2.2.06

SÓ FALTOU PÚBLICO

Correndo o risco de ser crucificado pelos meus pares, gostava de elogiar a qualidade dos combates disputados pelos kendokas que se deslocaram no dia 28 à escola secundária Patrício Prazeres.
Na verdade, vou até mais longe e digo que foi, na minha modesta opinião, um dos melhores torneios de kendo a que assisti em Portugal.
Quase todos os combatentes mostraram um espírito valente e decidido. Onde os outros vêem falta de qualidade nos inúmeros empates, eu vejo um equilíbrio que não deixa de ser marcante, uma vez que todos os adversários em contenda sabiam perfeitamente que o que interessava, o que dava os 4 pontos, era a vitória.
De facto, só faltou público, mas... espera... ah, falta sempre.

Bom trabalho, pessoal.

12.1.06

E QUE 2006 SEJA TÃO BOM (NALGUMAS COISAS) COMO 2005

Photo by Manuel "Musashi" Rodrigues

31.12.05

SERENIDADE. PARA 2006, SERENIDADE.

photo by Usagi San

30.12.05

2006

Como é da praxe nesta altura, gostaria de desejar a todos os que por aqui passam, um bom ano novo, cheio de shinais e tudo o mais.

Bom keiko.

7.12.05

CONCLUSÃO (ACERCA DOS MÉTODOS DE ATINGIR O KI)

Para desenvolver a prática qualitativa do budo ultrapassando as barreiras culturais, acredito que devemos ter a abertura de espírito que nos permita compreender que existem outros sistemas de pensamento noutras culturas.
É preciso, ao mesmo tempo, evidentemente, enfrentar as técnicas do budo. Devemos ver nelas um dos elementos essenciais pelos quais o budo se constitui. Estou convencido que a chave do budo está no nosso corpo, o que significa que se encontra para lá das barreiras culturais. Penso que se trata do ki, mas não do ki em geral. Na prática das artes marciais, estamos face ao ki, moldado de uma forma técnica, sem a qual o budo não pode existir.
Apresentei e analisei brevemente dois métodos clássicos que visam desenvolver o ki, seja através da prática do kata, seja directamente pelo exercício energético.
A história do budo, e do kendo em particular, mostram que os dois métodos convergem.
Pôr em evidência o trabalho do ki permite, não apenas concretizar a prática do budo, mas também abrir a possibilidade de uma prática a longo prazo. O budo pode assim contribuir para o bem-estar e melhoramento da vida. Segundo a minha análise, a sensação de ki é o fundamento do budo. Ela pode ser sentida para lá das barreiras culturais, abrindo assim perspectivas acessíveis fora da cultura budista e shintoísta japonesa, mas conservando sempre aquilo que é a especificidade do budo.

6.12.05

O MÉTODO ENERGÉTICO (2ª PARTE)

Chegamos assim ao fim do artigo de Kenji Tokitsu sensei, dedicado ao método energético para atingir o ki. O próximo post será de conclusão sobre os assuntos que foram desenvolvidos até agora.

Durante a segunda metade da sua vida, Shiraï Toru dominava os seus adversários com um estranho poder que emanava da sua espada. Diz a lenda que na ponta do seu bokuto se apercebia um círculo luminoso. Tendo atingido esse nível, emcontrou-se num impasse que apenas conseguiu ultrapassar a poder de longos anos de treino e de meditação ascética. Esse método, o “rentan”, baseia-se principalmente sobre um trabalho energético que corresponde, em grande parte, ao qi cong marcial dos dias de hoje. Segundo Shiraï Toru, o rentan seria o único método concreto para atingir o nível superior da via da espada.
Yamaoka Tesshu atingiu, também ele, um nível extraordinário com a espada; e, para isso, apoiou-se na prática do zen. Era pobre e, por volta dos trinta anos, habitava uma casa em mau estado. Chamavam-lhe “Tetsu vestido com cortinas”, mas também, “Tetsu, o demónio do dojo”. Muitos dos seus amigos contam que, durante a noite, o chão da casa, ressoava com o ruído dos ratos. Mas assim que Tesshu começava o zazen, o seu ki preenchia o espaço e os ratos cessavam de fazer barulho, chegando alguns a cair das vigas por onde corriam. Alguns anos depois, quando Tesshu começava o zazen, os ratos paravam de correr e desciam para brincar à sua volta. Não sei da autenticidade desta anedota.
Em todo o caso, existem inúmeros testemunhos da força do ki de Yamaoka. Takano Sasaburo (1862-1950), um dos maiores mestres do kendo do princípio do séc. XX relata:
“Durante os treinos, o mestre deixava-se atingir pelos golpes dos seus alunos, mas eles nunca tinham a sensação de o ter verdadeiramente atingido. Quando tentava atingi-lo com um golpe mais poderoso, encontrava sempre a ponta do shinai do Mestre na minha garganta... a atitude do Mestre era semelhante à de um balão que nunca se consegue fazer tombar. Ele possuia uma enorme flexibilidade, mas essa flexibilidade escondia uma potência brutal. É assim que, durante os treinos, mesmo atingindo-o bem no meio do men, nunca consegui sentir que o tinha (verdadeiramente) tocado. Toda a gente era empurrada pelo seu ki. Mesmo quando a ponta do seu shinai parava a trinta centímetros diante de mim, tinha sempre a sensação de ter recebido um tsuki. O Mestre não manejava a espada com as mãos, mas com o seu centro de energia. Aconteceu-me um dia receber um muito ligeiro tsuki e no momento não sentir nada. Mas quando voltei para casa apoderou-se de mim a estranha impressão, como se a minha garganta tivesse sido perfurada e o ar circulasse livremente. Essa impressão estranha persistiu durante dois dias.”
Se estes dois grandes mestres transformaram radicalmente a qualidade da sua espada, um através do rentan, o outro do zazen, podemos pensar que essas práticas os ajudaram a reorganizar a maneira de sentir e de agir subentendidas na técnica da espada. Do ponto de vista prático, a pessoa que se exercita dessa forma não pensa forçosamente estar envolvida numa reorganização. Subjectivamente, ela sentirá um melhoramento moral ou, segundo a sua crença, uma iluminação, ou uma purificação, do corpo e do espírito. Mas o mais comum será provavelmente uma forte sensação do ki.
Se o zen influenciou a prática da espada japonesa, não foi apenas como filosofia especulativa, mas fundamentalmente através da prática corporal do zazen. Penso que, pelo menos a princípio, o zen atraiu os guerreiros do período das guerras feudais pelo seu aspecto pragmático.
Como disse antes, uma particularidade do budo consiste no facto de, levado a fundo o seu pragmatismo, este se começar a confundir com moral e filosofia.

