23.8.05

KITAMOTO 2

http://www.isenokami.com/Kendo/kitamoto2005/KITAMOTO2.html
Neste link, aqui mesmo acima, poderá encontrar centenas de fotos do estágio de Kitamoto 2005. E quando digo "centenas" não é força de expressão. São exactamente 830 fotos (creio que) da autoria de Uemura sensei.

17.8.05

ROOM 306



Os ocupantes do quarto 306 posam com o director do seminário Kitamoto 2005. Notar a ausência do louco guatemalteco que respondia pelo nome de Pedro e que se encontrava em parte incerta no momento da foto.

10.8.05

KITAMOTO 1

(Esq. p/ dir.:)
Tanaka sensei, nanadan; Don António, rokudan;
Sumi sensei, hachidan hanshi; eu; Shimojima sensei,
hachidan kyoshi; Fujimaki sensei, hachidan e maus-fígados.

Eu e Shimojima sensei,
hachidan kyoshi e responsável pela arbitragem.

9.8.05

LEMBRANÇA

É sempre bom recordar que, caso achem que caixa de comentário não é maneira de falar com as pessoas e queiram enviar um e-mail, o meu endereço é IMDRabbit@hotmail.com.

8.8.05

BOKUTO NI YORU KENDO KIHON-WAZA KEIKO-HO

Que é como quem diz:
"Prática das técnicas fundamentais de Kendo com utilização de Bokuto."
A minha grande surpresa durante os oito dias em Kitamoto. Muito útil. Os rapazes (da ZNKR) de facto, não dão ponto sem nó, como se costuma dizer.
Nove "kata", chamemos-lhes assim, destinados a recuperar o conceito original de "como cortar" utilizando uma espada japonesa.
A katana ensinada aos novos e lembrada aos velhos. Onde é que eu já ouvi isto?
Mais sobre o assunto em breve.

7.8.05

POIS JÁ LÁ VAI.

É ainda com um "jet-lag" desgraçado que escrevo estas primeiras impressões sobre o 30º seminário para kendokas estrangeiros de Kitamoto. Que vos posso eu dizer meus amigos? A única palavra que me ocorre começa com a letra "f" e acaba com as letras "se", mas suponho que num blog sério como este, nunca jamais, em tempo algum, se escreverá por extenso, seja em que situação for, a palavra "foda-se".
E no entanto é, assim mesmo, essa mesma palavra a mais adequada para descrever o que se passou nos intensos oito dias do estágio que se desenrolou nessa parte do subúrbio adormecido, dormente e escaldante ao norte da imensa Toquio.
Isto está tudo muito confuso. Eu volto amanhã, quem sabe (?), já com fotografias.

11.7.05

MEMÓRIA INESQUECÍVEL DO ANO QUE PASSOU (2).

Então, à minha direita, Ito Sensei hachidan hanchi; à esquerda Kou sensei hachidan kyoshi e à esquerda dele Yamagushi sensei nanadan; em baixo, da esquerda para a direita Okada sensei hachidan kyoshi, Igarashi e Toshino senseis, ambos nanadan. À esquerda, em pé, Kawabata sensei rokudan e tradutor oficial do grupo. E eu.

MEMÓRIA INESQUECÍVEL DO ANO QUE PASSOU.

4.7.05

KITAMOTO BABY, KITAMOTO

Pois é, meus amigos, estou lá. Está confirmado. Estou oficialmente inscrito.
De 27 de Julho a 3 de Agosto, eu, e mais o nosso ilustre doutor Nuno Serrano, estaremos presentes, assim corra tudo bem, no 30th Foreign Kendo Leaders’Summer Seminar 2005.
Oito dias de kendo kata, kendo keiko, kendo shiai, kendo shimpan, kendo, kendo e mais kendo e kendo e kendo.
A começar às 6 e meia da matina e a acabar todos os dias às 8 e meia da tarde.
Iiiaaah.

1.5.05

O FIM

Por agora, chega.
Vemo-nos num dojo qualquer, um dia destes.
Bom keiko.

