15.11.05

A NOÇÃO DE “DO”

(Vimos que) é portanto inadequada a definição do budo em função dos seus traços de austeridade e severidade, ou pela espiritualidade do ascetismo. Budo significa, literalmente, via marcial. É necessário reflectir sobre a prática técnica das artes marciais (bu) em relação à noção de via (do).
Hoje, no Japão, a modernidade é fortemente valorizada e algumas pessoas mais jovens apresentam uma reacção quase alérgica quando se lhes fala de do. Eu penso que a via não é nem arcaísmo nem misticismo. O do é constituido pelo tempo de vida, desde o nascimento até à morte. A via é feita de subidas e descidas. Todos percorrem esse caminho mas ele não se impõe à consciência e é fácil de se dispersar com o passar do tempo. A partir do momento que se fala de via, há uma direcção e um objectivo.
Quando, durante esse lapso de tempo que é uma vida, se associa à prática das artes marciais uma tensão no sentido do aperfeiçoamento pessoal, ou seja, do indivíduo na sua totalidade, é então que a ideia de budo nasce. A ideia de melhoramento pessoal está presente em todas as culturas. No entanto, o que isso significa para os japoneses parece-me ser muito diferente do que significa para os europeus. Mas, mascarada pela ideia de progresso, as diferenças não surgem à vista numa primeira abordagem. Se um ocidental pretende praticar budo a tempo inteiro, um dos problemas mais importantes parece-me ser a capacidade de pôr em prática a concepção de via (do).
É fácil compreender que a questão do budo não se põe nos mesmos termos para os japoneses e para os ocidentais. A compreensão mútua deve ultrapassar primeiro um certo número de problemas que vou tentar identificar.

Próximo artigo: A transmissão do budo pelos japoneses

14.11.05

CONTRIBUIÇÃO PARA A POLÉMICA A PROPÓSITO DE SEIZA.

Ao fazer seiza, qual a perna que desce primeiro? E qual a perna que se levanta primeiro? Onde é o Kamiza? Etc etc.
Tem havido alguma conversa ultimamente sobre o assunto no dojo. Então, movido pela curiosidade, fiz umas pequenas pesquisas e os resultados a que cheguei resumem-se no diagrama acima.
Segundo as regras da Ogasawara-ryu Reiho (a escola de boas maneiras que rege a etiqueta do kendo japonês) há sete posições possíveis em que nos podemos encontrar sentados num dojo, sem desrespeitar o Shinza (onde as divindades se sentam).
No diagrama (uma representação ideal de um dojo), as setas indicam o lado para onde os praticantes estão virados. De notar que o ângulo “mais extremo” admitido (posições f e g) é de 90° em relação ao Shinza.
Assim, podemos chegar à conclusão que, regra geral, os homens (pormenor importante) se sentam com a perna esquerda primeiro, em quase todas as situações, excepto quando se encontram virados para norte e para lá da linha central do dojo, do lado Leste (posição c) e quando se encontram virados a 45°, do lado Oeste do eixo central do dojo, enfrentando a esquina do Kamiza (canto alto) a Leste (posição d).
A partir do instante em que sabemos que as mulheres eram aconselhadas a agir de forma contrária aos homens, a pergunta lógica é: as mulheres sentam-se e levantam-se ao contrário disto tudo? Muito sinceramente? Hoje em dia? Em 2005? Duvido.
É mais certo que as raparigas japonesas saibam qual é perna que a Victória Beckham enfia primeiro quando veste as cuequinh... ah, esqueçam.

Vocês preocupam-se em saber cada coisa.

11.11.05

O QUE É O BUDO?

