruídos e sons produzidos pelo combate;
Dica 3Não se precipitar nas decisões, pois nenhum árbitro é castigado por ter sido o último a levantar a bandeirola;
Dica 4Julgar a acção de uma forma completa, quer dizer, tomar atenção a zanshin depois dos ataques (e por isso, ver Dica 3);
Dica 5Manter o corpo descontraído e a mente alerta;
Dica 6Ter sempre uma opinião sobre o que se passou, para o caso de algum dos árbitros convocar gogi (reunião de decisão sobre um assunto do shiai).

Esperando que este post possa ser uma pequena ajuda para os nossos mais recentes aspirantes a árbitros, despeço-me com amizade até ao próximo.

A PALAVRA DO SENHOR (OSAKA) 31

Segunda–feira, 15 de Janeiro 2007.

Kirikaeshi, kakari-geiko, ji-geik... eh lá, onde é que eu já vi isto?
Estou a sentir uma ligeira sensação de dejá vu. Pois foi, mais um dia de festa na Patrício Prazeres. Mas hoje foi um bocadinho mais leve. Até o Sousa estava mais vivo e tão saltitante como o habitual.

No fim, Osaka sensei ressaltou, mais uma vez, algumas das responsabilidades de motodachi, referindo-se especialmente ao papel do mesmo durante kakari-geiko.

Então dizia ele hoje que quando se faz de motodachi com um principiante, (ou alguém que, apesar de ter bogu, ainda não domina o exercício completamente) é correcto “oferecer” o alvo ao colega. Sabem como é, abrir o centro para ele poder entrar em men, desviar o kote para kote-men, aquelas coisas do costume.

Mas, e nestas coisas há sempre mais um mas, mas se o kakarite já apresentar um conhecimento mais profundo de kakari-geiko, então não se deve facilitar o alvo. Se é para fazer men, então tem de tirar o shinai do adversário do caminho ele mesmo; usar harai (omote ou ura), ashi-sabaki, o que fôr preciso... se quiser fazer kote-men, faz harai-ura antes... em resumo, tem de se desenrascar e abrir caminho, criar suki, para poder executar o shikake-waza que escolheu.
Mas atenção, isto nunca deve ser entendido como um incentivo para prejudicar, ou dificultar em demasia, o trabalho de kakarite. Não é esse o objectivo de kakari-geiko.

Por via das dúvidas, fui perguntar-lhe qual seria então o “nível de resistência” que motodachi deveria opôr a essas acções, ao que me respondeu que praticamente nenhum. O que este trabalho visa essencialmente é criar o hábito de atacar sim, certeiro, pois claro, mas (à cautela) preparar o movimento.

E foi tudo.

Enquanto estava a escrever esta crónica e à medida que me lembrava das suas palavras uma canção surgiu no meu (débil, velho e senil) cérebro. Chamei-lhe o Hino dos Rapazes (e Raparigas, Porque Temos De Ser Politicamente Correctos Nos Tempos Que Correm) do Kakari-Geiko. A letra é assim:

Se um men, incomoda o adversário,
um harai-men incomoda muito mais...

E se um harai-men incomoda o adversário,
um harai-ura kote-men, incomoda muito mais...

Eeeee... se um harai-ura kote-men incomoda o adversário,
um harai-ura kote-men, tai-atari dô... katsugi men (a passar!) incomoda muito maaaAaaais.

Tcham tcham tcham.

Eheheh. O que vale é que o blog é meu, senão era despedido de certeza absoluta.

Abayoooo.

14.1.07

KI-O-TSUKE... MOKUSOOOO!!!

O mais provável é que quem assista a um treino de uma arte marcial se depare com um momento que considerará, no mínimo, intrigante.
São dados alguns instantes para que todos, uma vez em seiza, se “acomodem” e a voz que comanda o cerimonial pede atenção... ki-o-tsuke... e em seguida profere a palavra mágica: mokuso.
E tudo se cala, se imobiliza, o próprio tempo parece parar... é como se estivéssemos a entrar num outro mundo... um fanático de ficção científica (como eu), diria até, a entrar num universo paralelo.