O FIM DE UM CICLO

Acabou.
Por um lado, estou muito contente por ter conseguido terminar as traduções até ao ponto que me tinha proposto; por outro, não posso deixar de sentir uma certa frustração em relação à resposta que esse trabalho todo teve por parte dos leitores.
Eu sei que não consegui fazer todo o trabalho como me tinha proposto. Os últimos posts já não contaram com um segunda tradução em língua inglesa. E, como se isso não bastasse, ainda fiquei com pouca ou nenhuma paciência para traduzir o que quer que seja, tanto que o blog deixou de ser bilingue.
Bom, mais que não seja, permitiu-me aprender mais umas coisas sobre o kendo e tudo o que o antecedeu. Na verdade, deu-me uma vontade imensa de aprender kenjutsu. Não, iaido não.
Kenjutsu. Exacto, assim como... uma espécie de antropologia do kendo.
Kenjutsu... hum...

29.4.05

OS ÚLTIMOS COMBATES DE S. TAKANO E T. NAÎTO

Chegamos aqui ao fim da primeira parte das traduções que me propus fazer. Espero que tenham gostado.
O site do sensei Kenji Tokitsu
(
http://www.tokitsu.com), que amavelmente me cedeu estes textos sem pedir nada em troca, dispõe de muitos mais, não só sobre kendo, mas também relacionados com outros assuntos do mundo do budo.
Se conseguir ganhar coragem talvez tente traduzir mais umas coisas interessantes.
Para já, vou parar um bocadinho.
Treinem mais, melhor e sobretudo, divirtam-se quando o fizerem.
Obrigado pela atenção.

Por altura do ano 1900, os dois adeptos Takano e Naîto estão entre os dez maiores mestres de kendo do Japão. Quando as suas reputações começam a ecoar no mundo do kendo japonês, uma questão surge naturalmente: “Se eles combaterem quem ganhará? No espírito dos dois praticantes o outro está sempre presente e essa consciência aguça-se junto das respectivas comitivas.
No mês de Maio de 1901, por ocasião do sexto torneio do Butoku-kaî, os dois rivais reencontram-se de novo. Eis aqui o relato do combate tal como está preservado no "Kendo-sangoku-shi":
“Têm ambos 40 anos e estão no pleno de força e de espírito. O encontro é digno de representar o mais alto nível do kendo japonês. O juíz principal é Kanichiro Mihashi. Takano usa um do (plastrão) vermelho e o de Naîto é negro, o contraste é marcante. Uma calma profunda enche o Butokuden. Takano assume a guarda em seigan (média) e Naîto em gedan (baixa).
"Eéé...!!", Takano lança um kiai enquanto que Naîto permanecendo mudo levanta, pouco a pouco, a ponta do shinai. Takano recua o seu pé esquerdo de um passo. Os espectadores retêm a respiração ao contemplar o combate.
O ki dos dois mestres choca-se no espaço em faíscas invisíveis. Cada um procura captar com o seu espírito, aquilo que oculta o do outro. Por instantes o shinai de Takano agita-se. "Eyaa !!", no instante que vai atacar o men (cabeça) do seu adversário, Naîto lança o seu shinai como um relâmpago para atingir o kote (pulso) de Takano e marca o primeiro “ippon” (um ponto).
No segundo combate Takano assume jodan (guarda alta), enquanto Naîto opta por seigan (guarda média). Durante um momento permanecem imóveis e a tensão prende os espectadores.
"Tôo !!", Naîto atira-se com um violento tsuki (ataque à garganta) mas Takano girando o seu corpo para a direita ataca diagonalmente o men (yoko-men) de Naîto. O juíz levanta a mão e anuncia o ippon de Takano...”