Falei de budo, mas o que é o budo? Contrariamente à ideia corrente, o budo não é a repetição directa da prática guerreira das artes marciais. É sim um conceito moderno que visa uma formação global do homem, intelectual e física, através das disciplinas tradicionais de combate; sendo “budo” o termo geral que abarca o conjunto dessas disciplinas.
No Japão, quando se discute o espírito da prática do kendo, do judo ou do karaté, utiliza-se frequentemente a palavra “enquanto”. Por exemplo, o kendo “enquanto” desporto ou o kendo “enquanto” budo.
O budo evoca imagens de seriedade, severidade, ritual, respeito pelos antepassados e pelo mestre, meditação silenciosa... nessas imagens, o budo transmite a impressão de uma prática conservadora e de uma atitude austera. O dojo evoca a imagem serena de um espaço sombrio e de pavimento liso que se opõe à do desporto, sob as luzes fortes de um ginásio ou do ar livre. Com efeito, quando se fala em desporto, a imagem é mais livre e, de certa forma, mais ensolarada.
No Japão, quando se fala de budo a propósito do karaté, trata-se tanto de uma prática dura, na qual não se evita o combate ao KO, como de uma prática austera que se afasta completamente da competição. Alguns associam-no a um treino ascético na montanha, sendo a confrontação à violência a caracteristica.
Noutras disciplinas, como no tiro com arco, insiste-se no aspecto espiritual e a harmonia na prática cerimonial é tal que a ideia de combate está excluída.
Existe portanto, no Japão, uma tendência para definir o budo pelo seu aspecto de austeridade e de duração. Mas é uma definição mais emocional que teórica e que não nos leva muito longe. No diz respeito à severidade, dureza e riscos envolvidos na prática, eles existem também no domínio desportivo, em disciplinas onde o risco é muito maior e levado ao extremo, como por exemplo, no alpinismo e nas corridas oceânicas de barcos à vela.
Então o que é o budo, afinal?

Próximo capítulo: A noção de “do”.

Antes que me esqueça, convém mencionar que todos estes artigos se encontram, na versão original francesa, no site de Kenji Tokitsu sensei, logo ali à direita e em cima, na zona dos links.


O BUDO PARA LÁ DAS BARREIRAS CULTURAIS

Em França (nota trad.: e no resto do mundo), um número considerável de pessoas interessa-se pelas artes marciais, nomeadamente pelo budo japonês. Mesmo assim, o budo não tem conhecido uma difusão suficiente, visto estar situado à margem do desporto onde o factor dominante é a competição.
Curiosamente, nem na pesquisa, nem no ensino universitários, nem mesmo no quadro da Société des Etudes Japonaises (Sociedade de Estudos Japoneses), o budo se constitui como sujeito de estudos mais sérios. No entanto, para quem procura aprofundar o conhecimento da cultura tradicional japonesa, parece-me fora de questão descartar o budo e a tradição guerreira. Com efeito, os guerreiros marcaram desde muito cedo a história do Japão e governaram a sociedade japonesa durante sete séculos, até á Restauração Meiji, há pouco mais de um século. A cultura dos guerreiros teve por isso um papel sociocultural importante que se prolongou mesmo depois de terminado o seu domínio político. Se a cultura dos guerreiros está presente hoje de uma forma manifesta no budo, ela está também, e ainda, presente de uma maneira mais alargada e profunda no comportamento dos japoneses.
Não direi, como certas pessoas, que o crescimento económico japonês do pós-guerra se deve à aplicação do comportamento guerreiro no campo económico pois a realidade parece-me ser bem mais complexa. No entanto, não me parece errado dizer que a tradição guerreira subsiste impregnada nos modelos de comportamento dos japoneses.
O período feudal deixou-nos um grande número de obras literárias e artísiticas e manifesta-se em bastantes obras culturais modernas. Nessas condições, como poderíamos abordar a cultura tradicional japonesa se nos abstraisse-mos dos elementos guerreiros?
O teatro No, a cerimónia do chá, o haïku, o bunraku, o kabuki... foram desenvolvidos numa sociedade dominada pelo sabre. Que o mesmo é dizer, com uma concepção de vida e de morte diferente da existente hoje em dia. A sensibilidade das obras culturais foi modelada pelos que viviam no tempo em que a espada tinha um papel efectivo.
Em França, os estudos aprofundados sobre a cultura japonesa parecem limitar-se aos domínios literário e artístico, abstraindo-se dos conceitos de corpo e de morte que, no entanto, eram fundamentais para todos durante a sociedade tradicional.
O facto de o budo ser excluído da reflexão intelectual é devido provavelmente à tendência cultural francesa, onde o modelo intelectual tende a excluir os problemas colocados pelo corpo. Não retomarei aqui essa questão. Simplesmente, essa situação parece-me lamentável e desejaria que o budo obtivesse um lugar honroso e justo nos estudos franceses sobre a cultura japonesa. Para isso é indispensável que os praticantes de budo ajam para fazer do budo uma prática cultural de corpo inteiro.

Próximo capítulo: O que é o budo?

10.11.05

BUDO. DO QUE FALAMOS?