Mas então, o que é, e para que serve, mokuso?

Os mais dados às coisas da meditação referirão, sem dúvida, o lado zen* das artes marciais, os mais místicos tenderão talvez para descobrir aspectos da componente zen do budo e os mais práticos evocarão provavelmente alguns resquícios inequívocos e inúteis do zen no... enfim... p’ra frente, com isto.

Quando o meu primeiro sensei me explicou o que era, e para que servia, mokuso achei a explicação perfeitamente simples e racional. Simples e racional demais, até. Também eu, nessa altura, aspirava a uma explicação mais esotérica, mais misteriosa... mais ... zen?... Isso! Sim, mais ZEN.
Mas não. Não me falou de zen nenhum. Que desilusão.

Com o passar dos anos muitas outras ilusões e mal-entendidos relacionados com o budo se dissolveram com a ajuda de leituras, contactos, práticas, etc. Curiosamente, no entanto, a sua explicação permaneceu na minha memória e hoje, para mim, encontra-se de tal forma fortalecida que não consigo pensar em mokuso de outra maneira.
Outras pessoas apresentaram-me (explicaram-me até) mokuso de outras maneiras mas, mais volta menos volta, a coisa acaba sempre por aparecer, por se transformar até, na maneira simples e original que o meu primeiro sensei (de karate) me explicou.

Fazer mokuso no começo da aula, dizia ele, é deixar para trás toda a “bagagem” que carregamos connosco. As chatices do trabalho, a escola, o trânsito, em resumo, a vida fora do dojo. Só depois disso podemos verdadeiramente apreciar a viagem que empreendemos: o keiko.

(Mokuso, às tantas, e vendo de uma perspectiva mais ocidentalizada, é um pouco como fazer o check-in das malas antes de uma viagem.)

O dojo transforma-se, assim, uma espécie de lugar fora do espaço e do tempo.
Um local em que se entra de uma forma ritualizada (anacrónica, diria até) e onde as regras de etiqueta, o comportamento e até o próprio vestuário e os assessórios, talvez muito para marcar esse mesmo isolamento, são, em si mesmo, muito diferentes dos utilizados fora do dojo. Próprios e exclusivos**.

Mas voltemos a mokuso.
Outra das coisas que faz confusão a muita gente é a duração do mesmo. Vinte, trinta segundos e já está. Não parece consistente. Então se meditamos antes da aula, como é que se justifica semelhante espaço de tempo tão curto? Que raio de meditação é essa, tão curta?
É que, apesar de assumir uma posição de meditação, e de se lhe chamar por vezes meditação, e de se parecer muito com meditação... mokuso... hum... não é bem meditação. Confuso? A escola de etiqueta e boas maneiras Ogasawara ryu-reiho, como sempre, explica. A diferença está na atitude.

Segundo dizia Ogasawara Kiyonobu***, no seu livro Nihon No Reiho, seiza deve ser uma postura calmante, mas não de descanso completo. Mokuso deve reflectir aquilo a que ele chama sei-chuu-do (movimento potencial na imobilidade) e não, como acontece na meditação zen, vulgarmente conhecida como zazen, sei-chuu-sei (imobilidade dentro da imobilidade).

O mokuso final deve ter o objectivo precisamente inverso do do início.
Depois, terminada a “viagem”, é hora de ir levantar as bagagens de novo. Só que, desta vez, a pessoa que vai levantar as ditas é suposto que seja uma pessoa melhor e mais bem preparada para enfrentar o mundo que “largou” umas horas antes.

Afinal de contas, o budo não é isso mesmo?