Mesmo se a filosofia do budo é intrigante no plano intelectual, discutir esssa filosofia não contribui para uma melhor compreensão do mesmo.
O método rentan, tal como o do zen, visam desenvolver o essencial do budo sem passar por uma aprendizagem de técnicas específica. Mas na arte da espada, que exige um manejamento e trajectos certos, esse método não é aplicável senão depois obter um domínio técnico mínimo. Pois que, mesmo que se tenha adquirido uma mestria energética e uma percepção correcta da acção em combate, os gestos não serão transpostos com eficácia se a espada não seguir as trajectórias correctas. Mesmo com uma grande força, a espada não corta se a lãmina não se encontrar na posição devida. Enquanto que na arte de combate de mãos nuas, trata-se de aplicar um golpe, e não de perfurar com uma lâmina, pode-se golpear eficazmente sem a precisão necessária na espada. (...)

Próximo post: Conclusão

O MÉTODO ENERGÉTICO (1ª PARTE)


Depois do método do kata, eis então segundo método de treino, o método energético. Como sempre, todos estes textos estão disponíveis em www.tokitsu.com mesmo aqui ao lado, na zona dos links.

Este método traça um caminho quase inverso ao primeiro e visa desde o início reforçar o que veicula o princípio da eficácia: o ki. Diria que este método tenta reorganizar o sistema sensorial para que o corpo funcione com uma melhor regulação energética. Se o primeiro se apoia sobre as formas técnicas elaboradas até à perfeição, este apoia-se directamente sobre o sistema sensorial inerente às técnicas gestuais da mais alta eficácia.
Eis porque, segundo este método, a técnica deve aparecer espontaneamente a partir da sensação de ki. Ele não se apoia na aprendizagem específica das técnicas como o método do kata. Se houver uma elaboração técnica, ela virá depois de se ter dominado suficientemente o princípio da eficácia, que o mesmo é dizer, o ki. (...)
N(a arte d)o sabre, mesmo para um método que situa no lado oposto ao método do kata e visa a formação directa no combate pela aquisição de um elemento mental e energético essencial, há um minímo de mestria técnica que é obrigatória para saber utilizar a lãmina.
O método de Hirayama Gyozo (1759-1828) é um bom exemplo disso e a aprendizagem técnica era aí limitada ao mínimo. O seu método consistia numa só técnica. Um exercício a dois, onde se ataca com um shinai longo um adversário munido de protecções e um shinai curto de 40 cm. Este último deve atacar para desferir um golpe no abdómen do primeiro, com o espírito de o trespassar, isso, quaisquer que sejam os golpes que receba enquanto se aproxima.
Hirayama Gyozo escreveu num dos seus livros, Kensetsu (Explicação da espada):
“O objectivo da arte da espada é matar o inimigo. O essencial é fazer passar o vosso espírito “matador” através da barriga do adversário.”
À escola de Hirayama Gyozo chama-se Sinkan-ryu ou Shinnuki-ryu (escola de atravessar pelo espírito ou escola de atravessar pelo essencial, conforme os ideogramas).
Segundo Hirayama Gyozo, se o vosso espírito atravessa o adversário, sois os vencedores e esse é o método mais seguro e eficaz em combate real com espada. Vemos aqui um trabalho energético que visa o reforço do espírito da maneira mais directa. A simplicidade deste treino reside na repetição de um só gesto, no que é comparável ao exercício aparentemente simples de permanecer de pé e imóvel em “ritsu-zen” (zen em pé). No entanto, com a postura imóvel do ritsu-zen, exercemos o espírito no sentido de criar uma disposição mental e física destinada a esmagar o adversário, qualquer que ele seja. No combate com sabre, é preciso utilizá-lo correctamente, daí que o exercício simples de suburi seja a base do método de Hirayama Gyozo. O seu método é, assim, resumido a um gesto simples e ao reforço daquilo que é o fundamental do combate. Caracterizaria-o então como um método que visa reforçar directa e simplesmente o essencial da energia: o ki do combate.
Na tradição da espada japonesa, o método energético é o mais frequentemente aplicado, paralelamente ao método do kata ou a continuação do mesmo. Referirei, como exemplo, dois mestres célebres do séc. XIX, Shiraï Toru (1783-1845?) e Yamaoka Tesshu (1836-1888), na foto acima, que seguiram essa tendência.
Os problemas encontrados por esses dois adeptos são incontornáveis para qualquer reflexão sobre o método (N.Tr.: de treino) nas artes marciais japonesas.

