8.10.06

A AVE RARA 2

Em 1975, a Federação Japonesa de Kendo criou o Conceito Oficial de Kendo e o Objectivo da Prática e “pôs no papel” aquilo que o kendo é, idealmente, suposto ser*:

O CONCEITO DO KENDO
Disciplinar o carácter humano através da aplicação dos princípos da katana.

Acerca deste aparentemente simples parágrafo, por exemplo, muitos são os que ultimamente têm manifestado as suas dúvidas e reticências sobre o que significa exactamente, em pleno século XXI, a expressão “aplicação dos princípos da katana”. Até porque, como dizem os seus críticos, o kendo não é uma arte marcial assim tão antiga como isso e nos últimos cem anos sofreu bastantes modificações, tendo em vista torná-lo mais acessível e socialmente aceite.

E se o Conceito Oficial de Kendo, demasiado vago (quais são:”os princípios da katana”’?), não é de grande ajuda para que os principiantes, eventualmente os mais curiosos, possam saber o que esperar quando se iniciam na prática da modalidade, o Objectivo da Prática, por seu lado peca, na minha modesta opinião, por aparentemente não se tratar de mais do que uma interessante declaração de boas-intenções:

O OBJECTIVO DE PRATICAR KENDO
Moldar a mente e o espírito,
cultivar um espírito vigoroso
e, através de um treino correcto e exigente,
esforçar-se para melhorar na arte do kendo.
Estimar a cortesia humana e a honra,
associar-se com os outros com sinceridade
e buscar sempre o auto-melhoramento.
Isso permitirá que se possa:
Amar o seu país e a sociedade,
contribuir para o desenvolvimento da cultura
e promover a paz e a prosperidade entre os povos.

E é tudo o que há para se dizer quando a pergunta surge de novo, cada vez mais incómoda:
Afinal para que serve ou o que se ganha em treinar kendo?

Quando se começa a treinar kendo tudo é anti-natural.
Cada gesto, por mais pequeno que seja, é um desafio físico e intelectual gigantesco. E a cada tentativa executada, os erros, em vez de serem gradualmente eliminados, parecem antes acumular-se. Situação que, aliás, e diga-se a bem da verdade, se mantém durante toda a vida do praticante.
Ao fim da primeira semana de treinos, 90% dos principiantes já tem bem estampada no rosto uma questão que, por mais que tente, não lhe sai da cabeça e que pode ser elaborada mais ou menos assim: “Mas o que diabo estou eu a fazer aqui?

Por esta altura, qualquer pessoa menos familiarizada com o treino típico do kendo, deve estar a perguntar-se que raio se passa de errado com a metodologia do mesmo.
Bom, não sei responder a essa pergunta. Mas quanto à outra, a primeira, tenho uma ideia ou duas que gostava de partilhar convosco.

E, a meu ver, até é bastante simples.

(Conclui no próximo post: A AVE RARA 3 ou O Kendokam Intermedius)

*Retirado do site da Zen Nippon Kendo Renmei

2 comentários:

Kodomo disse...

aaaaahhhhh!!!! Vou-te bater!!! NAÂAAAOOO!!!

Porque é que aderiste à moda do To be continued quando vais revelar o "segredo". :S

bom trabalho..continua :D

Joao Peixoto disse...

Se há segredo nestas palavras sábias é porque alguém anda distraído ou não sabe porque está no Dojo. A resposta é fácil e clara como água.

Estas reflexões estão impecáveis, espero ansiosamente a parte 3. Caso não tenham reparado o tema é mesmo muito importante.