1.10.07
EU E O TORNEIO LX 2007
Relato das desventuras em busca de um jodan-kamae mais eficaz.
Tame, tame – dizia-me o senhor Osaka – falta tame*.
Tudo o que pude responder-lhe foi acenar a cabeça num reconhecido desespero de causa. Eu sabia que ele tinha razão, só não percebia porquê.
É claro que por essa altura, no fim das pools e depois de ter sido “apurado” sem ter sequer marcado um único ponto, já me tinha apercebido, pelo menos, que algo não estava a funcionar. Mas o quê? O que é que não estava a funcionar?
Maai. A distância. Durante toda a minha participação neste torneio, falhei constantemente no meu obectivo de encontrar a distância ideal para combater.
E claro que se maai não está a funcionar, seme também não funciona e é muito pouco provável (impossível!) que tame exista sequer, quanto mais que funcione.
O mais frustrante é que tudo o que me aconteceu no Torneio de Lisboa 2007, aconteceu resultado, como sempre, das melhores intenções. Durante o Verão, fruto de algumas leituras e de alguns videos “peregrinos” tive uma epifânia. E partilhei-a com o sensei em busca de aprovação. E devo dizer que ele não colocou quaisquer reservas às minhas observações.
Então, a coisa é (deveria ser) mais ou menos assim: a posição clássica** de jodan-kamae diz-nos que a mão esquerda deve estar colocada a “um punho de distância” da testa.
Ora, certo sensei japonês, muito conhecido por utilizar frequentemente jodan-kamae e que ganhou três campeonatos do Japão combatendo dessa maneira, entre outras coisas, afirma que, em shiai, deve-se colocar a mão esquerda, não a um punho de distância, mas sim a dois punhos de distância da testa.
Objectivos práticos? A mão esquerda está mais próxima do adversário, logo tem de percorrer menos espaço para o atingir mas, ao mesmo tempo, apesar de estar mais próxima, tem “um punho a mais de distãncia para recolher” face a um eventual, e sempre esperado, ataque em age-gote por parte do oponente.
Digam lá, isto é o melhor de dois mundos ou isto é mesmo o melhor de dois mundos? Pois digo-vos eu, para quem combate em jodan É O MELHOR DE DOIS MUNDOS.
Agora, se tudo isso é realmente fácil de dizer, é mais fácil de dizer do que de fazer.
E maai? Em que é que ficamos quanto à distãncia do corpo? O novo posicionamento do meu braço esquerdo (muito mais “atrevido”) colocou-me imensos problemas em relação ao lugar que o tronco deve ocupar nesta nova equação.
Numa certa altura, um dos sempai dizia-me que eu estava, e passo a citar, “inclinado para a frente”. Ora quando se está, e só tenho de acreditar nas palavras dele, inclinado para a frente é muito difícil que a parte inferior do corpo, necessária para uma boa execução de qualquer katate-waza, tenha a mesma velocidade, a mesma capacidade arranque, que é como quem diz, a mesma eficácia.
Por outro lado, uma das coisas que o sensei Osaka me tinha dito, há uma data de tempo atrás, da última vez que me tinha visto combater em jodan-kamae, é que eu preciso de ter o shinai mais visível. Não tão para trás. Quanto mais presente estiver o shinai, no campo de visão do adversário, mais ameaçadora se torna a kamae e mais forte é o seme da mesma. Outra preocupação.
Em resumo, chegar aos quartos-de-final depois de um ano sem fazer shiai, diria, numa primeira análise, que não foi mau. Agora, chegar aos quartos-de-final sem marcar qualquer ippon, à custa de hansoku, foi mesmo fantástico...
Foi fantasticamente mau.
*ver post Maai, Hyoshi e Yomi 3 (Dezembro 2006);
**tal como se aprende em Nihon Kendo Kata Ipponme;
30.9.07
E OS VENCEDORES SÃO:
Respectivamente “Kendoka Revelação” e “Kendoka do Ano” 2007.
Eleitos apenas pelos seus pares, como convém.
Muitos parabéns a ambos.
Agradecimentos especiais à e-bogu, pelo patrocínio e apoio, e a todos os que votaram, pela sua participação nesta, obrigatoriamente modesta, acção promocional do kendo e dos kendokas protugueses.
29.9.07
USAGI AWARDS 1ºS RESULTADOS
Por agora, o que posso revelar é que um é de Lisboa e outro não.
Pronto. Pró ano talvez haja mais. Veremos.
28.9.07
FIM DE PRAZO: 22 HORAS

26.9.07
USAGI SAN AWARDS EM 2008?
O ano passado, por esta altura, o vencedor estava quase definido e a votação tinha já sido muito superior à deste ano.
O que põe em questão uma data de coisas. A começar pela continuação ou não da existência deste blog.
É que, se por um lado, os números de visitantes nunca foi tão alto, por outro, nunca a interacção entre os visitantes e o "corpo editorial" do mesmo foi tão baixa.
Eu não me vou queixar que esta coisa de blogar dá muito trabalho, não dá. Pelo menos a mim, não me dá. Sempre fiz questão de ter este blog a funcionar por uma questão de prazer.
Nunca tive um milímetro de espaço ocupado com anúncios.
Para poder ter a lata de pedir coisas a outras pessoas, nomeadamente textos para traduzir ao Sensei Tokitsu, ao Sensei Honda ou ao Dr Alex Bennett, só para citar alguns daqueles que andei a melgar ao longo destes anos, sempre achei vital que ninguém pudesse, de maneira nenhuma, encontrar nestas páginas algo que fosse visto como tendo sido criado com espírito comercial ou com objectivo de lucro.
Quando eu era miúdo, e praticava karate, nos longínquos anos do milénio passado, lembro-me bem da seca que era ter de esperar um mês (às vezes vários, porque a distribuidora portuguesa fazia gato-sapato dos leitores) pela edição de uma revista francesa chamada "karate". Aquelas dezenas de páginas (em princípio) mensais eram um oásis de informação para o praticante faminto de notícias.
Hoje, para a maior parte dos praticantes de budo nacionais, essa é uma realidade completamente desconhecida, e apesar de não haver muita coisa sobre kendo e em português na net, sei que posso acabar com este blog a qualquer momento e ficar com a minha consciência tranquila.
A quantidade de informação acumulada ao longo destes poucos anos já me deixaria, se fosse outra vez um puto de 13/14 anos faminto de informação, totalmente saciado... bom, pelo menos por uns tempos.
Tudo isto para chegar ao ponto crucial deste desabafo, meus caros poucos e fiéis (e egoístas) leitores, e que é o seguinte:Se esta votação tiver menos votantes que a do ano passado é um sinal claro, para mim pelo menos, que não ando aqui a fazer nada.
É sinal que as pessoas se fartaram, que este blog deixou de fazer qualquer sentido e que, naturalmente e sem quaisquer ressentimentos, está na altura de partir para outra.
Agora é convosco.
25.9.07
A PALAVRA DO SENHOR (OSAKA) 68
Hoje não me apetecia nada ir treinar. MESMO NADA. Talvez por isso, o treino não me soube bem. Não soube.
Arrastei-me até à escola secundária Patrício Prazeres em busca da motivação, mas a coisa não estava mesmo a funcionar. Para agravar as coisas o sensei atrasou-se e tive de orientar o começo do treino anterior ao aquecimento; depois, dei o aquecimento e ainda o tai-so mal tinha começado e já eu suava que nem um animalzinho.
Depois o senhor Osaka chegou, mas o meu pé, em contra-partida, deixou de funcionar, depois as minhas costas começaram a ficar doridas... enfim, p'ra esquecer. Fiz uns kirikaeshi sofríveis, uns kakari-geiko medrosos (não é merdosos, não chegou a tanto) e uns ji-geiko a todos os níveis miseráveis...
Por fim, a aula lá terminou. E o sensei realçou, nas suas palavras finais, que quando fazemos kakari-geiko o melhor é fazer sempre as técnicas o mais directas possível, sem grandes floreados. Virar rápido, bater rápido, passar rápido; virar rápido, bater ráp... hum... perceberam a ideia, certo?
E pronto, aí acabou a parte da aula.
DEPOIS, depois veio a parte engraçada. Dei boleia ao sensei e ao Joni de volta para casa.
E eles lá iam alegremente a tagarelar naquela língua desgraçada que ambos falam quando, às tantas, o senhor Osaka se vira e me diz que o Joni queria saber como é que fazia (bem) uma técnica qualquer (eles falavam de kaeshi-do, creio eu). Qual era o "segredo", salvo seja.