28.11.05

ATINGIR O KI PELO MÉTODO DO KATA (2ª PARTE)


Ora cá estamos com a conclusão acerca do método do kata. Esta tradução foi difícil. Agradeço eventuais sugestões caso alguém, diante do original, que se encontra página de Tokitsu sensei (ver links), encontrar uma tradução mais adequada para alguma passagem.

Nessa situação sente-se uma plenitude. Neste caso, porque mesmo sem ter consciência de tal, fomos guiados por uma sensação especial e agimos entregando-nos a essa sensação. No momento do impacto, sentimos uma sensação de fusão com algo. É o sentimento do ki. O qual está presente na sensação de perfeita execução técnica no decurso do combate. E não só está presente, como é modulado pela técnica.
Ao exercitar kata, banhamo-nos nessa sensação moldada em formato de técnica.
Quando se estuda os kata clássicos, eles comportam os elementos necessários para atingir um estádio de combate superior. Muitos kata foram deformados no decurso da sua transmissão. Mas um kata no momento em que é formado, mostra um estado idealizado de técnicas efectivas de formação para combate. O estado idealizado da técnica corresponde ao mais alto grau de uma técnica, o de fusão da técnica corporal e do espírito. O ki deve circular naturalmente. Podemos dizer que exercê-lo dessa maneira, com e na técnica, equivale a um princípio energético. Se um gesto técnico é perfeito, é porque está em harmonia com o princípio de eficácia que gere o ki dessa técnica. A forma perfeita de uma técnica que não tenha eficácia não faz sentido, tal como não existe um sabre soberbo que não corte. De certa maneira, toda a perfeição técnica é um invólucro para um princípio de eficácia.
Vimos que o termo ki cobre sensações vagas e muito vastas. Nós utilizamo-lo no budo modelando-o de uma forma técnica.
Dizia-se a propósito de um mestre:
“Quaisquer que sejam os seus gestos, constituem uma técnica perfeita.”
Porque, justamente, ele era capaz de seguir o ki de uma maneira não-formal, mas profundamente técnica. Tinha de tal maneira bem integrado as técnicas, que os seus gestos estavam em conformidade com o princípio subjacente das mesmas, no sentido mais lato do termo kata. É o que chamamos ultrapassar a forma apreendendo-a: ultrapassar o kata penetrando profundamente no kata.
O kata mostra um modelo técnico do combate, elaborado de tal forma que nos convida, e nos guia, na escalada até ao cume. O kata apoia-se assim sobre um sistema onde o saber se situa mais acima e os praticantes tentam elevar-se para o atingir. A forma técnica é um meio de ascenção e não um objectivo por si só. O objectivo do kata é de se ultrapassar a si mesmo.
Ao observarmos o que se passa no nosso espírito durante um treino mais duro, em que procuramos adquirir uma melhor técnica, encontramos a imagem do nosso mestre, aquele que no-la mostrou ou ensinou. Os nossos gestos não estão ligados à imagem de perfeição representada pelo mestre quando, por exemplo, nos treinamos a sós?
No processo de treino, esforçamo-nos para fazer (as técnicas) tão bem como os nossos sempai, como o sensei, depois desejamos ultrapassá-los; vencê-lo. Quanto mais pesada é essa imagem mais ela nos persegue. Lutar contra essa imagem, é o processo do treino: a repetição.
Esse encadeamento psicológico é característico da aplicação do método do kata.
Uma melhor compreensão da lógica inerente ao método do kata e da sua ligação ao ki permite-nos avançar na prática do budo. Para isso é indispensável saber observar e tratar os kata sob um ângulo diferente. O kata não é uma simples codificação técnica, não é nem molde, nem cerimónia, nem combate imaginário.
O kata é um método de treino que exige algumas chaves para se poder usufruir plenamente. Desenvolveremos esta ideia mais adiante.