*Só por curiosidade, o lado zen das artes marciais é o lado da frente? Não. O de trás? Não, também não?... hum... agora a sério, acerca da relação entre budo e zen recomendo vivamente o artigo “Sword and zen”, acho que se chama assim, que pode ser encontrado no livro Budo Perspectives, The Direction of Japanese Budō in the 21st Century: Past, Present, Future. (KW publications).
**Quando alguém diz que as regras da etiqueta do dojo são coisas “de japoneses” e que vivemos na Europa, é caso para perguntar porque é que usa um keikogi para treinar em vez de um fato de treino tradicional.
***Dirigente máximo da escola de etiqueta e boas maneiras Ogasawara ryu-reiho, durante parte do Período Edo.

13.1.07

A PALAVRA DO SENHOR (OSAKA) 30

Sexta-feira, 12 de Janeiro.

O tratamento do dia foi muito semelhante ao de quarta-feira: Kirikaeshi+kakarigeiko+jigeiko. Talvez um bocadinho menos duro (ou talvez já comecemos a estar habituados?), mas, no entanto, duro o suficiente para deixar alguns valentes de bofes de fora (não é, ó Sousa?*).

No fim, o senhor Osaka apenas insistiu que kakari-geiko faz muita falta a quem deseja melhorar o seu kendo.

A princípio, nas primeiras vezes que se pratica, a velocidade não é um factor importante; até se pode fazer mais devagar, a velocidade de execução deve aumentar com a prática.

MAS DEVE SEMPRE SER CERTEIRO. Não serve de nada fazer rápido e mal.

E em seguida saudou-nos e a aula acabou.


Ah... e, já agora, parabéns ao meu irmão que faz anos hoje (isto cabe tudo num mesmo post).


*O Sousa anda-me sempre a chatear porque eu nunca combato em jodan-kamae contra ele, desta vez fiz-lhe a vontade... e o pobre rapaz mal me tocou. Arrastou-se o ji-geiko inteirinho ;-D. Até lhe meti vários kote a partir de jodan... eu, imagine-se.

12.1.07

CASO ENCERRADO


Às 14h e 45m, hora de Lisboa, a minha fisiatra declarou como "oficialmente curada" a tendinite que destruiu a minha vida de kendoka nos últimos quatro meses.

Para celebrar, hoje vou beber uma cerveja.

Oh, happy days... (todos)... oh, happy days.

10.1.07

A PALAVRA DO SENHOR (OSAKA) 29

Quarta-feira, 10 de Janeiro 2007.

Passámos mais de metade do treino de hoje a fazer kiri-kaeshi. O resto do tempo foi gasto, uns 30%, furiosamente, em kakari-geiko, os restantes 20%, ji-geiko. Acho que posso dizer, sem correr o risco de alguém me contradizer, que ficámos todos feitos em papa.

Se alguém esperava uma grande explicação metafísica para o treino ter sido tão desgastante, então deve ter ficado desiludido, pois no fim, o senhor Osaka apenas nos disse que kiri-kaeshi é muito importante, além do que, se queremos elevar o nível do nosso kendo, também temos de melhorar o nosso kakari-geiko (leia-se, fazer muito kakari-geiko).
Não há dúvida que é mesmo japonês, este.

À laia de conclusão gostava imenso de citar o capitão da equipa americana (que derrotou, pela primeira vez em 36 anos de campeonatos do mundo, a equipa japonesa) acerca da preparação que os elementos da mesma tiveram. Diz o senhor Cris Yang, rokudan, num post de um fórum de kendo:

"We had a trainer that created various cardio and strength training exercises for us.
However, I strongly believe that the best way to improve in kendo is through practicing kendo. This includes fundamentals (suburi, suriashi, etc.) as well as dedicating a large amount of time to basic kihon uchi and waza renshu.
In addition, in order to increase speed and endurance, kakari-geiko and oikomi are important (...)."

Okini pela vossa atenção e... abayo.

9.1.07

A PALAVRA DO SENHOR (OSAKA) 28

E assim, da mesma forma como tinha desaparecido, eis que renasce, qual fénix das suas próprias cinzas, a rubrica favorita de todos os leitores deste modest(íssim)o blog.
São esperadas grandes festividades um pouco por todo o "país kendoka".