A resposta não podia ser mais simples, e mais japonesa. Não tem a ver com a maneira como se coloca o shinai durante o kaeshi, não tem a ver com timing, não tem a ver com nada disso... mas tem a ver com isso TUDO.
Em resumo, só se consegue fazer um bom kaeshi-do, ou outra coisa qualquer, treinando muito. O senhor de La Palice deve ter dado piruetas de alegria no seu caixão.
Treino. Mais nada.
23.9.07
FAVORITOS 3
E segue a apresentação de alguns dos meus momentos favoritos, retirados da net; neste caso hiki-men.
22.9.07
PERO QUE LAS AY LAS AY
A resposta inevitavelmente passa sempre pelo mesmo: patrocínios.
Mas só quem já alguma vez passou pelo processo sabe como é estranho o mundo dos patrocínios no kendo desportivo.
Ao contrário dos praticantes de certas modalidades marciais, cujo keiko-gi parece um filho ilegítimo, gerado durante um bacanal entre praticantes e anunciantes, os anúncios de patrocinadores no keiko-gi e no kendo-gu dos kendokas é ainda bastante raro.
E já não é só nos tenogi's ou nos fatos de treino das selecções... ou ainda aquele discreto quadradinho nos hakamas da e-bogu.
Mais fotos do campeonato do mundo de Taiwan em:
http://www.simulacre.org/wordpress/photos/album/72157594416796101/
Como se pode ver nesta foto da selecção coreana presente nos 13ºs Campeonatos do Mundo, a publicidade nos equipamentos de kendo está a chegar. Devagarinho, discretamente, mas está MESMO a chegar.
A PALAVRA DO SENHOR (OSAKA) 67
Dia calmo, treino tranquilo. Tudo como quarta-feira, apenas com mais ji-geiko.
Vê-se que o Torneio de Lisboa está à porta, sente-se no ar a vontade de combater, o desejo de esmagar os adversá... ups... bom, quero dizer, o pessoal está realmente contente por se voltar a sentir bem outra vez.
Os ataques já fluem de outra maneira, os reflexos estão mais vivos, os encadeamentos sucedem-se... enfim, está-se calma mas resolutamente a voltar à boa-forma anterior às férias.
Fiz um bom ji-geiko contra o senhor Osaka. Levei menos pazada que o habitual. Fiquei muito contente com isso.
No fim, o sensei dedicou poucas palavras a este treino dizendo apenas que o nosso kiri-kaeshi (para não variar) precisa de mais vigor.
Foi mais uma semana de treinos que assim acabou e esta já ninguém ma tira.
Até 2ª.
19.9.07
A PALAVRA DO SENHOR (OSAKA) 66
O dia hoje foi complicado para mim.
O meu tornozelo esquerdo não anda bom e passo metade do tempo a "defender-me" de o utilizar; moral da história: o tornozelo direito, sobrecarregado, começa (também) a incomodar-me. Isto a partir de uma certa idade...
Enfim, mais um dia de mawari-geiko, com bokuto (ni yoru kendo kihon) waza (keiko ho), kiri-kaeshi, sho-men-uchi e, por fim, um bom bocado de ji-geiko. Para o fim do ji-geiko treinei um pouco em hidari-jodan-kamae contra o meu irmão.
Ainda não os consigo acertar todos, mas os ataques katate-kote começam a sair melhor. Ao menos já sinto o corte. É assim uma coisa tipo... ki.... ken-tai, ou às vezes, ki-tai sem ken, ou ki-ken mas o corpo chega atrasado... ou não chega nunca :-D.
Mas isso não me preocupa muito. Quando comecei a fazer jodan tinha precisamente o mesmo problema com men mas, no entanto, agora já sei com antecedência se o katate-men vai ser bom ou não.
Toda esta conversa acerca de jodan porquê? Pois... o problema foi que as palavras finais do sensei Osaka se centraram sobre a tendência que muitos têm de, durante o ji-geiko, afastarem demasiado os pés um do outro, perdendo assim alguma capacidade de impulso que pode ser crucial.
E eu faço isso. Sobretudo quando combato em jodan. Raios, será por isso?
18.9.07
A PALAVRA DO SENHOR (OSAKA) 64 E 65
Eu sei, eu sei, outra vez dois de uma vez, mas o que querem? Ele fala pouco ultimamente.
Então na sexta, apesar de poucas, as palavras do senhor Osaka remeteram para um assunto bastante importante: fumikomi-ashi. De facto, não me lembro agora (e não me apetece ir ler os post's anteriores todos), mas creio que poucas vezes o ouvi, pelo menos no fim das aulas, mencionar fumikomi-ashi. O gesto de "pisar" com força com o pé direito quando se executa um (qualquer que seja) ataque.
Mais fumikomi, o pé ao mesmo tempo do shinai, forte, disse.
E a verdade é que fumikomi-ashi está profundamente relacionado com ki-ken-tai no ichi e portanto, com a essência do kendo moderno.
Para lá do facto, óbvio, de uma boa "patada" fornecer um apoio maior no instante em que o corpo (que se desloca) mais precisa dele, outros valores mais altos se levantam.
Por exemplo, uma vez que o pé deve atingir o solo no mesmo momento em que o shinai atinge um dos datotsu-bui do adversário, quase que pode dizer-se que um bom fumikomi-ashi é já dois terços de um ippon.
Se tudo correr como deve ser, no instante de fumikomi-ashi, o pé já "levou consigo" o ken (espada) e o tai (corpo).
Outra coisa que ele mencionou, já não para o grupo mas em resposta a uma pergunta do meu irmão, relaciona-se com kiri-kaeshi e com o "eterno problema de chocar ou não chocar", ou seja, depois de sho-men, e antes de se iniciar cada uma das séries de 9 sayu-men, deve-se fazer ou não fazer tai-atari? Segundo este 7º dan, sim. E não.
Sim, quando se é um praticante já com algum tempo de keiko (não sendo, no entanto, o gesto obrigatório), e definitivamente não, se se é um principiante.
Ontem, segunda-feira, o sensei disse-nos apenas que, quando se faz kakari-geiko, que aliás temos feito em fartura, não se deve executar movimentos circulares com o shinai, mas sim ser o mais directo possível nas trajectórias. Toda a gente disse "hai", alto e bom som, e em seguida toda a gente olhou para o Sousa... até o Sousa ;-).
Até quarta e bom keiko.
E não se esqueçam de votar nos Usagi San Awards.
17.9.07
FAVORITOS 2
Mais um dos meus videos favoritos de sempre na net. Desta vez um fantástico tsuki executado por uma aluna de um liceu de Kyoto.
Eis o significado da expressão: "right to the point".
12.9.07
A PALAVRA DO SENHOR (OSAKA) 62 E 63
Tanto na segunda-feira como hoje os treinos foram bastantes calmos.
De facto, creio que estamos todos ainda um pouco em recuperação.
Até o senhor Osaka foi bastante parco nas palavras, tanto no último treino como hoje.
Na segunda-feira relembrou (isto do Verão apaga muitas memórias) apenas que o último men de cada kiri-kaeshi deve ser feito com determinação, determinação própria de ippon.
Hoje a sua mensagem virou-se para a mão esquerda (há já algum tempo que ele não nos lembrava da importância da mão esquerda no kendo) e para maneira como se deve agarrar a extremidade do shinai: fazendo força apenas com os três dedos "finais" da mão... mínimo, anelar e médio.
Foi isto... 6ª há mais.
USAGI AWARDS SPONSORED BY...
Ora bem, a trama adensa-se.
Como se não bastasse a emoção da própria eleição, uma empresa (multinacional) líder do ramo da venda de equipamento de kendo e de outras artes mar... pronto... a e-bogu... a e-bogu, dizia, ligou-se a este grandioso evento e, num gesto patrocinatório sem precedentes, num primeiro tempo propôs oferecer cerca de € 50.000 para cada um dos eleitos (e € 30.000 para mim).
Depois de alguma discussão acabámos por acordar em OFERECER UM FANTÁSTICO SHINAI RENGI a cada um dos vencedores.
Para saber o que é um shinai Renji basta ir até: http://www.e-bogu.com.pt/index.php?cPath=21_25
Agora só falta o patrocínio da FNAC... digo eu...
9.9.07
OK, EIS AS REGRAS.
Art. 1º - Os e-mails devem ter escrito no subject (assunto/título) da mensagem o texto "Votação 2007" (ou coisa semelhante que ajude e simplifique a identificação imediata do mesmo).
Art. 2º - A mensagem deve conter obrigatoriamente os dois votos: Kendoka do Ano e Kendoka Revelação.