No decurso desse encontro, nem um nem outro ganha o terceiro combate e separam-se sem que haja vencedor ou vencido. Os dois rivais vão-se ainda encontrar várias vezes ao longo da vida, mas nem um nem outro conseguirá obter uma vitória definitiva. Ambos contribuiram de modo importante na constituição do kendo no Japão, mantendo-se sempre críticos para com a tendência do kendo para se afastar cada vez mais do espírito da espada dos samurais.
T. Naîto sobretudo, mesmo na sua vida privada, comportava-se tendo como referência o modelo do “bushi”. Por exemplo, proibia os seus alunos de despejar saké rodando a garrafa para o exterior (com a palma da mão para cima), pois essa maneira de despejar está reservada para molhar o sabre no momento de cortar a cabeça, quando se ajuda um samurai a fazer seppuku. Proibia todas as roupas que tivessem de se vestir por sobre a cabeça, pois quando cobrimos a cabeça, criamos um momento vulnerável. No Japão é normal que um discípulo ou um aluno carregue as bagagens do mestre, mas ele nunca permitiu que carregassem o seu shinai ou o kendogu, pois são assuntos pessoais de um bushi que nunca se deve separar da sua arma... vivendo assim como um samurai, a sua vida material era simples, pobre até. (…) Acabou a sua vida sem nunca ter possuído casa própria. O saké parece ter sido o seu melhor companheiro. Depois de cada treino de manhã, à tarde e à noite, bebia grandes quantidades de saké, o que deve ter contribuido para encurtar a sua vida.
Foi em 1928 que T. Naîto e S. Takano efectuaram o seu último combate, aquele que já analisámos em artigos precedentes. Em 1929, é decidida a organização de um torneio com a presença do Imperador. Naîto opõe-se até ao último momento, pois essa decisão surge como uma ordem vinda do próprio Imperador. Diante dos que lhe anunciam a ordem do soberano, Naîto inclina-se profundamente dizendo: “Não posso senão aceitar se essa decisão é ordem de Sua Magestade.”
Ao voltar a Quioto, porém, queixa-se: “É assim que o kendo do Japão vai morrer.” Ele desejava que o kendo permanecesse fora da alçada imperial, pois a presença do Imperador conferia uma consciência honorária irremediável que se arriscava a provocar vaidade no kendo. Ia-se tentar ganhar em vez de aprofundar a qualidade da prática. Para T. Naîto, um torneio não era senão uma ocasião para treinar, onde importava mais a qualidade da prática do que a vitória. A ironia do destino fez com que Naîto fosse nomeado presidente dos árbitros para esse torneio. Mas, na véspera do evento, acabou por escapar a esse papel que o contrariava. Uma morte súbita levou-o. Tinha 68 anos.
S. Takano viveria até 1950. A sua vida, longa de 89 anos foi consagrada à espada e deixou marcas incontornáveis no kendo japonês. Os seus últimos alunos têm hoje à volta de 70 anos e desempenham um papel decisivo no kendo actual. Takano continuou a ensinar na Escola Normal Superior mesmo depois dos 80 anos. Gostava de falar e falava bem. Escutemos um dos seus alunos: “Ele mostrou-nos as suas mãos que pareciam patas de urso. A pele das costas da mão era espessa e dura como a de um hipópotamo. Ele dizia: “Toque na palma da minha mão. Não é suave e macia como a pele de uma virgem? Se têm bolhas ou calos na palma da mão, isso deve-se a uma falta de precisão na maneira como seguram o shinai. É preciso segurar-lhe sem que a palma da mão endureça.” Esse era o seu ensinamento.”