Ontem, ao terminar o treino, o sensei Osaka dirigiu-nos umas, poucas, palavras acerca de tai-atari durante a execução de kakari-geiko, focando a sua atenção especialmente sobre o papel do motodachi.

Apesar de não o ter dito ontem, Osaka san já se referiu variadíssimas vezes à importância do papel de motodachi na execução de um bom kakari-geiko.
Kakari-geiko (tal como uchi-komi geiko ou, até, kiri-kaeshi ou qualquer outro keiko executado a pares) deve ser feito pelos dois participantes. Motodachi que "recebe" e kakarite que executa.
O papel de motodachi não é descansar enquanto o outro se esfalfa a correr de um lado para o outro como um doido. Motodachi tem obrigações. A saber, duas das mais importantes são:

1 - Estar na "distância correcta", e isso significa uma distãncia o mais aproximada possível de issoku-itto no ma, de cada vez que kakarite executa uma viragem;
2 - Ter (e este ponto foi o que o senhor Osaka ontem ressaltou) o espírito alerta e decidir antes (ANTES!!!) do ataque se "deixa passar" ou se faz tai-atari. É só isso: ANTES do ataque!

E, se decidir fazer tai-atari, concluia ontem o senhor japonês, aguentar sem recuar. Se se decidiu ficar na linha de fogo é preciso "arcar com as consequências".
Uma das piores coisas que pode acontecer a um kakarite é ir à procura do apoio necessário para hiki-waza e ficar a flutuar, porque o motodachi, no último momento, "se baldou" e recuou um passo. Quebra o ritmo, quebra a respiração (e quebra as perninhas), em resumo, pode destruir todo um esforço, e transformar o kakarigeiko, numa frustração total.

Qualquer pessoa um bocadinho mais atenta, ao observar um par a executar kakari-geiko, apercebe-se de imediato se o motodachi está "a domir" ou a fazer o seu papel.

Kakari-geiko já é difícil de fazer com um bom motodachi, com um mau, então, é um verdadeiro descalabro.

Pensem nisso. Até à próxima.

8.1.07

ARIGA SENSEI WEEK-END SEMINAR

Ariga sensei em Taiwan durante o 13º Campeonato do Mundo de Kendo.
Foto gamada em http://www.butokuden.com

Já no ano passado tinha "ameaçado" mas a meio do caminho o destino virou-lhe as voltas. Desta vez parece que é a sério e Tomoharu Ito sensei (8º Dan Kyoshi de Kendo e de Iaido) deslocar-se-à a Portugal para um estágio em Fevereiro deste ano.

Integrado na "comitiva" que inclui Taro Ariga sensei (6º Dan Renshi, Capitão da Selecção do Canadá) e Songyi Choi (5º Dan, Capitão da Selecção Feminina da Coreia), a presença do Shihan da Polícia de Tóquio promete intensificar, com toda a certeza, a 3ª edição do já habitual, e por si só intenso, "Ariga Sensei Week-End Seminar".

Presente estará também, como é óbvio, o "nosso" Director Técnico Nacional, o indispensável Masakiyo Osaka sensei, rokudan.

Para saber tudo o resto: local, horário, preço e programação do estágio basta dar um saltinho à página web da APK (www.kendo.pt).

7.1.07

O SENSEI 1


Shimojima sensei, um mestre "a sério", explicando kendo-no-kata.

Empolada, sobre-valorizada e, muitas vezes até, idolatrada, nenhuma figura das artes marciais japonesas é mais importante do que a do mestre.

Iluminados, rebeldes, obscuros, comerciantes, ascetas, sociáveis, anti-sociais, gentis, brutais, há-os, ao longo da história, de todos os géneros e feitíos.

Os textos que irão ler tentam demonstrar o que eu penso, neste momento da minha vida, acerca dessa mesma figura. Acerca de ”aqueles que chegaram antes” de mim. Algumas das histórias e opiniões que vos vou relatar podem não ser entendidas da melhor maneira por todos. Paciência, não vou pedir desculpa a ninguém por pensar como penso.