Art. 3º - Não podem votar na mesma pessoa para ambos os títulos.
Art. 4º - Os remetentes devem identificar-se com nome, associação e respectivo nº de associado.
Art. 5º - São elegíveis todos e quaisquer praticantes de cada uma das diferentes associações, independentemente do tempo de prática e/ou graduação (a este propósito ver tb Alínea única).
Alínea única - Por uma questão de princípio, estão excluídos da votação, tal como no ano passado, quaisquer colaboradores deste blog (eu) e o Sensei Osaka Masakiyo.
Okini e continuem a mandar postais.
8.9.07
A PALAVRA DO SENHOR (OSAKA) 61
Foi um treino interessante o de hoje (ontem) lembro-me que no ano passado só fizemos ji-geiko quase dois meses depois do recomeço dos treinos. Desta vez as coisas foram antecipadas um bocadinho.
Depois de uma aula quase inteiramente dedicada (tal como a anterior) ao treino das técnicas básicas... alto lá. Espera aí, agora que penso nisso, acho que em todas as aulas de kendo que fiz na vida, houve sempre pelo menos algum tempo de cada uma dessas aulas dedicadas ao treino de técnicas base.
Hum, isto se calhar pede um post específico... bom, adiante, depois do básico, dizia eu, tivemos um bónus de dois combates de ji-geiko. "Só dois". Como o sensei fez questão de esclarecer logo antes do começo das "hostilidades". Foi engraçado ver como todos estão enferrujados (uns mais que outros, claro) e como os combates pareciam em câmara lenta... enfim.
No final, o senhor Osaka chamou-nos a atenção, não para o ji-geiko claro, que esse foi tão miserável (falo por mim... e se calhar por mais uns quantos) que nem havia nada a dizer, mas para a necessidade de definir bem cada sayu-men que compõe um kiri-kaeshi.
Grande e bem definido, que é como quem diz: "lá no sítio".
E pronto, este keiko já ninguém mo tira. Até 2ª.
7.9.07
STOP THE PRESS
Notícias recém-chegadas à nossa redacção indicam que Charlotte Vandersleyen que foi nossa colega de kendo no dojo de Lisboa, se qualificou num FANTÁSTICO 3º lugar no Campeonato do Mundo de Naginata, o qual decorreu no fim-de-semana passado em Bruxelas. Ouch, ganda pinta.
Muitos parabéns Charlotte!!!
AWARDS 2007
Desta vez, porém, os eleitores dispõem apenas de 3 semanas (até 27 de Setembro, inclusive) para votar nas duas categorias:
- Kendoka do Ano 2007
- Kendoka Revelação 2007
As regras são as mesmas do ano passado, mas devem acrescentar o número de sócio da associação de que fazem parte.
Vamos lá premiar aqueles que nos inspiram todos os dias e nos ajudam a ser melhores kendokas, pela sua combatividade, pela sua determinação, por aquilo que acharem importante.
Os prémios serão entregues no Torneio de Lisboa, no dia 29 de Setembro de 2007.
Vamos lá a mandar esses "postais" para IMDRabbit@hotmail.com.
Let the games begin.
6.9.07
A PALAVRA DO SENHOR (OSAKA) 60
Foi um começo simpático.
A uma velocidade mais baixa, tudo mais calmo. Nada de gi-geiko, ou kakari-geiko ou coisas assim muito aceleradas.
Não, kihon básico (até porque tinhamos 3 novos alunos) e depois 10 minutos de treino com bogu. E só kirikaeshi e mais nada.
No fim, o senhor Osaka realçou apenas que a nossa atenção, durante este 1º mês, deve estar mais virada para fazer as coisas em tamanho grande e em velocidade mais lenta.
E foi o nosso regresso às aulas.
Pr'a já mais nada, over and out.
4.9.07
FAVORITOS 1
Um dos meus videos de kendo (da net) favoritos de todos os tempos e o meu kaeshi-do favorito de todos os tempos.
Reparem como, mesmo antes do ataque, aka (à esquerda) "oferece" uma abertura a shiro para que ele ataque. Se isto não é suki, nada é suki.
LINDÍÍÍÍÍSSIMO.´Bam.
PRONTOS?
Prontos para mais um ano? Eu estou.
Na falta de melhor, pelo menos estou cheio de fé. E fé, meus amigos, a partir de uma certa altura vale mais do que... enfim... do que... o que quer que valha ou, como se diria no futebol, "a fé vale o que vale" e mais nada.
Enfim, fiz os trabalhos durante as férias. Tenho andado a aprender umas coisas giras; uns livros interessantes, uns vídeos (mais ou menos) elucidativos (em japonês!!!) e acho que finalmente percebi como se faz um bom katate-kote a partir de jodan.
Acho...
E agora só falta pôr as teorias todas em prática na próxima aula.
Pessoal, bute lá.
24.8.07
KITAMOTO 2007
24.7.07
A PALAVRA DO SENHOR (OSAKA) 58 E 59
Segunda-feira 16 de Julho e quarta-feira 18 de Julho de 2007.
Não é que se esteja a tornar um hábito, juntar assim os post, dois em um, mas alguns problemas internéticos combinaram acumular-se e estragar-me as duas últimas semanas... informaticamente falando.
Só volto à carga com estes dois relatos do sensei Osaka (os últimos antes do Verão) porque me parecem importantes e porque ele se referiu a uma coisa que ultimamente não tem estado muito presente nos nossos keikos do dia-a-dia. Falo, ou antes, falou ele, de ji-geiko.
Ora dizia ele que ao fazer ji-geiko, não deve estar presente na nossa mente, não deve ser uma preocupação, o facto de sermos atingidos durante o mesmo. Ainda segundo as suas palavras, a abordagem de ji-geiko deve ser muito diferente da de shiai. Um dos objectivos de ji-geiko é a experimentação.
O medo de falhar ou de errar não deve ser um factor inibidor da prática do combate livre. Por isso, quando se executa um ataque, ele deve ser "cumprido" plenamente. Sem receio do contra-ataque, ou do valor do adversário, ou do que quer que seja. O empenhamento deve ser total. Afinal de contas, estamos a aprender.
No seguimento desse raciocínio, outra coisa a que o senhor Osaka se referiu, foi o facto de, muitas vezes durante o ji-geiko, termos tendência para recuar.
NÃO SE DEVE RECUAR NUNCA DURANTE JI-GEIKO.
É um mau hábito que prejudica seriamente a evolução do kendoka. Habituar-se a situações de pressão por parte do opositor, e a gestão dessa mesma pressão, faz parte integrante da aprendizagem do kendo.
Suportar o seme do adversário, absorvê-lo (criando um falso suki. p.e.), contorná-lo, impor o nosso seme, criar tame... tudo isso só é possível SE NÃO SE RECUAR perante a ofensiva do oponente.
Afinal de contas é "só" ji-geiko, pessoal.
Bom Verão para todos. Esta coluna estará de volta... bem, quando voltar.
13.7.07
A PALAVRA DO SENHOR (OSAKA) 57
Muito calor. Muito calor... e muito kiri-kaeshi. Muito. Praticamente uma aula inteira de kiri-kaeshi.
Tirando um bocadinho de kakari-geiko no fim, para acabar em beleza (digo eu), foi mais uma aula inteirinha dedicada aos princípios básicos do kendo.
E kiri-kaeshi nunca é demais. E também nunca é demais dizer que kiri-kaeshi é talvez o pilar fundamental do kendo moderno. Agora podia falar-vos das 8 grandes virtudes de fazer kiri-kaeshi, mas já o fiz várias vezes neste blog, por isso e em vez disso, vou antes limitar-me a transmitir-vos as palavras com que o senhor Osaka nos brindou hoje.
No fim do treino, o Sensei Osaka aconselhou-nos a que praticássemos kendo com mais espírito, mais vontade, durante o Verão.
Mais calor = mais esforço = mais progressos. Eis o resumo da mensagem de Osaka san.
Nas suas últimas palavras, num piropo não muito usual para um japonês, elogiou o esforço diário dos praticantes, referindo e passo a citar: "mas o (vosso) kendo está melhor". Wow! Devemos estar a fazer alguma coisa bem.
Bom fim-de-semana, pessoal.
12.7.07
A PALAVRA DO SENHOR (OSAKA) 55 e 56
Assim mesmo, dois em um.
Os treinos, devido ao calor que, finalmente, se faz sentir, têm sido um bocadinho penosos. E quando digo penosos não me refiro a particularmente difíceis ou duros. Se existisse uma normalidade pré-definida acerca da intensidade dos treinos diria que têm sido treinos... normais.