Do que falamos, quando falamos de budo? Para além dos clichés do costume, do misticismo associado à palavra, das imagens de dojos de chão brilhante docemente iluminado pela luz da manhã, da dureza épica da prática diária e da relação quase imediata com práticas que roçam o sobre-humano? Mas, mais importante do que isso, poderemos nós, meros gaidjin, identificar-nos com o budo? Para ajudar a esclarecer um pouco esses tópicos, Kenji Tokitsu sensei escreveu em 1998 um fantástico, e longo, ensaio acerca do tema. Ensaio que passarei a traduzir e publicar neste blog nos próximos tempos, consoante a minha disponibilidade assim permita.
O primeiro capítulo chama-se O budo para lá das barreiras culturais e deverá surgir neste espaço em breve.

8.11.05

CORRECÇÃO

No post intitulado "VENCEDORES EM JODAN" escrevi que Kawazoe sensei era o único, dos três competidores que já venceram o campeonato japonês usando Jodan Kamae, que não era da polícia. Erro meu. Só Chiba sensei era polícia. Toda e Kawazoe não o eram.

ESTÁGIO DE ÉVORA


Decorreu no fim-de-semana de 5 e 6 de Novembro o 1º Estágio de Kendo de Évora.
Os treinos tiveram lugar no Ginásio da Escola Secundária André de Gouveia e contaram com a presença do Director Técnico da Associação Portuguesa de Kendo e Seleccionador Nacional, Sensei Masakiyo Osaka e do Sempai Luis Nunes, Director Técnico da Associação de Kendo do Alentejo.

7.11.05

HARAI (URA) + KOTE

Já está disponível no site da revista kendo-world (www.kendo-world.com), na página de downloads, o combate final do 53º campeonato do Japão. E, ao contrário do que li num post do forum desse mesmo site, a vitória de Harada não é por debana kote, mas sim harai (ura) kote. Vão até lá e digam-se tenho ou não razão.
Existe também uma reprodução contendo apenas a parte final do combate, mas num ângulo melhor, em http://www.kendo.or.jp/english-page/phot-jif/53rd-All-Japan-Kendo-Champ.wmv.
É mesmo harai kote ou não é?

4.11.05

VENCEDORES EM JODAN


Então? Ninguém se habilita a uma respostazinha? É o que eu sempre digo: passam a vida a ler os Hagakures e os Bushidos e essas merdas assim e quando acabam de ler não sabem nada sobre kendo. Cultura inútil, meus amigos. Cultura inútil. Enfim...

Até hoje, 7 campeonatos do Japão foram ganhos por kendokas em Jodan Kamae. A saber:
Chiba ganhou 3 vezes: 1967, 1970 e 1973. Aquando da sua primeira vitória tinha 22 anos e era 5º dan.
Hoje em dia, Chiba sensei é 8º dan hanshi e lançou ontem (3 de Novembro) um conjunto de três DVD’s sobre kendo, sendo o terceiro volume dedicado, adivinhem a quê, Jodan Kamae, pois claro.

Toda ganhou 2 vezes: 1963 e 1965. Aquando da sua primeira vitória tinha 23 anos e era 5º dan.
Hoje, Toda sensei é 8º dan hanshi e especialista em Nito Ryu.

Kawazoe ganhou 2 vezes: 1972 e 1976. Aquando da sua primeira vitória tinha 21 anos ( o mais jovem de sempre) e era 4º dan.
Dos três vencedores, Kawazoe sensei era o único que não era polícia. Kawazoe faleceu com 27 ou 28 anos num desastre ferroviário enquanto viajava pela China.

3.11.05

JODAN KAMAE


Por falar em Jodan Kamae, quem me sabe dizer se já alguém venceu e, se sim, quantos foram os kendokas que conseguiram triunfar no campeonato japonês lutando em Jodan?
Deixem as vossas respostas/opiniões nas caixas de comentário e em breve colocarei um post para acabar com as (possíveis) dúvidas. (Fotografia do 53º Campeonato do Japão da autoria de kendoman)


MAIS 53ºS ALL JAPAN KENDO CHAMPIONSHIPS

Então, vamos lá. O relatório mais completo a que tive acesso neste momento, acerca dos 53ºs All Japan kendo Championships, reza assim:

1º lugar - Sato (ou Satoru, já vi escrito das duas maneiras) Harada. 32 anos, rokudan, polícia de Tóquio. Nona participação. Já se tinha classificado duas vezes em 2º lugar e três em 3º.
O ippon da vitória foi obtido com debana-kote durante o encho.

2º lugar – Ryoichi Uchimura. 25 anos yondan, também polícia de Tóquio (na verdade, ele é kohai de Harada). Primeira participação.

3ºs lugares – Masaomi Hojo de Kanagawa (rokudan) e Osamu Uezono de Kagoshima (rokudan).