Próximo artigo sobre utilização do ki. O método energético

PRÉMIOS USAGI SAN

Nos torneios de Sumo, para além do “Prémio Fighting Spirit”, existem ainda mais dois tipos de prémios. Um “Prémio Técnico”, chamemos-lhe assim, e um “Prémio de Desempenho Extraordinário”.
Roubando a ideia aos gordos do Sumo, e referente ao campeonato de sábado passado, passo a apresentar a lista de Prémios Usagi San:

Prémio Fighting Spirit: António Gabriel (tá tudo dito)
Prémio Fighting Spirit: Roberto Ferreira (mais sorte para a próxima)
Prémio de Desempenho Extraordinário: Rui Araújo (kiai, meu, kiai)
Prémio Técnico: Henrique Martins (muito bom)
Prémio Técnico: Joni Duarte (é um verdadeiro japonês falsificado)

Para além destes, criei agora mesmo um novo prémio, que acho que vai ter muita saída nos próximos campeonatos e torneios, que é o Prémio Porra Que Já Tava Farto De Ir A Campeonatos E Ser Eliminado Nas Pools Ou Na Primeira Eliminatória Directa e que é atribuído a: João Lourenço

Estes prémios referem-se, como devem ter reparado, apenas ao sector masculino. Ao contrário do torneio anterior em que fui árbitro, neste não tomei atenção ao sector feminino. Vi a final e pouco mais, de modo que, para não ferir susceptibilidades, não vou “dar prémios” ao que não vi.
E pronto, por agora é tudo. Até ao próximo torneio, a 28 de Janeiro.

27.11.05

"MEDALHA"



Eu nem imagino em que estado este rapaz deve ter o gargalo, ainda hoje. Esta é uma das fotos mais famosas de tsuki que circula na net. Via-a pela primeira vez na contra-capa do número 2 da revista Kendo-World já lá vão uns três anitos ou coisa que o valha. Só de olhar, ainda hoje, me dói.
Isto tudo a propósito do tsuki que o Sérgio me “espetou” ontem no mune-do. É que apesar de me ter acertado numa zona aparentemente bem protegida, tenho cá um “medalhão” negro no meio do peito...
Nota: Se alguém encontrar um site a pedir dinheiro para comprar uma traqueia artificial para o rapaz da foto, digam-me, tá bem?

OBRIGADO

Para muitos autores de blogs 5000 hits, como se costuma dizer, é bricolage.
Mas no dia 27 de Novembro de 2005 às 02 horas 37 minutos e 38 segundos da manhã alguém, utilizando um computador equipado com um sistema Windows ME e através do browser Firefox 1.7, visitou este modesto kendo blog e marcou o hit 5000.
A esse viajante ciberespacial os meus cumprimentos.
Espero que tenha gostado (e que volte).
A todos os outros, obrigado pelos 5000 hits. Tou muito feliz.

25.11.05

KENDO NO FEMININO

Há já algum tempo, dois ou três anos, que "tropeço" regularmente com o blog da Mingshi Wan, também conhecida como Jenny. Não deixa de ser curioso pensar que já me cruzei duas vezes com ela e não nos conhecemos. Uma em Glasgow: chegámos à conclusão que fIzemos exame para shodan no mesmo dia e outra, quando estava em Londres a gravar o meu "documentário" sobre kendo, no Wakaba Kendo Club.
Actualmente a Jenny voltou para Hong Kong, onde está a treinar seriamente para fazer parte da equipa daquela ex-colónia inglesa para os 13ºs Campeonatos do Mundo.
Designer gráfica de profissão, alimenta o seu blog regularmente, qual tamagoshi, e ainda possui uma secção de fotos muito interessante.
Um blog de kendo no feminino, interessante (tanto quanto um blog consegue ser) para homens e mulheres kendokas em http://mingshiwan.blogspot.com.

ATINGIR O KI PELO MÉTODO DO KATA (1ª PARTE)



A continuação deste artigo da autoria de Kenji Tokitsu sensei sobre ki, encontra-se no site do dito, mesmo aqui ao lado na minha, relativamente nova, secção de links. Quem conseguir encarar um texto em francês pode ir lá ver como é que acaba.

O primeiro método tem como base a formação técnica e a sua aplicação através da repetição. É a mais frequentemente aplicada.
Por exemplo, para aprender kendo, começa-se a partir do manejamento correcto do shinai; para aprender karaté, começa-se por aprender a forma precisa dos socos e pontapés. Não se trata de bater de qualquer maneira. Em combate, não se consegue obter um ippon se não se bater correctamente. Treina-se com o objectivo de fazer combates superiores com uma técnica magnífica.
Se, hoje em dia, analizarmos as técnicas de kendo tal como foram preconizadas, podemos obter um certo número de modelos técnicos a aprofundar. Esses modelos representam uma espécie de ideal técnico imprescindível de assimilar. Podemos dizer que os kendokas praticam jigeiko tendo esses modelos como critério, acerca do que é uma boa ou má maneira de combater. E o mesmo acontece com os karatekas. Se bem que no kendo esses modelos não sejam classificados como kata. (N.Tr.: suponho que o autor se esteja a referir aqui a exercícios como oji-waza, hiki-waza, etc) Eles são muito diferentes dos Nihon Kendo Kata.
Tal e qual como no karaté, podemos exercitar as técnicas directamnente utilizáveis: os encadeamentos técnicos, deslocações, etc. Podemos mesmo codificar um conjunto de gestos úteis e necessários para os tipos de combate que fazemos diariamente. Podemos, quase, formar kata com esses gestos, mas obteremos kata diferentes dos kata “tradicionais”. E podemos fazer o mesmo com o judo.
Em todo o caso, não nos exercitamos para combate de qualquer maneira. Seguimos um modelo que se aproxime de uma certa perfeição. Ao fazer mil suburi, trata-se de repetir mil vezes uma procura de um ataque perfeito.
Dessa maneira, quando se exercita repetindo uma técnica com um modelo idealizado, trata-se do método do kata, no sentido mais lato da palavra. A única razão porque não dizemos que é o método de kata é porque atribuimos a génese dos kata à tradição. Mas quando analizamos o dinâmismo inerente à génese dos kata, conclui-se que, antes de um kata “nascer”, cada um foi praticado da mesma maneira que agora praticamos as técnicas úteis, necessárias, indispensáveis, até, para formação das nossas capacidades técnicas de combate.
Não se trata apenas de um cerimonial gestual do qual sentimos necessidade de justificar o desfasamento em relação à prática do combate efectivo.
Assim, sem que o nomeemos, é o método de kata, no sentido mais amplo da palavra, que aplicamos no kendo ou no karaté.
Não basta fazer um movimento perfeito a sós, é necessário fazê-lo em situação de combate, face a um adversário. O jigeiko é um processo de assimilação dos requisitos necessários para realizar um combate mais perfeito. Não se fazem bons combates por sorte.
Quando se é capaz de fazer combates satisfatórios, é porque já se consegue sentir uma espécie de plenitude ao marcar um ippon. Nessa situação, criámos, anteriormente ao golpe, um instante de vulnerabilidade no adversário, pois fomos capazes de perturbar a sua guarda e o seu espírito. O nosso ataque apoiou-se no vazio do oponente, enquanto nos sentiamos repletos de energia, produto de uma boa postura do corpo que transporta o sabre numa trajectória perfeita. (...)