A verdade é que me encontro numa situação particularmente estranha em termos de condição física. Os 3 meses que passei em Luanda deixaram um fardo que não é fácil de ultrapassar. E uso aqui a palavra "fardo" numa das suas mais literais definições. 3 meses de cerveja, picanha e churrascos variados, sem fazer qualquer exercício senão o de tentar levar um dia-a-dia muito complicado com um sorriso nos lábios, deixam de facto um fardo no físico de qualquer pessoa.
Enfim, já estão a pensar provavelmente: "com o mal dos outros posso eu bem", por isso mesmo, adiante; palavras do senhor Osaka:
- segunda-feira alertou de novo a população kendoka de Lisboa para a situação, recorrente ao que parece, de, devido ao cansaço talvez, os últimos men de cada treino serem feitos por muita gente com o corpo inclinado para a frente. Só isto. Corpo SEMPRE direito.
- quarta-feira não sei. O meu tornozelo "gripou" quase no fim do treino e tive de pedir permissão ao sensei para parar e sair. Assim sendo, não estive presente no fim da aula. Se alguém que lá esteve quiser ser uma alminha caridosa e enviar as palavras de ontem de Osaka san... pois esteja à vontade.
Quisses e ugues.
4.7.07
A PALAVRA DO SENHOR (OSAKA) 54
Tenho andado a pensar muito no meu kiri-kaeshi e hoje foi um daqueles dias em que tive oportunidade de pensar ainda mais acerca do dito.
Hoje fizemos muito kiri-kaeshi e foi bom, correu bem. Estou a começar a controlar de novo o meu braço esquerdo. Faço como o grande sempai Alex me aconselhou: mais devagar e assim corre melhor. É mesmo importante ouvir o que dizem aqueles que sabem mais do que nós.
E quem sabe mais que nós todos juntos é o sensei Osaka que hoje, num dos seus acessos de frugalidade verbal, apenas nos disse para tentarmos sempre executar men bem. Ou seja, neste caso, sem entortar o corpo para a frente.
Lá está. Fazer devagar e bem, bate aos pontos fazer mal e depressa. Como eu e meu kiri-kaeshi descontrolado.
Abayo people.
2.7.07
A PALAVRA DO SENHOR (OSAKA) 53
Ora cá estamos nós, de volta às lides como convém.
Nestes últimos tempos não tenho treinado muito devido às filmagens em que andei metido, e das vezes que treinei, não tive tempo para actualizar este modesto diário de papel virtual a que chamo o meu kendo blog (since 2003).
Hoje, pela primeira vez este ano, o calor incomodou-me durante o treino. A meio do keiko, que até nem foi muito puxado, já estava assim como que com os bofes de fora, a chamar ó-tio-ó-tio, que raio se passa comigo que estou a ver tudo a andar à roda?
Felizmente não praticámos kakari-geiko, pois a triste figura que eu teria feito, seria um muuuuito mau exemplo para os mais novos.
Mas enfim, no final fiquei muito contente por ter conseguido acabar o treino inteiro. Ainda consegui fazer o último men do último kiri-kaeshi do dia... como se fosse ippon. Mas confesso que não tinha mais nada pr'a dar quando acabou.
E por falar nisso, quando (finalmente) acabou, o senhor Osaka chamou-nos a atenção sobre renzoku-waza, mais exactamente sobre o encadeamento kote-do. Diz ele, e acho que com razão, que quando se treina kote-do, o motodachi deve ter uma atenção muito especial em não recuar demasiado quando chega o momento de receber o do. Porquê? Porque quando se tenta fazer kote-do, em shiai, o mais certo é o adversário não recuar. Mesmo que levante os braços e se encontre em posição de "levar com um do", o mais certo é ele estar nesse momento a avançar.
Assim, para que nos possamos habituar a fazer o do o mais rapidamente a seguir ao kote, quanto menor for o espaço existente para executá-lo, melhor.
Logo, quanto menos o motodachi recuar... mais eficaz é o exercício.
Dissemos todos um sonoro "domo arigato gozaimasté" e cada um foi à sua vida.
Tal como eu, agora mesmo: domo arigato gozaimasté... fui.
11.6.07
É ASSIM MESMO
O que quer dizer, e é esse o motivo deste post, que... vou voltar a competir.
É assim mesmo. Leram bem.
No próximo torneio, em Setembro, o de Lisboa (?) vou entrar e divertir-me que nem um louco, à paulada com todos os que (eu) tiver o azar de me aparecerem pela frente.
Ah sim... já me esquecia, esta semana vou estar fora de Lisboa em filmagens durante a semana toda e não vou poder treinar, logo, a não ser que alguém me envie por e-mail, não vai haver divulgação da "palavra do senhor" para ninguém. Eu vou sempre andar com o computador, por isso...
Pronto... hum... ok, parece que tá tudo despachado deste lado. Vou bazar.
Ah pois, o Porto. Vou filmar no Porto na quinta-feira, se calhar consigo ir dar um saltinho a algum dojo que esteja aberto nesse dia.
Bazei.
7.6.07
A PALAVRA DO SENHOR (OSAKA) 52
Hoje o senhor Osaka referiu-se à maneira como devemos respirar ao fazer kiri-kaeshi e não vou escrever mais nada agora porque estou muito cansado, é tarde e tenho de dormir*.
Até 2ª.
Pois, é que 6ª não há treino no dojo de Lisboa.
Feriados e pontes e essas coisas todas juntas.
Até lá.
*Pra informação mais aprofundada sobre este assunto, ler post "Kiri-Kaeshi e respiração", datado de 9 de Junho de 2006, (olha, há um ano atrás, mais dia menos dia).
3.6.07
JÔNI SAN
Perseverança, espírito de sacríficio, correcção, muito coração... mas também muito prazer de fazer kendo. Palavras para quê? É um artista luso-japonês, ganhou o Torneio de Coimbra e segue à frente no ranking nacional. Temos kendoka. Eu sou fã.
Joni! Joni! Joni!
2.6.07
A PALAVRA DO SENHOR (OSAKA) 51
Hoje, comparativamente com os últimos treinos, fizemos bastante ji-geiko. Uns dez minutos ou coisa que o valha. E não é que calhei logo, à segunda mudança de parceiro, com o senhor Osaka? E vai daí, lembrei-me do que ele tinha dito há algumas aulas atrás, acerca de como abordar a prática de ji-geiko, por oposição a shiai.
Assim, fiz um combate bastante descontraído com o senhor em questão, não me defendendo mais do que o necessário e experimentando coisas diferentes... enfim, levei a tareia do costume. E, além do mais, acabei muito mais cansado... só vantagens.
No fim, o sensei apenas fez uma referência breve, mas muito apurada, acerca de como fazer bem kote em combate. Numa palavra, trata-se de esticar mais os braços, num gesto mais de cima para a frente, em vez de de cima para baixo. Usando se necessário, quase que apenas o kensen do shinai para atingir o pulso do opositor. Utilizando uma porção mínima de shinai.
E enquanto ele usava "o Sousa" como dummy, apercebi-me que a quantidade de espaço que ele guarda (distância) é bastante maior. Olhando a diferença ocorreu-me que esse pode o segredo do sucesso dele quando executa nidan-waza. É que, se o corpo dos combatentes não estiver tão próximo, então há mais tempo, ou pelo menos, mais espaço, para executar uma segunda técnica, caso a primeira não surta o efeito desejado.
Daí há outras coisas boas que também podem sair... como a verdadeira diferença entre fazer nidan-waza (dois ataques efectivos) e fazer um ataque (apenas) com uma finta de ataque.
Reveladoras as palavras do senhor Osaka, digo-vos eu. Uma epifânia.
28.5.07
A PALAVRA DO SENHOR (OSAKA) 50
Hoje tivemos direito a um discurso melhorado no fim do treino.
Uma vez que praticamente não treinou (esqueceu-se do keiko-gi em casa) o senhor Osaka apenas orientou o treino e pôde observar melhor o que se passou com o povo.
Assim, quando o treino chegou ao fim, debruçou a sua atenção sobre a nossa atitude durante o ji-geiko a que assistiu e do qual fomos, obviamente, os protagonistas.
Segundo ele, todos nós estamos (ainda) muito preocupados em não ser atingidos. Levamos ji-geiko como se fosse competição só que sem o fighting spirit... ou seja, em vez de usarmos o combate livre como um meio de aperfeiçoar, e corrigir, o nosso kendo, ficamos numa zona onde devido ao "medo de perder" apenas amontoamos mais e mais defeitos.
Ji-geiko não é shiai.