De resto, apenas alguns pormenores interessantes:

o participante menos graduado é sandan (Kenji Harada, irmão do vencedor);
o participante mais graduado é nanadan e chama-se Nabeyama Hamada;
o participante mais velho foi Yoshihisa Okaichi de Iwate, com 38 anos de idade;
54 dos 64 participantes são polícias;
4 (quatro) competidores que se apresentaram em Jodan Kamae, chegaram aos 16 melhores;
foram eles: K.Uchida de Shizuoka, K. Okuma de Hiroshima, K. Seike de Osaka (que derrotou o ex-campeão K. Ando) e ainda M. Matsumoto, também de Osaka, que se classificou em 4º lugar;
M. Matsumoto participou nos campeonatos pela primeira vez tal como Uchida;
para K. Seike e K. Okuma foi a segunda participação.

É caso para dizer que parece que Jodan Kamae está “em alta” outra vez, hehehe.

Perceberam? Hehehe. Jodan... em alta. Hehehe. Foi boa esta, não foi?

Nota: Estas informações foram pilhadas aqui e ali, mas sobretudo do site http://www.isenokami.com pertença de Akihito Abe.

PENSAMENTOS SOBRE O ESTÁGIO DE ÉVORA

Ocorreu-me agora mesmo uma ideia completamente peregrina.
O estágio de Évora está à porta e, a dois dias de distância, pus-me aqui a pensar naquelas pessoas que, no forum da página da APK, se "queixavam" da falta de experiência, do pouco tempo que treinam e de como é que se pode ganhar experiência assim e tudo o mais.
E, de repente, percebi que as minhas dúvidas acerca da afluência a este estágio eram completamente escusadas. É claro que o estágio vai ser o maior evento "kendoísta" do ano. É óbvio. É mais do que evidente que todas essas pessoas irão aproveitar ao máximo esta oportunidade. E poderia lá ser de outra maneira?
Tenho a certeza que todos lá estarão, desejosos de passar um bom fim-de-semana cheio de experiências novas e enriquecedoras para o seu kendo.
Eu já disse, eu cá vou.

SATO HARADA (FINALMENTE)

Sato Harada
(Foto emprestada do site da ZNKR http://www.kendo.or.jp)

O 53º All Japan Kendo Championships já está decidido.
Sato Harada (rokudan, Tóquio), na sua 9ª participação foi (finalmente) coroado campeão do Japão. Depois de ter perdido na final dos 52ºs contra Tsuyoshi Suzuki, este ano o senhor Harada teve o seu momento de glória.

1.11.05

IT TAKES TWO TO KEIKO (ou respeitinho é muito bonito)

A frase original diz: “it takes two to tango”, que é como quem diz, são precisos dois para (dançar) o tango. Nada podia ser mais verdade no kendo. Concentremo-nos um bocadinho, nas palavras de Teruhiko Kurasawa, 9º Dan Hanshi:

“Para o keiko, é preciso lembrar sempre que, antes de mais, precisamos de um oponente. E é só porque temos esse oponente que podemos usufruir e melhorar o nosso kendo. (…) Assim, devemos sempre respeitar o parceiro e agradecer a sua ajuda no nosso treino.”

Hum... será por isso que, cada vez que mudamos de parceiro durante as aulas, se saúda sempre a pessoa com quem vamos praticar e aquela com que acabámos de praticar? Mas, deixa cá ver... por essa ordem de ideias, deve ser também por isso que se saúda o local onde treinamos, afinal, sem dojo também não há keiko. E os senseis e os sempais e tudo o resto... pff, as coisas que eu me lembro.

31.10.05

JÁ AÍ ESTÁ



Está mesmo a chegar. É já no próximo fim-de-semana que Évora vai receber o seu 1º estágio de kendo. Não sei ainda quantas pessoas se inscreveram para estar presentes, mas não deixo de estar muito curioso para ver quantos são os que compreendem realmente a importância de um acontecimento deste género.
Para vos dar uma ideia, este é o tipo de evento que o meu amigo (na foto) Jesus Pajares, 5º dan, que dirige o clube kenwakai de Madrid me está sempre a perguntar quando é que vai acontecer, para poder vir cá treinar, como ele diz, "com o vosso sensei de seis dans". E agora que vai finalmente acontecer, os espanhóis nem foram convidados.
Sempre quero ver quantos são os/as portugueses/as que, em vez de estar sempre a "dar à língua", estão dispostos/as a "dar ao cabedal" para variar. Aceitam-se apostas.
Enfim, já toda a gente viu no site da APK, mas aqui está o calendário das festividades para o fim-de-semana que vem:

Sábado, 5 de Novembro

09h00 - 9h30 : Aquecimento

09h30 - 10h30 : Kendo Kata

10h45 - 12h30 : Kihon

13h00 - 14h30 : Almoço

16h00 - 17h00 : Waza

17h00 - 18h00 : Shiai

18h00 - 19h00 : Ji-geiko

19h30- 21h00 : Jantar


Domingo, 6 de Novembro

09h00 - 9h30 : Aquecimento

09h30 - 12h30 : Torneio por Equipas

13h00 - 14h30 : Almoço


Até parece Kitamoto.

29.10.05

A ESCOLHA 4 (E ÚLTIMO)

Muitos podem argumentar que as últimas linhas do post anterior dão precisamente razão a quem diz que é o kendo que escolhe os seus praticantes. Não está lá tudo(?): o que esperavam e não viram, a paciência que faltou etc, etc?
Continuo a dizer: não. Se a percentagem daqueles que não continuam é tão grande é porque algo falha. E não foram eles. As pessoas foram lá. Venceram os obstáculos que se interpunham entre elas e o kendo. Arranjaram coragem, uma t-shirt velha e umas calças de fato-de-treino e foram lá ver como é que era. Foram ver e, aos seus olhos, surgou uma "coisa" completamente hermética, anacrónica e desprovida de sentido prático.
Claro que estamos naquela altura em que se pode escrever 300 páginas sobre a tradição nas artes marciais, como se dá a passagem de ensinamentos e tudo o que isso acarreta, mas isso já foi feito antes (Le ki et le sens du combat de Kenji Tokitsu, por exemplo) e muito melhor do que alguma vez eu o poderia fazer, mas a conclusão óbvia a que chego é sempre a mesma: muitas vezes não somos capazes de mostrar a quem chega pela primeira vez ao dojo o que é o kendo.
A culpa, meus amigos, não é do kendo. O kendo tem tudo para ser praticado por toda a gente.
A culpa, assim, só pode ser nossa.

A ESCOLHA 3

Eu sabia o que era o kendo quando comecei a praticar. Quer dizer, tinha uma ideia, em termos (muito) gerais do que era a via da espada. Tendo começado a praticar artes marciais aos treze anos (faço parte do tal Grupo 1) também eu acabei por me cruzar com o kendo. E confesso que não estava à espera de encontrar algo de muito diferente do que na verdade encontrei. Em termos técnicos, pelo menos.
Mas o mais interessante de tudo é que também eu passei, à medida que o treino continuou, a encarar de uma maneira diferente o kendo e os seus objectivos.
(Façamos aqui um pequeno parenteses. Os livros, todos os possíveis, foram durante algum tempo o suporte da minha busca. E, já o disse antes, se os livros podem ser um precioso auxiliar também podem ser uma fonte de erros e frustações. Não tenho menor pudor em repetir o que já disse mais do que uma vez: talvez 85% da literatura que existe no nosso meio (das artes marciais) é o mais completo lixo. Uns 14% serão bons/úteis tecnicamente; o restante 1% é excepcional e ajuda (mesmo) a compreender melhor o âmago das artes marciais modernas, que o mesmo é dizer, do budo.)
Mas adiante, hoje porém, estou convencido que os objectivos do kendo são muito mais simples do que alguma vez eu o poderia imaginar.
Para mim, o objectivo do kendo... é o kendo. Só isso.
É como se diz: “the media is the message”. O objectivo do kendo é o keiko. É ele próprio. Por isso, eu sou da opinião que são as pessoas que escolhem ficar no kendo. Que investem no kendo. Porque, é mais do que claro, tem de haver um investimento pessoal. As pessoas que desistiram, na maior parte das vezes, estou convencido que viram apenas o esforço dispendido em tentar acompanhar uma ou duas aulas. Não conseguiram ver o gozo que daí pode advir. Estavam à espera de algo imediato.
Fizeram a escolha certa. O kendo é para eles. Faltou foi paciência.

A ESCOLHA 2

Para todos. Brancos e pretos, novos e velhos, homens e mulheres. Todos.

