31.3.09

EFICIÊNCIA & EFICÁCIA

o autor depois de um momento pleno de eficácia...
ou seria mera eficiência?


Há aproximadamente um ano que se treina kendo, de forma regular, em Faro.
Sendo eu uma das pessoas envolvidas directamente no referido processo não vou, no entanto, fazer aqui a apologia da pequena organização da qual faço parte, mas mais tentar perceber, tanto quanto me for possível, o que mudou na minha maneira de encarar (e de praticar!) o kendo no último ano.

Por mais que se queira branquear a prática da esgrima japonesa contemporânea, o que é um facto é que o kendo é o herdeiro de uma série de actividades cujo objectivo primordial era o aprimoramento de técnicas de combate destinadas basicamente a matar e/ou mutilar outros seres humanos.
Quem apenas vê numa técnica como kote-uchi (golpe no pulso) uma maneira eficaz, porque de percurso mais curto, de obter uma vantagem numa competição, ou mesmo durante ji-geiko, não está certamente a ver a imagem completa.

Como “gestor” das aulas do Clube de Kendo de Faro este é um dos problemas que me tem vindo a afligir. Como ensinar aos alunos a essência de uma técnica num ambiente que não recria, de forma nenhuma, os objectivos para os quais essas foram originalmente criadas?
Como demonstrar algo mais do que o factor da eficiência, imediata, do waza, e levar os alunos a perceber o âmago de cada técnica, a eficácia da mesma?

Eficiência, eficácia? Façamos aqui um pequeno parênteses. Há dias, por motivos relacionados com trabalho, dei por mim frente a frente com a definição de Eficiência versus Eficácia. Se procurarem num dicionário o mais provável é que, em última análise, estas duas palavras sejam consideradas sinónimos. No mundo da gestão empresarial, no entanto, não é assim, e elas adquirem uma carga muito especial quando colocadas lado a lado.
Neste contexto, especificamente, eficiência surge-nos como a capacidade de fazer uma coisa da maneira mais correcta.
Eficácia
, por sua vez, é a capacidade de fazer a coisa mais correcta. Confusos? É facil.

Por exemplo: confrontados com uma pequena inundação num corredor de uma escola, dois contínuos reagem de maneiras diferentes.
Um deles corre até uma arrecadação, agarra numa série de panos velhos que lá estão e que não têm qualquer utilidade, e começa a usá-los para vedar as portas das salas de aula, evitando assim que a água passe por debaixo das mesmas e as inunde. Ele foi extremamente eficiente.

O outro contínuo, por sua vez, vai até à casa-de-banho de onde a água corre e fecha a torneira que deu origem ao pequeno dilúvio. Ele foi extremamente eficaz.

Ora voltemos então ao assunto. Uma das coisas que mais me preocupa quando dou as aulas de kendo aqui em Faro, tem a ver com essa mesma distinção que me parece bastante relevante.
É claro que é muito importante saber fazer o tal kote de uma maneira eficiente. Mas como demonstrar a eficácia do mesmo?

A (minha também) primeira reacção foi relacionar a eficiência com o treino e a eficácia com a competição. E pareceu-me bem.

Eficiência é o trabalho dos detalhes, é o percurso ideal que o shinai deve percorrer para que atinja convenientemente o alvo, é a velocidade, é a boa utilização do hasuji... mas também é coisas mais subjectivas como demonstrar zanshin, gerir maai ou criar suki... enfim, é ser capaz de “dominar” toda a componente técnica e estratégica do movimento. Eficiência é fazer uma coisa (ou várias, kote, men, do, tsuki) da maneira mais correcta.

Eficácia, assim e por sua vez, seria a utilização dessa eficiência para um fim mais vasto, mais amplo e mais exigente, como a competição. É ser capaz de entender quais as técnicas que melhor se adaptam a cada adversário e utilizá-las da forma mais adequada. Em resumo, eficácia é a capacidade de fazer a coisa (kote? ou men? ou do? tsuki, talvez?) mais correcta, segundo as necessidades do momento.

E estaria tudo muito bem se estivessemos, por exemplo, a falar de técnicas de... sei lá, futebol? Mas não estamos, estamos a falar de kendo, e o que transforma as afirmações acima numa enorme falácia é o facto de, como todos sabemos, a vertente competitiva no kendo, apesar de ser algo aconselhado por todos, não é, por outro lado, verdadeiramente indispensável. Certo?