Kitamoto, Verão de 2005
A extremidade do meu shinai estala, com um ruído semelhante ao de um chicote, no kote direito do sensei. Foi tudo perfeito: seme perfeito, finta perfeita, entrada perfeita, timing perfeito, datotsu e kakegoe perfeitos... flack... e, em seguida, zanshin. Perfeito... kote-ari.

Mas, no entanto, há algo que não está perfeito. O sensei, um 8º dan cujo nome não vou revelar, parou e olha para mim com cara de poucos amigos. Ele chama-me mais para perto para me dizer algo e grita: kakari-geiko, hajimeeee!!!
Quando o kakari-geiko terminou, uma dúzia (ou mais) de passagens depois, chamou-me outra vez para próximo de si e, dessa vez, berrou-me: kiri-kaeshi... hajimeeee!!!

Lembro-me que era o primeiro ji-geiko do primeiro dia de estágio. Quando acabei o dito kiri-kaeshi (triplo, à moda de Kitamoto) mal me aguentava nas pernas e apresentava-se-me ainda pela frente uma hora e meia de keiko com alguns dos melhores kendokas do mundo.

E eu que me farto de apregoar que o kendo não é violento.

Tudo porque executei perfeitamente uma das técnicas que tinhamos estado a treinar minutos antes. A recompensa pelo meu esforço foi um castigo despropositado e desproporcionado.
Nenhum outro me voltou a punir por fazer coisas bem feitas... pelo contrário. A maior parte dos outros senseis quando se apercebiam que tinham sido enganados, que um “gaidjin de segunda” lhes tinha conseguido marcar uma técnica, sorriam e, por vezes até, chegavam a parar e a fazer uma vénia.

Até hoje não consegui encontrar uma explicação plausível para o sucedido. A única que me ocorre sempre quando penso nisso, e depois de muito pensar, é que aquele sensei, independentemente dos seus dans todos... é uma besta! Nem mais nem menos.

Uma grandessíssima besta. Pronto, já disse.

Mas, felizmente, esse senhor parece ser apenas uma pedra que, de uma maneira bastante estranha e improvável, passou pela peneira formativa e educacional que caracteriza a generalidade dos senseis de kendo com os quais me cruzei até à data.
Apesar dessa excepção de peso (afinal, trata-se de um 8º dan*) a regra continua a ser que as pessoas que atingem esse (quase inatingível**) patamar sejam, obviamente, indivíduos bastante equilibrados, conscientes não só das suas responsabilidades actuais mas também históricas, no mundo do budo em geral e do kendo em particular. Em resumo, mestres a sério.


* Hachidan é, desde 2002, a graduação máxima atingível pelos praticantes de kendo filiados na Zen Nippon Kendo Renmei.
**A taxa de sucesso no exame de hachidan oscila entre os 0,6 os 0,8%. Desde o fim da segunda guerra mundial, em 1945, apenas à volta de 500 pessoas acederam ao título de hachidan ou superior.

4.1.07

O “ORFÃO” (TAMBÉM CONHECIDO COMO SEMPAI)

Eu, por acaso ou sorte, até conheci grandes senseis.
Até hoje, tive a honra (e o prazer) de receber instrução, e refiro-me agora apenas ao kendo, de pessoas como Sumi Masatake, Okada Kazuyoshi, Shimojima, Sueno, e claro, Osaka Masakiyo, isto entre muitos outros.
Mas não vou falar da figura do sensei e do seu significado, isso ficará para um próximo post. Em vez disso, vou debruçar-me um pouco sobre uma outra figura da hierarquia marcial acerca da qual raramente se fala: os sempai.

O sempai que, muitas vezes, é mais responsável pela boa formação dos kendokas do que todos esses grandes mestres que conheci e que citei atrás.

De todos os livros que possuo que têm como tema central o kendo, apenas um refere no, quase obrigatório, glossário que preenche todas as últimas páginas de todos os livros sobre kendo, refere, dizia eu, a palavra “sempai”.
Duas palavras apenas “senior student” chegam para explicar sem grandes problemas o que é um sempai; é um aluno mais antigo, portanto.
Mas reparem que não disse o aluno mais antigo, uma vez que, e atrevo-me a semelhante raciocínio, nem todos os sempai são alunos mais antigos (raro, mas acontece) e que nem todos os alunos mais antigos são sempai (bastante frequente).