Próximo artigo: Atingir o ki pelo método do kata (2ª, e última, parte)

23.11.05

OS MÉTODOS CLÁSSICOS DE DESENVOLVIMENTO DO KI

Claro que nem é preciso dizer que o combate não é uma abstração. Ele visa a eficácia. O aprofundamento do combate com o ki permite, por um lado, aumentar essa mesma eficácia, e por outro, praticar durante mais tempo, digamos até, uma vida inteira. No kendo não é raro encontrar mestres que praticaram até mesmo à véspera da sua morte, demonstrando, até ao último dia, grandes capacidades. Nas artes marciais de mãos nuas, no karaté, por exemplo, é muito raro encontrar um mestre que pratique o combate depois dos 60 anos. No entanto, numa disciplina como o taïki-ken, onde o exercício do ki é fulcral, o falecido K. Sawai praticou o combate efectivo de mãos nuas, com todas as suas capacidades, até próximo dos 80 anos.
Penso que o trabalho apoiado no ki está presente, explícita ou implicitamente, naquelas disciplinas do budo em que os adeptos podem percorrer um longo caminho, melhorando sempre as suas capacidades. No kendo, o trabalho sobre o ki torna-se efectivo a partir de um certo nível e no taiki-ken desde o começo. Em certas escolas de jujutsu e de kenjutsu, não se insiste sobre o trabalho do ki, mas ele está presente implicitamente.

Na tradição do budo, podemos distinguir dois métodos de desenvolvimento do ki, distintos na sua aparência mas, no fundo, complementares.

Próximo artigo: Atingir o ki através do kata

ACERCA DE “UMA CHAVE PARA O BUDO”

Este é, sem dúvida nenhuma, um dos textos mais esclarecedores que li em toda a minha vida sobre o tema do budo. Sobretudo, esta 3ª e última parte.
Sou o orgulhoso dono de um exemplar de Ki and the way to the martial arts e conheço os escritos de Tokitsu sensei desde os tempos, nos fim dos anos setenta, em que escrevia para a revista francesa Karaté (hoje, Karaté-Bushido).
Por mais que tente não me surpreender, acabo sempre... hum... pois, surpreendido com a racionalidade e a facilidade com que explora e explica os temas mais obscuros, chamemos-lhes assim, das artes marciais, sem nunca cair no esoterismo fácil e no bullshit (seja o bullshit new-age ou o bullshit do costume).
Óóói, estão a ouvir o que eu estou a escrever? LEIAM OS TRÊS ÚLTIMOS ARTIGOS.
Vale a pena.

Trust me.

22.11.05

UMA CHAVE PARA O BUDO (3ª PARTE)

Vimos como, de certa maneira, a visão do praticante se desloca progressivamente de uma preocupação técnica gestual simples para um estado de espírito. Não se deixar perturbar perante o seme e distinguir o verdadeiro do falso nos actos do outro, tudo isso contribui para a aquisição de uma perspicácia apoiada pela força de espírito. Mas seria falso dizer que há uma etapa onde apenas o espírito domina, pois sem técnica corporal não existe combate.
A estrutura do budo é dupla: é preciso estar pronto a todo o momento para desencadear a violência, mas, ao mesmo tempo, manter um estado de lucidez no qual o espírito possa captar amplamente tudo o que se passa ao seu redor. Quando num estado de tranquilidade, a lucidez permite transformar a agressividade em potencial. Um poema famoso de Miyamoto Musashi comunica essa disposição:


“Na torrente invernosa rápida,
a água transparente e calma à superfície,
reflecte a lua como um espelho.”