Pode-se e deve-se arriscar e fazer coisas melhores e mais bem feitas. Não é preciso que se esteja constantemente "à defesa".
Não é vergonha sofrer, sei lá, de-gote se isso acontecer porque tentámos fazer uma técnica que não usamos habitualmente e que obviamente não saiu bem.
E nunca sairá e o "nível do kendo assim não evolui", concluiu o sensei Osaka, se não deixarmos de ter medo, ou vergonha, de ser atingidos pelos colegas de keiko.
E, em seguida... em seguida acabou.
Quarta há mais. Sayonara.
ELE HÁ COISAS...
Reparem bem no jodan kamae do senhor da direita. Notam algo estranho???
http://www.youtube.com/watch?v=rqjbFYcpxD4
Isto só visto, de facto.
O sensei Osaka já me tinha falado nisto, mas como uma coisa que se usava no tempo da Maria Cachucha... mas eu NUNCA tinha visto ou imaginado ver sequer.
26.5.07
A PALAVRA DO SENHOR (OSAKA) 49
Mais uma aula dedicada em grande parte a Bokuto Waza.
No final, depois de algum kakari-geiko à mistura com uns minutos de ji-geiko, as palavras do senhor Osaka foram dedicadas exclusivamente a incitar-nos a usar o que aprendemos com Bokuto ni Yoru Kendo Kihon Waza Keiko Ho para melhorar a qualidade do nosso kendo.
E reparem que ele não disse "para ser mais rápido" ou "para marcar mais ippons" ou coisa que o valha.
E pronto, lá se foi a primeira semana de sempre (que eu me lembre) em que todos os dias houve uma parte dedicada ao estudo de Bokuto Waza.
Abayo.
* Faz lembrar qualquer coisa... hum... kata???
24.5.07
A PALAVRA DO SENHOR (OSAKA) 48
Pela segunda vez, grande parte do treino foi dedicada a Bokuto Ni Yoru Waza.
Limámos umas arestas que permaneciam do primeiro treino e, quando re-agarrámos nos shinais, aproximámos a nossa técnica um pouquinho mais das técnicas com katana que estão na base do kendo moderno.
E essa é a ideia, por isso... só vantagens.
No fim, Osaka sensei realçou mais uma vez o papel fundamental de Motodachi (desta vez) na prática de Bokuto Waza.
- Se Motodachi é mau, Kakarité também é mau... tudo é mau.
E eu que fui o Motodachi dele durante todas as demonstrações... ups.
23.5.07
IPPON-ME: SUTEMI-NO-ITTO E PECADO CAPITAL.
Diz um velho ditado do kendo que: “Deve-se praticar kata com o mesmo espírito de combate e praticar combate com o mesmo espírito de kata.”Na “descrição oficial” de Ippon-me o ataque que uchi-dachi executa é, entre outros pormenores, descrito como um ataque que contenha, e demonstre, sutemi.
Para ser mais exacto, o ataque em causa designa-se: men sutemi-no-itto.
(Fazemos aqui um pequeno intróito para dar algumas pistas aos leitores menos atentos acerca do assunto deste post. Para tal recorremos ao nosso já indispensável Dicionário de Kendo Japonês-Inglês, publicado pela Zen Nippon Kendo Renmei, que define o conceito de sutemi nos seguintes termos:
Sute-mi (subs.) – O estado de se entregar completamente (para cumprir um objectivo) mesmo que isso ponha em risco a própria vida; (durante um campeonato) atacar e tentar marcar com um único golpe, sem se preocupar com a eventual (Nota Trad.: e natural) reacção do adversário.)
Assim, e para o comprovar, depois de uchi-dachi ver o seu corte evitado por shi-dachi, vê-se ele próprio numa situação bastante vulnerável, simbolizada pela inclinação acentuada em que o seu corpo se encontra quando termina o mencionado kata.
Aquilo que em princípio parecia ser um ataque bem executado, compenetrado, um ataque “com tudo”, chamemos-lhe assim, terminaria com um resultado, no mínimo, difícil de suportar para o atacante, caso o recontro se tratasse de mais do que um mero exercício de treino, ou seja, terminaria com a sua morte.
Claro que isto podia facilmente levar-nos a considerações filosóficas intermináveis acerca do enquadramento tradicional do suícidio ritual na sociedade japonesa, ao seppuku (erradamente também conhecido como hara-kiri), aos kami-kaze, etc, etc, etc.
Mas não vamos por aí. A pergunta que me atormenta a alma de kendoka neste instante é mais ou menos esta: o ataque executado por uchi-dachi, e o tal sutemi que lhe está associado, representam a última esperança do atacante ou são, pelo contrário, (já) um sinal de desespero?
Afinal, sutemi é suicídio ou esperança?
Vamos lá então tentar dissecar um bocadinho mais ippon-me e o seu men sutemi-no-itto. Para tal vamos ter de recuar uns anitos, mais de uma centena deles, até 1906, ano em que o primeiro comité encarregado de criar uma versão unificada dos kata praticados pelos diferentes ryu(s) de kenjutsu apresentou a sua proposta.
Dirigido por Watanabe Noboru, o referido grupo de peritos apresentou os resultados dos seus esforços na forma de (apenas) 3 kata.: Jodan (ten=céu), Chudan (chi=terra) e Gedan (jin=humano).
Por motivos que não interessam agora, essa primeira versão nunca foi divulgada e seria preciso esperar até 1912, altura em que o segundo comité, composto por cinco dos maiores mestres de kenjutsu da época Negishi Shingoro, Tsuji Shimpei, Naito Takaharu, Monna Tadashi e Takano Sasaburo apresentou os Dai Nippon Teikoku Kendo Kata (Kendo Kata do Grande Japão Imperial) que consistiam em 7 kata de tachi contra tachi e 3 kata de tachi contra kodachi, para que se começasse a praticar kata de uma forma unificada e bastante semelhante à que ainda se pratica hoje.
Mas desse primeiro comité, para além da flagrante falha em conseguir convencer os seus conterrãneos das vantagens do seu método, desse primeiro comité alguma coisa ficou.
Na verdade, duas coisas essenciais permaneceram na versão de 1912. As guardas dos 3 primeiros kata permaneceram as mesmas, Jodan, Chudan e Gedan, e por outro lado, o facto de esses 3 primeiros kata terem sido criados e dirigidos especialmente para a aprendizagem das crianças nas escolas públicas.
E isto diz-nos o quê acerca de ippon-me? Bom, Ippon-me é uma kata muito especial, não só por ser a primeira, mas também pelos ensinamentos que encerra. Senão vejamos, quais seriam os “resultados práticos” para o atacante, uchi-dachi, dos 3 primeiros kata?
Ippon-me – Uchi-dachi morre.
Nihon-me - Uchi-dachi fica sem a mão direita, mas sobrevive.
Sambon-me - Uchi-dachi não fica ferido sequer, mas recebe uma lição de humildade e termina contemplando a morte, representada pela lâmina de shi-dachi colocada bem no meio dos seus olhos.
Tudo estaria “muito bem”, não fosse o facto de, segundo os princípios budistas, tirar a vida a qualquer ser vivo, SER O PECADO MAIS HEDIONDO QUE SE PODE COMETER.
“Ambos assumem jodan e encaminham-se um para o outro com auto-confiança...” assim diz a descrição original do kata. Ambos se apresentam em jodan-no-kamae. A kamae celeste, pontas dos sabres apontadas para o céu. Desta forma, ambos afirmam a justeza das suas convicções e a sua correcção. Este será um embate do certo contra o certo.
Como nenhum deles é movido pelo mal, em teoria, este combate será ganho pelo que apresentar, não só superioridade técnica, mas sim um melhor entendimento de shin-ki-ryoku-itchi (a união da mente, do espirito e da técnica).
Vista desta forma, Ippon-me é bem ilustrativa do primeiro estágio de aprendizagem da via da espada, pois representa o poder e a habilidade técnica necessárias à aplicação daquilo que se acredita ser certo.
Mas, e perguntarão, está certo matar? Mesmo na situação descrita, em que nos tentam matar a nós primeiro? A importância dos princípios do Budismo no Budo nunca deve ser minimizada. De acordo com os principios budistas, já o disse antes, não. Não está certo. E para o provar, na verdade, para se penitenciar do pecado que é tirar a vida a outro ser, a atitude de shi-dachi irá mudar nos dois katas seguintes.
E sutemi, no meio de isto tudo? Voltaremos a falar acerca do assunto no próximo post intitulado
NIHON-ME: A REDENÇÃO.
Até.