Entre a percentagem mínima daqueles que depois de um contacto com o kendo decidem continuar a praticar, deve ser ainda muito menor o número dos que podem dizer que o kendo correspondeu às suas expectativas.
Que quer isto dizer? Na minha modesta opinião, a maior parte das pessoas não tem, ou tem uma ideia muito mal concebida, daquilo que os espera quando entram numa aula de kendo pela primeira vez.
Misticismo, esclarecimento espiritual, mero treino físico, tudo serve para explicar os porquês de continuar e de desistir do kendo.
Mas há uma palavra que a meu ver, e disse-o no artigo que escrevi em Janeiro de 2001 para a Revista Demais do Diário Econômico, descreve a diferença essencial entre quem continua e quem desiste da prática do kendo. Essa palavra é paciência. E paciência, porquê?
Paciência, porque os objectivos (ou benefícios?) do kendo não estão imediatamente à nossa frente quando se começa a praticar.
Paciência, porque muitas vezes os objectivos que surgem à nossa frente, depois de termos tido muita paciência a tentar identificá-los, não são o que pareciam.
Paciência, porque até os objectivos que são verdadeiramente importantes numa determinada fase da vida do kendoka, como a competição, por exemplo, mudam e deixam de o ser à medida que a vida, o treino e a idade progridem.

Por essas e por outras se diz que é o kendo que escolhe os seus praticantes. Mas, na minha opinião, o kendo é para todos. Foi concebido para tal. Esses são os princípios do budo (ver artigos 1 e 2 da cartilha da Associação Japonesa de Budo). O kendo pode ser praticado dos 7 aos 77 anos de idade (e mais). Pode-se começar a praticar aos 30 anos (ou mais, como eu). Pode-se começar aos 40 ou aos 50. Dirão, irónicos: “Uma pessoa que comece aos 30 ou 40 vai ter uma grande carreira de competição.” Mas quem disse que o kendo é competição? Quem disse que para se fazer kendo tem de se fazer competição?
Como diz Inoue Yoshihiko, 8º dan Hanshi: “o do é o “coração” do kendo e (...) a competição é mais uma demonstração de jutsu (técnica) do que de do (via, caminho)(...)”
É tudo uma questão de objectivos e de paciência.

28.10.05

INTERVALO (PARA UM "PEQUENO" KAESHI-DO)



Na 4ª estava a falar com o Pedro acerca de kaeshi-do e lembrei-me deste lindíssimo instantâneo que me acompanha em todos os computadores por onde passo (muitas vezes como wallpaper). Espero que gostes.
Isto é que é um kaeshi-do do caraças. Às vezes, se se olhar com atenção, até se ouve o estalar do shinai no... olha, ouviste?

27.10.05

A ESCOLHA 1



Num dos posts do recém-nascido, e já moribundo (?), fórum não oficial da APK alguém pergunta “porquê o kendo?”. Apesar de recorrente, não posso deixar de concordar que a pergunta é sempre pertinente.
Um dos chavões mais repetidos do mundo do kendo é que as pessoas não escolhem o kendo, mas que é o kendo que as escolhe a elas. Ouvi-o cá, tal e qual como o ouvi em muitos outros lugares. Na verdade, parece que sempre que dois kendokas que não se conhecem, permanecem mais de 5 minutos no mesmo local a pergunta surge sempre, inevitável: “Então e tu, porque é que...?”
As respostas variam, mas não muito, apesar do que se possa pensar. Para facilitar o raciocínio vou dividí-las em três grandes grupos:

Grupo 1 - Grande parte dos inquiridos já praticou outra arte marcial antes e o interesse em aprofundar um pouco mais a sua cultura geral sobre a mesma, leva muitas vezes a cruzamentos de informação, onde inevitavelmente o kendo aparece como referência.
Grupo 2 - Outros ficaram curiosos perante o visual estranho e agreste (para não dizer brutal) dos praticantes de kendo. Documentários, simples fotografias ou até mesmo demonstrações são, na maior parte das vezes, responsáveis pela atracção visual (inegável e a um tempo bizarra) que um kendoka completamente equipado exerce sobre os espectadores.
Grupo 3 - Outros ainda, regra geral mais novos, chegaram ao contacto com o kendo de maneiras mais estranhas e bem menos ortodoxas, através de jogos de vídeo, filmes, manga, animé, role-play, etc, etc.

Seja como fôr, o mais interessante porém, e o que ninguém pergunta, é porque é que as pessoas que continuaram a praticar kendo o fizeram. Essa parece-me ser a pergunta crucial, a qual nos leva de novo para o famoso e já referido chavão “Não são as pessoas que escolhem o kendo, é o kendo que escolhe as pessoas.”
E tendo em conta a ínfima percentagem dos que continuam, tudo leva a crer que o mesmo será exacto. Veremos.