Mergulhar a mão na água gelada e rápida evoca o frio cortante da lâmina do sabre. A rapidez é o dinamismo do combate. Ao mesmo tempo, a superfície da água dá uma ideia de pureza e calma. Se a superfície se agita, a Lua será deformada. Este poema, frequentemente citado para descrever o estado de espírito do sabre, mostra bem a dupla componente da violência e da calma.
Num nível de combate mais primário, aquele que age com agressividade e violência tem mais chances de obter uma vitória. Mas o nível que devemos procurar no budo corresponde a uma melhor mestria da técnica e do ser. Aí, o estado de espírito reflecte-se da maneira mais refinada. Neste caso, assim que se pensa em atacar com o intuito de fazer mal ao adversário, algo sussurra no mais profundo da consciência que isso é errado. Esse sussurro, por mínimo que seja, é suficientemente importante para travar a espontaneidade do acto. Penso que é nesse sentido que se diz:

“Se o espírito é justo, o sabre é justo; se o espírito não é justo, o sabre não é justo.”

Esse ensinamento é por vezes concebido como moral, mas o seu fundamento é técnico. A arte do combate é uma arte pragmática. Diria que a moral emerge aqui de um pragmatismo levado ao limite. É a particularidade do budo. Não se trata duma associação de valores morais à prática das armas.
Se buscamos agir espontânea e justamente, é preciso libertar o espírito dos entraves da consciência; daí provém o ensinamento do “espírito vazio”.
A este nível, a procura da eficácia desenboca numa espécie de paradoxo porque, se queremos vencer o adversário (o que significa matá-lo no sentido técnico) da maneira mais segura, é preciso não desejar vencer (matar), é preciso ter desapego pela vitória, se a desejamos obter. O que se aproxima da máxima: “É preciso preparar-se para morrer, se queremos sobreviver.”
Desse modo, o acto do combate conduz-nos a uma introspecção e a uma dúvida que nos empurra para a reorganização da nossa pessoa, tendo em vista ser mais perspicaz, capaz de não se deixar perturbar, agir espontaneamente e, precisamente, desencadear as capacidades ao máximo. O processo dessa reorganização é o treino que inclui uma tensão no sentido do auto-aperfeiçoamento. É aí que nasce a prática do budo.

Ao observar assim a evolução da consciência do praticante, podemos perceber que é a partir do momento em que toma consciência da importância do (de uma coisa) que é normalmente invisível, que a sua formação subjectiva começa. Essa coisa, que é a chave do budo, é o ki. Dito de outra forma, enquanto uma pessoa não entender essa sensação de ki na prática das artes marciais e não conseguir construir a sua prática pondo em causa o seu ser, ela não conseguirá seguir o caminho da auto-formação, (como que) por falta de luz num trilho escuro.

É também neste sentido que eu penso que o ki é a chave do budo.

20.11.05

UMA CHAVE PARA O BUDO (2ª PARTE)

Ao assistir a um combate de kendo, os praticantes de outras artes marciais deveriam concentrar a sua atenção na maneira como os combatentes cruzam os seus shinais. Veriam que, quando as pontas se cruzam, fazem-no em movimentos subtis, tanto calma, como ligeira e rapidamente. É um combate de pontas, um combate implícito onde os praticantes se batem para ocupar a linha central do adversário, a sua linha vital; para impor a iniciativa de combate, para criar uma ocasião onde o ataque possa acontecer sem erro. O combate mais importante desenrola-se assim, durante essa troca, aparentemente pouco dinâmica.
Eis o significado do célebre ensinamento: “Não ganhes depois de atacar, ataca depois de ganhar”.
“Depois de ganhar”, é precisamente depois de ter ganho o combate de pontas e de seme.
No momento em que os dois adversários se enfrentam, começa a interferência do ki. Os gestos do seme são um meio de projectar o ki sobre o adversário. Se o acto do seme influi sobra a atitude do oponente é porque esse acto toca e faz mexer a percepção directora do adversário. Diria que é uma interferência de ki. Eis porque podemos dizer que, mesmo numa fase onde se efectua o seme sem ter consciência do ki, o essencial do seme consiste de ki.
Penso que esse nível de combate é desconhecido para muitas das disciplinas de combate (judo, karaté, boxe...) nas quais a consciência dos praticantes é limitada aos elementos mais directamente perceptíveis: a velocidade, a força ou a agressividade. É uma percepção muito difícil de estabilizar num combate de percursão como, por exemplo,no karaté. (...)
É portanto no kendo que podemos constatar, de maneira mais concreta, o papel daquilo a que chamamos ki. Nesse sentido, o kendo é uma disciplina privilegiada.