21.5.07
A PALAVRA DO SENHOR (OSAKA) 47
Bokuto ni Yoru Kendo Kihon Waza Keiko Ho. Pela primeira vez, hoje, pratiquei-o dirigido pelo sensei Osaka.
Já tinha tido keiko de Bokuto Waza em Kitamoto, mas nunca com o senhor Osaka. Foi uma experiência enriquecedora.
É que, ao contrário de muita gente, que o considera como uma coisa ideal para crianças e jovens liceais, eu, desde o primeiro momento que tive contacto com ele, acho que Bokuto Waza é uma das melhores maneiras de ensinar (e compreender) as origens das técnicas que utilizamos todos os dias com o shinai. Um pouco como kendo kata, só que mais simples.
A utilização correcta do shinogi, a noção de ma-ai... hasuji... está lá tudo.
E sem nenhuma das preocupações estéticas e formais de kendo kata. Tão simples, na verdade.
No fim, depois de 100 kirikaeshi, o sensei disse-nos apenas que 100 (às vezes 200) era como se fazia no Japão antes de acabar um treino normal.
E voltou a insistir num sho-men uchi forte (como um ippon) sempre no final de cada série.
E pronto, quarta há mais.
19.5.07
A PALAVRA DO SENHOR (OSAKA) 46
"Mais calor, mais kiai."
Foram estas as únicas palavras do sensei Osaka no dia em que, 3 meses depois, voltei a fazer ji-geiko contra ele.
Está forte.
Nem me atrevi a fazer jodan. Usar a minha "arma secreta" contra ele? Só ia servir para ficar ainda mais deprimido em relação às minhas actuais (e muito pobres) capacidades de "gestão simbólica de conflitos".
Levei uma tareia em chudan e já foi muito bom.
Está muito forte.
Fui-me.
17.5.07
A PALAVRA DO SENHOR (OSAKA) 45
A aula foi calma hoje.
Toda a gente achou isso.
Até EU achei isso, mesmo depois de quase 3 meses sem treinar.
Foi calma... kirikaeshi, kakari-geiko, ji-geiko... alto lá.
Uma aula assim tem todos os ingredientes para ser uma aula espectacular. Se calhar, e talvez devido à minha pequena constipação, não dei tudo o que tinha para dar... ?
Pois foi acerca disso mesmo, de dar tudo, que o sensei Osaka falou no fim do treino. Especificamente, acerca de dar tudo no sho-men que antecede, e que conclui, cada série de sayu-men de cada kirikaeshi.
Segundo ele, sho-men num kirikaeshi deve ser SEMPRE executado como se fosse para marcar ippon.
Por outras palavras, com todo o ki-ken-tai no itchi que se arranjar lá no fundo do... do... pulmão, ou de onde quer que seja que se vai buscar a força para fazer cada kirikaeshi nosso de cada dia... de keiko.
Pronto. Foi só... ah... também falou da distãncia ideal para se executar kirikaeshi, mas acho que isso ninguém ouviu.
Nunca ninguém ouve.
Até sexta.
15.5.07
FUDOSHIN
Fudoshin é também o título de um documentário dedicado a Miyazaki Masahiro.
Olha o trailer aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=z9TKs0tzlLM
O homem é o maior.
O quê? Eiga?... Oh pá, não me façam rir que tenho cieiro nos lábios...
10.5.07
PORTUGAL VERSUS SUÉCIA ( 21º EKC, LISBOA)
http://video.google.com/videoplay?docid=6150096272023145695&q=kendo+portugal
Não sei a origem e, na verdade, nem me preocupo em saber.
Mas é interessante.
9.5.07
A PALAVRA DO SENHOR (OSAKA) 44
Dia fixe, calminho. Não "morri" pelo caminho.
Kirikaeshi (claro), shomen-uchi, uchikomi-geiko, kakari-geiko... o costume. e um bocadinho, uns 5 minutos ou 6, de ji-geikooooo. Ahahahah.
Há 3 meses que não fazia ji-geiko. Que gozo. Combati com o Jorge e depois com o Joni. Devo ter estado muito mal... mas soube muito bem. E quando já me sentia mais à-vontade e comecei a fazer jodan contra o "semi-japonês"... acabou-se o ji-geiko.
No fim, o sensei referiu que quando se faz treino com vários motodachi, como foi o caso de hoje, deve sempre procurar-se um motodachi que esteja livre e nunca empatar ou ficar a olhar sem treinar.
E disse outra coisa qualquer que agora não me lembro. Deve ter sido qualquer coisa relacionada com tentar fazer bem kirikaeshi, uchikomi-geiko e kakari-geiko. É que essa é a única forma de o kendo se tornar mais forte, mais definido... numa palavra: melhor.
É isso mesmo. Foi isso mesmo que ele disse.
E "magister dixit" está dixito.
7.5.07
A PALAVRA DO SENHOR (OSAKA) 43
Um dia sem treinar e o teu corpo nota.
Uma semana sem treinar e o teu adversário nota.
Um mês sem treinar e a assistência inteira nota.
Eu não treinava desde 14 de Fevereiro.
Tou quasequasequase, quase morto.
Tudo no treino de hoje me correu... esquisito. Isso, esquisito é uma palavra boa.
Adorei voltar a vestir o bogu andar à paulada, não haja ilusões acerca disso, mas não correu bem... não correu... a mão esquerda doía e não estava a funcionar correctamente, tanto que fiz uma bolha, no polegar claro; o ki-ken-tai não estava no-itchi; o meu kirikaeshi parecia as pás um helicóptero russo avariado, o uchikomi-geiko foi desastroso, o kakari-geiko um pesadelo.
Enfim, quem estava fresco que nem uma alface era o nosso incansável sensei Osaka (kendo nanadan, tirar chapéus por favor... ok, siga) que no final do treino se referiu às idiossincrasías de uchikomi-geiko e de kakari-geiko, dizendo que quando se faz uchikomi-geiko deve existir a preocupação de fazer movimentos maiores e mais bem feitos (donde o facto de motodachi, oferecer "os alvos" e facilitar a execução de kakarite); já quando se executa kakari-geiko, o importante é fazer rápido mesmo que durante pouco tempo. Manter um bom ritmo por pouco tempo (que seja) é o mais importante.
"Não pensar, fazer." dizia o senhor japonês. Cansado? Paciência.
Isso, paciência.
Quarta-feira será melhor...
... espero... digo eu.
CAMPEONATOS DA EUROPA DE KENDO 2007: CRÓNICA DA VITÓRIA DE PORTUGAL.
Disseram-me: “Escreve um texto para a revista Kendo-World sobre o kendo em Portugal e os campeonatos da Europa de 2007... e despacha-te.”
E cá estou eu, enfrentando a tradicional folha em branco, cada vez com menos tempo para resolver a situação. A noite vai já avançada e a musa parece estar em vias de ser declarada como shiai-funo-sha (ausente, incapacitada para o combate).
Não fosse o facto de ser uma folha digital, e não de papel verdadeiro, e o cliché não poderia ser mais completo.
Para desanuviar atiro-me para cima do sofá e tento fazer divergir os meus pensamentos. Ligo a TV.
Num dos canais estatais, no telejornal da meia-noite, o pivot conversa com dois comentadores “especializados” em desporto sobre as possibilidades da selecção lusitana nos próximos campeonatos da Europa de kendo, os quais se realizarão em Abril de 2007 na capital portuguesa....
zap... salto para o outro canal estatal e um eminente historiador traça o percurso do kendo em Portugal, desde os primeiros tempos, no princípio dos anos oitenta. Sistemático o catedrático leva-nos ao tempo em que um pequeno núcleo de praticantes do então Budokan de Portugal, mais tarde liderados por Karan Tetsuo (7º Dan Kendo, 5º Dan Iaido) natural de Miyazaki, Kyushu, iniciaram uma prática regular da esgrima japonesa... “foi neste mesmo lugar, neste mesmo dojo, corria então o ano de 1986, que Karan Tetsuo...”
zap... primeiro canal privado... representantes das claques apoiantes das diferentes associações nacionais de kendo, discutem as ídiossincrasias dos kendokas do sul comparativamente com as do centro e norte do país... entra bloco comercial... “Agora em DVD, toda a emoção do último campeonato nacional de kendo. Duas horas com os melhores ippons, os momentos mais dramáticos e mais decisivos da temporada....e a alegria dos vencedores apurados para a selecção do Euro 2007. Tudo num fantástico DVD, por apenas...“
zap... segundo canal privado... uma entrevista, em repetição, de Masakiyo Osaka sensei: “Quais foram as suas primeiras impressões quando chegou a Portugal em 1989, e como via a prática do kendo nesses tempos, comparada com o sucesso que o mesmo tem hoje?”... já vi isto antes... ele era godan na altura, depois mostram-no, já rokudan, a receber uma medalha comemorativa dos seus quinze anos de prática em Portugal...
zap... Canal de História: numas imagens de arquivo referentes ao Campeonato da Europa De Kendo de Bern, 2005, o presidente da Associação Portuguesa de Kendo (APK), Dr. Nuno Serrano, recebe o estandarte da EKF, como prova de compromisso da APK para a realização, em Lisboa, dos 21ºs campeo...
zap... SportTv... você vai poder assistir em directo e na integra, só aqui na SportTv, ao acontecimento desportivo de 2007. Contacte já a CableTv e assine este Pay-Per-View Especial Kendo 2007...
zap... canal de vendas...