Mas a verdade é que esse orfão da atenção, e muitas vezes do respeito que lhe é devido, é muito mais do que um aluno mais antigo.

Muito bem e quem raio é sempai, então?

Sempai é um colega aluno mais graduado do que eu.
Sempai é a pessoa encarregada de ensinar os mais novos. Eu só tenho um sensei, mas tenho vários sempai. E ao mesmo tempo, em compensação, gosto de pensar que posso ser sempai para alguns dos praticantes mais novos que eu.
O relacionamento é sempre feito a “partir de baixo”, digamos assim.

OK, adiante. Mas então o que se pode esperar de um bom
sempai? Tenho a certeza que muitas outras caraterísticas servirão para identificar o dito, mas, assim de repente, as que me aparecem imediatamente, diria que são as seguintes:

Um bom sempai sente prazer em ajudar os alunos mais novos.

Um bom sempai fica chateado quando o sensei falta e é obrigado a dar uma aula, pois tem consciência que a sua aula será sempre uma “imitação menor” daquela que o seu sensei daria, caso estivesse presente.

Um bom sempai, quando dá aula, imita o melhor que sabe, e o melhor que se lembra e que pode, as melhores aulas que recebeu do seu sensei.

Um bom sempai é como uma boa ligação de internet. Deve conduzir e transmitir a informação com fidelidade.

Um bom sempai deve ser tão exigente para com os alunos mais novos como o seu sensei foi para com ele. Nem mais, nem menos.

Um bom sempai não tem o direito de esperar nada em troca, quando ensina o pouco que sabe. Ao contrário, por exemplo, de um bom sensei que, a meu ver, tem.

Um bom sempai é resultado de um bom sensei. Embora um bom sensei não tenha a obrigação de todos os seus alunos serem bons sempai... ou sempai, sequer.

Um bom sempai repete o que o seu sensei lhe ensinou. À sua maneira, por hipótese, mas o mesmo.

Um bom sempai interessa-se por aprender mais.

Um bom sempai não tem medo ou vergonha de interrogar os seus sempai e/ou o seu sensei para aprender mais.

Um bom sempai não se importa, nem tem de se importar, se não lhe chamarem sempai... se se importar é porque não é sempai.


E além do mais, sempai(s) há muitos.

3.1.07

EU, O MITORI-GEIKO E UM OUTRO GAJO PORREIRO

INTRODUÇÃO
Oh pá, deu-me para divagar... deve ser da idade, sei lá. Riam, riam, devem pensar que estão todos a ficar mais novos, não?
(Nota: o texto que se segue usa e abusa um bocadinho, mas só um bocadinho, de aspas e parênteses... mas olha, deu-me pr'aí, quéquessá-de fazer?)

O Dicionário de Kendo Japonês-Inglês (o tal de que eu só ainda traduzi as letras “a” e “b”) define assim Mitori-geiko:

“Método de keiko através do qual se observa a prática de outros, aprendendo com os seus bons aspectos/pontos, reflectindo assim e melhorando o nosso próprio kendo.”

E eu, sempre que ouço falar em mitori-geiko, há duas coisas que me vêm imediatamente à cabeça.

A primeira coisa sou eu, treze anitos, sentado no saudoso dojo da UKA (União de Karate do Algarve) no 1º andar do antigo mercado de Faro, durante uma “mão-cheia de tempo”, à espera que a minha mãe acabasse o karate-gi que me estava a fazer. Sim, que nesse tempo não havia karate-gi(s) à venda por todo o lado como há hoje, qu’é que julgam? Não... era muito dif... enfim, adiante.
Enquanto esperava que o dito cujo “kimono”, como lhe chamávamos na altura, ficasse pronto, pouco mais me restava do que assistir às aulas e absorver tudo o que podia para que um dia, também eu, o pudesse pôr em prática.
E, acreditem ou não, aprendi muito.

