16.11.05

A TRANSMISSÃO DO BUDO PELOS JAPONESES

Comecemos pelas dificuldades e problemas que os mestres japoneses encontram quando procuram transmitir o budo a estrangeiros que desejam construir a sua própria prática de budo.
Quais são os problemas explícitos e implícitos que se lhes deparam?
Para os mestres japoneses, uma das dificuldades mais importantes é a comunicação das técnicas corporais do budo, ligadas aos aspectos espirituais. É que, para serem verdadeiramente compreendidos, eles serão obrigados a relativizar um pouco a sua concepção de vida, o que os conduz de certa maneira, a pôr em causa a sua própria concepção do mundo. O que não é uma coisa fácil.


Para evoluir na prática do budo, cada um deles sabe que é preciso concentração, vontade, convicção e mesmo um espírito inquebrável, afim de poder perseverar durante anos e anos de treino. Na maior parte dos casos, é da sensação de busca de perfeição que os mestres extraem a energia necessária para alimentar a prática do budo. Ora essa sensação, mesmo quando não se manifesta de forma consciente, tem origem numa tentativa que visa aproximar-se do estado de perfeição representada pelo sincretismo da imagem do Buda e da representada pelos deuses shintoístas, valores sempre presentes em profundidade na sociedade japonesa. Ela comporta uma intuição que funde o mundo humano e o universo cósmico. Por isso, os japoneses têm tendência para a considerar como um valor universal e a pressupor que ela está presente naqueles a quem se dirigem, mesmo que eles pertençam a uma cultura diferente. Eis o problema.
Essa tendência para um universalismo pode exprimir-se pela generosidade quando numa posição confortável, mas é preciso notar que ela foi uma das justificações da ideologia de domínio do mundo durante a II Guerra Mundial. Não é por acaso que, durante as guerras, o budo foi facilmente confundido com um nacionalismo que excluia qualquer valor da vida, que não a do Japão Imperial.

A constãncia e a tensão do esforço exigidas pelo budo tendem a reforçar a visão da universalidade do valor da vida que o do traz; até porque ter várias visões pode conduzir ao “mayoï” (perda da direcção a seguir). O budo cria força para se seguir directamente para o objectivo, mesmo que, por vezes, em detrimento do pensamento crítico.
Entretanto, a possibilidade de praticar o budo tendo como objectivo a formação do homem, com uma difusão das suas disciplinas à escala planetária, é um tema em discussão actualmente no Japão. No meu ponto de vista, isso não faz sentido senão encontrarmos uma outra maneira de captar a essência do budo, descarregando-o da cosmogonia japonesa. É essa dimensão do budo que eu persisto em tentar definir. Apenas ela permitirá comunicar na cultura ocidental o que constitui o essencial do budo. Indo mais longe, penso que não há um único budo, mas múltiplas possibilidades na prática e na apreciação do budo.
Nesta situação, ouso dizer que a maior parte dos mestres japoneses, sobretudo os mais idosos, estão pouco conscientes da pluralidade de visões da via com que o budo é confrontado nos dias de hoje. Isso deve-se principalmente à sua educação, mas também à barreira da língua e da falta de experiência em comunicar com estrangeiros.

É preciso reconhecer que poucos mestres estão dispostos a compreender outros sistemas de pensamento, que não o japonês, sobretudo no que respeita à prática do budo. Para a maior parte dos mestres mais velhos, o budo é único e, por consequência, a comunicação do budo não pode ser senão unilateral: do mestre para os alunos e de japoneses para estrangeiros. Para eles é impensável que o conceito de budo possa ser reexaminado e modificado ou mais definido, devido ao contacto cultural com estrangeiros. No entanto, hoje em dia, parece-me que é tempo precisamente de reexaminar e definir esse conceito, pois a prática do budo é hoje uma prática planetária e essa situação precisa de ser resolvida.
Os mestres japoneses são frequentemente muito generosos em relação aos estrangeiros, na medida em que o seu ponto de vista não é posto em causa. Penso que isso provém principalmente da ilusão de compreensão que advém da insuficiência de comunicação linguística. Quando essa se dissipa e o mal-entendido se revela, eles podem parecer egocêntricos, incompreensíveis e herméticos aos olhos dos seus alunos ocidentais. Penso que alguns adeptos já passaram por esse tipo de experiência.

Ouso indicar agora esses aspectos positivos e negativos, pois que eles parecem-me reflectir os problemas fundamentais que devemos ultrapassar para o bem do budo do futuro.
Se os mestres japoneses não forem capazes de guiar ou de comunicar correctamente o budo para o exterior, então, fora do Japão, ele arrisca-se a transformar-se em algo irreconhecível perdendo a sua qualidade específica.
Sobretudo no kendo, a responsabilidade dos mestres japoneses é muito maior, visto que, no Japão os mestres de alto nível são incomparavelmente mais numerosos do que noutros países. A sua responsabilidade é múltipla e pesada, pois que, na minha opinião, é a única disciplina do budo actual onde, graças à prática do combate, está preservada a ideia de budo no seu sentido mais amplo.
As outras disciplinas do budo, enquanto umas se confundem com desportos de combate, outras limitam-se à prática quase exclusiva de kata, dando uma ideia, se bem que destorcida, de meras práticas de folclore. É preciso reconhecer também que hoje o valor do kendo está ameaçado, a tal ponto, que torna frágeis os seus próprios fundamentos.
Nessa situação, a responsabilidade dos mestres e dos adeptos japoneses consiste, em primeiro lugar, em preservar e desenvolver o seu património cultural, o kendo e o budo; em segundo lugar, a comunicá-lo e transmiti-lo aos outros. Para isso, é preciso ter uma visão alargada do mundo do budo, afim de analisar e compreender a situação actual do Japão e dos outros países, e assim elaborar uma teoria e um método de comunicação que possa responder-lhe plenamente.

Por esses motivos, penso que a evolução, e o progresso, dos mestres e pesquisadores japoneses se impõe e que ela é decisiva para o futuro do budo.

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