- ... mas não é só, Jim - que dobragem horrível - ao adquirir este fantástico bogu, made in Taiwan, sabes o que é que podes ganhar?” – mas Jim não sabe, Jim não faz a mínima ideia. - pois então, seis bio-shinais, seis...
- Seis Jack? Seis bio-shinais?
- Sim Jim, mas há mais:
- Que é que queres dizer com isso, Jack?
- Olha para ali. – Jim está espantado, custa-lhe a acreditar, mas Jack não pára - vês esta caixa de DVD’s? – Jim acena e agora até eu fico curioso - é o DVd triplo da autoria de Chiba sensei... - dou um salto, o comando cai ao chão e o aparelho de TV desliga-se repentinamente.
Agarro-o rapidamente e parto em busca do DVD triplo de Chiba sensei.
Ligo de novo no canal onde estava sintonizado, mas tudo o que se me depara é um debate sobre a presumivel (e ilícita?) apropriação e utilização por parte da comunidade gay da imagem de um conhecido jogador de futebol português ao serviço do Manchester United.
“Zapo” com toda a minha energia, mas em vão. O Canal de História fala agora das rivalidades entre o Real Madrid e o Barcelona, nos canais portugueses, em todos eles, discute-se o resumo e os golos da jornada do fim-de-semana...
A minha desilusão só tem comparação com a tristeza que sinto. Apercebo-me que tudo não passou de um sonho e volto com esforço para o computador.
A folha ainda lá está, na mesma.
O meu problema mantém-se: como explicar a toda uma comunidade internacional a importãncia que um evento como um campeonato da europa tem para os praticantes de um país como Portugal? Um país com uma comunidade japonesa residente que rondará, talvez, as trezentas pessoas e onde o kendo é praticado há pouco mais de vinte anos?
Começo a duvidar se tal explicação será possível ou se fará sequer sentido, mas há apenas uma coisa de que eu tenho a certeza. E isso é que a APK e todos os seus associados e voluntários vão fazer tudo o que estiver ao seu alcance para que este campeonato seja inesquecível para todos os participantes.
As estações de TV não vão entrar em guerra pelos direitos de cobertura do campeonato? Provavelmente não. Os jornais desportivos, caso haja falta de escãndalos relacionados com a arbitragem de futebol, talvez dispensem um pequeno espaço para um notícia minúscula? Provavelmente sim.
Mas isso é o que menos importa, com maior ou menor cobertura mediática, melhores ou piores resultados desportivos, o 21º Campeonato da Europa da Kendo em Lisboa será um sucesso.
“Como pode ele afirmar semelhante coisa?” – perguntarão talvez os leitores mais incrédulos?
A verdade é que, para nós, kendokas de Portugal, só o facto de a European Kendo Federation ter confiado a uma pequena e recente associação nacional como a portuguesa, a tarefa de organizar os campeonatos, só isso já é uma vitória.
Se acrescentarmos a possibilidade aprender que tal evento representa, bem como a quantidade de informação e de experiências que serão trocadas ao longo dos 3 dias de provas e exames, então não tenho menor dúvida: Portugal (já) ganhou o Campeonato da Europa 2007.
Já ganhámos, digo-vos eu.
E isso é um sonho que, ainda os campeonatos não se realizaram e, esse sim, já é uma realidade.
2.5.07
PARABÉNS OSAKA SENSEI (KENDO NANADAN)
(Como, aliás, já era de esperar.)
Agora é só mais sete anitos e já poderá candidatar-se ao exame cuja taxa de sucesso é uma das mais baixas do mundo... o de oitavo dan de kendo.
Gambatte Osaka san.
14.2.07
A PALAVRA DO SENHOR (OSAKA) 42
Belo treino.
Grande treino.
Grande ji-geiko.
Fiz jodan-kamae contra o senhor Osaka durante uns bons cinco minutos. Não lhe acertei uma (ou acertei uma?) mas que é que isso interessa? Curti p'ra caraças. (PS.: Obrigado Rui, por me cederes o teu lugar. Fico a dever-te uma.)
No fim, Osaka san referiu-se apenas ao facto de hoje ter sido o último treino antes do estágio com os senseis Itto e Ariga. Acho que ele está contente com a condição técnica em que o pessoal se encontra.
Foi um último keiko excelente.
Obrigado a todos.
Vemo-nos num dojo por aí.
13.2.07
KATA: SIM OU SIM E PORQUÊ? (4 E ÚLTIMO)
Para assistir aos dez katas actuais (7 tachi + 3 kodachi) clique no linkhttp://www.youtube.com/watch?v=XWzdIpayeFk
Nakanishi Chuta Tanesada não é um nome imediatamente reconhecido no mundo das artes marciais. De tal modo, que até hoje há quem discuta se estudou kenjutsu instruído por Ono Jiroemon Tadakata, o quinto representante da tradição do Ono-ha Itto-ryu, ou pelo sexto, Ono Jiroemon Tadakazu.
No entanto, o que se sabe é que depois de alguns desacordos com os seus superiores, Nakanishi Chuta abandonou o estilo Ono-ha Itto-ryu e fundou a sua própria escola de kenjutsu denominada Nakanishi-ha Itto-ryu*.
Quando, por volta de 1750, Nakanishi teve a idéia (mais tarde implementada pelo seu filho e sucessor Nakanishi Chuzo Tadakata) de desenvolver e melhorar as protecções existentes utilizadas dos praticantes de kenjutsu**, estava, de certa maneira e pela primeira vez, a separar as águas daquilo a que hoje comumente nos referimos como kendo e kenjutsu, ou se se quiser ser um bocadinho mais radical, entre shinai-kendo e kendo-kata.
Claro que muitos anos e muitos acontecimentos tiveram de ter lugar antes que o kendo se transformasse naquilo que é hoje, e é também claro que Nakanishi Chuta não terá nunca (injustamente?) a fama de um Miyamoto Musashi, mas o seu papel de pioneiro na concepção e melhoramento do equipamento protector foi, é e deverá ser sempre entendido um dos maiores e mais importantes contributos para o desenvolvimento não só do kendo, mas do próprio budo.
Basicamente, o que Nakanishi Chuta fez foi separar e identificar os diferentes elementos que, digamos assim, constituem, por um lado, o “vocabulário” e, por outro, a “gramática” da linguagem do kendo.
Desde essa altura, o kenjutsu, propriamente dito, e tudo o que ele envolve, kumitachi, kata, reiho, etc, passa a ser o vocabulário, a fonte, a origem das diferentes técnicas.
A parte de combate, e na falta de melhor palavra, chamemos-lhe kendo, passa a ser a gramática, que é como quem diz, a utilização dos vocábulos no diálogo (combate) com o opositor.
Chegamos assim ao fim da nossa viagem. Para que serve kata?
Continuando a abusar um bocadinho da metáfora da linguagem, e esperando que não da vossa paciência, kata serve para se poder falar melhor.
Kata serve para se saber a origem das palavras que trocamos todos os dias.
Kata ensina a ver (enzan no metsuke), ensina ritmo e ma-ai; ensina a respirar, a posicionar-se e a deslocar-se.
Kata ensina a tomar iniciativa e a esperar.
Kata ensina a liderar e a seguir.
Kata ensina tudo isso e muito, muuuuito mais.
Em resumo, kata ensina os fundamentos da boa linguagem do kendo.
E essa, é preciso não esquecer, é como qualquer outra linguagem:
O QUE INTERESSA NÃO É FALAR DEPRESSA, O QUE INTERESSA É FALAR BEM.
Abayo.
*“Ha” significa facção ou variante. Assim, Nakanishi-ha Itto-ryu significará algo como “a variante Itto-ryu de Nakanishi”.