28.4.05

BUDO SENMON GAKKÔ – A ESCOLA ESPECIAL DE BUDO

Mais uma simpática descrição do tipo de treinos que eles faziam na altura.
Obrigado
http://www.tokitsu.com por tão gráfica elucidação.

Em 1902, em ligação com o Butoku-kaî, é formada o Instituto de Formação de Professor de Budo. A partir dessa experiência a “Escola Especial de Budo” é constituída em 1912. A duração do curso era, a princípio, de 3 anos, depois passou para 4. Aí, ensinava-se principalmente o kendo e o judo, de uma maneira particularmente dura. Eis o testemunho de H. Hiromitsu, estudante dessa época:
“Os ferimentos eram bastantes entre os estudantes. Muito renunciaram ao curso devido à sua dureza e alguns dos meus amigos morreram mesmo. Era frequente que os colegas vomitassem através da grade da máscara de protecção, próximo do poço. Como transpirávamos muito, urinávamos pouco, mas com sangue à mistura. Um dia, o meu tio foi assistir ao treino. Nunca esquecerei que me disse: “Volta comigo para casa. Não poderás sobreviver aqui, mesmo que tenhas várias vidas.” Então pedi-lhe que não dissesse nada, sobretudo à minha mãe que morria de inquetação por mim.”
O princípio dessa escola era aprender sem palavras, segundo a orientação que Naîto e os outros mestres tinham adoptado. Essa atitude de ensino contrasta com o de Takano, que dava vastas explicações no decurso dos seus treinos. E essa diferença reflectiu-se na prática das escolas de Este e Oeste.
J. Furusé testemunha: “Chegávamos a um limite onde não conseguíamos fazer nada. Mas nesse estado de “quase-morte” era nossa obrigação descobrir força através do kiai e apoiarmo-nos solidamente no chão para continuar a combater. Essa experiência de investir a própria vida no treino é inesquecível. Ela ajudou-me mais tarde em diferentes fases da minha vida. Devo agradecimentos por esse tipo de treino.”
Através dos testemunhos dos alunos podemos adivinhar a experiência que deve ter sido a juventude de Naîto. Ao rumo principal da Escola Especial de Budo decidido por T. Naîto, juntavam-se por vezes outras iniciativas do director da escola. Em 1918, H. Nishikubo torna-se director e tem por hábito assistir aos treinos dos alunos. É costume efectuar durante o período mais frio do ano uma série de treinos chamados "kan-géiko". No célebre frio de inverno de Kyoto todas as janelas do dojo são abertas de par em par. O primeiro treino começa às cinco da manhã.
Para esses treinos o director Nishikubo chega todos os dias com as suas “roupas especiais” de treino; especiais porque ele as mergulha na água e deixa-as na rua de um dia para o outro, o que faz que estejam duras e geladas. O seu corpo grande e redondo de lutador de sumô, vestido com as roupas geladas, cedo começa a soltar vapor de água durante o treino.
S. Takano também tinha feito esse tipo de treino na sua juventude. Ele dizia aos seus estudantes que tiritavam de frio durante os kan-géiko: “Quando eu era novo, nós faziamos treinos de inverno depois de ter mergulhado a roupa de treino na água e continuávamos a treinar até que ela secasse.”
Em todo o caso, a busca para ultrapassar as dificuldades era comum a todas as artes marciais japonesas, seja no Este ou no Oeste. Porque faziam eles isso? Era necessário? Acontece qualificarmos de masoquismo ou de sadismo a atitude ascética na prática do budo, quando os actos começam a separar-se do seu objectivo. É, sem dúvida, um problema sobre o qual é necessário reflectir quando praticamos artes marciais na nossa vida actual.

27.4.05

RIVAIS DE TODA UMA VIDA

Apenas uma palavra de agradecimento, como sempre, a http://www.tokitsu.com.

Sazaburo Takano e Takaharu Naîto nasceram no mesmo ano, 1862, ambos filhos de bushi (samurai), as suas proezas desenrolam-se na vizinhança da prefeitura de polícia de Tóquio.
Na situação social que acabamos de descrever, em 1896, Takano volta para Tóquio e funda aí o dojo "Meishin-kan" onde se dedica à formação de jovens praticantes. Um pouco mais tarde, em 1899, Naîto instala-se em Quioto, onde se torna num dos principais mestres do Butoku-kaî.
Naîto tinha uma posição importante na prefeitura. O que o faz deixar Tóquio é, diz-se, um telegrama enviado por M. Kusunoki, um dos fundadores do Butokukai: “Venha pela (causa da) via.” Esta pequena frase toca o coração de Naîto que parte imediatamente para Quioto. Satisfaz assim o desejo de Kanichiro Mihashi, perito de renome na arte dos dois sabres, cognominado “Musashi contemporâneo” que, envelhecendo, desejava tê-lo como discípulo.
É assim que os dois rivais se instalam, um em Tóquio e outro em Quioto, dando forma às correntes de Este e Oeste que se irão defrontar durante os 30 anos que se seguiram. Em 1901, J. Kano, fundador do judo, que era também director da Escola Normal Superior de Tóquio, convida Takano a assumir o papel de mestre de kendo nessa escola. Relembremos que o termo “kendo” foi usado pela primeira vez num texto oficial, num decreto-lei de 1891, relativo à educação física escolar, quando o kendo foi integrado no curriculum liceal. Mas nessa época, eram ainda os termos kenjutsu e gekiken os mais utilizados pelos praticantes. Anteriormente, nos anos 1880, julga-se que Yamaoka Tesshu, já terá utilizado a palavra “kendo” ao fundar a sua escola “Muto-ryu”, sintetizada pela famosa frase: “a espada não existe fora do espírito” (shin-gai-mutô). A denominação kendo estabiliza-se por volta dos anos de 1910, definindo-se através da noção de via (do) em vez da de técnica (jutsu). A diferença não é apenas de palavras, mas na ideia directora da prática do kenjutsu e do kendo. Para ser um pouco mais rigoroso, é mais correcto não utilizar a palavra kendo para designar a prática da espada de antes do fim do século XIX. Em todo o caso, S. Takano torna-se mestre de “kendo” de uma Escola Superior, ao mesmo tempo que dirige o seu próprio dojo.
Enquanto a actividade de Takano ganha cada vez maior envergadura na zona de Tóquio, Naîto desenvolve a sua na área de Quioto. Paralelamente ás suas funções como mestre do Butoku-kaî, quando a “Escola Especial de Budo” (Budo senmon gakkô) é constituida na antiga capital, ele torna-se o seu mestre director.