Por uma questão de conveniência vamos analisar esta afirmação de duas maneiras possíveis: falsa e verdadeira.

Se a afirmação fôr falsa, o problema que se nos levanta é: quer isso dizer que a eficácia do kendo se encontra na competição? Então, sendo assim, uma vez que a carreira competitiva termina (por motivos de idade, lesão, pre-desposição, etc) já não faz sentido continuar a fazer kendo? E, se assim é, vale a pena tampouco praticar kendo se não se tenciona praticar competição?

Se a afirmação fôr verdadeira, então isso significa que, de facto, há algo mais no kendo e que a sua essência se encontra para lá do simples “ganhar ou perder”, significa que o kendo deve forçosamente “fazer sentido numa dimensão diferente”.

Se calhar, o problema da eficácia encontra-se num outro nível, que eu não sei ainda identificar... talvez impregnado debaixo das inúmeras camadas de esoterismo dos kata?...
Daqui a mais um ano digo-vos mais.?.

E pronto. Fiquei na mesma.

(continua?)

11 comentários:

Miguel Caetano disse...

Boa amigo. fiquei na mesma...mas aprendi umas coisas e...fiquei na mesma. Mas bom texto. Muito bom! :D

Alex disse...

Decerto a melhor introspecção que já fizeste ;) Deixaste-me a pensar... Um grande abraço O China

Anónimo disse...

Sou Karateka mas também vou lendo o seu blog, não me pergunte porquê, li uma vez através do Ekarate e depois fui lendo sempre... ora no meu blog DO-O meu Caminho pus um post com uma frase de Sensei Antonio Oliva “Quando compreenderão que a finalidade primeira e ultima do Desporto é chegar ao cimo de nós mesmos, e não, ficar por cima dos outros”, penso que a eficiência se pode ligar ao chegar ao cimo de nós mesmos e a eficácia a ficar por cima dos outros.

Carlos Rodrigues

Anónimo disse...

Concordo com essa análise, sendo que o passo seguinte ao nos tornar ef. e ef. seria optimizar a eficiência em benificio da eficácia. Dái estarmos em constante evolução ou pesquisa dessa mesma. Sendo que ao meu ver a competição pode ser uma forma de medir o nosso nível mas de nada serve sem "o kendo para o kendo".

Nelson Silva

Usagi-san disse...

Pois isso é tudo muito bonito, e se calhar é tudo verdade, não vos estou a pôr em causa; mas o que eu queria era uma coisa mais simples.
E acabo sempre enredado nesses "misticismos" e máximas filosóficas, que eu até gosto... mas por uma vez gostava de ter uma resposta simples...
Eu sei, eu sei não há respostas simples... eheheh.

Anónimo disse...

Bem vou deixar mais um bitaite...Eficiente é aquele que é muito bom na sua arte a nivel técnico mas que pode ser ou não eficaz, eficaz é aquele que apesar de não ser muito bom na sua arte é eficaz devido a outros factores para lá da técnica como por exemplo ter menos medo de perder e outros de origem psicológica, será ???

Carlos Rodrigues

Usagi-san disse...

Encantado da vida com essa análise, mas o meu problema é COMO se manifesta a eficácia?
Como se ensina/sensibiliza um aluno a ser eficaz (ou a privilegiar a busca da eficácia) e a não ser "apenas" eficiente?

Assim sem pensar muito no assunto, não me custa muito relacionar a eficácia do karate com, por exemplo, a auto-defesa. E até não me parece despropositado de todo, diga-se.
Mas no caso do kendo tal não se aplica.

Anónimo disse...

Como ensinar aquilo a que chamamos a "ratice" ? Pois...não sei se consegue ensinar isso, só com os anos de prática, acho eu...
Já estou a ser chato, eu sei. :)

Carlos Rodrigues

Kenshin disse...

Grande post Joaquim! Isto sim é que é dar a volta á cabeça a uma pessoa! Se soubesses a resposta para isso então é porque era 8 dan hanshi e davas porrada na boa ao Miyazaki, até lá todos temos que ir aprendendo com calma eheh. Um dia que esteja pelos Algarves gostava de poder ir a uma aula tua,abraço!

Kenshin disse...

Esqueci-me de assinar eheh - Mário Lehmann

roberto mitsuro mitsuoka disse...

talvez apareca o nome do meu pai mas meu nome Pedro eu tenho 10anos e treino KENDÔ a mais ou menos 1 ano,eu gostei muito e eu aprendi muito lendo o texto