No entanto, não se trata de fazer um elogio incondicional do kendo. Pois antigamente, o kendo incorporava técnicas corporais bem mais ricas e com um âmbito muito mais alargado. Relacionando-o com a sua tradição, o modelo de kendo actual parece-me um pouco incompleto, sobretudo no que diz respeito à formação geral do corpo e às suas regras de combate. Parece-me que são pontos que os praticantes contemporâneos não podem senão ser sensíveis, se desejarem aprofundar o valor do kendo “enquanto budo”.
Em todo o caso, podemos dizer que é no momento em que o praticante começa a sentir vivamente o papel do ki, que a sua prática tende a constituir-se como uma via (do) e que aparece a verdadeira consciência do budo.
Porquê?
Sentir vivamente o papel do ki implica que um adepto pratica o combate buscando “atacar depois de ganhar”. Não se trata de procurar a vitória tentando golpear a todo o custo, mas de acertar um golpe certo, sem erros. Trata-se assim de construir um combate onde a justeza da sensação seja confirmada através de um ataque seguro. Quando atinge esse nível, o adepto confere uma grande importância às fundações do combate, que o mesmo é dizer, ao combate de ki, aquele que se desenrola antes da troca efectiva de golpes.
Se, pelo seme ou pela ofensiva de ki do adversário, nos sentimos atacados e esboçamos um movimento de defesa no vazio, isso significa agir explicitamente contra algo implícito. Nesse caso cometemos um erro no descernimento da realidade. Se nos damos conta instantaneamente, sentimos em nós mesmos uma dissociação, pois o nosso espírito não foi capaz de reter o nosso corpo no seu gesto erróneo. O esboçar do gesto inútil significa que, apesar de tudo, o adversário conseguiu atingir algo. Perdemos assim, nesse instante preciso, a possibilidade de ganhar a iniciativa e fomos derrotados antes de receber o golpe. (N.Tr.: As vezes que isto me aconteceu, ao fazer ji-geiko com Osaka sensei, davam para escrever um blog inteiro. Mas seria tããão repetitivo.)
Quando a percepção está aberta dessa maneira à interferência do ki, perder assim é tão importante como receber um golpe de verdade. E o problema passa a ser: como descernir o verdadeiro do falso, como não ser afectado pela ofensiva do adversário, seja pelo gesto ou pelo ki?
Quando se busca a ocasião para atacar o adversário, usa-se o seme para ganhar o combate das pontas, afim que o adversário desvie a extremidade do sabre da sua linha central, a sua linha vital. O adversário que cede semelhante abertura, apesar da sua vontade, torna-se vulnerável. Nesse instante, se lhe desferirmos o golpe, será uma vitória incontestável. Não sentiremos essa satisfação, se o atingirmos por sorte e ele permanecer imperturbável, apesar de atingido. Diremos então: acertei, mas o golpe não conseguiu perturbar o seu espírito.
Agora, o problema passa a ser: como atingir o espírito do outro, utilizando o ki?

Próximo capítulo: Uma chave para o budo (3ª e última parte)

19.11.05

UMA CHAVE PARA O BUDO (1ª parte)

Texto da autoria de Kenji Tokitsu sensei (ver site ao lado).

A reflexão sobre a via (do) aparece espontaneamente, à medida que o tempo progride, quando a tensão no sentido da formação do indivíduo se associa à prática da arte marcial. Dito doutro modo, enquanto essa tensão não surge, a prática não contém essa reflexão sobre a via e, consequentemente, não constitui budo. No sentido mais rigoroso do termo, o budo não designa disciplinas particulares, mas sim a qualidade e o conteúdo prático de uma disciplina. Logo, não é porque se pratica seriamente kendo, karaté, jo-do, kyudo...que se pratica budo. É apenas quando a prática contém espontaneamente essa tensão no sentido do auto-formação da pessoa na sua totalidade, a tensão do do, que a prática de transforma em budo.
O budo não é, assim, um género entre as disciplinas de combate, mas a maneira como nos envolvemos numa disciplina da combate em busca da eficácia.
A tensão no sentido da formação do Eu, da maneira como expliquei mais acima, não surge de uma forma abstracta, mas antes apoiada numa sensação corporal concreta. Trata-se de uma sensação corporal que todos os seres humanos podem conceber, qualquer que seja a sua origem cultural. Dito doutra forma, essa sensação é a chave que permite praticar o budo de uma forma completa, ultrapassando os obstáculos culturais.
Que sensação corporal é essa? Em japonês, ela é designada através da noção de “ki”.
Penso que a sensação corporal de ki está frequentemente presente na experiência humana. Mas a forma de interpretação dessa sensação varia consoante a cultura. Por exemplo, o carácter lógico está muito mais desenvolvido nas línguas ocidentais do que na língua japonesa. Mas não há nas línguas ocidentais, e isso é uma dificuldade importante, uma palavra equivalente a ki. Esse termo cobre, em japonês, toda uma série de sensações e de impressões misteriosas, vagas, intangíveis, que tocam qualquer coisa de fundamental no nosso ser e onde que ressaltam uma perspicácia provavelmente arcaica e recôndita. Esse conjunto de impressões dificilmente definíveis por uma palavra está presente na experiência quotidiana, na literatura e nas artes japonesas. Quando se lhe quer dar um nome, chama-se-lhe ki.
A exclusão desse tipo de sensações e de impressões da superfície dos vocábulos, parece-me paralelo ao desenvolvimento do carácter lógico das línguas ocidentais. O pensamento racional desenvolveu-se provavelmente a refutar essa sensibilidade.
É por isso que na prática (das artes marciais), a sensação de ki deve ser captada como ki, sem passar pelo sistema de tradução de palavras equivalentes. Parece-me que para possuir a chave do budo e ultrapassar os obstáculos culturais, é necessário cultivar uma perspicácia em relação à sensação de ki e de se deixar guiar em extensão e em profundidade por essa sensação, através das técnicas corporais de combate.
No kendo, o praticante aprende desde o início o que é o ki de uma maneira simples, através da expressão “ki-ken-tai”. Ao longo dos anos aprende a importância de “seme” no combate. Não se pode descrever de uma maneira simples o que é o seme. Mas é evidente que o nível do praticante se reflecte directamente na qualidade do seu seme.
Geralmente, o seme implica atitudes ou gestos que comunicam a combatividade ao adversário. Mas o seme é bem mais do que as fintas que se utilizam no combate de karaté (N.Tr.: ou de kendo). Quando se faz fintas, mas esses gestos não conseguem criar uma reacção no adversário, então elas não são seme. Pelo contrário, trata-se de seme, quando um gesto, por mínimo que seja, consegue perturbar o espírito do adversário e, num nível mais elevado, quando se consegue “atingir o espirito” do oponente sem efectuar qualquer gesto explícito. Quando se consegue perturbar o espírito do adversário utilizando apenas o ki, sem qualquer gesto aparente, a isso chama-se “kiseme”
É por isso que não se pode definir o seme através da mera descrição de movimentos. O gesto do seme é aquele que transmite qualquer coisa de essencial. Se essa “coisa essencial” não é comunicada, então nenhum dos gestos constituiu seme. Dito doutro modo, se essa coisa é comunicada (mesmo) sem gesto aparente essa trasmissão constitui seme.