A segunda coisa que me lembro é um tipo que se sentava ao meu lado, naquele mesmo banco de madeira corrido, e que durante anos a fio, às segundas, quartas e sextas, quando o primeiro treino começava, às 18 horas, imperetrivelmente se encontrava já sentado para o seu mitori-geiko tri-semanal, saindo apenas às 21 quando o treino de graduados acabava.

Simpático, dotado de uma memória visual razoável (ou fruto de milhares de conselhos ouvidos e de milhões de repetições executadas à sua frente) algum tempo depois ele “era já capaz” de aconselhar soluções práticas para certos movimentos e mesmo emendar posições, encadeamentos técnicos e o diabo a quatro. Tudo numa boa, sem pedantices ou arrogãncias.
Em resumo, o tipo parecia uma espécie de livro técnico lá do dojo.

Ora acontecia nesse tempo que os karatecas que treinavam nesse dojo (incluindo moi) tinham por hábito, para além dos três treinos semanais, encontrar-se aos sábados e/ou domingos de manhã no mesmo local para fazer o que apelidávamos “treinos livres”.
Escusado será dizer que "o nosso amigo" passou a "frequentar" também os treinos livres. E aí, sem os constrangimentos de um sensei presente na sala, dava azo, sempre em amena cavaqueira, à sua extensa sabedoria marcial.

Não sei porquê, mas houve uma vez que, naturalmente, acabámos por convidá-lo para treinar, não regularmente, porque ele já tinha declarado várias vezes a sua incapacidade monetária para tal, mas para participar num dos treinos de sábado ou domingo de manhã.

Arranjou-se um karate-gi emprestado e, dito e feito, lá estava ele.

E, como já devem ter calculado por esta altura, os resultados não foram os melhores.


Na sua cabeça, tudo era perfeitamente claro.

No seu corpo, nada.

As mesmas coisas que ele tão eficazmente aconselhara a outros, eram agora chinês (ou japonês?) completo para o seu corpo. As posições teoricamente mais simples eram-lhe, fisicamente, extremamente complicadas de assimilar ou imitar, como se de uma espécie qualquer de (passo o termo) kama-sutra marcial se tratasse.

Não vou “bater mais no ceguinho”, que o rapaz até era um tipo porreiro, mas a conclusão que tirei ao fim de alguns anitos ligado às artes marciais é, pelo menos para a minha prática "budo-ística", bastante importante.

Mitori-geiko pode ser uma boa maneira de aprender desde que não seja um mero “voyeurismo marcial”, mas sim se estiver assegurada, ou pelo menos perspectivada, a existência de uma continuação prática; física, na verdadeira acepção da palavra. De nada serve ver (ou ler/discutir/teorizar sobre) um budo, seja ele qual fôr, se não se praticar em seguida o que se viu, pois, ao observar, estamos apenas a criar uma imagem. A esculpir uma estátua que, até que experimentemos o que vimos, por mais voltas que dê na nossa cabeça, é imóvel, sem vida.

Como dizia o falecido sensei Tsurumaru Juichi (9º dan hanshi de kendo) a propósito da essência do kendo:
“Esculpe uma estátua* e põe-lhe uma alma dentro.”

Eu acredito que essa alma é o keiko.


Não o mitori, outro.

2.1.07

QUAL O QUÊ???

- "O Karate Tradicional não é para competição, é para o Bushido."*
- Qual Bushido?
- O Bushido.
- Qual Bushido?
- O Bushido.

- Qual Bushido?
- O Bushido.

- Qual Bushido?
- O Bushido.
- Ah... qual Bushido?
- O Bushido.
- Qual Bushido?
- O Bushido.

- Qual Bushido?
- O Bushido.
- Qual Bushido?
- O Bushido.

- Qual Bushido?
- O Bushido.

- Qual?...
- O Bushido.