26.4.05

DAI-NIPPON-BUTOKU-KAÎ: A INSTITUCIONALIZAÇÃO DO KENDO (II)

Antes de voltarmos aos nossos dois amigos, Takano e Naîto, para mais uns combatezitos, eis a segunda parte do contexto histórico em que eles se moviam nessa época. Mais em http://www.tokitsu.com.

Para preparar a guerra contra a Rússia, o Japão envia oficiais para estudarem a cultura e a sociedade russas. Alguns estão encarregados de entrar em contacto com os elementos revolucionários que se dedicam a actividades clandestinas contra o poder do Czar e de lhes fornecer apoio financeiro. O Japão investiu um orçamento considerável na preparação e execução dessa guerra e, quando obtém a vitória em 1904, está à beira da bancarrota.

As artes marciais modernas são, por certo, pouco eficazes na guerra moderna, mas mostraram uma grande eficiência para forjar os homens que se envolvem nos diversos domínios da mesma, particularmente no exército. Não convém confundir a noção de do (a via) tal como a concebemos hoje com a que foi formulada nessa época. O Japão acabara de escapar à colonização a que tinham sido submetidos outros países asiáticos, mas a ameaça das forças ocidentais estava sempre presente. A prática do budo, nessas condições, servia para afirmar a identidade japonesa e reforçar a vontade pessoal dentro de uma acção nacional que se confundia com a vocação de cada um. A ética do budo dessa época comporta um investimento da própria vida no objectivo colectivo; é isso que indica Jigoro Kano quando diz: “transformem-se nos pilares do país”, nas aulas que dá aos seus primeiros alunos, aquando da fundação do judo. O dever pessoal e o interesse de estado confundiam-se completamente. É com este pano de fundo social que é elaborada a nova noção de artes marciais, que se apoia na noção de do. E ela começa a partir do judo.
O Butoku-kaî foi fundado nessa atmosfera para centralizar e dirigir a formação e o desenvolvimento do budo. O kenjutsu está no centro das suas actividades. A fundação do Butoku-kaî é uma reviravolta na situação das artes marciais que, apenas vinte anos antes, a sociedade inteira tendia a enterrar. A prática das artes marciais no começo do século XX tornava-se, de novo, num elemento motor da consciência japonesa que começava a estender-se, quebrando a casca do feudalismo.

22.4.05

DAI-NIPPON-BUTOKU-KAÎ: A INSTITUCIONALIZAÇÃO DO KENDO (I)

Na formação do kendo a partir da arte da espada (denominada então quer kenjutsu, quer gekiken) a contribuição da polícia foi determinante. O japão, após 1868 estava a começar a constituir-se como um país moderno, a fundação e a organização do sistema policial permitiu-lhe absorver os antigos samurai. No âmbito da polícia, a prática do kenjutsu permitia-lhes, de uma certa maneira, manter a sua identidade. A tradição e a cultura não se transformam tão rapidamente como a morfologia social. Mesmo que os japoneses tivessem cortado os cabelos e se vestissem como homens modernos ao estilo ocidental, os seus corpos e as suas personalidades transportavam ainda marcas do período anterior. Foi nesse momento de transformação que Takano e Naîto passaram a sua juventude na via da espada.
Em 1895 é constituido o "Dai-Nippon-Butoku-kaî" (Associação da Virtude das Artes Marciais do Japão Imperial), habitualmente chamado "Butoku-kaî".
Esse grupo tem por objectivo assegurar a continuidade das artes marciais tradicionais japonesas e desenvolvê-las .é preciso sublinhar que o Japão acabara de conseguir uma vitória decisiva contra a China, em 1894. o Butoku-kaî foi constituído num ambiente de ascenção nacional(ista) no qual os japoneses tomaram consciência da sua força militar. Um quarto de século antes tinham sido obrigados a põr em causa a estrutura do país perante a ameaça das forças militares dos Estados Unidos e das potências europeias. A consciência de uma crise e uma espécie de complexo de inferioridade face aos ocidentais serviram como pano de fundo das transformações sociais. Foi nessa situação de crise da tradição que a prática das artes marciais se viu menosprezada, e numa dada altura, quase que abandonada. Mas, nessa altura, os japoneses estudaram na Europa as técnicas militares e o seu exército obteve uma tal força que conseguiu vencer a grande China, a qual por seu lado, tinha alimentado culturalmente o Japão desde a antiguidade.

