4.9.06

DESILUSÕES DA GRANDEZA

Tenho andado de novo interessado no karaté.

Não, não.. não estou a pensar em voltar a praticar, não obrigado. Tenho andado a ver as coisas com olhos do amante que, de repente, reencontra a pessoa amada de outros tempos na rua e quase não a reconhece mas que no entanto pára e tenta perceber o que mudou.

Eu sempre mantive dois ou três links relacionados com o karaté entre os meus “favoritos internéticos”, entre esses, um que mantenho desde que o conheço é o do Karaté Clube de Faro a coisa que (me parece) se encontra mais próxima do espírito da antiga União de Karate do Algarve (U.K.A.) de que, aliás, me orgulho muito de ter sido membro durante um bom tempo.

Mas tenho tentado olhar a imagem do karaté na net como um outsider, o que, para dizer a verdade, nos tempos que correm não me é assim tão difícil como isso. A verdade é que, aos olhos daquele que pela primeira vez tem contacto com essa imagem, e que me perdoem os eventuais karatekas que possam ler estas linhas, ela não me parece assim muito atraente.

O karaté em Portugal cresceu muito desde esses tempos em que fui um jovem viciado em porrada três vezes por semana. E não me parece que tenha crescido saudável. A míriade de estilos, de escolas dentro dos estilos, de associações de escolas dentro dos estilos, federações de associações de estilos, confederações associações de estilos dentro dos estilos... eu que me gabava de conhecer, mais ou menos (um mínimo), as linhagens das escolas mais importantes, hoje em dia dou por mim como um burro a olhar para um palácio.
Kata? Deixem-me rir, ou chorar, sei lá; das dezenas de katas que aprendi não há uma que tenha permanecido na mesma nas últimas duas décadas. Em vinte anos mudou praticamente tudo. Dos nomes à execução, só a muito custo e com muita sorte consigo vislumbrar o que é o quê.

Eu ainda recordo os tempos, não tão antigos como isso, em que os karatekas falavam com desdém do judo. De como o judo já não era budo coisa nenhuma, de como era um mero desporto, assim como uma luta greco-romana em pijama. Irreconhecível. Frutos do grande crescimento, sem dúvida.
Será? É que, apesar uma ou outra pequena alteração de pormenor, nage-no-kata continua a ser nage-no-kata, e katame-no-kata, kime-no-kata e shiken-no-kata, também continuam elas próprias, tal como eram uma há mais de cem anos atrás.
Uma coisa é a competição (e os seus exageros) e outra coisa é o judo como arte marcial, tradicional, budo da cabeça aos pés.

E o que se poderá dizer, hoje em dia, do crescimento do karaté?

Não há uma linguagem uniformizada nem uma imagem uniformizada, nada é uniforme no karaté em Portugal aos olhos do recém-chegado.
Os kata mudam todos os dias, os bunkai, que ninguém fazia há trinta anos atrás, hoje são indispensáveis... e depois, para complicar (leia-se: sofisticar) junta-se água com azeite, uns juntam kobudo ao karaté, outros ju-jitsu, outros até koryu... em resumo, vale tudo.

A sensação que dá é que cada um se limita a puxar a braza à sua sardinha. Os egos comandam.


Não gosto de fulano, sicrano tem uma associação diferente, vou ter com ele. Beltrano juntou-se a uma associação estrangeira, o estilo não é bem o mesmo, mas seria melhor se... eh, quero lá saber, crio a Associação de Karaté de Alguidares de Cima (constituida só pelo meu clube, o “Bushido Alguidarense”) e junto-me a ele....

Por seu lado, o kendo em Portugal é muito pequenino. Quase se pode dizer que ainda nos conhecemos todos. Por inúmeros motivos que agora não interessa analizar aqui, é minha convicção que, por muito que cresça, nunca terá uma aceitação ou um desenvolvimento semelhante ao do judo ou do karaté. Muita coisa teria que mudar, até internacionalmente, para que algo idêntico se passasse. Mas na hipótese de semelhante coisa acontecer, e digo-o com muita pena pois nunca escondi a minha paixão pelo karaté, eu preferiria mil vezes o modelo do judo (mesmo com a sua vertente “estropiada” de competição) que o exemplo caótico e de “salve-se quem puder” do karaté.

Outro dia, um casal amigo, conhecedor das minhas paixões marciais pedia-me conselho sobre uma arte marcial para um dos filhos (ainda pequeno para o kendo) praticar.

- Karaté?
- Não!!! Não façam isso à criança. Judo, sem dúvida, judo.

Disclaimer: Esta opinião é pessoal e, para além da ajuda de um amigo karateka ou dois, foi sobretudo baseada na minha visão actual do karate através da internet.

3 comentários:

Kitana disse...

Bem Usagi san, posso estar a cometer uma grande bestialidade, mas vou dizer de meu juizo:
O karate em portugal tornou-se fashion! Pelo menos aqui pelo norte, até faz comichão. Tudo que é gente fina(ou gente grossa) tem de praticar karate e ter o seu filho e filha no karate.As minhas colegas de faculdade, as mais...chamemos-lhes "menos aptas para practicas desportivas muito menos artes marciais" inscreveram-se no karate!
Não tenho nada contra karate, é bom relembrar. Mas parece-me, pelo que OBSERVO, que sou muito mais que leiga (e pelo que me diz o meu japones no norte o Shimamura san que praticou karate ainda no Japão quando era novo: "Karate em Portugal muito diferente de Karate no Japão") o karate ocidentalizou-se muito(para além das mudanças que sei que ocorreram) e cada vez mais se "moderniza" (corrige-me por favor se estiver errada).
Espero que tal nunca aconteça ao kendo! Creio que nunca irá acontecer!
Mete o piqueno no kendo,porque como me disse o Rui uma vez "é com as traulitadas que se leva em pequenino que se aprende a torcer o pepino!"

andre disse...

rei

Esta questão, posta assim, faz-me lembrar o início de um artigo "BICYCLES AND BUDO, A LOOK AT KORYU "SNOBBERY" de Dave Lowry.

O assunto de fundo é diferente mas o reflexo "bicicleta nova" aparece como 'diferenciação' de alguns novos "estilos" de karate.

rei

Usagi-san disse...

E não há um endereçozinho?
Há sim senhor, está em: http://www.e-budo.com/html/snobb.htm

Mas muita atenção: o Dave Lowry é um daqueles assim como o Alex Bennett, o Karl Friday, o Donn F. Draeger que ainda nos podem "salvar" quando se trata de BOAS LEITURAS relativas ao budo e aos snobs adjacentes.

Ler, ler, ler e a seguir ler mais um bocadinho.

Obrigado pela referência, caro André.