- ...
- O Bushido.
- Qual Bushido?
- Olhe leia isto: "mesmo os tão enunciados MESTRES 7º, 8º e 9º Dans, estão-se nas tintas para o Bushido"**
- Qual Bushido?
- O Bushido.
- Qual Bushido?

- O Bushido.
- Qual Bushido?
- O Bushido.

- Qual Bushido?
- O Bushido.

- Sim, mas...qual Bushido?
- O Bushido.

- Qual Bushido?
- O Bushido.

- Qual Bushido?
- O Bushido.

- Qual Bushido?
- O Bushido.

- Qual Bushido?
- O Bushido.

- Aaah... atão... atão e o zeeeen?

* frase retirada de uma discussão num blog dedicado ao karate.
** idem

31.12.06

2007, 2007... EU SEI LÁ...

No fim do ano passado desejei que 2006 fosse ao menos tão “pouco mau” como 2005.
Já não seria mau. Afinal, em 2005 ainda fui até Kitamoto.
Mas o meu ano de 2006 foi muito pior do que o ano que o antecedeu. De longe.

Nota. A neura previamente localizada neste espaço foi dissolvida pelo autor.

A todos, um ano 2007 de keiko melhor que o meu de 2006... também não deve ser difícil.

Abayo.

28.12.06

CONSULTÓRIO KENDIMENTAL 2

Caro Senhor:

Preciso da sua ajuda.
As pregas do meu hakama não ficam no devido lugar a cada vez que o lavo.

Como sou maníaco compulsivo, não só em termos de limpeza, mas também de arrumação e de ordem, é uma carga de trabalhos. Lavo o hakama na máquina três vezes por semana e as pregas quando ele seca, como já lhe disse, nunca ficam no devido lugar.

Aí, tenho um trabalhão enorme a passá-lo a ferro. E as pregas lá vão ao lugar; mas se fôr treinar nesse dia, eu tenho de o lavar quando volto do treino e assim as pregas deixam de estar no seu devido lugar.

Compreende o meu problema?

Kendoka Kompulsivo


Caro Kompulsivo:

O máximo que lhe posso dizer é explicar-lhe como faço para lavar e secar os meus hakamas (atenção ao plural) e como mantenho as pregas, o que, no meu caso, é tudo a mesma coisa.

A primeira coisa que tem de fazer é comprar um segundo hakama, tendo em conta o seu “problema”, parece-me o mais aconselhável.

Depois, NÃO LAVE O HAKAMA NA MÁQUINA DE LAVAR.

Faça uma “barrela” à maneira antiga.
Deite uma mão-cheia de detergente para dentro de um alguidar, encha de água morna e mergulhe o dito cujo lá dentro, agitando-o vigorosamente.
Deixe de molho e, se fôr dia de treino, pegue no 2º hakama e vá treinar sossegado.

Depois de lavado PENDURE-O PRESO PELA PARTE SUPERIOR E DEIXE QUE O PESO DA ÁGUA O ESTIQUE.

Verá que, sobretudo se fôr feito com “bom acrílico” como os meus, as pregas se mantêm no devido lugar.
Quando secar, NÃO O PASSE A FERRO, dobre-o apenas correctamente, respeitando as pregas originais.

E por falar em pregas e dobras, eis aqui um esquema traduzido pelo sensei R. Stroud* da All United States Kendo Federation, e da autoria de Tasuke Honda sensei, nanadan, acerca do significado das diferentes pregas do hakama (e, curiosamente, dos nódulos no bambú do shinai).



Tenho quase a certeza que um maníaco da ordem e da arrumação como você vai adorar saber, quiçá decorar, os significados de todas e cada uma das ditas pregas e nódulos do shinai.

Fui.

*E depois, traduzido por mim.

21.12.06

ECOS DE NATAL

Impõe-se por esta altura, por muito que não se seja fã da época natalícia, a habitual saudação que faz eco do espírito da estação.
Por isso, e só por isso:

FELIZ NATAL... E TAL E TAL E TAL E TAL

Pronto, este já está despachado.