Dez anos depois, o Japão vai-se envolver numa guerra contra a Rússia, o que galvaniza a energia colectiva do povo de uma maneira surpreendente.

20.4.05

O SEGUNDO RECONTRO DOS RIVAIS

O primeiro combate, Naîto ganhou sem grandes esforços. E o segundo? Quem sairá vencedor? Agradecimentos, como sempre, a http://www.tokitsu.com.

Durante um ano, T. Naîto encontra-se na mesma situação que S. Takano, na prefeitura de polícia de Tóquio. Mas não é fácil aos dois rivais encontrarem-se no decurso dos treinos. Cada um dos combates entre os professores era concebido como um duelo, portanto eles não combatiam de um modo ligeiro entre eles, mesmo que, dentro de cada dojo, tivessem por hábito combater com as pessoas mais diversas.
Em Julho de 1888 Yamaoka Tesshu morre e, no mês de Agosto, Sazaburo Takano decide sair da polícia onde tinha entrado segundo recomendação do seu mestre Yamaoka. Regressa a Chichibu onde tinha deixado a sua mulher e o filho nascido um ano antes. No mês de Outubro entra na polícia departamental de Saitama como mestre de kenjutsu e, por essa altura, manda construir em Urawa um dojo e uma casa onde se instala com a sua família. Esse dojo, chamado " Urawa Meishin-kan", situa-se mesmo em frente da Escola Normal de Urawa, e por isso, um número considerável de estudantes tornam-se seus alunos.
Em 1889 um torneio é organizado pela prefeitura de polícia e S. Takano participa, representando o dojo da esquadra de Urawa. É nesse torneio que ele reencontra o seu rival T. Naîto. O combate entre os dois rivais suscita o interesse dos adeptos da polícia; eis aqui o relato segundo o "Kendo sengoku shi" (Proezas dos adeptos de kendo), de Kôji Hara, Tóquio 1977 :
“O grande dia chegou finalmente. Os dois peritos avançam calamamente para o centro do shiai-jo. O árbitro principal é Kanshiro. Os dois adversários assumem a guarda em seïgan. Takano avança lentamente sustendo um pouco a respiração. Dois anos se passaram desde que perdeu contra Naîto.
“Yaa!!” grita Naîto, enquanto que Takano avança sem soltar qualquer kiai... Naîto continua a rodopiar ligeiramente a ponta do seu shinai.
“Tôo!!” Takano ataca violentamente. Naîto apara o shinai adversário e fazendo-o girar com o seu, atinge o kote de Takano. O árbitro anuncia : “Insuficiente.”
De seguida, Naîto lança imediatamente um ataque á cabeça de Takano. É então que este, baixando ligeiramente o corpo, desfere um golpe violento no flanco direito de Naîto (do). Men nuki do.
“Sorémadé!!” (Parem o combate, pois o assunto é claro.), grita o árbitro.
Naîto retira-se saudando Takano, que murmura para si mesmo: “Ganhei.”