**Acerca deste assunto, ver a versão corrigida do artigo “A escola da paciência” algures neste blog.
A PALAVRA DO SENHOR (OSAKA) 41
Hoje as palavras do senhor Osaka centraram-se apenas sobre a postura a ter quando se executa sho-men uchi.
Muito brevente, recomendou apenas que se mantenha o corpo direito durante toda a execução do movimento.
Estava muito económico com as suas declarações, hoje o sensei.
O treino? O treino não foi tão "barra pesada" como nos últimos dias mas foi bastante vigoroso, a moda do kakarigeiko continua, com kakarite a decidir a duração de cada ronda, muito kirikaeshi, depois men, kote-men... depois ji-geiko... enfim, foi bom.
Kirikaeshi para acabar... foi bom.
Até quarta...
8.2.07
KATA: SIM OU SIM E PORQUÊ? (3)
No kendo, o combate não deverá estar apenas centrado sobre o facto de tocar ou ser tocado, mas deverá debruçar-se sobre a busca de uma plenitude de si-mesmo no acto do combate; e quem não perceber isto, só muito dificilmente poderá perceber o porquê de praticá-lo*.
Já sabemos que o kendo não é uma repetição directa da prática da arte do sabre dos samurai.
Os samurai que se preparavam para combater na época feudal, previam e preparavam o combate de uma maneira que ultrapassava largamente a prática no dojo.
Mas convém lembrar que, por outro lado, nos séculos XVIII e XIX a arte do sabre, o kenjutsu, desenvolveu-se e aprofundou-se, sobretudo, através da prática nos dojos. Os praticantes, que procuravam a profundidade e a eficácia da arte, limitaram, no entanto, o número de técnicas em relação às que tinham sido usadas na época das guerras feudais.
Ao mesmo tempo, várias codificações técnicas e regras de combate foram implementadas TENDO EM VISTA FACILITAR A BUSCA dessa mesma profundidade e constituiram a estrutura de uma arte do sabre que era então denominada kenjutsu ou gekiken.
Kenjutsu que, dentro desse quadro estrutural, atingiu um nível notável no fim da época Edo.
O significado da prática do sabre mudou progressivamente nos finais do século XIX, virando-se ainda mais no sentido da sua interiorização e dando assim origem ao kendo. As técnicas foram (ainda mais) limitadas e é nesse novo enquadramento que os adeptos do kendo procuram a profundidade do combate.
E é essa mudança qualitativa que marca a nascença do budo.
(Fim da tal espécie de introdução).
Já me perguntei várias vezes neste blog e volto agora a perguntar:
Para que serve então a prática do kendo?
O leitor mais atento simplesmente recorrerá ao primeiro parágrafo da introdução acima e responderá: “Para buscar a plenitude de si-mesmo durante o acto de combate.”
Mas, sob a capa essa resposta aparentemente tão simples, há muito mais que se lhe diga. Se não vejamos, então porque não praticar simplesmente uma outra arte marcial ou um desporto de contacto?
É inegável que, se a dita plenitude de si mesmo “se esconde” debaixo do acto de combate, então o lugar e o momento onde essa plenitude pode ser descoberta, surgirá tão fácil ou dificilmente no kendo como numa outra actividade marcial (leia-se budo) qualquer.
Ou não?
E assim, entramos agora naquela fase em que eu digo aquilo que acredito em relação ao tema.
Eu acredito que a resposta à pergunta é não.
Acredito que, nos dias que vivemos, o kendo continua a ser o mais próximo que se consegue chegar dessa tão desejada plenitude do combate, no budo, e que o mesmo possui, desde a sua criação, todos os instrumentos necessários e indispensáveis para o efeito, coisa que nenhuma outra arte marcial moderna (exceptuando talvez a naginata) se pode gabar.
Dirão:
Mas o shinai não é uma katana. Com certeza que não.
As técnicas são limitadas em número e em utilização. Podemos dizer que sim, embora haja peritos que possam discordar de tal frase.
O kendo “transformou-se demasiado” em desporto. Parece-me que nenhuma afirmação demonstra mais a ignorãncia e o desconhecimento total da realidade que essa.
Meus amigos deixemo-nos de histórias. A verdade é que, mais que não seja, o kendo é a única arte marcial japonesa, das que se debruçam sobre o uso da espada, que possui no seu curriculum a prática de combate livre. Vão buscar os kenjutsu’s que quiserem nenhum deles pratica o combate livre.
Mesmo casos extremos e muito “avançados” como, por exemplo, o Ono-ha Itto-ryu, famoso sobretudo por ser o estilo tradicional de kenjutsu da Polícia de Tóquio, não pratica ji-geiko.
E é a prática do ji-geiko, RECORRENDO AO USO DE EQUIPAMENTO APROPRIADO DE PROTECÇÃO, que faz toda a diferença.
Mas temos de concordar que a plenitude do combate com shinai apesar de poder ser alcançada pela via do ji-geiko, não corresponde exactamente, em termos técnicos, ao uso de uma katana.
Depois de isso só há duas coisas a dizer:
1ª - Bokuto ni yoru kendo kihon waza keiko ho;
2ª - Nihon kendo-no-kata;
Depois deste elogio rasgado à arte marcial que pratico e que adoro, concluo no próximo post. Prometo.
*Na verdade, estou plenamente convencido que este é o busílis da questão; o que explica a pequena quantidade percentual de praticantes que continuam a prática do kendo, uma vez passada a fase de deslumbramento inicial.
7.2.07
A PALAVRA DO SENHOR (OSAKA) 40
Que lhes posso eu dizer que ainda não lhes tenha dito???
Ou, melhor ainda, que nos pode ele dizer que não nos tenha dito ainda?
O treino de hoje, desculpem a expressão, foi do caraças.
Vejam só, back to basics:
Tai-so... shomen-suburi... sayumen-suburi... seiza... kirikaeshi (bué)... kakari-geiko (buéreré)... kirikaeshi (50 sem parar). Seiza... e já está.
Nas suas palavras finais Osaka sensei encorajou as hostes a fazer sempre "kirikaeshi bonito". Só assim, diz ele, o nível do nosso kendo pode subir.
Especialmente na última série do dia (mesmo que seja uma série de 50 como hoje), o último shomen deverá ser sempre forte e bem marcado... como se fosse ippon.
Mais fácil de dizer do que de fazer.
Tou feito em papa... e ralada.
Até segunda, pois que sexta-feira há reunião da Assembleia Geral e não há treino.
5.2.07
A PALAVRA DO SENHOR (OSAKA) 39
Enfim, :-) mais um dia "rico" em kirikaeshi. :-D
Parece que o sensei Osaka está decidido a só parar de fazer kirikaeshi quando formos todos minimamente eficientes na execução do mesmo.
Desta vez, depois de (mais) uma sessão espectacular de kirikaeshi-geiko, as suas palavras finais foram breves e extremamente precisas. Com três palavrinhas apenas se pronuncia a expressão "te-no-uchi".
E foi só isso que ele disse: no kirikaeshi, falta te-no-uchi.
Nota mental para o próximo dia: Lembrar de fazer kirikaeshi com mais e melhor te-no-uchi.
É assim. Falta sempre alguma coisa. Nunca se sabe tudo.
Quer dizer que isto dá pr'á vida toda?... hein?... É?...
2.2.07
A PALAVRA DO SENHOR (OSAKA) 38
O "curso intensivo" de kirikaeshi prossegue a bom ritmo.
E o dia de hoje não foi excepção. Kirikaeshi, kirikaeshi e mais kirikaeshi e... ji-geiko.
E teria sido um dia mais apenas, não fosse a presença do nosso ilustre sempai Nuno Ricardo que, arribando de terras do norte, nos deu o prazer de ilustrar ao vivo a arte de bem fazer kirikaeshi em qualquer dojo.
No fim, as palavras do sensei Osaka viraram-se, inevitavelmente, para kirikaeshi.
Disse-nos que temos de ter atenção com a posição das mãos no momento do impacto.
Ter cuidado em fazer bem o ãngulo sayu-men de um lado e de outro, usando sempre a mão esquerda como referência, ao meio.
Que o mesmo é dizer, cortar com ângulo igual de ambos os lados.
Por fim, deixou uma pequena nota acerca da movimentação dos pés. Deve ser sempre igual... o tamanho dos passos para a frente e para trás, certo?
E não disse mais.
Depois disso, já a caminho de Campo de Ourique disse-me mais qualquer coisa, disse-me que o pessoal que vai fazer o estágio com Itto sensei e Ariga sensei vai ter uma surpresa. E mais não digo, pois se calhar já toda a gente sabia menos eu.