Essa coisa essencial, (claro) é o ki.

Próximo capítulo : Uma chave para o budo (2ª parte)

18.11.05

ACERCA DE TSUKI, MUKAE-ZUKI E KÔBÔ-ICHI


Facto nº 1 – Tsuki é uma técnica válida, tão válida como men ou kote;
Facto nº 2 – Tsuki é muito mais difícil de executar do que men ou kote;
Facto nº 3 – Mukae-zuki não é uma técnica válida.
Facto nº 4 – Mukae-zuki é uma maneira clara de declarar incapacidade de fazer frente ao seme do adversário.
Facto nº 5 (e último) – Mukae-zuki não é o mesmo que tsuki.

Costumo dizer logo nos primeiros treinos, às pessoas que começam a fazer kendo, que “os segredos” do kendo são dois: a) - a mão esquerda é que faz força e b) – seja qual for o ataque que se faça, essa mesma mão acaba sempre ao centro.
Não é exagero dizer que um combate de kendo começa com uma batalha pelo domínio da linha central e acaba quando um dos participantes cede esse domínio ao adversário. É tão simples quanto isso.
Ora, na busca de obtenção desse domínio, muitas técnicas foram criadas.: harai, kaeshi, suriage, enfim, técnicas “positivas” de controle do centro do combate. Uma das que não entra nessa denominação consiste em, durante um ataque do adversário, aproveitar o facto de o kensen se encontrar ao centro e intencionalmente esticar os braços atingindo o tsuki-dare do oponente.
É corrente pensar (erradamente) que, mesmo que o shinai do adversário se espraie generosamente sobre a nossa cabeça, ele não levou a melhor.
Esse gesto, normalmente designado mukae-zuki é, na maior parte das vezes, uma confissão acerca da incapacidade de defender a linha central.
Kôbô-ichi é um conceito que define ataque e defesa como fazendo parte de um todo inseparável. Kôbô-ichi é estar sempre mental e fisicamente preparado para um eventual contra-ataque do adversário e/ou para contra-atacar durante o ataque dele.
Mukae-zuki não faz parte desse quadro de acção. Ataque e defesa estão claramente separados.
Mukae-zuki não se enquadra no kendo ideal, ao contrário de tsuki-waza que exige, tal como men ou kote ou dô, um controle central antes da sua execução, aplicação de pressão sobre o kamae adversário e, finalmente, face a uma abertura, um ataque concreto, positivo e inegável.
Parece extremamente simples, mas tsuki é uma técnica que requer do kendoka mais competência, chamemos-lhe assim, que qualquer outra. As ancas e as pernas têm de estar numa posição sólida durante o impacto mas, ao mesmo tempo, prontas para voltar para trás para kamae (zanshin). Tsuki não se faz “a passar”. É preciso ir e voltar.
Afinal de contas, será por acaso que sanbonme é sempre a kata mais difícil de executar?

O ÚLTIMO DA TEMPORADA (SALVO SEJA)


É já no próximo dia 26 de Novembro que os 24 kendokas masculinos classificados no ranking oficial da APK, participarão no Campeonato Nacional de Kendo 2005, que terá lugar na cidade de Coimbra.
O shinai-check realizar-se-á entre as 12:30h e as 13:30h no Pavilhão Multidesportos de Coimbra, no mesmo local onde, às 14h, se dará início ao último evento da temporada. Último, claro, se não contarmos com o "play-off" de apuramento para os dois últimos lugares na selecção nacional, que terá lugar em data a anunciar.
No sector feminino, as coisas são mais pacíficas e as kendokas nacionais podem inscrever-se directamente, sem recurso a ranking, devido ao seu menor número.
Esperemos que, tanto os rapazes como as meninas, sejam um pouquinho melhores do que no anterior. É sempre o melhor que se pode esperar.