19.4.05

T. NAÎTO ENTRA PARA A POLÍCIA

Convidado por S. Shimoé, T. Naîto visita o dojo central da prefeitura de polícia. Este recebe-o dizendo:
“Mestre Ozawa treinou-me outrora, sinto uma certa simpatia por si, por ser seu aluno. Não quer aprofundar o seu kenjutsu na prefeitura de polícia?”
T. Naîto não estava pronto para dar uma resposta imediata a essa proposta. Pergunta-lhe apenas: “Gostaria de receber uma lição sua.”
“Muito bem, eu recebi lições do seu mestre na juventude. Dou-lhe uma lição de boa vontade, visto que você é aluno dele.”
Os dois adeptos da mesma escola colocam-se frente a frente.
Shimoé assume guarda em seigan, T. Naîto audaciosamente coloca-se em guarda hasso, o que surpreende todos os que assistem. Shimoé solta um kiai ameaçando um ataque tsuki, depois deixa aperceber um vazio (suki) no seu kote (pulso). Naîto avança com uma negligência aparente. S. Takano observa-os com o olhar petrificado. Nesse momento, Shimoé lança o seu katate-zuki à garganta de Naîto, enquanto que ele lhe atinge o seu flanco esquerdo (gyaku-do). Os dois ruídos ecoam simultaneamente no ar do dojo. Para os espectadores o combate parece um toque simultâneo (aîuchi), mas Y. Kajiwara anuncia em voz alta. “Sorémadé!” (parem o combate, pois o assunto é claro.)
Os espectadores perguntam-se: “Quem ganhou?”
Então Naîto retira a máscara de protecção e diz, baixando profundamente a cabeça: “Agradeço-lhe a sua lição.”
É assim que os outros compreendem que foi Shimoé quem ganhou. Este combate marcou fortemente S. Takano e a reputação de Naîto aumenta ainda mais dentro da prefeitura. Pouco depois, Takaharu Naîto entra para a polícia como mestre de kenjutsu, recomendado por Shutato Shimoé.

CAMPEONATO DA EUROPA DE 2007 VAI SER ONDE?

Sim. Exactamente.
Segundo fontes geralmente bem informadas, próximas da Direcção da APK, os próximos campeonatos da Europa de kendo deverão ter lugar em 2007 em solo português.
"Apenas" em 2007 porque, sendo 2006 ano de campeonato do mundo, nesse ano o campeonato referente ao nosso continente não se realiza.
Pode ser giro, pode ser muito giro.
Uma grande responsabilidade é de certeza. De resto, pode ser giro.

COMO T. NAÎTO ENTRA NA PREFEITURA DE POLÍCIA

T. Naîto entra na prefeitura de polícia graças à recomendação de S. Shimoé, homem de reputação indiscutível. Eis como tudo se passou:
Depois da sua derrota contra Naîto, S. Takano aumentou a severidade do seu treino. Ao vê-lo treinar, S. Shimoé comentou: “Takano parece mudado nos últimos dias.” Shimoé, muito mais velho que Takano, era considerado como um dos mestres supremos da prefeitura de polícia. Depois do treino S. Takano diz-lhe:
“Perdi contra um adepto da escola Hokushin-Itto-ryu."
Os olhos de Shimoé brilham , pois ele também é adepto dessa escola.
“Como se chama ele?”
“Chama-se Takaharu Naîto, originário de Mito.”
”Se ele é da escola Hokushin-Itto-ryu, de Mito, trata-se certamente de um aluno do mestre Torakichi Ozawa. É estimulante para mim saber que semelhante pessoa provém dessa escola.”

A ESCOLA HOKUSHIN-ITTO-RYU DO MESTRE OZAWA
É assim que S. Shimoé se interessa por T. Naîto. Mas não foi apenas porque eram da mesma escola. Adolescente, quando era aluno do dojo principal da escola Hokushin-Itto-ryu em Edo, um adepto da mesma escola chegou vindo de Mito, treinou com ele e foi completamente derrotado. Esse adepto chamava-se Torakichi Ozawa. Shimoé pensou que um jovem praticante vindo de Mito deveria ser seu aluno. E não se enganou. Assim, ao ouvir falar das proezas desse jovem perito, originário da sua escola, sentiu imediatamente uma certa simpatia. E pensou que seria bom fazer entrar na prefeitura de polícia um outro perito, originário como ele da escola Hokushin-Itto-ryu.
Seguindo as informações relativas a esse jovem perito chamado Naîto, Shimoé pensou, ao refazer o seu itinerário que ele deveria ir proximamente ao dojo de Fakagawa. Na manhã seguinte deslocou-se até ao dojo da esquadra de Fukagawa. Depois de ter treinado com os polícias locais disse-lhes: “Se um adepto chamado Naîto, aparecer por aqui, previnam-me imediatamente. Se já for tarde, peçam-lhe gentilmente para me ir ver ao dojo central da prefeitura.”
Com efeito, pouco tempo depois Naîto passou pelo dojo de Fukagawa e bate Sakabé, o mestre principal da esquadra, com um tsuki espectacular. A mensagem de Shimoé é transmitida a Naîto antes que lele saia do dojo.
Naîto tinha ouvido falar de Shimoé pelo seu mestre T. Ozawa e pensa: “Trata-se de um mestre de alto nível. Que pode ele querer de mim? Em todo o caso o encontro não pode ser senão interessante.”